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terça-feira, 9 de novembro de 2021

Glasgow – as canecas de Guiness e os COPos à solta

1 - O espetáculo dos mandarins – a COP 26

2 - Contra a irracionalidade imanente ao capitalismo? Nem por isso…

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1 - O espetáculo dos mandarins – a COP 26

Torna-se absolutamente evidente que a COP 26 não passa de um número mediático para convencer os ingénuos de que os grandes e pequenos mandarins nacionais presentes em Glasgow irão fazer algo de substantivo no capítulo do ambiente. Com menos mediatismo, celebrou-se em agosto um evento apoiado pela Alliance of World Scientists com mais de 15.000 signatários, de 160 países, em apoio à seguinte declaração: World Scientists Warning of a Climate Emergency.

Para a solenidade que se pretende dar à conferência de Glasgow, esta começou com um erro revelador de uma crassa ignorância. Os promotores apresentaram um vídeo sobre a extinção dos dinossauros e não pensaram que aqueles animais morreram perante um clima a esfriar depois do embate de um meteorito; e não com um aquecimento global como aquele a que se assiste. O meteorito de então, foi substituído hoje, pelo capitalismo. E, se algum demente pensar em aplicar uma solução radical para esfriar o clima, basta gerar uma… guerra nuclear; as bombas e veículos para as lançar estão em constante apuro...

A COP26 mostra claramente o seu espírito oligárquico ao considerar, quase em exclusivo, a presença de representantes dos países, das esferas governamentais, com o … natural afastamento de milhares de ONG’s que se dedicam a colher informação e a colocar no terreno opções que os governos, no alto dos seus pedestais de oligarcas, não consideram, de per si e, menos ainda, se dignam a aplicar. No dia 3 de novembro, entre milhares de ONG presentes em Glasgow, somente foram acreditadas quatro! É bem clara a dicotomia entre o conjunto das classes políticas presentes na conferência e as ONG, provenientes de iniciativas da sociedade, muitas das quais acreditam ingenuamente que aquelas classes políticas, sob o efeito de um sopro divino, se encarregarão de enterrar o capitalismo e de se redimirem, quais ascetas, numa vida frugal de convento…

Para os oligarcas nacionais o mundo pertence-lhes, mesmo que uns sejam mais iguais que outros…; e, as pessoas comuns, não se podem misturar com os oligarcas, ficam à porta. A jovem Greta Thunberg[1] retratou muito bem essa situação – “Esta já não é uma conferência sobre o clima, é um festival de lavagem da imagem verde para o Norte global”; assim, essa situação merece toda a radicalidade crítica, evidenciando-se como espelho do que é o capitalismo e, nesse contexto, merece toda a oposição que é necessário fazer às classes políticas que, em regra, são problemas em si e, só para os ingénuos, construtores de resoluções.

A classe política global, perante uma oposição tão débil como a proveniente dos partidos e grupos ecologistas, nem sequer se esconde; pelo contrário, não tem qualquer preocupação em esconder a sua imagem de estouvados gastadores, nem o exibicionismo e a arrogância própria de quem sabe ser parca a compreensão e a atuação das vítimas do sistema económico e político dominante. Como é espelhado em Glasgow… Vejamos alguns exemplos.

Uns dias atrás, de 29 a 31 de outubro, em Roma, na reunião do G20, um grupo formado pelos países com maior poder económico do mundo, a parceira Maserati colocou 40 automóveis à disposição dos mandarins (leia-se chefes de Estado e de Governo) para utilização durante o conclave.

Para participar na COP26 chegaram a Glasgow 400 jatos particulares, com um mandarim cada um (a boleia não está prevista!) todos “plenos de entusiasmo” para participar no circo. Ao que se sabe, emitiram 13000 t de CO2, o equivalente ao consumo de 1600 de escoceses durante um ano, de acordo como o Sunday Mail!

Ainda em Glasgow, o entusiasmo de Biden foi tão grande que esteve a dormitar um pouco durante uma sessão… Dias antes, Biden (há quem lhe chame Zombiden) desembarcava em Roma para uma sessão do G20, no seu Cadillac One, um mastodonte com um motor de 8100 cc, muito ecológico pois… consome apenas 29 a 64 litros de gasolina por cada 100 quilómetros (!) e que circulou num cortejo com mais… 84 carros para a segurança do indivíduo. Mas, seríamos injustos se nos limitássemos aos comportamentos do limitado Biden pois Ursula von der Leyen, mais comedida, só usou o seu jacto privado em 18 das suas 34 viagens oficiais, incluindo numa delas um percurso de… 50 km, entre Viena e Bratislava.

Biden sabe que tem pouca margem no Congresso para aplicar $ 555000 M às mudanças climáticas. Pelo contrário, nos EUA, os setores dos combustíveis fósseis receberam $ 3 B nos últimos seis anos. Curiosamente, o mesmo Biden facilitou um aumento de 900 % no carvão enviado para a China ao mesmo tempo que pretendia limitar as vendas de gás russo e qatari para as substituir por gás de xisto, cuja extração é um crime ambiental![2]. Anos atrás observámos num artigo da National Geographic uma situação estranhíssima… Num local próximo de uma dessas extrações, nos EUA, quando se aproximava um fósforo a arder da água que saía de uma torneira, o líquido produzia pequenas labaredas.

