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domingo, 15 de fevereiro de 2026
Sobre a União dos povos europeus e a tara sionista
Distingue-se totalmente a UE dessa União. O estado-nação tem sido um verdadeiro calvário para a existência
dos povos e para o caudal de guerras desde a sua real formação no século XVII, na sequência da herança dos
territórios das diversas casas dinásticas. Não nos devemos enrolar na lixeira da conjuntura e das corruptas
classes políticas.
A União dos povos europeus é uma ideia de superação das pátrias, dos nacionalismos, do capitalismo, dos
tentaculares e opressivos aparelhos de estado, provavelmente mais viável na Europa, do que em outros
continentes, tendo em conta o entrosamento entretanto gerado pelos povos – migrações, Erasmus, internet,
turismo, para além de operações militares. É um projeto de constituição de solidariedade entre os povos,
sem prejuízo das suas culturas próprias.
Não é difícil entender por que razão os estados - português ou sionista - se dão bem. Em parte, é a história
de ambos os projetos coloniais — tão recente que coexistiram em mais de duas décadas — o que torna tão evidente o
que têm em comum.
Primeiro, o império português foi fundado na mesma lógica que, no século XIX e XX, serviu como princípio
fundador para a criação do regime sionista: a ideia de que, do outro lado, as gentes indígenas que viam as
suas vidas colonizadas e os seus territórios ocupados era, sub-humana e até animalesca. Por seu turno,
o cronista do reino português Gomes Eanes de Zurara escrevia, em Chronica do descobrimento e conquista de Guiné,
no ano de 1453, que as pessoas guineenses raptadas por colonos portugueses eram “bestas”, descrevendo-as como
“almas perdidas” e, com isso, justificando a sua escravatura.
O ex-ministro sionista da Defesa, Yoav Gallant disse, pouco tempo depois de 7 de Outubro último, que o
seu exército estaria a lutar “contra animais humanos”, justificando, polindo, o genocídio em curso. Entre
uma e outra afirmação passam-se quase 600 anos, mas a ideologia por detrás de ambas é a mesma: a de que as
pessoas não-brancas não são humanas; estão, na “zona do não ser”, como escreveu Franz Fanon em Pele Negra,
Máscaras Brancas,
Nos momentos em que se viram a perder o apoio que sempre tiveram, cada vez mais isolados internacionalmente, “orgulhosamente sós”, ambos os impérios escalaram a violência e trataram de denominar quem lhes resistia como “terroristas”. Se Salazar decidiu, “rapidamente e em força”, embarcar numa guerra que acabaria por assassinar
dezenas de milhares de pessoas e deixar tantas outras feridas, presas, deslocadas ou dependentes, também
Netanyahu assim o fez desde há seis décadas.
Numa das leis fundadoras do Estado sionista, lê-se:
Israel é a pátria histórica do povo judeu na qual o Estado de Israel foi estabelecido. O Estado de Israel é o
Estado-nação do povo judeu, no qual realiza o seu direito natural, religioso e histórico à autodeterminação.
A efetivação do direito à autodeterminação nacional no Estado de Israel é exclusiva ao povo judeu [...]
O Estado vê o colonato judaico como um valor nacional e trabalhará para incentivar e promover o seu estabelecimento
e desenvolvimento.
E, se as semelhanças entre os dois projetos são muitas, é preciso reconhecer também que há uma diferença
significativa: mesmo que a linguagem do regime português tivesse sido racista e colonial, nunca ela chegou
ao espaço linguístico que os lideres sionistas alcançaram nos últimos dois anos.
É verdade que o longuíssimo e sombrio fascismo luso, se se deveu também à capacidade de Salazar para escolher
palavras certas, a estratégia de se agarrar ao poder, de desenhar um estado, “tão forte que não necessitasse
de ser violento”.
Por outro lado, os sionistas dizem tudo ao que vêm. Só até janeiro de 2024, o coletivo Law for Palestine
listou mais de 500 declarações de incentivo ao genocídio por parte de militares, políticos, jornalistas
e influenciadores israelitas. A organização de direitos humanos da palestiniana Al-Haq conta, agora,
mais de mil pessoas. E, ainda assim, parece que se continua a não acreditar nas suas palavras.
“Toda a Gaza será judaica”, disse o ministro do Património, Amichay Eliyahu. Entre um “1 milhão
e duzentos mil palestinianos, devem sair da Faixa de Gaza 700 mil, disse a ministra da Ciência e Tecnologia,
Gila Gamliel. “O meu plano de migração voluntária é viável e será posto em prática.”
