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segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Uma questão premente. Como sair do capitalismo (1)



 
Há uns 100 anos, dominava entre os trabalhadores mais avançados um pensar global, humanista e solidário, enquanto as burguesias nacionais de então, se mostravam nacionalistas e em guerras constantes para se roubarem umas às outras.
Hoje, perante o predomínio de um capitalismo globalizado que captura os estados-nação e captura e manipula as classes políticas, a chamada esquerda regrediu ideologicamente, clamando por soberania e patriotismo, tornando-se mais um quisto agarrado ao pote.
O anarquismo sempre rejeitou o capitalismo, sob qualquer das suas formas – liberal, estatal ou fascista. Nunca aceitou a nacionalidade como separador de pessoas nem a existência de oligarquias estatais, patronais, religiosas ou partidárias. Só o anarquismo, nos tempos que correm, pode unificar a Humanidade contra o capitalismo que nos encaminha para o colapso.
Sumário
1 – A globalização e a chegada ao capitalismo
2 - A lógica capitalista no tempo dos estados-nação soberanos
3 - A lógica e a organização do capitalismo globalizado
4 - Porque se globaliza o capital?
5 - O capitalismo e as classes políticas são um estorvo

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1 – A globalização e a chegada ao capitalismo

A globalização das tecnologias e do comércio começou com a diversificação das necessidades humanas, a constituição de excedentes, as deslocações e migrações de grupos humanos, em tempos muito recuados. Essa incipiente globalização criou redes e fluxos de gente, animais, plantas, artefactos, conhecimentos, doenças e miscigenação, em quadros territoriais cada vez mais vastos. Essa primeira globalização que durou milénios não foi uniforme mas, teve um foco essencial no Médio Oriente, entre o Mediterrâneo e o vale do Indo. Esse processo teve, naturalmente, altos e baixos, sendo de salientar a constituição de encerramentos autárcicos na China do século XV, no Japão do século XVI ao XIX e na Europa feudal. Ninguém pagou patentes nessas transmissões de conhecimento, embora houvesse quem quisesse evitar a sua transmissão, em regra com resultados apenas temporários; a propagação da tecnologia e do conhecimento sempre teve caráter incremental, com cada criação tomada como algo adicional a uma longa cadeia de contributos. Mas, só o capitalismo transformou o conhecimento em patente, como uma mercadoria, que se compra e se vende.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

O futuro precário do estado-nação (2)



A revolução industrial desenvolve novas estruturas políticas – a colonização extensiva a todo o planeta, o domínio diversificado das burguesias através do parlamentarismo ou de ditaduras, sempre com a vulgarizada utilização da guerra, da violência contra os trabalhadores e os povos colonizados. 

Do ponto de vista económico, o capitalismo liberal, produz os cartéis, o imperialismo e desenvolve fórmulas de fusão das funções económicas e políticas através do capitalismo de estado e do fascismo.

Os Ocidentais apresentam-se como os construtores da História, os únicos com capacidade para definir o futuro e, portanto, os portadores da universalidade.

B – O imperialismo e os seus limites

  8- Revolução Industrial
  9 – A construção do imperialismo
10 – O imperialismo maduro
11 - As duas Grandes Guerras e os alvores do keynesianismo
12 - O capitalismo de estado e o fascismo

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quinta-feira, 18 de maio de 2017

Europa, periferias e desastres periféricos

Europa, periferias e desastres periféricos

Sumário

1 – Elementos de enquadramento de um capitalismo subalterno

2 - Continuada quebra da parcela dos rendimentos do trabalho

3 - Cenários de evolução na geopolítica

     a) Desagregação da UE e/ou da zona euro

     b) Exclusão de um Estado da UE e/ou da zona euro

     c) Uma saída portuguesa voluntária da UE/zona euro

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1 – Elementos de enquadramento de um capitalismo subalterno

Historicamente, Portugal nunca teve um capitalismo empreendedor, moderno e isso confirma-se hoje, sobretudo depois da safra privatizadora final[1], imposta pela troika e do subsequente desabar do já pequeno sector financeiro detido por portugueses. Após essa forçada “internacionalização” do tecido económico, na aplicação das sempre nebulosas e inacabadas “medidas estruturais”,

quinta-feira, 16 de março de 2017

Um internacionalismo do século XXI, contra o capitalismo e o nacionalismo (3)

Uma vez que o capitalismo vem dispensando as nações, é tempo de dispensar o capitalismo, de construir redes rizomáticas globais, com alicerces locais, assentes no conhecimento mútuo e em práticas democráticas de decisão. Tempo de praticar a escalada que começa na indignação, passa pelo protesto, pela mobilização, pela organização, pela desobediência até se chegar à revolta.

