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quarta-feira, 3 de março de 2021

Capitalismo de mercado e capitalismo de Estado

 No capitalismo comum, das economias ditas de mercado, as oligarquias estatais constituem um funcionalismo ao serviço do engrandecimento do capital privado, que decide sobre a redistribuição; No capitalismo de Estado esse funcionalismo assume o poder, apropria-se do rendimento gerado e decide e subalterniza o capital privado.

 Sumário

1 - Estado, elemento essencial para o sucesso do capitalismo

2 - Onde nos conduziu um mundo de estados-nação

3 – O papel do Estado, na prática do socialismo

 xxxxxxxxxx ooooo xxxxxxxxxx

1 - Estado, elemento essencial para o sucesso do capitalismo[1]

Se o Estado é um imprescindível elemento para a gestão e a acumulação do capital, com a concomitante domesticação do trabalho, será estranho que numa URSS e noutros países onde foi aplicado o modelo dito socialista o Estado tivesse assumido aquele papel? A existência de um (aparelho) de Estado é um parâmetro técnico-administrativo ou, um elemento político, de segmentação e hierarquização de uma população, entre governantes e governados?

Por Estado entende-se o aparelho gerado e destinado à afirmação do capitalismo como modo de produção, a partir do século XVII, com a reforma protestante, num processo cuja maturidade foi atingida com a Revolução Francesa; e a que se seguiu um fugaz ensaio de organização social baseado na auto-organização, a Comuna de Paris.

O Estado afirmou-se como um aparelho essencial para delimitar um território (estado-nação) para exclusivo uso dos seus capitalistas, dos seus produtores de têxteis para exportação, dos seus armadores de navios comerciais, dos seus piratas/corsários, dos seus banqueiros, das suas colónias e, para a própria defesa face à concorrência. Essas funções agregaram-se sob uma ideologia – o nacionalismo – então simbolizado por um rei e, ainda, no norte da Europa, onde o capitalismo se mostrou mais desenvolvido, por uma igreja nacional cujo símbolo máximo era, também o rei (uma prática que vem sendo abandonada em tempos recentes). A forte concorrência externa, a conquista ou a rapina dos recursos do resto do planeta exigia uma escala que se iria materializar como a propiciada pelo aparelho de Estado, que constituía o topo e o elemento agregador do estado-nação.

Na lógica do feudalismo o conceito de Estado não se aplica; a autoridade e a arbitrariedade vinha do senhor feudal reinante; o menos mal para o povo seria que as suas casas e campos não fossem assolados pela guerra e pela pilhagem, que os jovens não fossem capturados para servir na guerra ou, que as raparigas não sofressem o estupro praticado pelas soldadescas de passagem.

O estado-nação e o Estado são instrumentos criados pelo capitalismo[2], com base em grupos locais de capitalistas, organizados para a exploração exclusiva de um território; ou melhor, para a exploração do produto do trabalho dos desapossados de meios de produção. A posse e a exploração desse território e da sua população exigia a vigilância das fronteiras por guardas armados, tanto para evitar intrusões vindas de fora, como a fuga de mão-de-obra para o exterior; e o Estado, com o seu aparelho de exação fiscal encarregava-se de arcar com essas despesas. Por outro lado, a forte concorrência na rapina colonial obrigava a uma enorme mobilização de meios financeiros e humanos no seio de cada estado-nação, em frequente estado de guerra com os concorrentes: ou, na subjugação dos povos coloniais e dos escravos transplantados de África.

O fomento do patriotismo em cada estado-nação pretendia gerar o dever de defesa dos bens dos ricos e do seu Estado, por parte da maioria dos seus habitantes que nada tinha de seu para defender: esse dever incluía mesmo o supremo sacrifício da vida, na defesa dos bens dos capitalistas. A ideia da pátria é uma imensa mentira que faz com que os desapossados de bens defendam o património dos seus conterrâneos ricos.


 O surgimento de empresas transnacionais e do capital financeiro globalizado, em crescimento e com um poder também ampliado, torna as fronteiras irrelevantes[3] - menos para pessoas e mais para mercadorias (físicas ou sob a forma digital) - e tende a reduzir os aparelhos de estado nacionais, essencialmente, ao papel de cobradores de impostos e à pacificação da força de trabalho. Mesmo as gloriosas forças armadas dos estados-nação passaram a ser constituídas por profissionais e mercenários, já não através de um serviço militar obrigatório, inadequado para a sofisticação do armamento.

A relevância do aparelho do Estado mostra-se na sua constante procura de tornar competitivo o território, atraindo o investimento, mormente externo e de empresas transnacionais; de reduzir os rendimentos e os direitos dos trabalhadores para proceder ao apoio a empresas, ao reforço da sua capitalização, uma vez que na lógica do capital, os deuses criaram primeiramente o capitalista e, de seguida, o escravo, o assalariado para o servir e gerar a riqueza; esta, sinteticamente referida e desejada pelas classes políticas, como os acréscimos ad aeternum, de um nebuloso PIB. Como em todos os Estados está presente essa preocupação materializada por uma miríade de instrumentos para o cumprimento desse desiderato, observa-se uma concorrência feroz entre os estados-nação, através de guerras (em nome próprio ou, por procuração), destruição ambiental, colunas de refugiados, pobreza, epidemias; perante o ar otimista e sorridente dos Gates, dos Zuckerbergs, dos Bezos e afins, colecionadores de riqueza e preocupados com a grande dimensão da Humanidade.