“A Faixa de Gaza deve ser terraplanada; os palestinos terão apenas uma sentença possível, que é a morte”,
disse Yitzhak Kroizer, deputado sionista, do partido Otzma Yehudit de Itamar Bem Gvir.
“Estou, pessoalmente, orgulhoso das ruínas de Gaza e de que todos os bebés, mesmo daqui a 80 anos, vão
contar aos seus netos o que os judeus fizeram”, disse May Golan, ministra da Igualdade Social.
Erradicar Gaza. Nada menos do que isso nos satisfará. Não deixem lá uma só criança e expulsem todos os que
restarem, para que não tenham qualquer hipótese de recuperar”, escreveu Nissim Vaturi, vice-presidente do
parlamento israelita.
Estes responsáveis e decisores políticos não descrevem apenas o que querem fazer com Gaza hoje. Falam também das aspirações coloniais de amanhã.
Moshe Feiglin, líder do partido Zehut, disse: “Cada criança, cada bebé em Gaza é um inimigo. O inimigo
não é o Hamas. Precisamos de conquistar Gaza e colonizá-la e, não deixar lá uma única criança de Gaza.
Não há outra forma de alcançar a vitória.”
O ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, disse: “Nós conquistamos, limpamos e ficamos no caminho, aniquilamos
tudo o que ainda resta. Estamos a destruir Gaza deixando-a como a uma pilha de escombros, uma destruição total
sem precedentes. E o mundo ainda não nos impediu.” Mais recentemente, disse ainda: “Já completamos a fase de
demolição, que é sempre a primeira etapa da renovação urbana. Agora é preciso construir.” Será, defende ele,
“uma oportunidade imobiliária de ouro”.
O ministro da Segurança Nacional, Itamar Bem Gvir, disse: “Rezamos para que os justos e bondosos soldados
do IDF [sigla, em inglês, para as forças armadas israelitas] cumpram a missão, conquistem Gaza e encorajem
a emigração voluntária. É o certo, é apropriado, é moral, é verdadeiro. E disse ainda: “Se mudarmos a nossa
mentalidade e compreendermos que esta terra nos pertence, tudo se torna mais simples. Derrubar o regime do Hamas.
Primeiro ocupar, depois estabelecer, anexar e encorajar a emigração voluntária. Esse é “o caminho a seguir.”
E não param sequer em Gaza. “Querem soberania?”, perguntou ao público israelita numa conferência o ministro
Amichay Eliyahu. “Então, gritem! Querem a Judeia e a Samaria [o que o estado de Israel chama à Cisjordânia]?
Querem a Síria? Querem o Líbano?”, “Sim!”, respondem.
O ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, disse: “Nós vamos aplicar a soberania sobre a Cisjordânia, primeiro
através de ações no terreno e, posteriormente, por meio de legislação e reconhecimento formal”. Disse ainda que
o trabalho da sua vida é o de “impedir qualquer possibilidade de se estabelecer um Estado palestiniano no
coração do país [Israel]. O objetivo é mudar o ADN do sistema por muitos e muitos anos. Isto é uma revolução:
é assim que se traz um milhão de pessoas para a Judeia e Samaria”.
O ministro dos Negócios Estrangeiros, Gideon Saar, disse que, se os países europeus estão “tão entusiasmados
com a criação de um Estado palestiniano, podem fazê-lo nos seus próprios territórios”. Acrescentou: “É uma ilusão
pensar que o futuro da Judeia e da Samaria, o berço do povo judeu, será decidido em Paris, Madrid ou Bruxelas.
Será decidido apenas em Jerusalém.”
E o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu disse, ao anunciar a ampliação de um colonato que pretende separar
Jerusalém do resto da Cisjordânia: “Dissemos que não seria criado um Estado palestiniano e, de facto, não
será criado. […] Esta decisão vai duplicar a população da cidade de Ma’ale Adumim. Haverá aqui 70 mil
pessoas dentro de cinco anos.”
Não só os líderes sionistas sabem perfeitamente o que estão a fazer, como o dizem para que todos saibamos também.