Há uns três anos circulavam diariamente 300000 aviões comerciais, para além dos exercícios totalmente nefastos e inúteis levados a cabo no âmbito das manobras militares. Para além de outras operações pontuais com uma finalidade útil, entre os militares, em Portugal, só registamos como meritória a coordenação exercida pelo Gouveia e Melo no âmbito do covid.

Tão nutrida festa em Glasgow parece destinar-se a apresentar uma novidade – a criação do primeiro imposto global ("taxa de carbono”) por parte dos Estados, cobrados pelos respetivos mandarins locais que, se encarregarão de transmitir essa carga fiscal aos povos, naturalmente.

Claro que isso não afetará muito os empórios dos combustíveis fósseis; eles sabem bem que o automóvel é o elemento mais querido das famílias, que se sacrificam para ter um veículo disponível à porta de casa. A experiência mostra que o apreço pelo automóvel é tão grande que a plebe aceitará pagar, resignada, qualquer aumento dos impostos que venham onerar a posse de um veículo e a sua circulação. Por outro lado, ninguém sensato irá acreditar que as classes políticas se irão sobrepor aos interesses das suas empresas nacionais no âmbito do automóvel e da venda de combustíveis, impondo limitações e sobrecargas de impostos a quem, por tradição, financia os partidos dominantes e os seus chefes.

A OMS que não tem sido brilhante no combate ao coronavírus, mesmo com o substancial apoio financeiro de Gates apresenta, em tempos de COP26 uma proposta para reduzir os acidentes e os óbitos na estrada que se pautam, por ano, respetivamente, em 50 e 1.3 milhões de pessoas (Plano Global para a Década de Ação pela Segurança no Trânsito). Nesse plano aponta-se para a redução dos limites de velocidade para 30 km/h nos meios urbanos, para 80 km/h nas localidades e de 100 km/h nas autoestradas. Segundo o diretor do Departamento de Determinantes Sociais da Saúde da OMS, Etienne Krug, as mais de 50 M que morreram nas estradas desde que o automóvel foi inventado, suplantam claramente os mortos nos quatro anos da I Guerra Mundial (20 M).

O ambiente económico dominante é focado no acréscimo do lucro, no aumento da produção, da exportação, da concorrência, do consumo inveterado fomentado pela publicidade; bem como na redução da intervenção direta dos trabalhadores, na redução dos custos de produção ou, do ratio salários/lucros. O Plano da OMS confrontado com o ambiente económico real teria de implicar numa alteração profunda do paradigma económico, num envolvimento político pouco divisável no contexto global de economicismo, de classes políticas corruptas capturadas pelos interesses económicos. Sobretudo, exige um forte ativismo das próprias populações a favor da saúde e o bem-estar de todos, o que tornaria evidente a inutilidade das classes políticas, financiadas pelos Estados e por entidades com escusos interesses; uma alternativa de construção de modelos de representação política efetivamente democráticos com a anulação da existência de oligarquias políticas, como as presentes na COP26.

2 - Contra a irracionalidade imanente ao capitalismo? Nem por isso…

Os elementos atrás referidos apontam para alterações profundas a desenvolver na mobilidade humana, quer nas longas distâncias como nas movimentações correntes, de curta distância e, sobretudo nos movimentos pendulares casa/trabalho, para mais quando acompanhados por percursos triangulares que envolvem escolas ou creches. As soluções contemplam a redução dos tempos e da dimensão dos percursos casa/trabalho através de transportes públicos, sem emissão de gases e, em prejuízo e discriminação do transporte automóvel quando, para mais é efetuado tendo o condutor como único passageiro. E, poder-se-ia ir mais além, mesclando os locais de trabalho com zonas habitacionais no sentido de reduzir os percursos pendulares em transportes ou mesmo, percorrer esses percursos a pé.

É completamente irracional passar um tempo desmesurado em transportes públicos, repletos de gente, com o ar saturado e engarrafados no trânsito, no conhecido pára-arranca; é irracional permanecer uma parcela considerável de tempo numa interminável fila de automóveis, em marcha lenta, a libertar gases tóxicos para a atmosfera, de manhã e ao fim da tarde, com passagem por uma escola ou infantário; é irracional o baixo investimento em percursos ferroviários movidos a eletricidade: é irracional a construção de prédios enormes com vários fogos por piso, com gastos de elevador e escasso espaço para o parqueamento, mesmo que gratuito e, não objeto de pagamento a uma autarquia ou a uma empresa. O constante aumento das áreas urbanas e suburbanas surge sempre antes de um planeamento cuidado da rede de transportes e, estes acabam por se adaptar ao traçado dos arruamentos, à disposição do edificado, sem qualquer planeamento ou racionalidade por parte de autarquias minadas de negócios escusos entre mandarins e promotores imobiliários.

A concentração das atividades económicas em áreas urbanas, por vezes gigantescas, atrai população constantemente, contribuindo para o esvaziamento de áreas rurais, com pouca atividade económica e cobertura sanitária reduzida, ajustada para uma população envelhecida, com aldeias desertas e casas fechadas, quando não em degradação acelerada. Isto é, uma ocupação dicotómica e regressiva do território.

As energias limpas dividem-se em dois grupos.

Umas, exigem infraestruturas pesadas e caras, funcionando numa lógica contratual, de mercado, entre produtores e consumidores, com a inevitável presença de uma carga fiscal acrescida para alimentar classes políticas, sempre ávidas do uso da máquina estatal, não recuando perante favores e outros actos corruptos. Baseiam-se na lógica mercantil e tendem a ser invasivas – torres eólicas, hectares cobertos de painéis solares, exigindo redes de transporte com inerentes perdas no percurso.