Sumário

1 - Uma (des)ordem económica e política
2 - A globalização é um processo
2.1 - Como o capitalismo vem cavalgando a globalização
2.2 - A instituição de um estado de excepção generalizado
3 - Os grandes promotores do desastre
3.1  - As ameaças vindas das classes políticas
4 – A leitura do contexto.
4.1 - As alternativas possíveis e as desejáveis
4.2 – O desenvolvimento do espirito do fascismo

4.3 – Um novo internacionalismo, precisa-se!

(primeira parte deste texto aqui e a segunda, aqui)


domingo, 5 de março de 2017

Um internacionalismo do século XXI, contra o capitalismo e o nacionalismo (2)

O nacionalismo é uma doença infantil; é o sarampo da Humanidade.
                            Albert Einstein

Sumário
1 - Uma (des)ordem económica e política
2 - A globalização é um processo
2.1 - Como o capitalismo vem cavalgando a globalização
2.2 - A instituição de um estado de excepção generalizado
3- Os grandes promotores do desastre
3.1 - As ameaças vindas das classes políticas
4 – A leitura do contexto.
4.1 - As alternativas possíveis e as desejáveis
4.2 – O desenvolvimento do espirito do fascismo
4.3 – Um novo internacionalismo, precisa-se!

(primeira parte deste texto aqui)

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Um internacionalismo do século XXI, contra o capitalismo e o nacionalismo (1)



Carlos Taibo sintetiza a questão que se nos coloca, hoje. Ou ganhamos a consciência de que temos de sair urgentemente do capitalismo, regressando a lógicas de cooperação, solidariedade e apoio mútuo; ou entra-se num caminho de salve-se quem puder, com guerras, pobreza acentuada, desdém para com as alterações climáticas, com regimes fascistas e genocidas.
Sumário
1 - Uma (des)ordem económica e política
2  - A globalização é um processo
2.1 - Como o capitalismo vem cavalgando a globalização
2.2 - A instituição de um estado de excepção generalizado
3 - Os grandes promotores do desastre
3.1  - As ameaças vindas das classes políticas
4 – A leitura do contexto.
4.1 - As alternativas possíveis e as desejáveis
4.2 – O desenvolvimento do espirito do fascismo
4.3 – Um novo internacionalismo, precisa-se!

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

União dos Povos da Europa ou o nacionalismo à solta (a)



Nunca se esteve tão perto da unificação do género humano, nem nunca aquela foi tão necessária; basta manter a globalização e enterrar o capitalismo. É urgente ir criando uma Weltanschauung, uma cosmovisão que enquadre as estratégias e as táticas adequadas.

1 - A globalização tornou obsoletos os estados-nação

A globalização e as novas tecnologias unificam gradualmente os povos, facilitam trocas culturais, criam novas entidades e retiram a relevância à grande maioria dos estados-nação, erigidos a partir do século XVII através de guerras que consolidaram nos respetivos territórios burguesias nacionais ciosas do controlo das suas populações e intratáveis para quem lhes disputasse a respetiva coutada de força de trabalho. Do mesmo modo que os senhores feudais procuravam manter direitos sobre os seus servos ou os donos de escravos procuravam assegurar a posse tranquila daqueles.

No quadro da evolução histórica dos sistemas produtivos importava ao capitalismo aumentar a produtividade reduzindo os custos da submissão da força de trabalho. Para que esse controlo ficasse aceite ou facilitado – e com menor recurso à coerção - utilizaram a escola e o serviço militar para incutir essa coisa historicamente recente, do patriotismo, da exclusão e desconfiança face ao Outro; embora, como nós próprios, o Outro seja de carne e osso, desejando igualmente, a satisfação das mesmas necessidades – paz, pão, liberdade, habitação, saúde, educação e ainda, a pulsão de amar e ser amado. 

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Eleições em Espanha – O medo venceu o tosco projeto social-democrata



Spinoza distinguiu a potentia, como capacidade de realização face a potestas, dominação. Pablo Iglésias e os seus iluminados amigos pretendem-se dignos da auctoritas para exercerem a potestas. Reacionarismo puro, nada de novo.