Entre os precursores da atual situação, Rousseau, como ideólogo da burguesia, gerou a ideia de contrato social entre os possidentes e os destituídos de posses, todos conformados com a sua situação social e económica; esse contrato, embora já não referido nos dias de hoje, é o que releva na situação atual em que o Estado e a classe política se encarregam de manter a lei e a ordem, envolvendo o trabalho na volúpia salvítica sinteticamente representada pelo crescimento do PIB.

Do conceito de contrato social emana o de coesão social, como instrumento de sedimentação de uma estrutura política, económica e social cuja articulação propicie uma maior acumulação de capital e perpetue uma pacífica estratificação social. O aparelho zelador desse contrato é o Estado, cujo monopólio do poder coercivo é a maior garantia da continuidade da acumulação de capital, de uma massa de explorados como instrumentos daquela. Para funcionar, esse aparelho precisa de um funcionalismo – a classe política - produtora de ideologia e tecnocrática; e tanto quanto necessário, rapace e repressiva, com a intervenção massiva de polícias várias, leis limitativas de direitos ou, pejadas de obrigações, carga fiscal regressiva, etc. E, focada em apresentar serviço – junto de capitalistas, trabalhadores e das instâncias do capital global – através de medidas como o referido crescimento do PIB, atração do investimento externo, baixo custo do trabalho, etc.

Esse contrato social seria, de facto, para Rousseau, o instrumento de garantia de uma coesão social que mantivesse no poder de então, as oligarquias nobres e burguesas, tendo como símbolo dessa unidade, um rei. O terceiro estado era a enorme e heterogénea multidão de excluídos do poder que servia de complemento aos acima referidos, para se ter o total dos habitantes do estado-nação. O Estado, portanto, representava e apoiava os interesses das oligarquias, no cenário interno ou na arena internacional e, garantia a utilização da coerção necessária para com a plebe, cujo dever seria trabalhar e obedecer. Esse era, sumariamente, a principal razão de ser do Estado surgido do desenvolvimento do capitalismo e até hoje.

Essa imposta coesão social é um cuidado, uma preocupação, uma coerção, inerente à própria noção de Estado, tendo como agente concreto, uma classe política. Mais tarde, Durkheim, para evitar os problemas causados pelas resistências dos desapossados, susceptíveis de prejudicar a desejada acumulação de capital, inventa um Estado neutro, gerador de consensos mas sempre atento e pronto para usar a repressão, sob a forma de lei ou do cacete, sobre os trabalhadores. A ladainha do crescimento do PIB ainda não tinha surgido como o elemento definidor da unidade e da felicidade do povo.

O Estado neutro não existe, nem nunca existiu. As camadas sociais que mais beneficiam da sua existência e atuação procurarão, se não aumentar os seus privilégios, pelo menos mantê-los, procurando neutralizar, ou cooptar parte da concorrência, se necessário; para isso, contam com a atuação de um ou vários partidos – um género de funcionalismo especializado em tráfico de influências - que se encarregarão de utilizar o poder estatal para benefício partidário e dos estratos económicos mais empenhados para essa cooptação partidária[4].

Assim, o Estado é um aparelho coercivo que visa garantir, por natureza, a estabilidade das hierarquias no seio de um estado-nação; a segmentação conveniente do ponto de vista social e político, através de uma articulação estável, aceite por ricos e pobres; evitando, através da classe política, conflitos resultantes de desigualdades sociais; mantendo a narrativa do patriotismo como forma de canalização para outros povos ou, outros estados-nação, das responsabilidades e animosidades quanto a problemas que, de facto, são internos.

Onde há Estado não há democracia; ou, de modo menos lapidar, apenas fórmulas truncadas ou, falsas da mesma. O Estado surge como um instrumento do estado-nação em geral, sob o controlo de camadas sociais possidentes, gestoras dos principais canais de controlo social.

Nas sociedades de hoje, designa-se um estado-nação como democrático apenas porque há eleições regulares e várias possibilidades de voto; ainda que pouco diferenciadas, no âmbito de uma definição estreita e capciosa de democracia que permite a perpetuação das oligarquias, com baixos níveis de conflitualidade para que não haja prejuízos para a acumulação de capital.

Como se estabeleceu, historicamente, o engrandecimento do poder estatal:

·       O desenvolvimento do capitalismo, sinteticamente ancorado na revolução industrial teve efeitos vários, conducentes a uma maior complexidade das relações económicas e a uma maior diversidade das classes e camadas sociais. As conexões entre as pessoas tornaram-se mais densas, sobretudo com o grande crescimento das cidades e da população urbana; essas multidões de trabalhadores pobres, de desempregados famintos e de recém-chegados à cidade na procura de uma vida melhor, conduziam a frequentes motins, greves e protestos que tinham como contrapartida forte repressão policial. Isso, exigia um grande esforço financeiro para a manutenção de efetivos policiais, por parte dos entes estatais – governo ou municipalidades - quando não de grupos de arruaceiros ou criminosos pagos para quebrar movimentos de reivindicação dos trabalhadores.