A segunda versão consiste na fácil adaptação a uma habitação familiar ou um conjunto de inquilinos num prédio de média dimensão, susceptíveis de produção para autoconsumo, sem carga fiscal mas com uma interferência parcial de grandes empresas elétricas, em períodos de baixa produção própria. Em Portugal, a intervenção da troika em 2013/15 introduziu uma taxa de 23% de IVA, a mesma que se utiliza para consumos sumptuários como para bens de primeira necessidade, como a eletricidade consumida nas habitações; essa situação inclui-se na ação de um Estado predador, cobrador de uma carga fiscal desmesurada e, reveladora de uma realidade em que os impostos podem ser criados, mantidos mas raramente reduzidos. E, quando reduzidos, é porque foi encontrada uma compensação num outro imposto.

A ligeireza das classes políticas perante a situação associa-se ao menosprezo pela multidão humana por parte dos capitalistas, mormente os poderosos, como Bezos[3] ou Gates; ou de políticos ineptos como Biden ou Boris. Temerosos de qualquer atitude mais lesiva das suas importantes carcaças, só se sentem seguros, na companhia dos seus pares, sempre rodeados de polícias e seguranças.

A imprensa comum vive numa relação de mancebia com a classe política; em conjunto constituem uma dupla de entertainers da multidão. Os membros da classe política precisam dos media para uma divulgação constante das suas capacidades, dos seus discursos, das suas presenças em lugares públicos, dos aplausos dos basbaques; e, vice-versa, os media, para venderem a publicidade que paga os custos, desdobram-se na recolha e divulgação de opiniões, promessas, críticas à oposição, por parte dos mandarins; quanto mais crispado for um diferendo político, mais o assunto interessa aos media. Classe política e imprensa constituem dois mundos osmóticos onde a vacuidade, a mentira, constituem os principais elementos colocados na imprensa em geral ou, transmitida na tv, para os mais mediáticos, 24 horas por dia, intercalados por concursos, séries idiotas ou pejadas de violência e futebol; e, neste último caso, trata-se de um tema de conteúdo efetivo extremamente estreito, feito de rivalidades e conflitualidades exacerbadas, entre dirigentes ávidos do dinheiro das transferências de jogadores.

É evidente que os capitalistas e as classes políticas sempre tiveram uma atitude de ligeireza perante as transformações que desembocam, um pouco por todo o lado, em má qualidade do ar, nas doenças, nas esgotantes deslocações dentro das áreas urbanas, no esgotamento e envenenamento dos solos agrícolas, etc. tudo, na seguimento do seu produtivismo, da sua ânsia pelo crescimento do PIB ou, da acumulação de capital, se se preferir…

Dizer ligeireza é, de facto, muito… ligeiro. Ambos os grupos - capitalistas e classes políticas - são defensores ferozes do mercado, dito livre, mesmo que o seu funcionamento, nas principais áreas de negócio, venha sendo controlado por empresas ou oligopólios de enorme dimensão e poder. A pulsão para uma constante valorização dos títulos nas bolsas, domina os grandes empórios globais e, essa pulsão repercute-se nos escalões inferiores do empresariato. Por outro lado, essa valorização incorpora biliões de unidades monetárias fictícias para que os ditos mercados financeiros se mantenham sempre em expansão. E, a mesma lógica é seguida pelos governos que encandeiam os povos tomando como objetivo o crescimento infinito do PIB, encobrindo, de permeio, a estagnação ou a fraca evolução dos rendimentos reais do trabalho[4].

Quanto ao aquecimento global, o assunto irá sair da agenda quando fechar o encontro de Glasgow. Os capitalistas e seus pares continuarão a apresentar um razoável desinteresse, mais focados na valorização dos títulos na bolsa. E, as classes políticas manterão o aquecimento global na agenda, em lume brando, como modo de mostrar pressão sobre os governos. Quanto aos grupos ecologistas, tornam-se partidos iguais aos outros, como os Verdes alemães, a entrar no governo alemão, como anos atrás na guerra na antiga Jugoslávia; ou, contentam-se em apresentar tecnologias criativas para adiar o momento de um colapso de grandes dimensões, sem tocar no modelo global de gestão capitalista ou sequer no modelo de representação, oligárquico e autoritário.

Este e outros textos em:

http://grazia-tanta.blogspot.com/                               

http://www.slideshare.net/durgarrai/documents

https://pt.scribd.com/uploads



[1] Greta terá aprendido que não há diálogo construtivo com os altos nomes da classe política? Recordamos a seu (inútil) encontro de há uns dois anos com Obama, o promotor das guerras de destruição na Líbia, na Síria e no Iraque; o mesmo Obama que aparece com a pureza de uma pomba, no conclave da COP26, tal como se apresentou  como pomba da paz, a merecer o Nobel, pouco antes de decidir invadir a Líbia , a  proceder à desestruturação da Ásia Ocidental e a validar o golpe de estado no Egipto para colocar no poder o ditador al-Sisi.

[2] Os elementos factuais  contidos nos parágrafos anteriores são na sua maioria provenientes de https://informacaoincorrecta.com (G20 e COP26: WYSIWYG)

[3] Bezos não encontrou nada mais inteligente do que pagar uma fortuna por quatro minutos de viagem suborbital https://www.globalcitizen.org/en/content/jeff-bezos-space-flight-money-better-uses/

[4] O primeiro-ministro português propôs recentemente um aumento, para 2022, do salário mínimo, de € 700 para € 705, isto é + 0.71%, o que se situa abaixo da inflação prevista (0.9%). Trata-se do miserabilismo de um Portugal dos pequeninos.

