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sexta-feira, 31 de julho de 2015

A Constituição (CRP) e alguns dos seus princípios oligárquicos


A CRP conseguiu juntar estimáveis princípios de ordem geral com uma clara preocupação em centralizar a decisão numa classe política, avessa e desconfiada de qualquer forma de poder democrático. Os deméritos da CRP são não ter evitado a rapina dos bens públicos nem ter potenciado o aprofundamento da democracia.

Sumário[1]
1 – Introdução
2 - A soberania
3 - O povo cria o Estado ou é o Estado que cria o povo ?
4 - Quem constitui o povo?
5 - A captura da democracia
6 – A invalidação dos referendos

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

O Guião de um pequeno fuhrer

      
Sumário:

1 - Portas é um power-point em 3D
2 – Um fascismo periférico
2.1 – O adulador de empresários
2.2 – A veneração das sotainas
2.3 – O patriotismo como manto de cinismo e mentira
      2.4 – A “operação Barbarrossa” do pequeno fuhrer
      2.5 – O pequeno fuhrer interpreta o sentido da tradição pátria


Conclusões

A condução política do governo passou para as mãos de Portas. É o mais dotado para representar o que Nietzsche define como político: aquele que divide as pessoas entre instrumentos e inimigos;

O mais interessante nos versículos contidos no Guião é a proposta de mercantilização total da sociedade portuguesa, esvaziada dos direitos que não possam ser objeto de compra e venda;

Portas repete a adulação dos chamados empresários, muitos deles gerados pelo financiamento público e estigmatiza os que o não são nem serão, apontados como párias. Essa adulação é uma prestação de serviços com  óbvias contrapartidas financeiras;

A lógica da habitual privatização tende a ser ultrapassada pela contratualização com privados, num género de concessão, com garantias de rendabilidade dadas pelo financiamento público;

A criação de um empresariato dependente do Estado é tão artificial como a tentativa de engrossar uma falsa classe média com trabalhadores independentes, travestidos de empresários em nome individual ou empresas unipessoais;

Portas coloca-se no pedestal do mais genuino patriotismo ocultando as muitas demonstrações de ausência de soberania expostos, tanto nos tratados europeus, como na realidade financeira que vem justificando os cortes. E que são imensas;

Traça o destino dos portugueses com um “não há qualquer possibilidade de superar a emergência financeira sem reduzir a despesa pública; e não há qualquer possibilidade de reduzir a despesa pública sem ter impacto nos salários das Administrações Públicas e nas aposentações do Estado”;

Qual inquisidor moderno, Portas apresenta os condenados ao sacrifício para que a soberania regresse – aposentados e funcionários públicos – eleitos como os novos judeus, os novos herejes, apontados como inimigos dos “mercados”. Esses, são escolhidos para a primeira linha das vítimas do genocídio em curso e, outros se seguirão, certamente;

Portas adopta relativamente ao Tribunal Constitucional uma “pose de estado”; deixa as ameaças para os trauliteiros de serviço como o Vítor Bento ou o António Barreto ou, para a inimputabilidade dos cargos de suserania – Durão ou Lagarde;

Defende o modelo económico tradicional em Portugal, baseado em baixos salários, pobreza, punção fiscal elevada mas, aligeirada para as camadas possidentes que, insatisfeitas na sua subalternidade no contexto do capital global, canibalizam o seu Estado.




O Guião de um pequeno fuhrer


1 - Portas é um power-point em 3D

Alguns anos atrás, em Istambul, vendedores de pêssegos impediam os clientes de tocar nos frutos. Estes eram organizados de modo habilidoso para que se não visse terem as partes bichosas sido subtraídas, ficando os buracos cuidadosamente fora das vistas dos prováveis compradores.

Portas não é tão habilidoso quanto os vendedores de pêssegos de Istambul; Portas é, ele mesmo, o verme que é preciso extrair do pêssego para o tornar comestível.

Na sua cabeça e nas dos seus assessores de imagem entende-se que a forma do discurso, com a bandeira por detrás e o ar institucional do personagem, afastam do Guião, as atenções para as grosseiras falsidades, as ideias enviezadas, as tiradas ideológicas sem concretização, as frases que não passam de agregados ocos de palavras. Chamar Guião para a reforma do Estado ao acumular de frases feitas que enformam o texto do pequeno fuhrer é trágico, ridículo e falso.

