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segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

A precariedade suprema no capitalismo do século XXI

A História decorre em ciclos longos. Depois da precariedade absoluta do século XIX acompanhada pela miséria, pela doença, pelas migrações massivas e a repressão assassina - tão bem expressa em Peterloo - a luta dos trabalhadores foi ganhando maturidade na teoria e na organização.

As duas guerras mundiais geraram movimentações sociais e políticas bem como as lutas anticoloniais; bem como a decadência da Europa, a preponderância global dos EUA. A ausência de radicalidade e a conciliação com as forças do capitalismo, em pleno êxtase neoliberal, coincidiram com o fim dos socialismos como objetivos salvíficos.

Vivem-se tempos em que se chama democracia a uma rotatividade de gangs políticos que parasitam os orçamentos; em que a precariedade no trabalho e na vida campeia perante sindicatos amorfos; em que uma gripe disseminada pelo planeta veio constituir um alicerce para a criação de uma ordem global mais autoritária e rapace; em que o nariz, em permanência, se situa a um palmo de um pequeno instrumento de evasão.

Considerem-se os aspetos técnicos da produção, distribuição e consumo vigentes hoje em dia, completamente inseridos na lógica de um capitalismo globalizado e predador.

Observe-se a massa de trabalhadores, precarizados, mal pagos, manipulados pelos media e, com os velhos direitos integrados no modelo keynesiano, deformados ou já esquecidos. E, devidamente anestesiados por dificuldades várias, para aceitarem resultados eleitorais como potencial alívio nas suas precárias existências.

Outro grande número de pessoas é constituído por um volume enorme de população, de baixos rendimentos na sua grande maioria, como os reformados, os desempregados e outros, fora do enquadramento no trabalho formal.

Essa massificação reproduz-se, no plano político e eleitoral, numa mole imensa da população que fica de fora do pleno exercício dos seus direitos políticos, apenas com o solitário direito de poder votar em grupos de ungidos e, do não direito a qualquer forma de autogestão e decisão efetiva; o direito de representação só é permitido aos quadros dos partidos, cuja qualidade e idoneidade é, bastas vezes, duvidosa.

Hoje, o ambiente empresarial e mediático aponta para a rendabilidade, a competitividade, as horas extraordinárias não pagas; e a aceitação, a incorporação, a submissão à “cultura” da empresa. O mesmo ambiente, incorporando o social, aponta para a precariedade como um incentivo ao empreendedorismo, à empresarialização, ao trabalho como independente. E, para o papel do Estado, das suas estruturas de regulador “neutro”, com a redução da carga fiscal das empresas, com incentivos para a produção, exportação ou redução de custos de produção… Tudo isto, obviamente, no culto demente da competitividade, do crescimento, cujos sacrificados são o ambiente e a Humanidade; com esta, distraída do envelhecimento populacional, da quebra da natalidade, da insalubridade dos meios urbanos que são pasto do sacrossanto automóvel, da mesma maneira que os meios rurais são pasto de produtos químicos com que se pretende incrementar a produtividade.

Pretende-se um empreendedorismo dos empresários, ancorado numa massa de dívida que se recicla, ao mesmo tempo que se acumula incessantemente, com o apoio de fundos públicos e de uma massa fiscal sempre em crescimento. Segundo o FMI, a dívida global será da ordem dos $ 226000 biliões; e que pode atingir cerca de um trilião, com a inclusão dos produtos derivados. Isto é, uma dívida que se multiplica incessantemente, muito para além do razoável, cujo único final terá de ser a sua anulação, no âmbito de um cataclismo financeiro que não deixará incólume nenhum ser humano.

A entrega da resolução da questão da habitação ao “mercado” bem como o abandono do transporte público conduzem a um endividamento prolongado junto do sistema financeiro, por parte da população trabalhadora; um endividamento que contempla um bom negócio para o sistema financeiro. Essa captura, em breve, será substancialmente aumentada com o fim da moeda física e com o controlo total das pessoas pelo sistema financeiro globalizado; o Big Brother somará vários pontos na captura dos seres humanos.

Sublinhe-se o papel tentacular dos Estados como estruturas de controlo social e de reafectação de recursos para benefício dos capitalistas – nacionais ou multinacionais, consoante o grau acumulado de desenvolvimento capitalista. Não esqueçamos que o Estado é o monopolista nacional da aplicação da violência, com os seus militares, os seus polícias, os seus tribunais, as suas prisões.