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Aceitando o capitalismo e o Estado, a ecologia reduz-se a um devaneio técnico


E, por isso, foram aceites alguns bibelots... em Davos


A lógica do capitalismo apresenta a produção de bens e serviços como visando a satisfação das necessidades da Humanidade, extraindo dessa atividade um excedente para o investimento no aumento ou melhoria das suas capacidades produtivas; isso é uma mentira que consta nos manuais escolares de economia. A sua lógica não é a satisfação das necessidades da Humanidade; se isso fosse verdadeiro, não haveria milhares de milhões de pessoas com carências essenciais no âmbito da comida, da saúde, da habitação, de educação e outras, ao mesmo tempo que os capitalistas, os governos nacionais e as suas instâncias regionais ou globais se queixam e preocupam com o baixo crescimento do PIB.

Do contexto anterior resulta que o objetivo dos capitalistas é a produção de valor, a acumulação constante e sem limites de lucros, de capital, tomando a satisfação das necessidades das pessoas como um instrumento para esse efeito; e não um objetivo. No fundo, para o capital, a Humanidade e os recursos do planeta não passam de instrumentos para a concretização da citada acumulação; e assim, os capitalistas, pequenos, grandes, multinacionais, no âmbito das respetivas escalas, procuram acumular dinheiro, riqueza, capital, tomando o seu negócio como instrumento para tal e a satisfação das necessidades das pessoas um meio para atingir aquele fim.

Se, para o capital em geral, a produção de bens e serviços serve para acumular capital, para a Humanidade, o que faz sentido é a produção de bens e serviços que satisfaçam as suas necessidades; e, isso, nada tem de abstrato nem de ilimitado.

Neste contexto, o capitalismo, como modelo económico, visa um crescimento sem limites, infinito. Por um lado, os capitalistas precisam de gerar mercadorias, valor; e, por outro lado, precisam de trabalhadores para produzirem bens e serviços que são todos formas de mercadoria, de extração e acumulação de lucros. Por outro lado, essas mercadorias e serviços têm de ser transformados em dinheiro através da venda, exigindo portanto que haja consumidores (famílias, pessoas), empresas compradoras e Estados, gastadores do dinheiro dos impostos subtraídos, na sua grande maioria, aos rendimentos do trabalho.

De forma caricatural, a uma pessoa chegará comer meia galinha por dia; o capitalista, por seu turno, irá utilizar todos os meios para que cada pessoa consuma, não meia galinha mas, uma galinha inteira, duas galinhas... Numa lógica humana, as necessidades de comida inserem-se em limitados parâmetros, em termos de quantidade e variedade; o capitalista, pretende sempre produzir mais e mais e que haja escoamento para essa produção, induzindo nos consumidores necessidades artificiais, pulsão consumista, se necessário através do comprometimento de rendimentos futuros, através do crédito. Ao mesmo tempo, o capitalista procura que todos os seus trabalhadores aceitem uma contenção dos níveis salariais em patamares tais que não conduzam a um aumento dos custos proporcionalmente maior do que o crescimento da faturação. Procurar atingir o infinito através da acumulação de capital é uma lógica intrinsecamente demente e predadora de pessoas e do planeta.

Tornou-se banal, no economês corrente, falar-se todos os dias do crescimento (concretamente, do PIB); são os governos a querer mostrar as suas competências, os bancos à espera de novos clientes, empresários procurando aumentar as vendas, exércitos tentando ocupar territórios adicionais ou adquirir novos brinquedos, empresas grandes procurando comprar outras, mais pequenas. O crescimento tornou-se uma adição nas classes políticas e no empresariato, com contágio evidente na plebe. E, no entanto, o PIB é uma medida incompleta, difusa, genérica, que abarca apenas uns 70 a 75% da atividade económica e que não mede o “valor” do trabalho doméstico e dos cuidados, no seio das famílias, cujo relevo social é imenso; para além de não contemplar a corrupção, o favor, as luvas, os tráficos (droga, órgãos, migrantes, mulheres, animais selvagens…). Em contrapartida, toma como incluído no PIB um “investimento” em … armamento! 

Sinteticamente, a volúpia do crescimento infinito, inerente ao capitalismo, mede-se através do nebuloso PIB; e como a produção material exige um mercado consumidor, restringido pelo pouco crescimento dos rendimentos populares e pelas limitações no acesso ao crédito, o capitalismo desenvolveu, de forma inaudita, a especulação financeira, para a criação de valor através do mecanismo das pirâmides de Ponzi; que se tornaram o elemento dominante para o aumento do PIB, tornando este ainda mais diáfano e de evolução incerta, como se viu após 2008, com a inundação de dinheiro através dos bancos centrais, sem qualquer relação com a chamada “economia real” e sem ter de “sujar as mãos” com a colocação de trabalhadores em torno de máquinas, estruturas de vendas, logística, publicidade... 