É por isso que qualquer pessoa que tenha estado minimamente atenta às suas palavras, não pode acreditar que os representantes de estados europeus não o saibam também. É óbvio, hoje, que representantes do Estado e do
governo português — como o ministro dos Negócios Estrangeiros Paulo Rangel, o presidente da República Marcelo
Rebelo de Sousa e o primeiro-ministro Luís Montenegro — entendem tão bem quanto nós que o genocídio que o Estado
sionista leva a cabo na Palestina é, de maneira assumida, a continuação da limpeza étnica de um povo e da estratégia de ampliação colonial que, há mais de 100 anos, temos assistido.
Perante isto, Paulo Rangel escolhe tomar uma única decisão: a que, de maneira mais subtil, procura garantir
que pelo menos fez alguma coisa não fazendo coisa nenhuma. O ministro sabe que o estado israelita não deixará
que exista, realmente, um estado palestiniano. Sabe também que o recente reconhecimento deste estado é,
na verdade, um ato sionista, de apoio à manutenção do status quo — por isso mesmo, deixou imediatamente claro
o seu apoio ao império. E sabe, claro, que este acto não vai, de maneira nenhuma, desafiar a limpeza étnica do povo palestiniano.
Paulo Rangel, Marcelo Rebelo de Sousa e Luís Montenegro são entes vassalos do projeto imperial sionista. Acreditam,
como antes acreditaram os líderes do projeto colonial português, que pessoas brancas são sobre-humanas, estão na
zona do não ser. Estivessem eles na mesma posição que Netanyahu, tomariam as mesmas decisões. Por isso, ficarão
para sempre na história ao deixarem clara uma coisa fundamental: que o estado português de hoje só difere do
formado há mais de 500 anos pela falta de poder.
ESCUTA COLETIVA
27 SETEMBRO | 14H
RED ZONE GALLERY | PÓVOA DE SANTA IRIA
Nesta escuta coletiva, convidamos-te a vires ouvir connosco o episódio Amanhecer em Gaza, construído com textos e testemunhos de antes e durante o genocídio em Gaza, recolhidos pelo livreiro Mahmoud Muna e o jornalista Matthew
Teller. Esta sessão de escuta, partilhada e imersiva, com auscultadores, acontece na Red Zone Gallery, uma galeria
de arte pública dedicada à Palestina, criada nas ruínas de um espaço abandonado.
domingo, 7 de junho de 2020
A passagem da pandemia ao aprisionamento do trabalho (2)[1]
1 - Qual
a pior pandemia? Um Estado totalitário ou um covid-19?
2 – O
negro cenário para o ano de 2020 e seguintes
3 – Democracia
em estado terminal
//////////
----- \\\\\\\\\\
1 - Qual a pior pandemia? Um Estado
totalitário ou um covid-19?
As fronteiras nacionais, numa lógica de gestão de
grandes espaços, no âmbito excepcional da covid-19, fecharam-se, por razões
sanitárias, para evitar uma expansão acelerada da presença do vírus, como uma
primeira e generalista abordagem, a exigir complementos menos latos do que
isso. E, como se viu, a pandemia não deixou de alastrar após o fecho das
fronteiras, como iria também resistir aos confinamentos dentro dos espaços
nacionais. Mas, aplicar o mesmo modelo – fecho de fronteiras - a regiões,
cidades, vilas, aldeias e chegar à mónada habitacional ou familiar, é um
exemplo de gestão ditatorial, massificada, não tipificada nem inteligente, cega
e cara, passados três meses de aplicação; e, acrescente-se a punição da vida
social que chega ao sagrado futebol, retomado com bancadas vazias, os milhões
de mascarados (em plena canícula), os transportes condicionados e … 1.5
M de trabalhadores em layoff e muita
reivindicação por parte dos chamados empresários; estes que, no caso
português, são verdadeiros campeões na fuga fiscal e na fraude contributiva. Os
Estados e as classes políticas gostam de exibir o seu poder e de ver a plebe
submetida; isso garante a sua parasitária sobrevivência.