É nesse mesmo Estado onde atracam as classes políticas, gente sem escrúpulos, verdadeiros vomitórios de mentiras e manipuladores de consciências, potencialmente corruptos e traficantes de influências; e também inclui angélicas figuras que acreditam num Moisés que fez o Mar Vermelho afogar o exército do faraó. Através de leis e despachos, processa-se a canalização do dinheiro da punção fiscal para capitalistas, por troca com a colocação em grupos empresariais, de mandarins habilitados no seu papel de traficantes de influências.

Grupo parlamentar dos venturecos

Perto de uma classe política cirandam jornalistas, que têm de ser próximos do regime para poderem viver da profissão. E, daí que tenham de estar sempre atentos ao que dimana das suas chefias, veículos dos interesses da empresa jornalística a que pertencem e, dos grupos de pressão que se exercem sobre os media. Tudo isso, num sector onde a precariedade é elevada, tal como o dever de não molestar os “interesses”[1].

Na base, em Portugal, está uma população empobrecida, envelhecida, que vende os seus filhos para a emigração, incapaz de se organizar para se libertar de um empresariato sem gabarito, que enriquece com subsídios e favores estatais, no âmbito da intermediação efetuada pelos gangs governamentais e autárquicos, com acesso ao “pote”. Em contrapartida, nos segmentos da economia menos atrativos para a população local, recorre-se em Portugal a mão-de obra importada, africana e brasileira que vive nas zonas urbanas; ou, asiática, semi-escravizada, trabalhando no Sul, na agricultura, em regiões desertificadas e envelhecidas.

A dinâmica demográfica e a diferença nos perfis da instrução em Portugal e Espanha é reveladora da pobreza lusa, do fosso de indigência económica e educativa que separa os dois países[2]… ; e que é, obviamente, muito superior na comparação entre Portugal e a Europa transpirenaica.

Ainda no referente a Portugal, a gestão estatal, entregue a mafias, tem duas facetas. Numa, cabem, por exemplo, as condenações de autarcas de Figueiró dos Vinhos que pretenderam utilizar os fundos destinados às vítimas dos fogos de 2017 para benefício próprio; ou o caso de um tal Vara, ligado ao PS. Se tivessem outro estatuto político estariam presos? Na outra faceta, prisão é o que se não prefigura para um burlão de alto quilate - Ricardo Salgado - que vive, confortável, desde a falência do BES em 2014 e, tudo indica que nunca será preso; deverá estar escudado nas muitas “estórias” que poderá revelar sobre os gangsters dos partidos do “arco da governação”.

O papel das classes políticas, nomeadamente dos partidos do “arco da governação”, é o de gangs concorrentes na captura dos apoios eleitorais que lhes permitam ter acessos mediáticos e financeiros privilegiados e, de colocarem os seus membros em empresas públicas ou, privadas; ou ainda, incluídos nas obscuras sociedades de advogados. Os gangs procuram também enquadrar a população no seu apoio, face à concorrência, oferecendo espetáculos televisivos de wrestling – mesmo que vazios ou imbecilizantes; e assim, angariar posições no aparelho de estado ou, em algumas empresas de maior gabarito.

Nesse caldo de baixa cultura surgem vidinhas do espetáculo e do verbo redondo, como um tal Ventura que passou do comentário futebolístico para führer de um partido fascista, o Chega[3]; uma emanação semelhante ao Vox espanhol, ao AfD alemão, ao Fidez húngaro, ao PiS polaco, à União Nacional de Marine Le Pen, entre outras excrescências.

A pandemia tem sido um elemento aproveitado para o confinamento social da população, para o isolamento, com a utilização das forças policiais e dos media para a geração de medo, insegurança e todos os problemas próprios de um confinamento; um medo proporcional ao alarmismo lançado pelas classes políticas em geral. No caso português (até dia 3/2) haviam sido tocados pelos vírus 2.8 M de pessoas, das quais 23% são ainda casos ativos, 76% estão curados, havendo a lamentar a morte de 0.7% do volume global dos infetados. Por outro lado, os 20000 mortos imputados ao covid-19 nos dois anos da peste correspondem a uma média de uns 10000 anuais; isto é 8% da mortalidade total.