Country
Benchmark
Current Value (in S&P 500 terms)
Gain since Nov 26, 1990
United States
S&P 500
3,168
901%
Hong Kong
Hang Seng Comp.
2,926
824%
Germany
DAX 30
2,913
820%
Canada
S&P/TSX Comp.
1,717
444%
France
CAC 40
1,16
268%
United Kingdom
FTSE 100
1,072
238%
Japan
Nikkei 225
315
1%
                         Note: Data has been transformed to match the scale of the S&P 500, and is current as of December 13, 2019

Tudo funciona a partir de supercomputadores, muito ágeis na decisão sobre o que comprar ou vender, mesmo quando se trata de navios carregados com combustíveis, cereais ou oleaginosas, por exemplo, cuja carga é comprada já a bordo e revendida no âmbito de jogos especulativos. Há alguns anos, a moda do óleo vegetal para substituir os de origem fóssil, veio a provocar fortes subidas dos preços dos cereais que conduziram a levantamentos populares em áreas pobres do globo, como África[1].

Para além dos novos “produtos financeiros” que se vão criando, a pressão para um maior consumo de bens e serviços faz-se através da indução da moda e da deificação da novidade, O que torna a compra e o consumo em verdadeiras adições. A dinâmica do capital é muito forte, sendo lançados melhoramentos reais ou formais nos bens de consumo, com a incorporação de novas funcionalidades e usos nos objetos, na aposta no design, daí se exigindo um investimento massivo em publicidade. Por outro lado, a incorporação de componentes mais baratos (incluindo os custos salariais), o aumento da produtividade, a segmentação da produção e da venda por várias empresas (por ex. através do franchise) e diversos pontos do planeta, envolve longas e complexas redes de transporte[2]. As necessidades de afastamento ou supressão da concorrência podem envolver a artificial redução da vida útil dos equipamentos produtivos para que se proceda a uma substituição mais rápida por modelos novos ou apenas mais apelativos, mais inseridos na moda; com um subsequente acréscimo de lixo; em muitos casos, com uma reciclagem cara e difícil, também ela, inserida em longas cadeias logísticas.

Essa longa, frequente e diversificada destruição de bens e equipamentos, tornados obsoletos, desatualizados, física ou comercialmente, obriga a uma constante aplicação de novos capitais em investimentos e aplicações onde o lucro resulte maior por unidade de tempo e por unidade de capital investido.

Todos os elementos descritos constituem a vida do capitalismo, enquadram a concorrência existente entre os sectores de produção, entre países e áreas geográficas, entre grupos económicos ou financeiros, entre classes políticas; todos se incluem num encadeado que, embora campo de ferozes disputas pela primazia, tem em comum a essencial produção de mercadorias, a sua injeção no mercado, tendo como efeito desejado, a acumulação de capital.

Neste modelo socioeconómico surgem grandes dificuldades de perpetuação:

