Mostrar mensagens com a etiqueta empresários. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta empresários. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

Segurança Social, vítima de uma burla com décadas

 O valor retido pelo empresariato corresponde a quase um ano de pensões, com a conivência silenciosa dos governos e das chamadas oposições

A riqueza é sempre relativa e, incorporando o vírus do capitalismo, não se contenta em qualquer patamar de acumulação. Enriquecer é um desígnio nunca saciado e para o qual a ética, quando apontada, é apenas um tapete que encobre a burla e o roubo; se necessário, através da inevitável repressão das gentes.

O papel do Estado, desde a ascensão do capitalismo foi sempre o de um gestor, de um auxiliar essencial para a acumulação de capital. Para o efeito, (re)constrói, em permanência, um discurso de organização e de encaminhamento da punção fiscal, hierarquizando os vários segmentos sociais.

Em Portugal, a Segurança Social (SS), no essencial, obtém, entre outras, as suas receitas a partir das quotizações dos próprios trabalhadores e contribuições das empresas onde trabalham, por conta do valor acrescentado que geraram. Os recursos financeiros da SS têm assim, uma proveniência bem definida e uma aplicação dos seus fundos, bem delimitada – pagamento de reformas, situações de desemprego, doença ou invalidez dos indivíduos que procederam aos devidos descontos. Pelo contrário, o Estado, tem recursos captados sobre toda a população (impostos) e, uma aplicação não consignada, muito generalizada, envolvendo uma miríade de funções.

Em Portugal, por regra, as receitas da área pública são cobradas com uma enorme e calculada dose de incúria; uma incúria que tem décadas, que é estrutural para financiamento de empresas que se inserem num capitalismo subalterno e, historicamente, muito dependente do apoio estatal. Esse apoio, revela-se num tradicional e elevado nível de economia paralela (27 a 30% do PIB); de fraude contributiva, com aparelhos de fiscalização muito lentos e “maleáveis”; e, uma administração pública burocratizada, partidarizada, que publicou a Conta da Segurança Social de 2018 (um verdadeiro labirinto) uns, vinte meses após o final daquele ano.

A SS, tal como a Autoridade Tributária, passou a divulgar listas de empresas com grandes débitos para com aquelas instituições. Uma consulta recente nomeava 34 empresas com dívida de contribuições não pagas, no valor de € 1 a 5 milhões; e que certamente não pagarão, não só pelo nível acumulado de dívida; porque já terão dissipado qualquer património; ou ainda, porque aquele foi previamente objeto de garantia a favor dos bancos credores, muito mais lestos e cautelosos nesta matéria. Se o objetivo era envergonhar alguém com essas listagens esse objetivo… falhou redondamente.

A situação conhecida no momento atual é clara quanto a uma silenciosa política de instalada incúria visando o financiamento de … empresários falidos ou calculistas.

 

 
                                                    Fonte: Contas da Segurança Social

O crescimento das dívidas tomadas como de médio ou longo prazo resulta, nos últimos anos, da grande redução das contribuições tomadas como dívida consolidada e já não como prestações em atraso (Contribuintes); o que não ilustra a gestão de Vieira da Silva. Para mais em paralelo temporal com o tempo pos-troika, o I governo Costa lançou o programa Peres[1] de recuperação de dívida que, como todos os programas[2] do género deverá ser o último… antes do próximo que provavelmente virá na boleia dos danos do covid-19.

O gráfico seguinte ilustra a crescente utilização das contribuições não pagas à SS como norma de capitalização ou fuga de capitais por parte dos empresários portugueses, com a dedicada conivência dos governos, naturalmente. A grande quebra observada entre 2002/2003 deve-se a uma operação de titularização de dívidas fiscais e à SS[3], levada a cabo por Manuela Ferreira Leite. Nessa operação os créditos cedidos - € 9446 M do Estado e € 1995.2 M da SS – em grande parte incobráveis, os valores recebidos no final, foram de € 1453 M e € 307 M respetivamente. A diferença, na sua maioria, corresponde a não pagamentos de empresas em dívida e, entretanto desaparecidas, como produto da tradicional benevolência dos órgãos estatais face aos responsáveis. Uma tradição que surge como inconcebível em outros países da Europa.