Portas ocupou, de facto, o lugar da pileca política que formalmente é o primeiro-ministro. Cavaco, logo no início deste governo marcou um dia por semana para se encontrar com Portas, sabendo-se da pouca consideração que tinha para com o antigo chefe jotinha.  E, quando este se viu amputado do seu principal apoio (Gaspar) e obrigado a colocar nas finanças uma secretária daquele, a condução política do governo passou para as mãos do vice-primeiro-ministro, mesmo sem conhecimentos na área económica.

Portas, perante o vazio de competências políticas no PSD até gostará da purga anunciada dos críticos da direção do PSD que os acusa do desaire eleitoral; e já não dos incêncios florestais porque outubro já estava à espreita. Quanto mais invertebrado estiver o PSD mais Portas sonhará com uma fusão das duas castas, sob a sua tutela. Aliás, o que os divide de substantivo olhando para o cardápio fascizante e genocida dos neoliberais ? Recorde-se que Portas até já foi da casa, do PSD… como foi acerbo crítico de Cavaco, com o seu “Independente” enquanto o impedido Manuel Monteiro cumpria ordens no CDS, numa delegação que acabou por correr mal para o Monteiro.

Portas parece ser o único no governo com pretensões à filosofia política. Ninguém imagina os Macedos nessa função. Um, portador daquela voz de locutor de rádio e ar de alucinado era trucidado por Sócrates, quando tenro chefe da claque PSD na AR; e o outro, está mais empenhado no seu trabalho de cabouqueiro dos interesses do sistema financeiro na cadeira da Saúde. Por seu turno. o Aguiar-Branco estará mais dedicado a alargar os seus contactos para futuras contratações à sua sociedade de advogados. O Pires de Lima, falhada a redução do IVA para a restauração, acaba por se contentar com a pequena redução do IVA, entre discursos sobre a retoma e tiradas ao heroísmo dos empresários… financiados através do não pagamento de impostos ou contribuições para a Segurança Social; como ele próprio diz, não passa de um soldado. Temos o loquaz Maduro, introdutor em Portugal da moda dos “briefings”, aquela partner de uma sociedade de advogados (a Cristas) representante das empresas da celulose e que assistiu deliciada pela televisão ao festival dos fogos florestais. Dos restantes, nenhum tem o gabarito do Portas para cumprir o que Nietzsche define como político: aquele que divide as pessoas entre instrumentos e inimigos.

Discordamos dos que criticam Portas por se atrasar alguns meses na montagem do Guião. Yourcenar demorou vinte anos a escrever “As Memórias de Adriano” e nunca alcançou o brilho de Portas como empecilho social. Na realidade, a Portas faltou o merecido tempo de prisão que Adolfo, o pinta-monos de Braunau-am-Inn teve para escrever o Mein Kampf original, depois do Putsch da Cervejaria. Para aprimorar a sua mais recente obra, falta a Portas a tranquilidade do cárcere, por conta da burla dos submarinos.

Foi referido nos media que o Guião tem 112 páginas como que a sugerir a capacidade analítica, a sábia cópia dos argumentos, sem se referir que o texto, com letra em formato menos garrafal ficaria reduzido a umas 33 páginas; e expurgado do palavreado necessário para aumentar o tempo de exposição mediática do autor quase nada restaria. A prosa extensa é apenas um instrumento de prolongamento da presença do indivíduo e do seu tempo de antena, para impressionar o telespectador; um tempo de ludíbrio, de estacionamento no palco do pequeno fuhrer, da sua postura de “estado”, daquele ar sisudo que distrai a atenção das palavras, as quais denotam a gelatina que se acha sob o seu cocuruto.

A voz agreste e a dicção pausada, estudada ao segundo e nos decíbeis, conjuga-se com aquele olhar metálico copiado das pinturas daqueles bispos que estão expostas no Museu da Arte Antiga, ferozes atiçadores das fogueiras da Inquisição.  Portas assume a conduta de Torquemada tomando como judeus e herejes os funcionários públicos e os pensionistas, acossando-os com cortes e empobrecimento.

Como fuhrer sem Rommel nem Graf Spee, só com um Afeganistão para enviar uns pelotões de subalternos, o Portas ministro da guerra, à falta de melhor, avançou em 2005 com uma canhoneira contra o “barco do amor” onde navegavam defensores da descriminalização do aborto.