1 – Um pouco de História
2 - As eleições de junho em Espanha
   2.1 – Aumento da desafeição
   2.2 – As dificuldades do bipartidarismo não alteraram o regime
   2.3 – O Podemos, tentativa de integração autoritária do 15 M
3 - Como se constroem as alternativas


segunda-feira, 18 de abril de 2016

Centro e periferias na Europa – A dinâmica das desigualdades desde 1990



A globalização é tão velha como a Humanidade e a sua aceleração pelo capitalismo gerou imensas desigualdades. Nenhuma luta social ou política de combate às desigualdades tem seriedade ou validade se não tiver como objetivo último, o fim do capitalismo.

1 – Síntese da evolução recente do capitalismo
2 – As alternativas possíveis para estados periféricos
3 - A formação de desigualdades na Europa – 1
4 - A formação de desigualdades na Europa – 2
5 – Notas para uma solução

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

SOLIDARIEDADE COM O POVO GREGO

Solidarizamo-nos com o povo grego, quando se decidiu a afrontar a troika, o capital financeiro e os seus agentes de Bruxelas, como em 2012 quando, com alguns amigos, trouxemos cá um dos fundadores do Syriza. Não iremos aqui opinar sobre opções específicas dos gregos, que são da sua exclusiva responsabilidade; se o fizéssemos procederíamos como a Merkel.

Não somos nacionalistas, somos seres humanos como os outros 7000 M; estamos do lado da multidão de trabalhadores, desempregados, reformados, pobres e totalmente contra banqueiros e capitalistas como dos políticos que os servem. E isso, qualquer que seja o seu lugar de nascimento ou a cultura em que se integrem.

A abordagem do capitalismo foi esquecida por muitos dos mais velhos e não apreendida por inúmeros dos mais novos: daí, que haja quem pense que o investimento público e o retorno a um modelo social europeu é uma alternativa ao neoliberalismo que bem vamos sentindo na pele; e há quem pense como virtuosa a saída do euro com perda brutal de poder de compra para salários e pensões, através da inflação, em substituição da austeridade actual provocada pelos cortes administrativos em rendimentos e direitos.

Quer uns quer outros, defendem para o seu povo a competitividade, baseada na exportação viabilizada, por sua vez, pela redução dos custos do trabalho e da precariedade laboral. Como todos os outros governos pensam o mesmo está lançada a base de todos os egoísmos, conflitos e desigualdades. Esta lógica é predadora de vidas e do próprio planeta, não sendo, portanto, o capitalismo, alternativa minimamente defensável.

À escala global, há um problema insolúvel – os capitalistas querem baixos salários e ao mesmo tempo que a população tenha o poder de compra adequado para comprar os seus produtos; chama-se a isto querer o sol na eira e chuva no nabal.

Assim, desenvolveram um capital financeiro que se tornou dominante, sobredimensionado, que controla as instituições internacionais, a burocracia europeia e as classes políticas nacionais.

O sistema financeiro carateriza-se por:

1 – Criar dinheiro a partir do nada e através da especulação mas, sem criar riqueza;

2 – Por comprometer o nosso futuro individual com dívida, sob a ameaça de despejos e penhoras; o mesmo sucede com as empresas, sabendo-se que as portuguesas têm ímpares níveis de endividamento e, apesar da tradicional fraude e evasão fiscal que, no caso da Segurança Social, se cifrou em 2013 em 2815 euros por minuto.

3 – Por utilizar os Estados para nos asfixiar com impostos, com cortes, com reduções de direitos, adormecendo-nos com uma falsa democracia; e ao mesmo tempo, cria benefícios fiscais, permite os offshores, enquanto persegue desempregados e pobres.

Os 8500 M de juros da dívida pública portuguesa que irão ser pagos em 2015, vão para os especuladores, para os banqueiros e seus acionistas; não vão para o bolso de trabalhadores alemães, franceses ou angolanos; e sai-nos do bolso, do corpo, fragiliza a nossa saúde e empurra os jovens para a incerteza da emigração.