Para além do medo do covid-19, paralisante, há a registar, segundo o economista Eugénio Rosa, aumentos miseráveis das remunerações (0.9%) e das pensões (0.24% a 1%), num país que tem um dos mais baixos níveis de remunerações da Europa; e ainda o desvio para pagamento de despesas com o covid-19, da ordem dos € 624 M de descontos para a Segurança Social dos trabalhadores; um hábito do regime pós-fascista com muitas décadas de prática. Perante estas atuações, não admira que tenha surgido um partido liberal (IL) preenchido por empresários, obviamente pressionantes ansiosos para morder o Orçamento.

Este e outros textos em:

http://grazia-tanta.blogspot.com/                               

http://www.slideshare.net/durgarrai/documents

https://pt.scribd.com/uploads



[1] Quando do referendo da regionalização em Portugal, a maioria da classe política era contrária, tal como acontecia no seio do governo PS (Guterres). Quem escreve estas linhas colaborava num jornal económico já extinto e era adepto da regionalização; e, nesse contexto perguntou ao diretor se podia “bater” no governo e na classe política. A resposta foi lapidar: “sim, sem problemas, tenha apenas em conta alguns empresários…”

[2] Centro e periferias (3) – Portugal, uma periferia ibérica

http://grazia-tanta.blogspot.pt/2016/06/centro-e-periferias-3-portugal-uma.html

Demografia na Europa – um mundo de desigualdades  (2015-2020)

http://grazia-tanta.blogspot.com/2021/04/demografia-na-europa-um-mundo-de.html

A instrução e o modelo económico para o Sul da Europa (1)

http://grazia-tanta.blogspot.pt/2013/03/a-instrucao-e-o-modelo-economico-para-o.html

Salários e impostos – sua evolução no século XXI

https://grazia-tanta.blogspot.com/2020/06/salarios-e-impostos-sua-evolucao-no.html

[3] É, sem dúvida, significativo que o regime não tenha excluído o Chega e tenha esquecido as próprias normas constitucionais. A evidente degenerescência do regime

Artº 46 nº 4 - Não são consentidas ... organizações racistas ou que perfilhem a ideologia fascista.

Artº 160º - 1. Perdem o mandato os Deputados que: ... d) ...ou por participação em organizações racistas ou que perfilhem a ideologia fascista.

 

domingo, 2 de maio de 2021

Emigrações, imigrações, vidas precárias

O mundo de hoje é o produto de imensas migrações – através de invasões ou de pequenos grupos - que contribuíram para o enriquecimento da espécie humana, em termos genéticos e culturais. Falar de pátrias e estados-nação é um disparate que convém a alguns. Simbolicamente, somos todos netos da Lucy.

Sumário

1 - Imigrantes e emigrantes, todos nativos do planeta

2 - População nativa e de estrangeiros residentes

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1 - Imigrantes e emigrantes, todos nativos do planeta

Se a Terra é só uma. Se a Humanidade é totalmente composta por homo sapiens, as divisões entre estados são artificiais, transitórias e, as fronteiras resultam de guerras e banhos de sangue, tendo como base ambições senhoriais.

Em regra, as fronteiras não dividem nada de substantivo, de necessário; apenas são a aplicação de efémeros direitos de propriedade, esferas sucessivas de propriedade, com os humanos divididos entre proprietários e não proprietários, com os primeiros a dominarem o Estado, estrutura autoritária e repressiva para impor essa ordem, essa conveniente exclusão, num plano político a que, hoje, em regra e com ar sério, chamam… democracia! 

A democracia é um conceito que na sua longa história, desde os tempos da antiga Atenas, sofreu essencialmente o repúdio ou a adulteração, por parte dos grupos ou classes sociais dominantes, gestoras da propriedade, cujo acesso ou usufruto recusam ou condicionam à grande maioria. Esses grupos sempre souberam rodear-se de jagunços, juízes, burocratas, polícias, exércitos e, mais modernamente, da figura dos plumitivos, a soldo dos donos dos jornais para manterem a segmentação conveniente entre “os de cima” e “os de baixo”.

Os estados-nação quando se constituíram tiveram como preocupação central a fixação da sua população, subordinada, não só aos seus senhores como, mais tarde aos capitalistas; e, dentro dessa preocupação cabia a recusa e o antagonismo quanto aos outros estados-nação, com implicações nefastas nos seus naturais.