·       O papel do Estado na manutenção de frequentes situações de conflito exigia, em permanência, recursos financeiros avultados, por vezes obtidos por empréstimo dos banqueiros, para o financiamento de exércitos, adestramento de oficiais e recrutamento de jovens para a guerra. Esses conflitos tanto podiam resultar da redefinição de fronteiras na Europa, como da disputa do domínio sobre recursos e povos nas áreas coloniais, como ainda para defesa dos navios mercantes face à pirataria. O surgimento dos EUA lançou um concorrente de peso nesse processo, com um vasto e rico território aberto a Oeste e a Sul, cujos defensores não ofereceram uma resistência vigorosa. Por seu turno, as independências das colónias dos países ibéricos constituíram, essencialmente, mais uma área de negócio para as potências dominantes - o que se poderia já chamar de neocolonialismo. Estes conflitos entre estados-nação obrigavam ainda a elevados custos estatais com a existência de um corpo diplomático competente.

·       A pulsão concorrencial do capitalismo obrigava a investimentos no ensino e na investigação, nas ciências naturais, na astronomia, na engenharia, na navegação, no armamento, na geografia ou, na geopolítica com Mahan ou Mackinder a expressarem as ambições das grandes potências; mas também exigia a preparação de gente com conhecimentos de ordem prática, administrativa e contabilística dos estados-nação, em acelerado processo de estruturação, de criação de uma identidade nacional. Mais tarde, outros conhecimentos se tornaram necessários, com a utilização da energia do vapor e da eletricidade, do desenvolvimento das vias ferroviária, rodoviária, das transmissões, etc. Os cuidados de saúde tornavam-se essenciais, para a existência de uma mão-de-obra qualificada, numerosa e saudável (recordemos a pioneira ação de Bismark no campo da saúde dos trabalhadores). Em todas estas áreas se verificava um forte empenho estatal, cujos gastos exigiam uma contrapartida em receitas. Ainda que não existisse o conceito de PIB, pretendia-se uma estratificação social estável, não conflituosa e, uma desigual repartição da riqueza e dos rendimentos aceite sem tergiversões nem conflitos; superiormente gerida pela classe política e mantida pelo aparelho de Estado e pelos seus recursos materiais, legislativos e ideológicos.  

2 - Onde nos conduziu um mundo de estados-nação?

Como é bem visível, o mundo dos estados-nação de hoje carateriza-se por:

·       Uma geral subalternização face ao capital global, mormente financeiro, no âmbito de uma escala onde se destacam, em patamares distintos, os que têm poder para estabelecer formas de unilateralismo e, a esmagadora maioria dos restantes, totalmente despojada desse poder, cuja igualdade face aos poderosos se resume a terem um hino e uma bandeira; 

·       A existência de estados-nação continua a ser uma forma de divisão dos seres humanos, de geração e aproveitamento de antagonismos, no âmbito de uma macro-estrutura política, na qual a maioria desses estados-nação tem escassa ou nula margem de viabilidade ou de afirmação. A sua constituição, na maioria dos casos, resultou dos arranjos e das convenientes partilhas entre as potências coloniais na fase de ascensão e expansão geográfica do capitalismo;

·       Nas últimas décadas a multiplicação de empresas transnacionais e do seu poder, agindo numa lógica global, segmentando a produção de componentes, inúteis de per si, para melhor dominarem a cadeia produtiva, tornaram dependentes os países onde aqueles se produzem, destruindo naqueles qualquer lógica de integração racional a nível nacional. E, portanto, tornando muitos estados-nação como meras plataformas logísticas, com a captura das respetivas classes políticas, como funcionalismo local;

·       A dimensão das migrações por razões económicas, conflitos étnicos ou militares mostra a falência do modelo estado-nação como entidade una e homogénea, entre iguais, criando parcelas significativas de convenientemente excluídos, de vastas áreas tribalizadas ou entregues ao banditismo:

·       Esses antagonismos resultam de vários tipos de artificialidade presentes em muitos estados-nação e das suas fronteiras que, por efeito da herança colonial, são entidades pluriculturais, pobres, desconexas, hegemonizadas por uma delas e ao sabor dos interesses de empresas globais que exploram os seus recursos. Outras situações incluem a existência de monarquias de tipo feudal que, pela sua riqueza são cortejadas pelo sistema financeiro;

·       As plataformas digitais atuando numa lógica global, ultrapassam as fronteiras e os Estados nacionais gerando poderes de caráter monopolista e formas agressivas de atuação e de evasão fiscal, perante as quais os governos nacionais conjugam a sua impotência com fórmulas de subserviência e ou associação;

·       A existência de instituições internacionais (OMC, FMI…) visa a definição das regras da economia, da formação de rendimentos e da sua distribuição, montando uma constante insuficiência do crescimento e um eterno garrote com a dívida, imposta à esmagadora maioria dos estados-nação;

·       Todos os estados-nação têm um Estado, uma classe política, uma burocracia, que representam o capital nacional e, também as representações do capital global, todos empenhados no “crescimento” que, no entanto, pouco toca a esmagadora maioria da população; a qual, pelo contrário, é assolada pelo saque fiscal, pelo assalto aos rendimentos recebidos e, pela normalidade da detenção de grandes dívidas; mormente para terem acesso a uma habitação, uma vez que os Estados há muito entregaram o assunto à gula da especulação imobiliária e financeira.

3      – O papel do Estado, na prática do socialismo

No 18 Brumário, Marx refere que a máquina do Estado é um corpo autónomo e parasitário gerido pelo poder executivo, surgido na transição do feudalismo para o capitalismo. Nesse longo processo, os especialistas do Ancien Regime – juristas, padres, soldados – foram-se adaptando à nova situação, servindo o aparelho do Estado capitalista e já não como servos de um rei.