A dívida, em geral, é um instrumento de dominação e todas as lutas contra os abusos dos credores têm razão de ser e merecem solidariedades. Assim, qualquer forma de contestar essa sujeição poderá basear-se em várias formas de deslegitimação e, portanto, apoiada:

1.    quando constituída sob forma coativa, como aconteceu em Portugal ou na Grécia;

2.  quando por atuação submissa de elites corruptas em conluio com o capital financeiro;

3.    quando o pagamento do serviço de dívida cria um estado de emergência social; como diz Zachariae, um governo têm um dever de ordem superior ao de pagar aos seus credores: o de manter vivos os seus cidadãos. E que não existe outra alternativa que não ignorar os queixas dos seus credores.

4.     quando está em vigor um modelo de segmentação como o da UE, entre Centro e periferias, gerador de desigualdades, e em que o capital financeiro do Centro domina e empobrece os outros povos;

5.     e ainda, porque a salvação de bancos sobredimensionados e falidos não pode ser feita tendo como contrapartida aumentos de dívida pública, recessão e empobrecimento.

Tudo o que se disse atrás é válido aqui, como na Grécia, como em Espanha. Porém, aqui, a situação é diferente, não temos nenhum Syriza nem um Podemos, nem movimentação social que agite as águas estagnadas da política portuguesa.

A melhor maneira de ajudarmos os gregos, de concretizarmos a nossa solidariedade com eles ou com os espanhóis é reforçarmos a causa comum e construirmos esse movimento e não pensar que sem ele seja possível um terramoto eleitoral em setembro a partir de qualquer formação política que se apresente a terreiro.

Estão esgotadas as virtualidades do actual sistema político e do modelo de representação vigente.

É preciso rever a Constituição nesses capítulos; é preciso acabar com o tabu da revisão constitucional. Para o efeito, é preciso construir um vasto, diversificado e plural movimento social, organizado como rede de grupos e coletivos autónomos que crie um sistema político democrático em Portugal, baseado muito sumariamente nestes pontos.

1.    qualquer um pode ser diretamente eleito, sem mediação partidária, para qualquer função de representação popular;

2.     qualquer eleito pode ser apeado da sua representação, por referendo;

3.  nenhum eleito pode fazer da política profissão, tendo portanto apenas um ou dois mandatos de exercício;

4.  o poder político reside na AR de cujos membros sairá o governo, sem para-quedistas vindos sabe-se lá de onde, como o Gaspar;

5.   aplicação do princípio da subsidiariedade, não como contido no artº 5º do Tratado da UE mas como forma de fomentar a descentralização das decisões, a autonomia e a autogestão;

6.   A administração pública – aberta nas suas decisões e funcionamento ao escrutínio de qualquer cidadão – não dependerá de nomeações e exonerações do governo, possuindo pois, um quadro autónomo.

Acrescentamos ainda algumas notas sobre a radicalidade.

A radicalidade está no discurso da direita e dos mercados financeiros; pretendem assustar as pessoas para manter no poder os partidos de direita (Portugal e Espanha) ou atribuir à outra direita (PS’s e afins) uma imagem de alternativa responsável para que tudo se mantenha na mesma.

De facto, quer o Syriza quer o Podemos têm projetos social-democratas que só parecem radicais porque os partidos ditos socialistas há décadas abandonaram qualquer referência progressista e democrática. O PS português foi considerado anos atrás como o mais à direita da UE e não é difícil ver isso se observarmos a história dos últimos 40 anos; basta olharmos para os companheiros do PS português na Internacional Socialista, com destaque para o ”socialista” Eduardo dos Santos de Angola ou o partido do Hollande.


15/2/2015

Este e outros documentos em:    

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

O OUTONO DO NOSSO DESCONTENTAMENTO ESTÁ AÍ

Sumário
A tara privatizadora
Nova contabilidade junta dívida à dívida
Retoma, onde te escondes?
A brilhante classe política portuguesa


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A tara privatizadora

A desaparição da PT, engolida na Oi, faz lembrar quando a empresa teve de ceder a Vivo à Telefónica[1] com altos lucros para os acionistas, dominados pelo BES, o mesmo que, recentemente, utilizou o seu agente Granadeiro e outros para uma golpada de 900 M na PT; esta empresa foi uma desnatadeira do regime cleptocrático vigente há perto de 40 anos, RIP.