·        A primeira, refere-se às necessidades da Humanidade em bens e serviços que é, naturalmente, finita, tal como os recursos oferecidos pelo planeta em termos de água, minérios, energias fósseis, florestas…; porém, essas necessidades, o seu volume e a sua manipulação são um instrumento essencial como alicerce da acumulação capitalista;
·        Essa basilar finitude confronta-se, obviamente com o patamar em que se encontra o consumo ou, mais genericamente, o gasto dos seres humanos, diretos ou indiretos. Convém que esse patamar se mantenha num nível estável, compaginando o volume do rebanho humano e as necessidades da sua existência, com os níveis de bem-estar que se pretendam sejam alimentados através de aumentos de produtividade, da reciclagem, de novas invenções e não através da pressão desastrada sobre os finitos recursos do planeta.
·        A acumulação de capital resulta de três grandes fatores:
o   Primeiro, existe uma pressão sobre os povos para a redução dos salários reais, para a esterilização através do desemprego e da inanição, ao mesmo tempo que se acentua a punção fiscal; dessa compressão dos rendimentos resulta um maior quinhão à disposição dos capitalistas, nas suas várias estirpes, sem prejuízo das diferenças entre eles.
o   Segundo, a maximização da acumulação, inerente à lógica da produção mercantil, com a criação de valor, não se satisfaz apenas com o esmagamento dos rendimentos dirigidos à multidão humana; e tende a expandir essa criação de valor, incluindo nesta a predação dos recursos do planeta, para fins só lateralmente dirigidos à produção de bens de consumo e de capital.
o   Em terceiro lugar, as disputas entre os grupos e empresas capitalistas obrigam os Estados a manter forças armadas, pesados sistemas judiciais e policiais, a desenvolver constantes desenvolvimentos na produção de armamento - uma área particularmente lesiva do planeta - para além da mobilização dos povos para, através de folclóricas jornadas eleitorais ou fascizantes derivas nacionalistas, defenderem um grupo de capitalistas contra outro, incluindo sacrificando vidas humanas, de modo escandalosamente inútil, porque esse sacrifício não beneficia os povos e segmenta, estupidamente, a Humanidade[3].
·        Dos três pontos anteriores, resulta uma pressão constante para a acumulação de capital, nas multinacionais e no sistema financeiro, particularmente; e, ao mesmo tempo, um pendor para a predação do planeta e o sacrifício de milhares de milhões de pessoas, vítimas da guerra, conflitos sectários, desertificação, pobreza, doença, fome... de onde resultam fenómenos de xenofobia, racismo, nacionalismo, antagonismos religiosos e étnicos, de defesa contra as ameaças provenientes do Outro, em geral; e que, em regra, revelam medo, menoridade ética ou inocuidade estratégica.
·        A produção de bens e serviços como atrás definida está longe de satisfazer a gula da criação de valor. Mesmo a satisfação das necessidades de toda a população mundial – que está longe de acontecer – não conduziria ao sagrado objetivo da criação de valor, que se pretende acumulativa, até alcançar o infinito. Por isso, o capitalismo não pode evitar os conflitos, as falências, a concentração de meios em grandes empórios e não pode satisfazer-se com nenhum nível de produção de bens e serviços, de consumo ou de endividamento para esse efeito. A procura do infinito exige luta e destruição, destruição e luta, inovação e abandono de tecnologias, da produção de novos bens e serviços e o convencimento dos consumidores para escoarem essa produção – muitas vezes fonte de consumos nefastos - para nisso comprometerem os seus rendimentos (mesmo precários, como se torna evidente) atuais e futuros, com um elevado nível de endividamento que, no caso das habitações, pode passar para a geração seguinte, sem que os Estados percam a oportunidade de cobrar impostos no âmbito da posse e da sucessão.
·        Essa pulsão para cavalgar ciclos de produção-destruição-produção… típica do capitalismo reconstrói em todo o tempo hierarquias, entre estados-nação, no seio das classes políticas, entre grupos de capitalistas, segmentando também, os trabalhadores e articulando-os, num género de porta giratória, com a massa de desempregados; empurrando para um canto, como estorvo, como não produtivos, fracos consumidores e outros, pouco interessantes para se endividarem junto dos bancos – desempregados, doentes e reformados - cujos rendimentos… oneram as contas públicas e contribuem para os deficits, como se queixam os governos; e ainda povos inteiros das periferias do capitalismo, em África, América do Sul, Ásia e mesmo, Europa.
·        A lógica consumista, a destruição constante de capital, a pulsão produtivista - no âmbito da qual a produção de bens e serviços é um fim em si e não destinada à satisfação de necessidades - tem impactos bem visíveis no planeta, ultrapassando em muito, as transformações e os danos provocados pelo Homem nos últimos milénios. Embora nos pareça que o Homem tem preferido causar danos ao próprio Homem.
·        Quando se identifica um dano, um problema, em qualquer âmbito – doméstico, social, económico ou planetário – a lógica humana coloca a questão, de imediato, sobre as suas causas. Na lógica do capital, o sistema é o perfeito; e como perfeito deve ser eterno. Daí, na lógica da indigência intelectual de Reagan ou Trump, há apenas que eliminar o Mal, isto é eliminar al-Bagdadhi ou bin Laden (antigos amigos desavindos…), distribuir sanções económicas pelo planeta, fazer os bancos centrais emitirem crédito sem limites, alimentar actuações militares, alargar áreas de conflito e de fuga de populações, oferecendo como entretenimento soldados com o timbre ONU/UN. Estendem ou intensificam os sacrifícios a impor às populações, como se vem observando na América Latina, na Europa ou nos EUA, no Médio Oriente, na Índia ou em África, onde os governos tendem a ser cada vez mais autoritários e repressivos, mesmo quando usam processos eleitorais (em regra nada democráticos) para legitimarem as respetivas oligarquias.
Sendo - a lógica do capital - sinónima de perfeição, os conflitos entre capitalistas, pelo acesso aos mercados consumidores ou de matérias-primas, fariam parte da dinâmica do próprio sistema, da sã concorrência, em que o novo substitui o velho, tendo a evolução tecnológica como motor da construção do futuro e, também a esperteza, como elementos construtores do progresso. A concorrência, no contexto da sólida moral protestante dos tempos de Adam Smith deveria afastar a corrupção dos mecanismos do mercado; porém, … essa concorrência, livre e leal, nunca foi generalizada. E tem sido mais comum e determinante a intervenção dos Estados e seus governos para enviesar a concorrência, através de leis discriminatórias, pela predação colonial e pela guerra, pela posse de terras e mercados, junto dos estados-nação tomados inimigos nessa ocasião; e ainda pela guerra interna pelo baixo preço do trabalho, como celebrizado no pioneiro massacre de Peterloo.