Marx ao centrar-se no capitalismo vigente nos países mais avançados da Europa – Inglaterra, França e Alemanha - mostrou um determinismo optimista e linear baseado no desenvolvimento das forças produtivas e, daí que não tivesse imaginado que a primeira revolução anticapitalista surtisse na atrasada Rússia; mas, admitia que o resto da Humanidade se libertasse acompanhando a evolução daqueles países mais avançados social e economicamente.

Só nos seus últimos anos de vida Marx travou conhecimento da existência dos coletivos agrários na Rússia que ocupavam 3/5 da terra cultivada, como sementes de formas autogestionárias e alheias ao espírito capitalista; e, apercebeu-se também que a satisfação das necessidades humanas deveria ter a primazia sobre o abstrato processo de acumulação capitalista. Trotsky, na sua visão autoritária e militarista da ação política, viria a esmagar aquelas estruturas económicas e sociais depois da revolução de Outubro.

Vimos anteriormente que o desenvolvimento de um aparelho de estado seguiu a par com a edificação do estado-nação, ambos destinados para suprir as necessidades de desenvolvimento do capitalismo, nos campos político, económico, social, de segurança, no plano internacional, etc. Nesse contexto, os capitalistas usavam (e usam) o aparelho de Estado e os seus burocratas para o engrandecimento da acumulação privada de capital, escolhendo, sob a forma de concursos eleitorais entre os vários grupos partidários, aqueles que melhor possam servir para esse engrandecimento. A este modelo político deu-se o nome de democracia, democracia liberal, social-democracia… ou democracia de mercado, como habitualmente costumamos dizer. Na realidade, trata-se de um modelo oligárquico que coloca fora das decisões, a esmagadora maioria da população, em proveito de um conjunto de oligarquias políticas.

Posteriormente esses mesmos elementos de estruturação do estado-nação ocorreram também em países de menor desenvolvimento económico, com uma classe de capitalistas pequena e débil, sobressaindo, em consequência, o poder da burocracia estatal, unificada sob a forma de um partido de gestores sob o nome de operário, comunista[5] ou outro emblema semelhante, em íntima ligação com burocracias sindicais, igualmente oligárquicas. Na maioria desses casos, as burocracias estão presentes e controlam todas as instâncias económicas, sociais, laborais, culturais, artísticas, desportivas, policiais, militares. A herança de frágeis estruturas políticas, sociais e económicas veio facilitar a constituição desses poderes hegemónicos, auto-ungidos como fonte única de todo o saber politico, alardeando uma superioridade incontestável, institucional e de experimentações sobre toda a população, pobre, pouco instruída, tomada por forte espírito religioso, habituada à marginalização e à brutalidade do poder. Como consta de um provérbio português “mudam as moscas, a merda é a mesma”.

A noção de aparelho de Estado assumiu grande relevância em torno da constituição de um Estado soviético, na sequência de ideias sobre a passagem do capital monopolista (financeiro) para capital monopolista de Estado, na visão aproximada de Hilferding e Boukharin; ou de um aparelho de direção geral da produção e da repartição de acordo com Lenin. Este não colocava a questão da utilização do Estado como aparelho repressivo, burocrático e militar mas da sua utilização racionalizada ao serviço da revolução; e Trotsky acentua essa tendência defendendo a militarização da economia (v. Dictionnaire Critique du Marxisme pag. 51/52).

Na realidade, na URSS tratava-se de proceder ao desenvolvimento capitalista com um objecto focado num acelerado “crescimento económico” de tipo keynesiano, concentrado em unidades produtivas de grande dimensão, estatizadas, que garantissem adequados aumentos da produtividade; por outro lado, a pequena propriedade, na indústria, no comércio e no campo, era residual. Esperava-se que daí resultaria uma melhoria substancial do nível de vida da população e uma saudável convivência política e social.

Na URSS a decisão técnica cabia aos membros do partido, no quadro das orientações detalhadas do omnipresente e omnisciente Plano, produzido e de cumprimento vigiado pelas altas estruturas do partido-estado – uma inovação política que unificava o aparelho estatal com a classe política, ao qual todas as estruturas nacionais, da arte às minas, se enquadravam. Nessa estrutura era fundamental cumprir à risca as orientações superiores para se singrar nas estruturas do Partido e na vida.

Como sabemos, nas democracias de mercado o aparelho de Estado é parasitado periodicamente pelos membros do partido que ganhar as eleições mas, a lógica é a da rotatividade no acesso ao pote, entre dois partidos gêmeos, ambos bem cotados junto dos capitalistas locais e das transnacionais; importa é transmitir à plebe a ideia de que há diferença entre escolher um burro preto escuro ou um burro preto claro.

Resumindo:

a) No modelo ocidental inicial, o aparelho de Estado apoia os capitalistas locais (nacionais) no seu processo de centralização e acumulação de capital, ajudando a vencer a concorrência dos capitalistas estrangeiros; e, inversamente, procura apoiar os capitalistas nacionais para a conquista de mercados externos. Posteriormente, no capitalismo atual em que o papel das fronteiras se dilui, as grandes empresas e a alta finança enlaçam-se com os capitalistas de raiz doméstica num contexto globalizado, monitorando ou corrompendo a elite governamental de serviço.

b) No antigo modelo soviético o Estado constitui-se ele próprio como um capitalista coletivo, como gestor da atividade económica, para superar a debilidade do capital privado nacional; e, por outro lado, defende-se face ao investimento estrangeiro, só admitido com parcimónia ou em parceria, nos casos em que a estrutura económica nacional(izada) não tem os meios, mormente tecnológicos, adequados.