Também a Cimpor foi comprada por brasileiros, a EDP por chineses, a REN por franceses, a Tranquilidade ficará para americanos, a Espirito Santo Saúde para mexicanos, etc. enquanto o cervejeiro nomeado para ministro se afadiga na magna tarefa de vender a TAP, depois de concretizada a alienação dos CTT. Tudo isto para além da costumeira e silenciosa[2] privatização que se oculta nas rubricas de fornecimentos e serviços de terceiros das entidades públicos, como emanações contabilísticas de lógicas de downsizing complementadas com outsourcings. Essas designações em inglês constituem pretensões provincianas de modernidade ou - de pugresso como verbaliza Cavaco – que ocultam a indigência cultural dos mandarins governamentais. Está aberta uma feira internacional de privatizações com saldos, promoções e contribuições para o cofre do partido.

Tornou-se uma imagem de marca do gang governamental um afã privatizador que já ultrapassou, largamente, as exigências da troika[3], podendo a qualquer momento surgir a privatização da água. Na banca, em breve o domínio nacional ficará reduzido à CGD, descapitalizada pelo gang PSD/PS, para tapar o buraco BPN; e portanto, uma CGD barata quando em rampa de lançamento de privatização. Quanto ao BES-bom, a banca concorrente interessada na compra tem todo o interesse na sua desvalorização[4] sendo o dinheiro público - previamente emprestado pela troika e colocado no Fundo de Resolução[5] - um sério candidato a perdas, necessárias para que a feira dos saldos se apresente competitiva.

Segundo nos confidenciou Marques Mendes, bem informado sobre o que se diz no Conselho de Ministros e arredores, o governo prepara novas fontes de receita. O pré-fabricado Maduro, cuja voz emite som de gaita, propôs uma concessão, durante vinte anos, da expressão da língua portuguesa em Portugal à Bertelsmann que cobrará a todos os falantes uma taxa, a incluir na fatura da eletricidade; ficando isentos bófias, militares, a confraria da toga e a classe política, por sugestão de vários ministros. Passos ficou de consultar o Moedas, agora com a pasta da inovação em Bruxelas.

Por seu turno, o inteligente Pires das cervejas defendeu parcerias público-privadas para todas as Ruas Direitas ou Ruas Tenente Valadim do país, com pórticos a instalar também nos passeios; e, finalmente, o Aguiar Branco propôs que a sua firma de advogados inicie contactos para que ao nome do mosteiro dos Jerónimos se acrescente Fly Emirates, pagando os Emirados a promoção a efetuar junto dos turistas.

As fantasias nos parágrafos anteriores não são muito diversas de outras efetivamente despejadas nos media pelo gang governamental.

A primeira prende-se com Portas, quando afirmou ter Lagarde cometido um “lapso involuntário” (poderia ter sido um “lapso de esquecimento”, não?) porque aquela não relevou o esforço governamental na redução (?) do desemprego.

A segunda saiu da cloaca de um untuoso criativo, secretário do carocho Mota Soares, segundo o qual "a solução que está encontrada (para o emprego) é uma solução que privilegia que os serviços privados de emprego podem ser exercidos em função da atividade económica que as entidades venham a deter. Significa isto que empresas de trabalho temporário que tenham uma atividade económica também associada às agências privadas de colocação poderão naturalmente desenvolver essas atividades"[6].

Até ao século XIX havia pessoas apanhados nas zonas da floresta africana, encaminhadas como escravos, por sobas do litoral que os comercializavam com os ocidentais, com relevo para os portugueses, por troca com armas, álcool e missangas. Cerca de dois séculos depois os sobas do governo, bem dentro da tradição de traficantes, capturam desempregados e entregam-nos aos atuais negreiros, as empresas de trabalho temporário, cuja função útil se desconhece. Pela conversa do volumoso energúmeno, a civilização deverá recuar dois séculos, para bem do banditismo, do empreendorismo, do mercado, da competitividade.

Nova contabilidade junta dívida à dívida

Dia 1 de setembro terão sido refletidos nas contas nacionais as alterações contabilísticas integradas num novo plano estatístico (SEC10) para as contas do Eurostat. Quando a dívida pública representava 125.7% do PIB (dezembro/2013) orçava-se que aquelas alterações contabilísticas fariam elevar aquela relação para 136% quando introduzidas a partir de setembro[7]. Ora acontece que em julho último e antes da aplicação da nova norma, a dívida pública estará pelos 132.8% do PIB, sendo de prever uma nítida ascensão quando forem revelados dados de setembro, lá para novembro, com a inclusão nas contas, de entidades até agora não consolidadas em termos de dívida pública, no âmbito das operações de desorçamentação que foram regra até anos recentes. E ainda falta ver como se contabiliza o apoio ao Fundo de Resolução do BES-bom e, sobretudo o tóxico que dali possa emanar.