Curiosamente, como também se pode ver no gráfico seguinte, o grande crescimento da dívida à SS, em termos de percentagem do PIB e entre 2005/11, coincide com a governação Sócrates, tendo como ministro para a SS um nocivo Vieira da Silva; que voltaria a protagonizar um acréscimo da dívida a partir de 2015, com António Costa, e apesar da cobrança extraordinária do já atrás referido, Peres. Vieira da Silva protagonizou[4] ainda a introdução do Factor de Sustentabilidade, uma fórmula de colocação dos trabalhadores a trabalhar (e a descontar) mais anos, encolhendo, naturalmente o tempo de vida, livre do trabalho; e, reduzindo o encargo para a SS mantendo a habitual displicência face ao incumprimento por parte dos patrões. Em contrapartida, o regime pos-fascista age duramente sobre pequenos devedores como neste caso

 

Sobre a Segurança Social, sinalizamos adiante textos divulgados nos últimos anos – um tema que nunca interessou a imprensa, porque os prejuízos recaem sobre a população em geral e os reformados em particular que não têm lobbies para os representar. O modelo organizativo é aceite acriticamente pelos sindicatos, pela população em geral e, com o silêncio interessado da classe política; da parcela mais à direita até à menos reacionária.

O tecido económico de hoje não é dominado pelo trabalho intensivo como há décadas e isso exige outras incidências para financiamento da SS, mormente sobre o valor acrescentado; um tema que obviamente não é colocado, na pobreza ideológica dominante.

Alguns textos publicados sobre a SS:

http://www.slideshare.net/durgarrai/estratgia-para-um-sistema-de-segurana-social-favorvel-multido-de-trabalhadores-e-ex-trabalhadores

http://www.slideshare.net/durgarrai/segurana-social-processos-de-descapitalizao-1

http://grazia-tanta.blogspot.com/2012/02/fundo-de-garantia-salarial-desvio-de.html

http://grazia-tanta.blogspot.pt/2012/07/o-tribunal-constitucional-e-o-roubo-dos.html

http://grazia-tanta.blogspot.pt/2012/07/a-divida-seguranca-social-o-longo.html    

http://grazia-tanta.blogspot.pt/2015/12/continua-o-saque-da-seguranca-social.html 

http://grazia-tanta.blogspot.pt/2014/10/dia-internacional-para-erradicacao-da.html



[2]  No período 1986/2002 houve sete planos como o referido Peres, entre eles o famoso plano Mateus que deu alguns resultados, muito provisórios. Ainda mais atrás, em 1985/95, Cavaco desviou da Segurança Social, para tapar um buraco financeiro no orçamento do Estado, o valor de 1206.4 M contos… o equivalente a toda a cobrança de 1995 (Livro Verde da Segurança Social, 1996).

[3]  Apuramento contemplado no Relatório nº 6/2011 – 2ª s. do Tribunal de Contas

[4]  Vieira da Silva teve na operacionalização do Factor de Sustentabilidade, como Secretário de Estado, um tal Pedro Marques, uma estrela do PS atualmente no Parlamento Europeu, em estágio para voos mais altos

 
 

 


 

terça-feira, 7 de abril de 2020

A inspiração de Marcelo depois de ver os tomates em Vila Franca



Depois de duas semanas de clausura, a preparar a sua pré-candidatura, Marcelo regressa ao seu habitual mediatismo. E, desta vez, é a sério; sem o folclore de selfies, beijinhos ou abraços mas, com Costa, nas suas costas, a aplaudir.
 