No primeiro caso fala-se de economia de mercado; o segundo designou-se socialismo embora se tratasse, de facto, de um capitalismo de Estado.

Este e outros textos em:

http://grazia-tanta.blogspot.com/                               

https://pt.scribd.com/uploads

http://www.slideshare.net/durgarrai/documents


[1]  Porque não há uma estratégia anticapitalista?

http://grazia-tanta.blogspot.com/2021/02/porque-nao-ha-uma-estrategia.html

[3] A crise do coronavírus veio a estabelecer procedimentos oligárquicos, autoritários e empobrecedores por parte dos Estados que tanto vinham promovendo a livre circulação. Em contrapartida, os Estados promoveram os confinamentos, o doentio teletrabalho, o fecho de escolas, o desemprego, a pobreza, a arrogância policial, as multas, as discriminações dos mais pobres atulhados em transportes públicos, a par com limitações de circulação para todos. E, eventualmente condicionando a circulação a quem não for vacinado e recuse engordar bases de dados sobre os humanos para gáudio do Big Pharma e dos manipuladores de informação. Tudo isto para um vírus que até agora atingiu 1.52% da população mundial e que matou 2.2% daqueles infetados entre os quais dominam os mais velhos, há muito empurrados, pelo capitalismo para lares que mais parecem prisões… uma vez que não são competitivos!  

[4] A situação vivida em Portugal – centrada no tempo de mudança do regime (1974) - é muito clara quanto às desigualdades

https://grazia-tanta.blogspot.com/2018/07/a-longa-marcha-das-desigualdades-1-o.html

https://grazia-tanta.blogspot.com/2018/08/a-longa-marcha-das-desigualdades-2-da.html

[5] Ou, de uma cosmética coligação como o SED, na República Democrática Alemã

domingo, 7 de fevereiro de 2021

Porque não há uma estratégia anticapitalista?

Sumário

1 - O fim da História ou o eterno retorno?

2 – A vitória do mercado assentou-se na barbárie

3 – Os objetivos comuns entre classes políticas e capitalistas

4 - Sobre o chamado socialismo

5 – Para uma estratégia de sobrevivência e de mudança

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1  - O fim da História ou o eterno retorno?

Os gangs partidários, em geral, conservadores e reacionários, mesmo quando adoptam siglas e propósitos formalmente interessantes para a plebe são, em regra, direcionados para suplantar a concorrência e, muito menos para cumprirem os anseios da multidão, do eleitorado. Os nomes que ostentam, vindos de tempos longínquos, perdem todo o seu significado ideológico e programático, em função do afunilamento promovido pelo neoliberalismo, tão bem definido pela baronesa Thatcher – There is No Alternative -ou, por Fukuyama – “O Fim da História e o Último Homem”. Está claro, que em ambos os casos estava a conclusão de que o capitalismo seria um retorno ao paraíso, embora os danos colaterais, como guerras e pandemias, nunca tenham abandonado o terreno e a Humanidade.

Quanto a guerras, os Balcãs foram o cenário onde o “democrata” Clinton exercitou o músculo, aproveitando-se da fraqueza da Rússia, criando micro-estados, devidamente armados com armas americanas, nas ruínas da Jugoslávia; com esta última, desdobrada em sete estados-nação, com a integração de alguns, na UE e na NATO; com os dois únicos de população maioritariamente católica, a beneficiar da bênção papal. A humilhação de Mogadishio em 1993 e os sangrentos atentados às embaixadas de Nairobi e Dar-es-Salam em 1998, estamparam-se na cara de Clinton; poderiam ser apenas fait-divers mas, não foram.

A História afinal, prosseguia.

No seguimento do 11 de setembro, Bush avança sobre o Afeganistão, sem os resultados transformadores desejados que culminaram, sem glória, com a retirada quase total, patrocinada por Trump, vinte anos depois; nesse período, inicia-se naquele país um tempo de investimentos chineses, paquistaneses e indianos mas, com o negócio da papoila em mãos americanas. A incorporação de mercenários portugueses, e a presença de dois conhecidos elementos, impropriamente fardados, é a demonstração da transformação da invasão ocidental, em palhaçada.

Dois anos depois (2003) foi a invasão e destruição do Iraque com a focagem na captura de Saddam e a segmentação do país entre zonas ou entidades curdas, xiitas e sunitas; uma ação que irá deixar na História a qualidade dos promotores da operação – Bush, Blair e Aznar, com Durão a servir à mesa, nos Açores. Seguiu-se a intervenção ocidental na Líbia, em 2011, com o alto patrocínio de Obama, detentor do prémio nobel da paz dois anos antes; e a divisão do petróleo entre os parceiros invasores. Que terão olhado, indiferentes ao assassínio de Kadhafi, depois de sodomizado pela soldadesca.

Nesse ímpeto foram enquadradas as “primaveras árabes” no âmbito do qual Mubarak foi deposto, substituído por Morsi, ligado à Irmandade Muçulmana que ganhou as eleições no Egipto e, de imediato, aprisionado e substituído por um impoluto democrata, o general al-Sisi, pronto a tudo para receber o apoio dos sultões e da entidade sionista.