Observem-se
alguns marcos da evolução da atuação governamental, em Portugal, para com o
coronavírus;
- 4/3 – Registo de 6 infetados;
- 18/3 – Estado de emergência - a situação era então, de 2 mortos e 642 infetados
- 31/3 – 160 mortos e 7443 infetados repartidos por 142 concelhos (com os restantes 163, sem casos)
- 30/4 – 989 mortos e 24692 infetados repartidos por 225 concelhos (80 sem casos)
- 3/5 – Fim do estado de emergência e início e do estado de calamidade - 1063 óbitos e 25524 casos confirmados (79 concelhos sem casos)
- 5/6 – 1465 mortos e 33969 infetados repartidos por 230 concelhos (75 sem casos)
- A situação excepcional decretada para a Área Metropolitana de Lisboa revela o fracasso da contenção da pandemia, nomeadamente na Azambuja que… fica fora da AML
Teria
sido mais inteligente, atuar localmente, com quarentenas ou isolamento de áreas
circunscritas onde se tenham detetado infeções, com pesquiza junto de
familiares e outras relações pessoais ou de trabalho, para a deteção de
contagiados;
Não
é difícil verificar que a pandemia progrediu mesmo no contexto de repressão
massificada expressa entre estados de emergência e de calamidade. E isso,
porque;
·
o combate terá começado demasiado tarde (18/3,
com o estado de emergência) tendo em conta o período de duas semanas que o
vírus pode esperar até encontrar uma vítima. Assim, alguém contaminado depois
de 3/3 teve possibilidades de espalhar o vírus, impunemente, até ao início da
quarentena;
· não se atuou, prioritariamente, na defesa da
população mais frágil – os idosos – nomeadamente internados em lares, bem como
nas pessoas que deles cuidam;
·
preferiu-se, em contrapartida, fechar escolas e,
implacavelmente confinar crianças a uma clausura absoluta, com o resto da
família, eventualmente com alguém em teletrabalho:
·
nesse seguimento, o dueto Marcelo/Costa colocou
problemas logísticos às famílias que sob o nome de quarentena para promover uma
enorme reestruturação no mundo do trabalho, com layoffs e despedimentos;
· e, logo se tornou claro que o empresariato luso
iria encontrar terreno macio para gerar condições de obter financiamentos
públicos, como referimos
na ocasião, em abril; tendo como padrinhos, Costa e Marcelo.
Ainda
recentemente, na
Suíça, a deteção de uma família com três casos obrigou à inventariação de
possíveis contaminados, mantendo-se os não suspeitos no seio das suas
atividades normais; e, certamente, não irá fechar nenhum cantão. A Suíça tem um
histórico de infeções com um número semelhante ao de Portugal, com uma muito
elevada taxa de recuperados (92%) ainda que com um número maior de óbitos.
Em
Portugal, certamente, em óbvia cópia do observado na maior parte da Europa,
toda a vida social e presencial foi abolida, mesmo nos concelhos (cerca de 80
onde nunca se detetou caso algum) e onde uma infeção só poderia vir do exterior
ao concelho. Entre esses casos, contam-se quatro ilhas açorianas onde uma
idiotia cega aplicou a receita global – fechar todas as escolas e não colocar o
nariz fora de casa que não para ir ao supermercado ou, passear o cão!
Em
vez de se apurar os casos, as ramificações sociais dos infetados, para uma
atuação específica e orientada preferiu-se um “fecha-se tudo e logo se vê”. E,
entretanto surgiram os casos da Azambuja que determinaram uma condição de maior
rigor na circulação em toda a Área de Metropolitana de Lisboa… a qual não
inclui a Azambuja mas engloba concelhos onde os casos de infeção foram de
escassas dezenas (Alcochete, Palmela e Sesimbra).
A
situação na Azambuja – mormente em áreas logísticas de supermercados – resultou
de dois factores. O primeiro é o devido respeito que a classe política tem para
com os herdeiros das duas maiores fortunas portuguesas, muito ligadas à
exploração de grandes superfícies[2];
o segundo, é o desprezo manifestado para com os trabalhadores, muitos deles
imigrantes, vindos do Brasil e da Ásia.
Nos
casos de concelhos com poucos casos (78 com 10 ou menos casos, entre os quais
25 concelhos com 5 ou menos infetados) não seria mais inteligente uma avaliação
dos contactos familiares, de trabalho ou integrados em viagens para se proceder
então a eventuais confinamentos? Sabendo-se que na maioria desses casos se
trata de concelhos com pouca e envelhecida população, eventualmente, muito
sedentária, a matriz de relacionamentos sociais seria de fácil identificação,
não?
Está
em curso uma vasta gama de apoios às empresas, que se desdobram em
reivindicações junto do Estado e, particularmente das suas figuras de cúpula –
Marcelo e Costa. Os comensais da dita Concertação Social consideram mais
interessante manter
disponível a bolsa de trabalhadores em regime de layoff simplificado – isto
é uma reserva de mão-de-obra – do que pagar subsídios de desemprego. Circulam
por aí, muitas ideias e reivindicações cujo ponto comum é, em regra, a mão
estendida ao apoio estatal. Assim,
·
O empresariato prevê
recuperar um Pedip 5.0 (que vigorou nos anos 90) e adorná-lo com € 10000 M.