Retoma, onde te escondes?

A evolução recente tem vindo a confirmar tudo o que dissemos em março, quando demonstrámos não ser pagável a dívida pública portuguesa[8], ao contrário do governo que vem enganando a população com uma retoma que não se afirma, de uma melhoria das contas públicas sempre adiada e com uma oposição tosca que se contenta em pedir as migalhas de uma reestruturação, para não magoar Bruxelas, Frankfurt ou o capital financeiro global.

Apesar de privatizações, cortes na despesa e aumentos de impostos, de alterações na legislação do trabalho, no cálculo das pensões, a dívida continua a crescer regularmente acentuando a relevância dos seus encargos em juros e amortizações, como comentámos, a propósito do Documento de Estratégia Orçamental (DEO) do governo[9].

A constante promessa de que a redução da dívida pública está próxima, de que a austeridade vai acabar, de que a retoma já está no terreno, não se têm verificado. O relógio que o sacripanta Portas colocou a contar os dias em falta para a saída da troika, terá avariado ou não passou de um truque infantil para ocultar a tutela da UE enquanto a dívida pública não se quedar pelos 60% do PIB e o deficit na ordem dos 3%. A OCDE, pouco suspeita de antipatia para com as receitas da troika, da UE, do FMI para com países endividados e empobrecidos revela que Portugal não sai do atoleiro, após mais de três anos de austeridade e cortes.


Num plano global de anemia económica é nítido que Portugal começou a regredir desde março, pouco depois da Irlanda e da Alemanha, enquanto a Espanha e a Grécia mantêm um pendor ascendente há bastante mais tempo. Lagarde sabia o que dizia sobre a marcha das economias dos países intervencionados e, se referiu Espanha e não Portugal como um caso de saída da fossa, não foi por “lapso involuntário” como disse o pantomineiro Portas.

No gráfico que se segue evidencia-se uma grande redução do saldo da balança corrente – que até se tornou positivo no último semestre do ano transato - mas que se deteriora já este ano, pela primeira vez desde 2011. Esse menor desequilíbrio deveu-se essencialmente à quebra das importações, na sequência do menor poder de compra da população e da grande quebra do investimento; e, menos ao aumento das exportações. No primeiro semestre de 2014, pela primeira vez no período considerado, aumentam as importações e reduzem-se as exportações, contrariamente à estúpida fixação na ortodoxia neoliberal levada a cabo pelo subserviente governo em funções. Essa estupidez acaba de ser vincada pela Comissão Europeia quando afirma[10] que a intervenção da troika "contribuiu para a implementação de reformas com vista a melhorar a competitividade" e que "o futuro crescimento económico (de Portugal) deve ser baseado na capacidade de aumentar a exportação de bens e serviços com alto valor acrescentado, juntamente com a capacidade de atrair investimento estrangeiro". Para os teólogos neoliberais cada capitalista deve produzir para a exportação, ser competitivo e desprezar o consumo interno que deverá ser satisfeito por bens e serviços importados. Mas como esta filosofia é aplicada por todos e a competitividade repousa no esmagamento de salários e outros rendimentos, a recessão fica garantida para todos.
                                                                         Fonte primária: Banco de Portugal

Neste contexto ideológico que favorece o capital financeiro e a transnacionalização da estrutura produtiva global, são cada vez menos comuns os gorgolejos patrióticos sobre os centros de decisão nacionais, vindo de muitos dos que traficam ações para engordar contas em off-shores. A própria Comissão Europeia coloca delicadamente uma questão relevante – pouco falada em Portugal; a da histórica baixa qualidade dos capitalistas lusos, incapazes de investir para além das altas cilindradas mas hábeis no fomento de uma classe política tão indigente cultural quanto corrupta (uns por ação, outros porque olham para o lado).

Diz também a Comissão que se deve combater a falta de investimento. Ora, como se sabe, a Comissão acreditará que a lógica de Draghi em reduzir a taxa de referência para 0.05% vai promover catadupas de investidores na zona euro; o que equivale a acreditar que o fim da URSS resultou das preces em Fátima pela “conversão da Rússia”. Num quadro típico de recessão, com a redução do poder de compra, o desemprego, etc. ninguém se mete em negócios (excepto armas, órgãos humanos, imigrantes, corrupção e especulação financeira). E é inútil imaginar como o faz o BCE que baixando a taxa de juro aumenta os apetites investidores.