Nesse plano enquadrava-se o derrube do regime sírio, para evitar a formação de um eixo xiita, do Irão ao Mediterrâneo; e, para tal, foi canalizado um apoio financeiro ao ISIS, por parte dos sultões da região, parcialmente aplicado na compra de material de guerra aos empórios norte-americanos do armamento. As sequelas são conhecidas – fragmentação do Iraque, continuidade da guerra no norte da Síria e – nem tudo é mau – a criação em Rojava de um projeto de democracia direta; tudo isto, provocando um enorme fluxo de refugiados na direção da Europa.

E, para terminar este esboço, o desabar do estado líbio facilitou a desestruturação e a guerra nos países do Sahel que certamente (?) o apoio ocidental irá …evitar.

A internet e as tecnologias de informação, sendo neutras politicamente, integram-se em qualquer prática, como os ábacos antigos. Claro que aceleram os ritmos das transações e da prática de patifarias, a despeito das prédicas de angélicos ambientalistas que entendem ser possível convencer os capitalistas a contemplar o equilíbrio ambiental e a qualidade de vida no planeta. Os devotos cristãos antigos tiveram como continuadores gente tão amante de Deus como S. Shenufe, os papas Bórgia e, bem mais tarde, o papa Wojtyla; sem esquecer o “ecologista” Joshka Fischer, cúmplice no bombardeamento da Sérvia, enquanto jantava tofu.

Afinal a História continua. Vigora a habitual e milenar sequência do saque, da guerra, das desigualdades, das oligarquias, das migrações e da pobreza, geradas por minorias de ricos, banqueiros, especuladores, seus crentes e mercenários, para além das várias e pouco estimáveis estirpes que enformam as classes políticas; neste momento, desastrados gestores dos efeitos da pandemia. E, suficientemente estúpidos para acharem ser despiciendo ajudar os antigos povos colonizados no combate ao vírus que… há muito tempo descobriu que a Terra é redonda.

2 – A vitória do mercado assentou-se na barbárie

Pululam por aí, siglas muito distintas, formalmente, para os partidos – socialistas, sociais-democratas, liberais, democratas, trabalhistas, conservadores, democratas-cristãos, anticapitalistas, comunistas, ecologistas, verdes, radicais, republicanos[1]… embora muitos se limitem apenas a ser vigaristas, corruptos e mentirosos. O número de siglas partidárias que por aí circulam tenderá a rivalizar com o número de… coronavírus, à solta.

No mundo ocidental, a invenção da economia de mercado apresentou-se como o zénite da felicidade humana; e, dali costumam sair os benfeitores que a vêm aplicando, no quadro do colonialismo e do neocolonialismo; do modelo keynesiano, como na coprologia neoliberal.

No campo da política há a considerar nesse processo criativo, intervenções militares, golpes de estado, guerras, invasões, regimes de oligarcas cleptocratas e, em tempos mais recentes, as sanções pessoais, popularizadas ad nauseam pelo paquiderme Pompeo… que os deuses o mantenham fora da ribalta! De modo mais educado, surgiram os produtos resultantes de eleições que são, ora Dupont, ora Dupond, chamando-se a essas portas giratórias, alternância democrática ou democracia de mercado. Para uma imagem mais prosaica, se preferirem, procurem as diferenças em café adoçado com açúcar branco ou açúcar amarelo.

 

O modelo oligárquico aplicado à economia dá pelo nome de economia de mercado; nasceu da pilhagem colonial, do trabalho escravo, da pirataria (por vezes, sob o nome enobrecido de corso) e, mais tarde, da proletarização dos camponeses, emigrados para as cidades; os seus beneficiários chamam-se capitalistas, nome edulcorado, posteriormente, para empresários. Por seu turno, o trabalho passou a ser desempenhado por gente em funções precárias, a termo, “independentes”, subcontratados, à experiência, estagiários, estendendo-se ao cenário urbano como algo equiparado ao trabalho à jorna, para as funções exercidas no campo. E que vivem em regime de alternância, entre o desemprego e o exercício de trabalhos de merda, na designação do precocemente falecido, David Graeber.

3 – Os objetivos comuns entre classes políticas e capitalistas

Politicamente, as classes políticas e os capitalistas têm um objetivo comum; a utilização do produto do saque fiscal e a domesticação da plebe… para que o PIB cresça; e, que as empresas invistam, que o capital externo se instale… para que o PIB cresça. Como em todos os países[2] esse objetivo está presente, há que criar uma fiscalidade “competitiva” e preços do trabalho, também competitivos… para que o PIB cresça. Uma ladainha pouco diversificada, monótona e que acaba por se fixar no consciente e no inconsciente dos mainatos.

Os principais partidos são os gestores do produto do saque fiscal e os garantes da mansidão do trabalho; os restantes grupos são as damas de honor que emolduram o cortejo e lhe dão um falso aspecto democrático.

I partiti politici si dividono in grandi e piccoli.

I grandi mentono e rubano. I piccoli desiderano soprattutto di crescere.        -    Emmanuel de Straznik

Dentro de cada partido desenvolvem-se hierarquias, frações em permanente luta entre si, com grupos em constituição e outros, em perda de influência, no âmbito da qual os interesses dos grupos sociais que procuram representar, perde relevância. Conta, sobretudo, o poder interno e a capacidade de captação de fundos no exterior, sendo de toda a importância o estabelecimento de relações íntimas e prolongadas com empresários. Os programas políticos são repositórios de frases tão ocas como consensuais que não possam provocar dissidências e que alarguem as abrangências. Esta prática é o que Robert Michels designou, há mais de cem anos, a lei de ferro dos partidos; uma vez que é o seu cumprimento que assegura a perpetuidade da instituição. A instituição inspiradora foi o SPD alemão.