Outro projeto é a entrada de dinheiro público nas empresas sob a forma de
capital de risco. Outros pedem a suspensão de parte da fiscalidade. Mira Amaral
entende poder atrair investimento chinês, talvez tendo em conta que, desde
2013, os salários chineses se situam acima dos níveis portugueses;
· É sabido que as empresas da hotelaria e da
restauração sofreram um rude golpe com os encerramentos forçados e, tendo em
conta a ausência de turistas e os distanciamentos nos restaurantes, a
recuperação estará para durar;
· Por seu turno, metade dos trabalhadores
por conta própria apontam para perdas de rendimento dos 60-80%;
· O António Saraiva, da CIP, informa que é preciso
um layoff simplificado para 12000
trabalhadores qualificados do setor automóvel, até setembro e, não até junho
como previsto… e em setembro vão prorrogá-lo até quando? Segundo um inquérito
da CIP realizado em fins de abril/princípios de maio, 84% das empresas consideram
os apoios insuficientes e 40% revelam ter pedido financiamento bancário; e teriam
pedido layoff simplificado 48% das
empresas contra 44% que o não iriam pedir. A crise está aí, para durar e, desta
vez, na Europa todos vão vestir-se de PIIGS!
Desde
sempre, os trabalhadores foram coagidos a ser moderados nas suas
reivindicações, cabendo aos capitalistas a total responsabilidade pela
viabilidade das empresas, pelo seu devido financiamento. Ora, o layoff consiste em colocar trabalhadores
numa bolsa – que não é emprego, nem desemprego - a que se recorre para ajudar
as empresas, com efetiva redução dos salários tendo como contrapartida de
subsistência fundos da Segurança Social. Isto é, a viabilidade financeira das
empresas não depende dos fundos aplicados pelos seus proprietários, da
agressividade nas vendas, da qualidade dos bens ou serviços mas, da aceitação
(por obrigação estatal) pelos trabalhadores de entrarem num género de fundo de
desemprego, esperando tempos melhores. Como sempre, o Estado ajuda os
empresários (é para isso que foi criado, como capitalista coletivo ou coletivo
dos capitalistas) e obriga os trabalhadores a contribuir solidariamente para
essa ajuda; um corporativismo descarado que nem Salazar praticou. O custo da operação
de layoff, até julho será de € 2500 M…
o que até nem é muito, se se pensar nos € 11900 M que o empresariato deve à
Segurança Social (em … 2017 porque nenhum governo consegue divulgar dados da Segurança
Social com menos de dois anos de atraso).
2 – O negro cenário para o ano de 2020 e
seguintes
No
contexto europeu marcado pelo baixo crescimento (e subsequente decrescimento)
do santificado PIB e, de grande incerteza no âmbito dos chamados “mercados
financeiros”, a pandemia veio dar uma boa oportunidade para o reforço do
caráter oligárquico e autoritário dos regimes de democracia de mercado e do
poder dos seus governos, parlamentares e mandarins incrustados no aparelho de
estado.
Mesmo
que, entretanto, venha produzindo uma quebra, a pandemia tenderá a ser
aproveitada para uma
redução das pessoas com trabalho, com aumento dos desempregados, da
precariedade, da quebra real de direitos, da prática de horas de trabalho não
pagas, do aumento dos anos de vida no trabalho (com reduções reais das pensões
de reforma) e outras práticas repressivas e empobrecedoras perante o total
apagamento dos sindicatos, há muito satisfeitos ou conformados por se sentarem
à mesa das “negociações” da chamada concertação social.
Porém,
tanto desvelo com os chamados empresários fica muito longe de suplantar a crise
na economia e no emprego, em toda a UE
|
Variação do
PIB (%)
(previsão 2020)
|
Taxa de
desemprego
|
||
|
2019
|
2020
|
||
|
Bélgica
|
-7,2
|
5,4
|
7,0
|
|
Alemanha
|
-6,5
|
3,2
|
4,0
|
|
Espanha
|
-9,4
|
14,1
|
18,9
|
|
França
|
-8,2
|
8,5
|
10,1
|
|
Itália
|
-9,5
|
10,0
|
11,8
|
|
Holanda
|
-6,8
|
3,4
|
5,9
|
|
Portugal
|
-6,8
|
6,5
|
9,7
|
|
Zona euro
|
-7,7
|
7,5
|
9,6
|
|
Dinamarca
|
-5,9
|
5,0
|
6,4
|
|
Polónia
|
-4,3
|
3,3
|
7,5
|
|
Suécia
|
-6,1
|
6,8
|
9,7
|
|
Total U E
|
-7,4
|
6,7
|
9,0
|
|
GB
|
-8,3
|
3,8
|
6,7
|
|
China
|
1,0
|
..