A capacidade para a transformação da natureza pelo trabalho, a criatividade dos povos, a interação coletiva como matriz da produção de bens e serviços, tornou-se, mais e mais, desejo de controlo por parte dos de cima e da aceitação dessa apropriação pelos de baixo. Primeiro, pelos nobres, para tarefas simples, próprias de sociedades agrícolas e depois, pelos capitalistas, para tarefas mais complexas, inerentes ao trabalho na indústria e, mais tarde, nos serviços, tornados cada vez mais diversificados e absorventes de mão-de-obra.

Numa primeira fase, os serviços compreendiam, entre outros, a educação, a saúde, os transportes, os correios, os serviços pessoais aos ricos, o serviço militar, os serviços sexuais e o preenchimento da máquina estatal. Posteriormente, a conflitualidade inerente à densificação das relações económicas e pessoais desenvolveu aparelhos judiciais, coortes de burocratas e polícias. Por outro lado, a formação profissional e escolar abrangia toda a população, contribuindo para o enquistamento de um aparelho de estado diversificado, imenso e invasivo, preenchido por burocratas de carreira, enlaçados com a classe política.

A consolidação dos estados-nação correspondeu à afirmação do nacionalismo; a nacionalidade tornou-se um elemento central de distinção entre os nados e criados num dado estado-nação e, os provenientes de outros territórios. Os primeiros com todos os direitos e deveres inerentes à sua natureza de “nacionais” e os não-nacionais, mormente imigrantes, com menos direitos e mais deveres. Essa distinção vem tornando os imigrantes vítimas de distanciamento, adversidade e marginalização, vocacionados para as funções mais mal pagas, como aproveitamento das suas situações de estrangeiros, apontados como concorrentes por parte dos indígenas menos qualificados.

As distinções manifestam-se, muitas vezes, sob a forma de racismo, atinente à cor da pele, ao credo religioso, à origem nacional; aí, o mais escuro perde contra o mais claro, o muçulmano ganha em suspeição face às tonalidades cristãs;  e, um ser do norte da Europa merece mais respeito do que um balcânico. Como é evidente, todas estas desqualificações sociais ou legais visam criar uma parcela da mão-de-obra mais submissa, mais pobre, pouco exigente mas necessária para a viabilização da existência de segmentos menos qualificados do patronato.

O capitalismo atual funciona “a tous les azimutes”, usando ou não, dificuldades nas fronteiras de acordo com a relação entre país exportador e país importador, a caraterização da mercadoria, mais ou menos incorporante de trabalho ou tecnologia; e, no âmbito dessas vertentes, assim se recorre mais ou menos à importação/exportação de mão-de-obra. Por exemplo, nos EUA a imigração de europeus é mais considerada do que a dos pobres que atravessam o rio Grande arriscando a vida na travessia da fronteira com o México (e o muro de Trump) para poderem sobreviver clandestinamente aceitando baixos salários e ausência de direitos.

O capitalismo, em época de concorrência muito globalizada gera e explora essas diferenças entre autóctones e imigrantes, não só em termos de rendimentos e direitos como também explorando rivalidades, antagonismos e inventando anátemas contra grupos escolhidos. Mas torna-se bem mais tolerante para reformados que procuram destinos de clima mais ameno para viver. E, sobretudo, para oligarcas endinheirados que pagam grossas maquias para poderem viver tranquilamente do seu dinheiro sujo em países complacentes, onde é costumeira a presença de corruptos no governo. Recordemos os chamados “vistos gold” e a cadeia de patifes a eles ligados – Paulo Portas, Miguel Macedo e a seita instalada no extinto SEF – Serviço de Estrangeiros e Fronteiras.

As sociedades agrárias, pré-capitalistas, mesmo quando construíam ricos templos e palácios, usavam a escravatura numa escala muito aquém da praticada pelos países europeus envolvidos na conquista e ocupação de terras em além-mar, a partir do século XVI. As necessidades de mão-de obra nas colónias europeias da América são bem patentes nas tipologias das suas populações de hoje e, no genocídio sofrido pelos povos originais das Caraíbas, do Brasil ou dos EUA. Curiosamente, há uns 4500 anos, a construção das pirâmides do Egipto foi efetuada por trabalhadores assalariados, não por escravos, sem o uso da roda (!) mas, com a presença de cuidadores para casos de acidente na obra e contabilistas para a aferição dos tempos de trabalho!