Os partidos políticos não agem por amor ao próximo mas, para manterem sob pressão, os rendimentos e os direitos de assalariados, desempregados e pensionistas, com a justificação do deficit, da dívida, da conjuntura, das obrigações vindas de Bruxelas, de cheias, incêndios, etc; em contrapartida, como é evidente, procedem discretamente, ao seu auto-abastecimento. Não há crescimento do PIB que não contemple contenção para os rendimentos de trabalhadores e ex-trabalhadores; e, se o PIB estagna ou regride, já se sabe quem serão os sacrificados. Diz o povo que, “quem parte e reparte é tolo se, não ficar com a melhor parte”.


Na hierarquia do patronato, as estirpes mais elevadas articulam-se com os partidos no poder para a partilha do bolo fiscal; para a produção legislativa susceptível de favorecer a acumulação de capital; para a criação de um ambiente mediático que promova o sacrifício, para que o “país” se não afunde; e, para a geração do ambiente mediático e social que obrigue os assalariados a aceitar maior carga fiscal e trabalho mais barato. O Estado é o mediador da redistribuição, a peneira que separa e colhe as pepitas de ouro, deixando a areia ir na corrente e depositar-se no fundo do rio.

4 - Sobre o chamado socialismo

Há mais de 10 anos quando começámos a escrever e atuar contra “isto” - o regime político e económico em Portugal que, sinteticamente, designamos por regime pos-fascista - houve vocábulos que nos recusámos a incluir no nosso discurso, para não alimentar o atávico conservadorismo reinante. Um desses vocábulos, pelo seu vasto e diversificado conteúdo, foi o termo socialismo como definidor de uma realidade salvítica, para o tempo de hoje.

O socialismo foi pensado como fórmula libertadora face ao capitalismo que bem conhecemos e, cuja existência pesa sobremaneira nos ombros da esmagadora maioria dos entes humanos. O socialismo, foi uma reivindicação incontornável, mítica e salvítica, em defesa do qual milhões de pessoas generosas se sacrificaram para virem depois a sofrer, na pele, os efeitos de uma prática que conduziu à supremacia de outro desastre, que bem conhecemos – o capitalismo. E mais, esses desastres contribuíram sobremaneira para manter o capitalismo fora da lixeira da História.

Em 1917, a Revolução Soviética reivindicava uma mudança coperniciana para a vida económica, política, social, para as mulheres e para os povos e nações oprimidas; e que Maiakovsky referiria num poema, com o orgulho sentido na apresentação, no exterior, do seu passaporte vermelho.

Porém, elevação ao poder, em nome do socialismo, de grupos de burocratas sem escrúpulos e de mão pesada; de sacerdotes laicos defensores de um pensamento único; e de chefes supremos e incontestáveis, teve um primeiro momento assinalável em Berlim, em 15/01/1919 quando Rosa Luxemburgo, Karl Liebknecht e milhares de trabalhadores foram assassinados pelos “sociais-democratas”(o SPD atual), de Ebert, tendo como braço executivo uma tropa, ressabiada, sentida como mal derrotada na guerra de 1914/18. Desse massacre viriam a despontar, poucos anos depois, maiores bestialidades, maiores desgraças, protagonizadas por Hitler - em nome do seu nacional-socialismo, racista, assassino e concentracionário.

Porém, em 1920, os milicianos ucranianos de Makhno, contrários aos princípios estatizantes e hierárquicos seguidos por Lenin, depois de terem combatido em conjunto os restos do exército czarista, foram vítimas de uma sanguinária perseguição dirigida por Trotsky, habitual executor do trabalho sujo, mais ou menos encomendado por Lenin. E a que Stalin, deu continuidade, nos anos trinta, provocando a morte de milhões de pobres camponeses ucranianos.

Em 1921, foi também em nome do socialismo que Trotsky, respaldado por Lenin e Stalin, promoveu o massacre de Kronstadt, assassinando milhares dos que haviam, pouco tempo antes, protagonizado a Revolução de Outubro; e, na boleia autoritária, aceleraram a criação de um estado totalitário, persecutório, assassino, em favor de uma casta de burocratas, executores acéfalos de leis particularmente severas.

Após a morte de Lenin, o poder veio a transitar para Stalin que eliminou a concorrência da ocasião e, de outras posteriores, reais ou fictícias, durante uns trinta anos, continuando a designar-se socialismo ao modelo político e económico, onde se inseriu o tristemente célebre, Gulag.

Com o fim do regime, em 1991, as referências ao socialismo na Rússia desapareceram; tal como na China acontecera, gradualmente, pouco depois da morte de Mao, em 1976. Note-se que, no último caso, a realidade “socialista” foi transfigurada a tal ponto pelo regime que, nos anos 70, intelectuais da craveira de Charles Bettelheim ou de Joan Robinson, economista do Labour, foram completamente enganados pelo que lhes havia sido mostrado na China; Onde, curiosamente, o poder continua monopolizado pelo PCC, mesmo que concomitante com um modelo económico claramente capitalista.

Esses falhanços e volte-faces oportunistas, conduziram ao domínio atual de reacionarismos mais extremados, correspondendo à maior agressividade do capitalismo dominante, de caráter financeiro. Por outro, desarmaram ideologicamente as esquerdas tradicionais e os sindicatos, incapazes de um discurso alternativo e, pondo em prática um constante e reacionário recuo, de desarmamento ideológico, numa lógica de seguidismo… uma palavra que, em inglês, tem uma expressão mais eloquente, tailism, ir na cauda.