|
..
|
|
EUA
|
-6,5
|
3,7
|
9,2
|
|
Mundo
|
-3,5
|
..
|
..
|
https://ec.europa.eu/info/sites/info/files/economy-finance/ecfin_forecast_spring_2020_overview_en_0.pdf
Para Portugal, o FMI é mais severo do que a UE e prevê uma
recessão de 8% e uma taxa de desemprego de 13,9% em 2020. Por seu turno, o
Banco de Portugal, numa previsão feita ainda em 26 de março, projetou uma
recessão de 3,7% (cenário base) a 5,7% (cenário adverso), com as respetivas taxas de desemprego nos 10,1% ou
11,7% no final do ano[3].
No entanto, o mago Centeno afirma que
“A
austeridade significa, em períodos recessivos, cortar despesa ou aumentar
impostos. Não vamos fazer isso, mas não vamos também colocar o Estado numa
situação débil" e estima uma derrapagem de € 13000 M. Deve estar a
contar com uma parte dos € 500000 definidos pela Comissão Europeia a
distribuir a fundo perdido, (€ 15500 M) para além do acesso a uma fatia (€
10800 M) dos € 250000 a título de
empréstimo, mas que não serão incorporados como dívida nacional para não afetar
os ratings dos países devedores.
Como é óbvio, foram mais lestos a penalizar
centenas de milhar de famílias com quarentenas e layoffs do que a baixar as taxas de IVA que tanto atingem a bolsa
dos portugueses e que continuam ao nível do decretado pela troika há sete anos.
3 – Democracia
em estado terminal
A
consolidação das democracias de mercado corresponde a uma total ausência de
democracia; embora o nome de democracia seja usado no âmbito do folclore
eleitoral, do espetáculo parlamentar, entre enxames de gente sem qualidade, aquartelados
nos chamados partidos. Como estes tendem a ter estratégias muito próximas, as
mudanças são muito escassas produzindo uma verdadeira putrefação dos regimes
políticos… mesmo que insistam em designá-los por democracias; e que,
estupidamente, a vulgata designa por representativa, embora a plebe esteja
excluída de qualquer representação efetiva.
Essa
mesma consolidação facilita o aproveitamento de todas as situações, de caráter
social, sanitário ou económico, para serem incluídas na lógica do capital,
fontes de acumulação, de redistribuição regressiva de rendimentos; a qual,
obviamente se processa a favor dos capitalistas. Note-se que, capciosamente, os
capitalistas são denominados pelos media e pelas classes políticas através de
anódinas designações, como empreendedores, empregadores ou empresários,
contagiando o grosso da população com designações meramente técnicas, despidas
de conteúdo político ou social, branqueadoras da existência do capitalismo e do
amaciamento dos seus nefastos resultados sobre os seres humanos e, sobre o
planeta.
Podem
desenhar-se vários instrumentos de aprofundamento do controlo dos seres
humanos, numa corrida em que o capitalismo, de momento, vai cavalgando o
coronavírus;
1. Um
deles será o agravamento das taras neoliberais, da confiança absoluta do
funcionamento dos mercados, sobretudo, financeiros[4]
de uma entrega individual às orientações, às modas, às regras do mercado, como elemento
ex machina que tudo resolve; e tudo
resolve porque tudo sabe, porque tudo é criado pelo mercado, nada havendo mais
do que o mercado. As pessoas são úteis enquanto contribuam para o funcionamento
do mercado, esmagadas se o não são; e lançadas para a valeta social ou, para a
prisão, onde o trabalho forçado será regra… com aproveitamentos mercantis da
brutal exploração dos presos – a maravilha do trabalho sem direitos.
2. Todos
os humanos serão controlados nos seus movimentos, nos seus pensamentos, nas
suas relações pessoais por chips
incorporados sob a pele à nascença, com a sua saúde manipulada através de
fármacos de toma tornada obrigatória pelo dueto do costume, Estado/classes
políticas. O controlo facial da população já é praticado na grande maioria dos
países e a presença obsessiva do telemóvel permite se saiba a localização e o
que pensam ou sentem grupos de pessoas, contidas num mesmo espaço ou, mesmo quando se afastam; simples queries indicarão os bens e serviços que
poderão utilizar, se são dóceis ou críticos da gestão política e das injeções
mediáticas.