Sabe-se que Lisboa, no século XVI, tinha uma enorme parcela da população de escravos africanos e até grupos de jovens negros “especializados” em emprenharem escravas, para os donos ganharem com a venda das crias, como escravos, obviamente; uma lógica...fabril. Claro que esses senhores seriam fervorosos cristãos…

No quadro europeu do mesmo século, a emigração forçada de muçulmanos e judeus da Península Ibérica, orquestrada pelos reis, contemplou a apropriação aos expulsos de bens e de filhos de tenra idade. Colombo e Magalhães procederam às suas façanhas como emigrantes em terras de Espanha. Spinoza era neto de emigrantes portugueses e, David Ricardo tinha nos seus ancestrais uma origem ibérica. Handel emigrou clandestinamente para Inglaterra onde lhe ofereceram um contrato bem mais interessante do que na sua Saxónia natal. A crise da batata na Irlanda, no século XIX, forçou parte importante dos irlandeses a emigrar para os EUA; e, na Alemanha, quem pôde, emigrou para fugir ao delírio hitleriano. No exército norte-americano lutaram contra Hitler e Mussolini emigrantes italianos e alemães de fresca data. Mesmo quando a memória se perdeu, a História foi desenhada por emigrantes; todos somos emigrados.

Em tempos mais recentes a desestruturação económica que o capitalismo provoca em África, obriga a uma emigração pejada de grandes riscos para a entrada na Europa onde o acolhimento é dificultado, com as pessoas a preencher as funções de pior remuneração e menores direitos. Fugiram da Síria e do Iraque, países desestruturados pela intervenção do chamado Ocidente (via ISIS) - sob a batuta  do nobel da paz, Obama - milhões de pessoas na direção da Europa. Receber refugiados é receber mão-de-obra barata mas há limites quantitativos; e assim, a UE paga à Turquia para reter quatro milhões de potenciais emigrantes com destino à Europa. Por seu turno, Trump erigiu um muro vigiado e eletrificado para impedir a chegada de gente vinda do Sul, empobrecida pela atuação das multinacionais americanas, pelas elites de criollos, etc…

Nos tempos atuais, a grande facilidade na circulação da informação e dos corpos, produzida pelas tecnologias, banalizou a emigração no seio da Europa comunitária. As desigualdades entre os vários países tornaram-se enormes, o que não acontecia até à integração da Grécia em 1981, seguida por Espanha, Portugal e, posteriormente, com os alargamentos a Leste, resultantes do desmantelamento do Comecon e da Jugoslávia. Desigualdades bem conhecidas como temos evidenciado.

Esse contexto de mobilidade deixa a cargo dos países de origem dos emigrantes a formação técnica, desequilibra as suas pirâmides etárias, engordando os escalões superiores e adelgaçando os mais próximos da base; e, oferece aos países de destino, mão-de-obra qualificada ou, desvalorizada, precária, quando não desprezada e objeto de violência pela parte de xenófobos e neonazis.

2 - População nativa e de estrangeiros residentes

Observemos a dimensão e a evolução, nos últimos anos, da população dos países europeus e da parcela de estrangeiros que vive em cada um deles, marcando com uma cor distinta os casos de redução demográfica.

Europa -  população total e parcela de estrangeiros residentes

 

milhares

residentes estrangeiros 

(% do total)

var. pop. nativa 2009/19  (milhares)

var. pop. estrang. 2009/19 (milhares)

 