Marcelo, o dito supremo magistrado da nação, lidera o processo do estado de emergência, ofertando a Costa todas as medidas de caráter restritivo nas relações laborais, promulgadas em nome do vírus.
Como todos sabem que o sagrado PIB irá cair, à sombra dos efeitos do Covid 19, é fácil tornar o vírus num bom aliado para a destruição de PME e obter uma maior concentração de capital; esta, surge assim, caída dos céus, como uma inevitabilidade, sabendo-se que o Covid 19 não irá reclamar pela autoria dos danos que vem provocando. O desemprego vai aumentar? Paciência, é o funcionamento do “mercado de trabalho”, um nebuloso chavão que permite todas as interpretações; e a causa é o vírus, claro.
Costa aproveita porque se está nas tintas para a eleição presidencial, garantida que tem a mansidão da oposição ao governo, por tática (PSD) ou, porque nada têm a dizer ou a fazer, quanto ao resto dos animadores de S. Bento. E, portanto, está de pedra e cal no governo até 2023, deixando a chamada oposição par(a)lamentar num papel de… embrulho, o que acontece desde 2015 ou, mesmo antes. O estado pós-fascista em todo o seu esplendor!
Costa assistirá ao antigo leitor de contracapas fazer a sua pré-campanha eleitoral e apresentar-se como o cobrador dos favores que o regime tem feito ao sistema financeiro; aliás, sublinhado por Marcelo aos banqueiros, com frases tão claras quanto oportunas, tais como:
·      “A banca deve ao país, por causa das circunstâncias que todos conhecemos”  - e que todos sabemos desde a nacionalização do BPN, ao empréstimo da troika, à estreia mundial do Fundo de Resolução ditada por Draghi a um gaguejante Costa (o Carlos), o descalabro do chamado BES, com o abutre Lone Star… Marcelo fez bem em lembrar pois, toda a gente já se havia esquecido!
·      “Cada português contribuiu para viabilizar bancos”, € 2300, per capita, mais precisamente;
·      “É uma ocasião de retribuir aos portugueses”. Ninguém vai receber os € 2300, nem empréstimos a taxas de 1% mas… bastante acima disso;
·      "Linhas de crédito e [as] faça[m] chegar às empresas, que agilize, facilite, porque os processos bancários às vezes são demorados e difíceis". Claro que aqui os banqueiros terão concordado com S. Exa. (como em quase tudo) porque cada concessão de crédito, naturalmente, não deixará de ter em conta a viabilidade do negócio e as garantias oferecidas pelo candidato a devedor; é uma questão técnica, referida só para encher a inutilidade do encontro;
·      “Como (a banca) vê as medidas tomadas pelo governo” … claro que vê, pois governo algum toma medidas que toquem os interesses da banca, sem previamente ter o seu aval. Que o diga Sócrates, quando os bancos, em 6/4/2011, sob a sábia liderança do Costa (Carlos) decidiram convocar novas eleições e mandar Sócrates estudar para Paris com uma nutrida bolsa concedida pelo amigo Santos Silva;
·      "Saio desta reunião com a sensação de que a banca portuguesa está a acompanhar de forma atenta a situação do nosso país,…”. Fabuloso! Ficamos sabendo que os bancos, tal como os vendedores de gelados, estão sempre a ver novas oportunidades de negócio!  O que se aprende com este PR! Mais do que com o anterior que era um grunho, que cuspia mais do que falava.
Mas para não se pensar que o PR diz vulgaridades, vamos referir a espantosa proposta de Rui Rio, cujo conteúdo faz pensar é um rematado disparate e uma forma clara de defraudar o dinheiro público. Vejamos, Rio pretende uma linha de crédito às empresas, não de € 3000 M propostos pelo governo mas de € 10000 M… com 90% GARANTIDOS PELO ESTADO!!! E, ao que sabemos, a fabulosa CIP pretende 30 a 35000 M, o que nos levou a mandar uma mensagem ao primeiro-ministro a solicitar uns 40000 M para gozarmos umas merecidas férias quando terminar a quarentena. No aproveitar é que está o ganho…
Em termos mais realistas, o erário público distribui pelos fabulosos empresários à portuguesa € 10000 M e eles podem gastar sem grandes responsabilidades porque quem acarreta com os desvarios, os desvios e os azares é o… Estado!!! Dito de modo mais claro, de quem paga impostos!
Onde está o risco empresarial?
Na realidade, o proposto insere-se numa linha de atuação muito antiga que consiste no não cumprimento de deveres por parte das empresas e, de empresários, mais vocacionados para a rapina, para a compra de altas cilindradas do que para o investimento ou para um ganho de dimensão. Para o efeito, o aparelho de Estado é desconexo, minado pela corrupção e que surge como a salvação de empresários há muitas décadas habituados a essa prática. E Rui Rio parece inserido nessa mesma lógica, por compadrio ou ignorância.
O caso mais gravoso e dos mais antigos é o que se passa na Segurança Social, há muitas dezenas de anos, com o silêncio comprometido de governos e oposições. A dívida de médio/longo prazo – na sua esmagadora maioria devida por empresas, com prejuízo para quem recebe pensões de merda - para com a instituição, em milhões de euros é:
2012
2013
2014
2015
2016
2017
6791,7
7388,4
7932,9
8463,0
8944,6
9118,6

Que ninguém estranhe que ainda não se conheça a Conta da Segurança Social para 2018; é normal haver mais de dois anos de atraso. Aliás, há uma cultura, soprada benevolentemente pelos governos e assumida pelos funcionários de que “temos de os (empresários) ajudar pois são eles que financiam a Segurança Social”, numa lógica mesclada de espírito caritativo e de imbecilidade.


Este e outros textos em: 

http://grazia-tanta.blogspot.com/                              

http://www.slideshare.net/durgarrai/documents
 
https://pt.scribd.com/uploads