3. O
mercado oferece a baixo custo telemóveis, internet, redes sociais e dúzias de app que as pessoas utilizam alegre e
descuidadamente, incorporando elementos de captação instantânea sobre a vida
social, laboral, afetiva, desejos, incertezas, sobre a saúde, hábitos…
facilmente utilizados para manipulações pelos poderes, comerciais e políticos.
As mentiras dos governos, as manipulações mediáticas têm uma longa história mas
nunca se viveu em plena época de “fake news”.
4.
O protagonismo dos grandes possuidores de
dinheiro – Bezos, Zuckerberg, Bloomberg e a consequente influência de fundações
do tipo Melinda & Bill Gates, são símbolos das mega-estruturas do
capitalismo globalizado e, o seu poder condiciona, se necessário, a grande
maioria dos governos e das classes políticas, sempre na procura de investidores
de nomes sonoros para, servilmente, apresentarem ao eleitorado.
Calcula-se
que a riqueza
conjunta dos 2095 indivíduos com mais de $ 1 000 M (1 bilião nos EUA,
GB ou Brasil – e daí a designação de bilionários) é da ordem dos $ 8 biliões
(8*10^12)… um “pouco” mais do que o balanço do FED que é só de… $ 7*10^12. E, no
top 5, encontram-se Bezos ($113*10^9), Gates[5]
($98*10^9), Arnaut ($76*10^9),
Zuckerberg ($68*10^9) e Ellison ($59*10^9).
Comparativamente,
os milionários de há uns 50/100 anos atrás, não passariam, hoje, de uma classe
média… com algumas posses.
5. A remessa
das populações para um confinamento em casa, oferece aos grandes poderes várias
experiências. Trabalhar em casa é uma forma de isolamento, de redução das
sociabilidade, que tende a tornar-se fora do contacto físico, do encontro e da
discussão cara a cara, sempre, claro, com o controlo proveniente das chamadas
redes sociais, das centenas de canais televisivos, sentidos como fontes de
verdade – “deu na tv” é tomado como um atestado de veracidade e de qualidade
para milhões de pessoas, para as quais a televisão é a exclusiva fonte da
informação.
Trabalhar
a partir de casa é uma amálgama entre a vida pessoal e a vida laboral, um
reforço da captura das pessoas pela lógica do capital; os horários de trabalho
diluem-se mas, poupa-se em tempos e custos de transporte nos circuitos
casa-trabalho; e, entretanto, garante-se o posto de trabalho, ficando por
aferir se, por exemplo, um habitáculo típico, permite a separação do local de
trabalho, do local de lazer ou da expressão de afetos.
Em
contrapartida, as empresas podem poupar na dimensão dos seus espaços e
respetivos custos, já sem a preocupação de estarem instaladas em zonas de
prestígio social ou empresarial. O trabalho online,
somado à utilização das chamadas redes sociais constitui uma vida confinada e associal,
atomizada; e, será saudável do ponto de vista psíquico? Da expressão das
afetividades? Da riqueza proveniente do contacto social efetivo? A contestação
laboral, já hoje, bastante débil, terá condições para se desenvolver?
Nessa
manipulação encontrar-se-ia uma nova elite, de nazis ressuscitados dispostos a
fazer encolher o rebanho humano de seres inúteis para que o planeta fique
disponível para eles e seus escravos. Os manipuladores de hoje e amanhã,
confinariam o rebanho humano, substancialmente reduzido, como na lógica nazi se
havia pensado para ocupar as boas terras da Ucrânia, esvaziadas de eslavos “inferiores”
e ocupadas pelos novos senhores. O mundo dito ocidental, liderado por wasp’s vive aterrado perante os
progressos da China, o crescimento populacional do chamado Sul global e o
envelhecimento da Europa. Os estrategas norte-americanos discutem se devem
priorizar a contenção da China, rodeando-a de cangalhada naval ou concentrar os
seus esforços na contínua desestruturação do Médio Oriente, a ancestral ponte
entre a Ásia e a Europa; a primeira opção é a preferida por Esper e a segunda é
defendida pelo CIAman, Pompeo.