2009

2014

2019

2009

2014

2019

Belgique

10 753

11 181

11 456

9,4

11,1

12,5

703

429

Bulgarie

7 467

7 246

7 000

0,5

0,8

1,5

-467

69

Tchéquie

10 426

10 512

10 694

3,9

4,1

5,5

268

179

Danemark

5 511

5 627

5 806

5,8

7,1

9,3

295

217

Allemagne

82 002

80 767

83 019

8,8

8,7

12,5

1 017

3212

Estonie

1 336

1 316

1 325

16,1

14,8

15,1

-11

-15

Irlande

4 521

4 638

4 904

12,8

11,4

13,1

383

64

Grèce

11 095

10 927

10 725

8,4

7,8

8,5

-370

-21

Espagne

46 239

46 512

46 937

11,6

10,1

11,1

698

-160

France

64 350

66 166

67 178

5,8

6,4

7,6

2 828

1387

Croatie

4 310

4 247

4 076

-

0,7

2,1

-234

55

Italie

59 001

60 783

60 360

5,8

8,1

8,3

1 359

1637

Chypre

797

858

876

15,6

18,6

18,4

79

36

Lettonie

2 163

2 001

1 920

17,7

15,2

13,6

-243

-122

Lituanie

3 184

2 943

2 794

1,0

0,7

2,4

-390

35

Luxembourg

494

550

614

43,5

45,3

48,3

120

81

Hongrie

10 031

9 877

9 773

1,9

1,4

2,0

-258

13

Malte

411

429

494

4,1

6,8

20,9

83

86

Pays-Bas

16 486

16 829

17 282

3,9

4,4

6,7

796

518

Autriche

8 335

8 508

8 859

10,3

12,5

16,6

524

618

Pologne

38 136

38 018

37 973

0,2

0,3

0,9

-163

283

Portugal

10 563

10 427

10 277

4,2

3,8

5,7

-286

150

Roumanie

20 440

19 947

19 414

-

0,4

0,7

-1 026

66

Slovénie

2 032

2 061

2 081

3,5

4,7

7,5

49

86

Slovaquie

5 382

5 416

5 450

1,1

1,1

1,4

68

18

Finlande

5 326

5 451

5 518

2,7

3,8

4,8

192

124

Suède

9 256

9 645

10 230

5,9

7,1

9,1

974

380

Islande

319

326

357

7,6

7,0

13,8

38

25

Liechtenstein

36

37

38

32,7

33,8

34,9

2

1

Norvège

4 799

5 108

5 328

6,3

9,4

11,3

529

301

Suisse

7 702

8 140

8 545

21,7

23,8

25,4

843

504

Royaume-Uni

62 042

64 351

66 647

6,8

7,8

9,3

4 605

1928

Total

514 945

520 844

527 950

6,5

7,0

8,6

13 005

12290

                                                                                         Fonte: Eurostat

Em 2014, comparativamente a 2009, a população dos países europeus aumentou 5.9 milhões de pessoas e 7.1 milhões, no quinquénio seguinte.

Em 2014 todos os países com quebra populacional são bálticos ou balcânicos, sendo a Alemanha (menos 1.2 milhões) e Portugal as únicas excepções a essas localizações. Em sentido contrário, os principais contribuintes para o aumento demográfico foram o Reino Unido, a França e a Itália.

Em 2019, os grandes contribuintes para o aumento demográfico voltam a ser o Reino Unido e a França, desta vez com a Alemanha, surgindo a Roménia e a Itália com as principais quebras populacionais.

Portugal é o único país da Europa Ocidental a apresentar quebras demográficas nos dois períodos, com um total de 286 mil habitantes, com uma dimensão populacional muito próxima da Suécia que, em 2009 apresentava uma população inferior em 1.3 milhões.

Em números absolutos e na década considerada, as principais quebras na população nativa registam-se na Roménia (pouco acima de um milhão), seguindo-se-lhe a Bulgária, a Lituânia e a Grécia. Inversamente, os maiores aumentos populacionais em 2009/19 verificam-se no Reino Unido (4.6 milhões), seguindo-se-lhe a França, a Itália, a Suécia e os Países Baixos.

Quanto aos imigrados nos países europeus em 2009/19 os principais fluxos foram dirigidos para a Alemanha (3.2 milhões de pessoas), Reino Unido, França e Itália sabendo-se que no primeiro e no último dos países referidos, a chegada de refugiados e imigrantes ficou a dever-se à desestruturação económica e política promovida na Líbia, no Iraque e na Síria; para além da atuação do ISIS, armado pelos EUA com dinheiro dos sultões do Golfo. Aqueles quatro países incorporam 2/3 do acréscimo líquido de imigrados naquele período.

Os decréscimos de população imigrada registam-se em Espanha (160 mil), Letónia (122 mil) e ainda Grécia e Estónia, todos com fortes dificuldades económicas e financeiras durante parte da década.

A parcela de estrangeiros fixados nos países europeus (incluindo, em cada estado-nação, pessoas de outras precedências europeias) mostra-se crescente, sobretudo no período mais recente, uma vez que em 2009/14 as sequelas da crise financeira limitaram a emigração. Assim, a população forânea na Europa passou de 6.5% em 2009 para 7% cinco anos depois mas, atingindo 8.6% em 2019, um resultado proveniente da recuperação da crise financeira.