·        Hoje, a despeito dos avanços tecnológicos, continua por demonstrar que essa putativa perfeição da lógica do capital generalize o bem-estar, o qual parece cada vez mais restringir-se a segmentos sociais minoritários (e numa minoria de países) de onde precedem os brilhantes cérebros que cruzam ideias em Davos ou Bilderberg. Em verdadeiros actos conspirativos de um ente resultante da clonagem de Gates, Hitler e Al Capone, contra a Humanidade.
.    Para que o stock de capital acumulado cresça é preciso alimentar, em permanência, o ciclo da criação de novos produtos e serviços de forma a superar a destruição de capital resultante de conflitos, com colunas de migrantes e refugiados em fuga, com casas e infraestruturas destruídas por bombardeamentos, resultantes do recurso à guerra e ao banditismo. Essa constante situação de destruição e criação é inerente à lógica do capital, constitui um criminoso meio de renovação dos stocks de capital, em interação com novas tecnologias de produção, de marketing, de manipulação e controlo de gente, de acordo com as diversas faces do poliedro humano – trabalhadores, estudantes, aposentados, militares, consumidores, contribuintes, capitalistas, membros de classes políticas, homens/mulheres, eleitores…; uma vida tranquila e digna para todos, com aproveitamento dos conhecimentos existentes, com aumento do bem-estar coletivo sem perdas para a qualidade do ambiente, por muito evidentes que sejam para o senso comum, por incontestáveis que sejam para a racionalidade humana, não podem ser subscritos pelos capitalistas na sua globalidade[4].
·        Essa destruição criativa de capital em simultâneo com a criação de valor, correspondem ao início de um novo ciclo de crescimento da produção de bens, da criação de lucros, duma retoma do consumo… até à próxima crise. De modo mais vulgar, importa é que o PIB cresça… cresça…
·        O modelo de crescimento infinito é inseparável do capitalismo. A criação de valor é o seu pulsar, a sua respiração. O Golem soltou-se no século XVII, ocupou o planeta em três séculos e as resistências foram esmagadas ou cooptadas, enquanto as alternativas soçobraram perante a força do capitalismo, como também porque os vencidos não souberam ou não puderam aprofundar estratégias e proceder às práticas de o conter e encaminhar para o suicídio. Hoje, teme-se que esse suicídio possa arrastar a Humanidade para uma guerra total, para uma contaminação devastadora, para a destruição das condições de vida no planeta, para uma redução brutal no número de efetivos humanos, uma vez que no capítulo das extinções de espécies animais e vegetais, há muito se perdeu a conta.
·        O capitalismo nunca teve como primeira prioridade a satisfação das necessidades humanas; os seres humanos são apenas os elementos vivos essenciais à produção de valor, ao consumo, ao endividamento, constituindo este uma amarração, uma captura do devedor pelo sistema financeiro, da sua vida futura. A Humanidade é principalmente um instrumento para a acumulação de capital.
·         Nos tempos que correm, é a especulação financeira o elemento mais dinâmico para a acumulação de capital, com as vantagens de requerer pouca intervenção humana e apenas leves infraestruturas produtivas, quando se compara com tempos, poucas décadas atrás, quando a indústria polarizava a parte substantiva e politicamente activa das populações. Aparentemente, o próximo rebentamento da bolha financeira (tal como o anterior) irá ser amortecido pelos governos que intermediarão a transferência dos danos para as pessoas comuns, através das finanças públicas (a doutrina Draghi), com forte intervenção dos Estados e das classes políticas; estas que intervindo de modo cada vez mais empenhado veem nisso a sua continuidade como agentes executores. Só assim não será se os povos recusarem essa intermediação, ao contrário do que aconteceu na sequência da crise iniciada em 2008; se recusarem a atuação desviante e provocatória dos partidos ditos de esquerda que cumpriram cabalmente a sua função em Portugal, Espanha e Grécia em 2011/15.
·        Os danos ambientais, como muitos outros, são elementos provenientes do funcionamento do capitalismo, são danos colaterais que os capitalistas procuram não endogeneizar para não afetarem os seus níveis e ritmos de acumulação de capital; deixando, como é evidente, que esses danos atinjam populações de várias dimensões e que sejam os Estados (e as classes politicas de turno) a colmatar ou remediar esses danos… com o dinheiro dos impostos pagos por quantos têm dificuldade em deles se isentarem.
·        Como é óbvio, clamar contra os danos sem proceder a uma atitude fortemente crítica face às causas e seus causadores, é ser benevolente com o capitalismo; constitui uma aceitação do capitalismo como fatalidade, uma endogeneização conivente com o capitalismo, estendendo, respeitosamente, a mão à esmola de uma menor agressividade ambiental, junto das classes políticas. Assim, tudo se resumirá, à construção de um mundo de felicidade comendo soja transgénica e não carne? Ou a substituir o carro a gasóleo por outro elétrico, incorporando energia fóssil produzida algures? E o desemprego, a precariedade, o militarismo, o nacionalismo, os jogos em torno da idade da reforma, a carga fiscal asfixiante, a ausência de democracia, a mercantilização da satisfação de todas as necessidades humanas, resolvem-se na sequência de uma ação centrada no ambiente? Nesse contexto, essa benevolência e aceitação do statu quo, somadas, designam-se por cumplicidade.
·        É notória uma incapacidade generalizada de construção de alternativas à perigosa situação actual, depois do fracasso dos socialismos; que nunca passaram de capitalismos de Estado, com um partido único repartido em várias tendências rivais em vez de vários partidos rivais, como acontece nas dominantes democracias de mercado. Todos, porém, muito hábeis em práticas corruptas, de lobbying, de assenhoreamento de uma massa fiscal que nunca se reduz.
·        Faz parte dessa incapacidade qualquer focagem sectorial do capitalismo, sempre insuficiente. É metodologicamente estúpido pensar que é possível combater os efeitos sem ter as causas como objetivo central; tal como é infantil ou reacionário defender melhorias no âmbito do capitalismo, admitindo o surgimento de um capitalismo piedoso, compreensivo, domesticado, respeitador do ambiente e empenhado na contenção da deriva climática; ou ainda, mantendo um capitalismo que usa o consumismo e a dívida como formas de captura de pessoas e povos, cada vez mais precarizados pelos capitalistas e pelos seus Estados e acarretando ainda com os custos dos desvarios climáticos na saúde, nas faturas do supermercado ou, numa carga fiscal acrescida, incluída nas folhas salariais.