Deverão ser as pessoas a tomar o seu futuro nas suas próprias mãos ou terão de suportar - e em agravamento - as manobras do capital financeiro, dos capitalistas em geral e dos seus funcionários da classe política.

A brilhante classe política portuguesa

A propósito da classe política é interessante ver como se sucedem os desastres governamentais pelas mãos do matemático Crato[11] e ver os reitores das universidades preocupados com a empresarialização do ensino e a competitiva captação de estudantes estrangeiros para compor o orçamento, bem como o fomento de bolseiros para toda a vida. Ou observar como a advogadeca Teixeira da Cruz se atasca no downsizing (mais um) do sistema judiciário, com o programa informático central bloqueado[12] e processos com folhas trocadas ou a voar numa avenida de Setúbal tal como ver como em poucos meses, o pomposo DEO – Documento de Estratégia Orçamental ficou obsoleto. E ainda recordar como Passos ou Portas de férias deixaram o assunto BES nas mãos do Carlos Costa do BdP, como frágil tradutor dos despachos de Draghi. Enfim, tudo num plano no qual, em institutos e reguladores se encaixam os elementos de uma administração pública paralela criada com os membros mais ignotos do partido-estado ou jotinhas, enquanto os verdadeiros funcionários são convidados à rescisão.

Quanto ao que se chama eufemisticamente “oposição” o espetáculo não é melhor até porque o acesso aos meios do Estado é muito menor. O PS anda envolvido num wrestling verbal entre o encarregado de um interregno cujo fim se aproxima e um mafioso convencido de ter chegado a hora de se candidatar ao pódio, salivando com o cheiro do orçamento do Estado, muito superior ao da autarquia lisboeta. Enfim, a luta entre um D. António, prior do Rato e um outro D. António que quer ser o prior seguinte.

Para os lados menos à direita do espectro eleitoral, o PC anuncia uma recolha de fundos para alargamento do seu Parque Jurássico onde poderão proceder à preparação de postes fronteiriços após uma tão desejada saída do euro. O minguante BE discute o sexo dos anjos a apresentar na sua convenção, incapaz de se emancipar do seu guru fundador, que se desdobra em livros e guiões, na apresentação de serviço, para ser ministro do novo governo do PS.

Neste desastre económico e nesta miséria política, alguém se poderá admirar que Portugal seja apenas um local geográfico onde se cruzam redes transnacionais de negócios, que se estão nas tintas para qualquer harmonia estrutural da economia paroquial? Resulta de tudo o que se disse, um país subalterno e 10.5 M de colonizados, com muitos tontos a sonhar com soberania, fronteiras, com uma melhor seleção de futebol, numa olímpica ignorância das caraterísticas do capitalismo de hoje.

Qualquer solução passará sempre pela ação conjunta dos povos europeus, do sul especialmente, contra o capital financeiro, as multinacionais e as classes políticas nacionais ou destacadas em Bruxelas.

E se não mexermos os pezinhos nem colocarmos as meninges a borbulhar, coletivamente, sem gurus nem chefes partidários, devemos estar preparados para longos invernos de frio, muitos verões de seca, fome nas barrigas a contrastar com a abundância de promessas e comentadores na tv.

Outros documentos em: 
   




[1]  http://www.slideshare.net/durgarrai/pt-cimpor-e-banca-as-atribulaes-de-um-capitalismo-subalterno
[2]   http://www.slideshare.net/durgarrai/segurana-social-processos-de-descapitalizao-1
[4]    http://www.jornaldenegocios.pt/empresas/detalhe/ulrich_estou_convicto_que_o_novo_banco_nao_vale_49_mil_milhoes.html
[5]  http://grazia-tanta.blogspot.pt/2014/08/o-bes-bom-o-bes-mau-e-ma-gestao-dos.html
[11] O matemático alterou o algoritmo da sua vida quando viu, depois de 1975, que a ditadura do proletariado lhe não traria tacho e poder
[12]  http://www.noticiasaominuto.com/pais/273402/ha-dois-anos-que-ministra-sabia-que-citius-ia-dar-problemas