A conciliação de políticas reacionárias com rótulos de esquerda conduziu à derrota do Syriza, na Grécia, em 2015, num quadro com a capitulação das “esquerdas”; e ao gradual recuo do peso eleitoral do Podemos, acocorado em torno de um Iglésias, devotado crente no populismo de Laclau. A estagnação eleitoral da esquerda portuguesa sobressai com apresentação, ultimamente, do mesmo volume de votos do que nos anos setenta, mesmo que a população inscrita para votar tenha aumentado 3 M de pessoas no mesmo período; e que, se perfila, obediente, a marchar à ordens do sargento Costa, em tudo o que é essencial para ele.

Essas falsas esquerdas veneram o Estado, não atacam o seu poder, mesmo que este se mostre, de modo evidente, como o grande auxiliar do poder financeiro, das multinacionais e, o principal antro da corrupção. Assim, os espetros partidários nacionais, em regra, apresentam dois partidos ou, duas alianças de partidos, muito semelhantes, quanto às práticas políticas, com uma rotineira rotatividade, com a escolha saída de uma artificial crispação eleitoral, gerada pela ânsia de aceder ao “pote”; nesse contexto, valem todas as falsidades, todas as promessas irrealizáveis, para obter as preferências da plebe; e que esta não sinta, no momento da eleição, que a alternância será a observada nas diferenças entre os gêmeos Dupond e Dupont.

Donde está la izquierda?

Al fondo, a la derecha[3]

5 - Estratégia de sobrevivência e de mudança

Coloca-se uma questão dicotómica de caráter metodológico:

a)   O capitalismo é um mal, como a seca, as alterações climáticas, o covid-19, a pobreza, as desigualdades, a desflorestação, o patriarcado e, muitos outros? É um elemento que disputa, com os males referidos atrás, o campeonato dos problemas que assolam a Humanidade, o meio ambiente e o planeta?

ou,

b)    trata-se do elemento basilar, estrutural, que produz ou influencia fortemente aqueles males, mostrando-se apenas inocente perante os efeitos das manchas solares ou de uma erupção vulcânica?

O ecologismo tradicional e os partidos políticos em geral, aceitam o capitalismo, como um dado, uma constante, como o ciclo dia/noite, mesmo que o capitalismo seja o arquiteto das potentes e versáteis estruturas económicas globais, invisíveis e criminosas, que enquadram as nossas vidas; mesmo que essa aceitação seja anti-histórica, tomada como um desígnio divino perante o qual só resta aceitar, rezar e ir apanhando os cacos.

Na sua pobreza política e de ideias, no caldo insosso chamado eco-socialismo, espera-se um surto de ética que promova a conversão dos capitalistas em benfeitores do planeta e da Humanidade… como o famoso Gates? Esperam-se os efeitos regeneradores de mais um abaixo-assinado, de uma petição ao governo? De uns momentos de conversa com um mandarim? Através dos séculos tem-se esperado algo do prometido por dúzias de evangelistas e profetas mas… onde estão os resultados? Esperam, com paciência de Job, que um dia as classes políticas encontrem vontade, capacidade e autonomia para colocar o capitalismo na ordem, restaurando-se, assim, um novo e verde Eden?

Pedro pedreiro, penseiro, esperando o trem[4]… quem espera nunca alcança[5]

Entretanto, cautelarmente, essas formações, na sua generalidade, encostam-se ao orçamento estatal para seguirem uma vida confortável. Cama fofa e prato quente, a horas certas, caem sempre bem…

Achamos que a primeira hipótese revela inocência, reacionarismo ou, ignorância e benevolência, tratando o mal principal – o capitalismo – como um simples concorrente dos outros males que afligem a Humanidade e o planeta; afastando nexos de causalidade. Na prática, trata-se da não responsabilização do capitalismo ou da menorização, da desvalorização dos danos da sua vigência, confiando que as classes políticas, como gestores do capital, reconstituam o tal Eden. E isso, mesmo perante a total precarização do trabalho, o regular aparecimento de epidemias, a existência de exércitos e polícias para defender o apartheid das classes políticas face às multidões que se mostrem menos mansas e coniventes com aquelas; e que aceitem jornadas de trabalho acrescidas, desemprego endémico, vivências em urbes pestilentas mas, com o divino direito de circular sobre quatro rodas, poluindo; ao mesmo tempo que se mantém um débito eterno para com os bancos, para garantir um tecto, o qual se pode sumir, em qualquer momento, perante uma trivial crise de desemprego.

O papel do sistema financeiro na economia global, como nas economias nacionais e domésticas é o maior determinante na vida de pessoas, empresas e países; e, no entanto, muita gente tem sobre aquele uma visão incompleta e, quiçá benevolente, porque o acesso ao crédito só raras vezes é negado; para mais, sendo tão “apelativo” dada a vigência de taxas de juro muito baixas, ligadas a taxas de inflação igualmente baixas.

Este e outros textos em:

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[1] Em Pela, na Macedónia, no tempo de Filipe, pai de Alexandre, a nomenclatura política era mais simples – azuis e verdes

[4] Chico Buarque de Holanda

[5] “Pequena Memória Pra Um Tempo Sem Memória” (Gonzaguinha e Luiz Gonzaga)