·        O que faz a multidão aceitar a canga capitalista? A aceitação do capitalista, do despedimento e do desemprego, do baixo salário e da pensão miserável, do aumento do tempo de vida no trabalho a despeito das capacidades derivadas de novas tecnologias, constituem uma humilhação para todos os que necessitam de se submeter para sobreviver. No entanto, não é difícil verificar que os ganhos de produtividade só marginalmente conduzem a acréscimos de rendimentos para os assalariados e, ainda mais raramente, à redução do tempo de trabalho; em contrapartida, é fácil verificar a expansão de tarefas inúteis, burocráticas, de controlo, entediantes e, cuja finalidade consiste precisamente na ocupação do tempo de vida do ser humano, travestido de trabalhador ou colaborador[5]. Este, se estiver muitas horas ocupado, submetido a métricas para a aferição do seu desempenho - que, em grande parte se integram com a medida do desempenho dos seus congéneres - vulgarmente diz-se que está a… trabalhar. Se cada assalariado, antes e depois da sua jornada, tem de se enfiar em transportes apinhados, filas de trânsito e eventual despejo/recolha de filhos em escolas ou infantários, para além de tarefas domésticas, esse assalariado terá ainda algumas horas para, exausto, se entregar às vacuidades televisivas ou das redes sociais; é um autómato integrado numa sociedade de controlo.
·        Para que seja diminuta a possibilidade de revolta, o capitalismo vem desenvolvendo os aparelhos de Estado para um nível de complexidade e de recursos, sem comparação com o proto-estado pré-capitalista, que se confundia com a propriedade privada de um rei ou imperador[6]. O Estado capitalista, nos primeiros estádios do seu desenvolvimento tinha um aparelho administrativo e um outro, repressivo, ambos suficientemente frágeis para que uma revolta popular ou um golpe de estado pudesse proceder a mudanças no poder. Hoje, tendo em conta a extensão do aparelho administrativo e dos circuitos de informação, há um entrosamento muito forte entre a classe política e os meios económicos que, no caso europeu, funcionam de modo integrado e tendencialmente uniforme. Essa cooperação europeia (e no campo da NATO) observa-se também no capítulo das forças armadas, desligadas de intervenções na política interna, mormente através dos pronunciamentos como em tempos passados; mesmo na base, são constituídas por elementos contratados e não no âmbito de um serviço militar obrigatório, obsoleto perante a tecnicidade do armamento moderno. Quanto aos diversos corpos policiais, são altamente armados e treinados para jugular manifestações populares com a brutalidade adequada, como se tem visto, recentemente, no caso dos coletes amarelos. E não se deve esquecer o papel das seguranças privadas, das suas ligações com a polícia ou como contratados para ações de apoio às forças armadas para o desempenho de ações de “guerra suja”.
·        Nos modelos políticos de democracia de mercado, as oligarquias económicas, o patronato que “conta”, isto é, os poderosos interesses das multinacionais ou do sistema financeiro não organizam golpes de estado… somente porque não é preciso; os golpes ficam reservados para cenários neocoloniais onde antagonismos tribais ou raciais coexistem com uma tropa que constitui uma forma precária de ter salário e de onde emanam, frequentemente, “chefes de estado” corrompidos por empresas mineiras ou empórios de plantações extensivas e predadoras.
·        Nas democracias de mercado há um naipe de partidos, entre os quais uns, muito poucos, são os grandes destinatários e beneficiários das encomendas legislativas, de subsídios ou, dos contratos prontos a assinar, emanados dos grandes grupos económicos locais ou globais. Como não há almoços grátis, esses grandes interesses económicos financiam discretamente os partidos e colocam nos seus quadros gente daqueles, bem pagos, que funcionarão como elos de tráfico de influências. O povo, embalado por eleições, fraudulentas na sua própria configuração e, ignorando o referido conluio, irá manter-se manso, aceitando e pagando a fatura de um capitalismo decrépito ligado à máquina estatal.
·        Regularmente quem trabalha pagará impostos sobre o consumo de bens ou serviços, sobre o rendimento ou a propriedade, para que o Estado possa funcionar como o garante da sociedade de controlo, mantenha a competitividade da economia ou, mais precisamente, mantendo a classe política e os capitalistas aquela ligados, irmanados na sucção do “pote”.
·        A aceitação com elevado grau de passividade, de resignação, do poder estatal e das oligarquias empresariais por parte da multidão, tem uma origem muito antiga, na constituição de hierarquias ancoradas no poder das armas e/ou nas ligações ao divino. Por uma ou ambas as razões, foi-se vulgarizando e considerando, como da própria natureza das coisas, a obediência a hierarquias, a naturalidade da existência de pequenos grupos de gente que dá ordens à restante comunidade. A aceitação dessa permanente e renovada coerção estrutural por parte das camadas laboriosas das populações estende-se e aprofunda-se, de modo avassalador, com o capitalismo, no âmbito do qual o aparelho coercivo do Estado chega a alcançar perto de metade da riqueza criada, medida pelo célebre PIB.
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[1] Uns anos mais atrás, em 1973, na sequência da guerra entre árabes e sionistas, uma empresa portuguesa de transporte de combustíveis e ramas de petróleo viu subir de modo astronómico a cotação da carga de um dos seus grandes navios, o que lhe deu, nesse ano, um lucro fabuloso.
[2] Sabemos que as trotinetas que se tornaram moda nas cidades europeias são fabricadas na China, depois enviadas para os EUA e dali para a Europa por… via aérea! A sua produção, exploração e duração está longe de trazer benefícios ambientais substanciais, mas… deixa os autarcas orgulhosos e os grupos ambientalistas a pular de contentes, ocultando os custos energéticos de funcionamento, de recolha e reparação dos veículos que não duram mais que dois meses. Os cães ladram e a caravana passa…