Chipre e Letónia são os únicos países que reduzem o peso da população estrangeira, com um relevo marginal no caso do primeiro; por seu turno, na Letónia regista-se um decrescimento contínuo do peso da população estrangeira ou imigrada.

O volume de residentes estrangeiros apresenta-se particularmente elevado (e crescente) no Luxemburgo, aproximando-se da metade da população (48.3%) seguindo-se o Liechtenstein, embora com uma população total muito reduzida e ainda, a Suiça onde ¼ da população é estrangeira em 2019. Em caso contrário, em 2019, as menores parcelas de estrangeiros residentes observam-se na Roménia (0.7%), Eslováquia (1.4%) e Bulgária (1.5%).

Para a totalidade dos países europeus o acréscimo da população autóctone em 2009/19 ultrapassa o da população estrangeira mas apenas num total de 715 milhares o que revela a enorme importância da população emigrada na evolução demográfica naqueles dez anos. Em termos mais detalhados, observam-se várias situações;

·     Casos de aumentos da população autóctone superiores aos aumentos de imigrados – Bélgica, Rep. Checa, Dinamarca, Estónia, Luxemburgo, Países Baixos, Islândia. Suíça;

·     Casos de aumentos da população autóctone inferiores aos aumentos de imigrados - França, Irlanda, Espanha, Chipre, Eslováquia, Finlândia, Suécia, Noruega, Reino Unido

·     Casos de aumentos da população autóctone e redução de imigrados – Alemanha, Malta, Áustria, Eslovénia

·     Casos de quebra da população autóctone menor que a quebra dos imigrados – Bulgária, Grécia, Croácia, Letónia, Lituânia, Hungria, Polónia, Portugal, Roménia;

·     Casos de quebra da população autóctone maior que a redução de imigrados - Itália

Como temos observado em outros textos[1], a Europa é um terreno de grandes desigualdades; entre os vários estados-nação, uns são ricos, outros… nem tanto. No seio de cada um mostra-se a presença de imigrantes cuja origem ultrapassa em muito o cenário europeu; cuja dimensão é proporcional ao grau de riqueza do país hospedeiro; e, a saída de emigrantes dos vários estados-nação para outros países europeus mas também para fora da Europa. O mundo caminhará para ser uma grande aldeia?

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[1] Demografia na Europa – um mundo de desigualdades  (2015-2020)

http://grazia-tanta.blogspot.com/2021/04/demografia-na-europa-um-mundo-de.html

A evolução da riqueza na Europa (2000/19)

https://grazia-tanta.blogspot.com/2020/08/a-evolucao-da-riqueza-na-europa-200019.html

Retrato das desigualdades na Europa - 1995/2018 (concl)

https://grazia-tanta.blogspot.com/2020/02/retrato-das-desigualdades-na-europa.html

Desigualdades na dinâmica demográfica na Península Ibérica (1990/2019)

https://grazia-tanta.blogspot.com/2020/07/desigualdades-na-dinamica-demografica.html

Portugal 2020, um povo pobre e aprisionado

https://grazia-tanta.blogspot.com/2020/04/portugal-2020-um-povo-pobre-e.html

Europa - Dificuldades escolares de jovens com menos de 15 anos

https://grazia-tanta.blogspot.com/2019/11/europa-dificuldades-escolares-de-jovens.html

 

O abandono escolar na Europa (2000-2018) - 2ª parte

https://grazia-tanta.blogspot.com/2019/08/o-abandono-escolar-na-europa-2000-2018.html

Center and peripheries in Europe (2) - Portugal, a case of peripheral disaster

https://grazia-tanta.blogspot.com/2018/10/center-and-peripheries-in-europe-2.html

Center and peripheries in Europe (3) - Portugal, an Iberian periphery

https://grazia-tanta.blogspot.com/2018/10/centre-and-peripheries-3-portugal.html

Evolution of the world population 1950/2050 - The case of Europe

http://grazia-tanta.blogspot.com/2018/07/evolution-of-world-population-19502050_16.html

Evolução da população mundial 1950/2050 – O caso da Europa

https://grazia-tanta.blogspot.pt/2018/05/evolucao-da-populacao-mundial-19502050.html

Evolution of the world population 1950/2050 - The case of Europe

http://grazia-tanta.blogspot.com/2018/07/evolution-of-world-population-19502050_16.html