O
neoliberalismo excludente que se apresenta para o dito mundo ocidental tem pela
frente uma potência económica em grande
florescimento – a China, também bem ciosa do controlo da sua população e capaz
de liderar um novo tempo de preponderância da Ásia, no conjunto do planeta,
cujo longo definhamento simbolicamente se iniciou com a chegada de Gama a
Calecut.
Essa
realidade asiática mostra-se bem mais numerosa demograficamente do que a soma
de uma heteróclita América do Norte em franca decadência e de uma Europa
envelhecida, dividida, sem projeto político que se enxergue; uma Europa com um
enquadramento geopolítico, cada vez mais, como península asiática, de onde
debandou um Reino Unido (unido até ver…) na esteira do Mayflower. Simbolicamente, é como que uma chegada da frota de Zheng
He a Lisboa como retribuição da chegada de Gama à Índia, como precursor da
decadência histórica da Ásia, até então, o berço das grandes civilizações.
6. A
aproximação da extinção
do dinheiro físico é outra forma de controlo da vida, outra forma de
isolamento e de total controlo pelo Estado e pelo sistema financeiro; as
transações não serão físicas, entre duas pessoas/entidades e o consumidor
tenderá a receber em casa tudo o que precisa, previamente pago por via
eletrónica. As compras podem chegar a casa, depois de encomendadas online,
reunidas em imensos armazéns onde se concentram milhares de trabalhadores, mal
pagos, precários, imigrados, sem direitos (os direitos no âmbito do trabalho,
não estarão em extinção?) – como é a norma das instalações da Amazon, a fonte
da engorda do Bezos.
7.
O distanciamento físico não reduzirá – longe
disso – o controlo do trabalho. As sociedades de controlo atingirão níveis
muito elevados de supervisão das vidas, desenvolvendo-se, em paralelo, a
separação entre as elites e os executantes, bem como a atomização dos últimos,
peças isoladas, frágeis e descartáveis sempre que conveniente. Tudo se
aproxima, através da precariedade laboral, pela não inclusão em espaços comuns
de trabalho, de simples contratos de prestação de serviços, com prazos
definidos, com tarefas rotineiras e desenquadradas, sem que se entenda o
processo produtivo, tendencialmente muito segmentado. Nesse contexto, os
contratos de trabalho perdem relevância, em benefício de contratos comerciais,
de prestação de serviços, tornando o direito do trabalho, uma área jurídica em
vias de extinção.
Como
se articulará o protesto social, a contestação laboral e politica entre os
seres humanos se as atividades laborais e sociais se repartirem num género de
casulos isolados uns dos outros, eventualmente dispersos pelo planeta? Em
tempos mais recuados do capitalismo moderno, as grandes empresas
concentravam-se numa região, num país, criando filiais aqui ou ali. Mais tarde,
desenvolveram-se grandes capacidades nas áreas da logística e do transporte,
por exemplo, inventando-se o contentor. Depois, surgiram novas capacidades,
juntando-se as criadas pela informática e pela robotização que facilitaram a
segmentação da produção em elementos de
per si inúteis; uma produção, para mais, espalhada pelo planeta, mesmo que
com muitos milhares de trabalhadores incorporados. Os desenvolvimentos da
logística, da robotização, reduziram as necessidades de trabalho direto, daí
resultando uma redução das relação empresa/trabalhador. Sem essa relação, o trabalhador
coisifica-se como peça de uma máquina, de uma longa cadeia de produção que não
domina, nem conhece a extensão.
[2]
Recordamos que anos atrás, numa
entrevista, Belmiro de Azevedo, perguntado sobre quais os partidos que brindava
com apoios financeiros, respondeu “todos”. Claro que foi uma resposta
inteligente mas, certamente que as duas secções do partido-estado (PS/PSD) não
ficariam excluídas de abonos.
[4] Toda a
dívida (das famílias, das empresas, dos Estados e relativa a essa
artificialidade designada “produtos derivados”) equivalia a $ 199000000000000
ou 199*10^12 (199 biliões na Europa continental e 199 triliões nos
EUA, GB ou Brasil) em 2015; $ 215*10^12 em 2017
e $ 253*10^12 em 2020, 322% do PIB total
[5]
Em
fevereiro de 2006, Gates esteve em Portugal, recebeu medalha e à sua frente
perfilou-se um vasto grupo de dirigentes da administração pública, muitos deles
que mal sabiam ligar um computador. Glosámos, então, a vernissage em http://esquerda_desalinhada.blogs.sapo.pt/8738.html
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