Mais ousado, mandou em 2012 homens e cangalhada guerreira para invadir a Guiné-Bissau, não sabendo nós, se por impulso evangelizador contra Mafoma ou por sonhar com um Anschluss, um retorno daquele país à tutela lusitana concebida por Salazar. Embora não detivesse a pasta da defesa, o pequeno fuhrer assumiu a operação – que só não deu em desastre por pouco – perante o provável alívio do titular daquela pasta, Aguiar-Branco.


2 – Um fascista periférico

Como pretenso grande estratega, Portas preencheu o Guião com ideias anti-sociais com aplicação até 2019, envolvendo revisão constitucional e a mercantilização total da sociedade portuguesa, esvaziada dos direitos que não possam ser objeto de compra e venda. O interessante no Guião não são as propostas mas, o pensamento anti-social do autor e é esse que tentaremos explicitar adiante.


2.1 – O adulador de empresários

Nesse projeto entra a campanha ideológica, sempre presente nas suas palavras, de deificação da figura do empreendedor, do empresário, do “empregador”, com a promoção de cursos de empreendorismo aos desempregados através do seu amanuense Mota Soares.

Nessa estratégia está implícito o maniqueísmo que coloca no lado errado da vida, os trabalhadores que, por falta de vocação ou, sobretudo, de capital, não podem criar empresas e aqueles que têm profissões inadequadas para um funcionamento mercantil. Ao diminuir os não-empresários como incapazes ou madraços, estabelece uma hierarquia social para além da tradicional, que resulta da riqueza e, ostraciza quem, eventualmente, possa necessitar de apoios sociais, com o anátema do recurso à caridade, próprio para indignos de caber dentro da lógica do mercado. A eliminar, portanto.

O neoliberalismo acentuou o pendor para direcionar e concentrar o produto da punção fiscal no bornal dos capitalistas. Para as funções que tipicamente cabiam aos poderes públicos apresentam-se agora duas soluções: as funções privatizáveis para cabal integração em lógica mercantil, como os transportes ou os correios, a eletricidade ou a água e, os que não podendo ter essa solução, são objeto de contratualização com privados, num género de concessão, com garantias de rendabilidade dadas pelo financiamento público. Neste último caso, trata-se de mandarins partidários elevados ao empresariato através do alvará, do contrato com financiamento estatal, figura que Adam Smith não imaginaria, no seu romantismo.

A lógica da privatização, ainda que não esgotada depois de duas décadas de sistemática aplicação, está a ser ultrapassada pela concessão e a contratualização da exploração privada de funções ou bens públicos, com garantias e generosos financiamentos públicos[1], de favor para com os seus beneficiários e que são claramente contratos nulos, susceptíveis da criminalização de quem os assinou, comprometendo o erário público por décadas.

O constante adulação dos empresários por parte do homem tem vários objetivos. Um é apresentar-se como o lídimo defensor daqueles que criam riqueza e emprego, para o que é importante a tradicional e solene pose “de estado”. Outro, é convencê-los disso para que lhe cheguem as encomendas legislativas para embaratecer o preço do trabalho, precarizar o desempenho dos trabalhadores, promover apoios sob a forma de incentivos, benefícios e contratos, a introduzir nos interstícios dos decretos da troika. E, como Portas não se enquadra no papel do bom samaritano, espera que os ditos empresários procedam aos conhecidos depósitos de € 10000 em contas bancárias à disposição do CDS e dos homens de mão do seu caudilho.

Nem só de vil metal vive o nosso klein fuhrer. Com a deificação do empresário e da livre iniciativa procura-se ampliar uma classe média de empresários ou falsos empresários, trabalhadores independentes travestidos de empresários em nome individual ou empresas unipessoais. Essas camadas estão longe de estar em crescimento mas, o importante é que se gere a ideia de que essa promoção ao empresariato é possível; o importante é criar em cada precário, em cada desempregado a ideia de pertença a uma classe média só porque vendem o seu trabalho contra recibo assinado e estão inscritos na AT como  empresários em nome individual ou sociedade unipessoal, aproveitando a modernidade criada por Sócrates, da “empresa na hora”.

A lisonja, a elevação, artificial que sejam, são formas de mascarar a precariedade, desligando o trabalhador do enquadramento social; constituem odes de retorno ao séc XVIII, ao heroísmo do empresário individual, do trabalho duro mas, agora, dissociado da ética luterana. Para quem a honestidade não circule nas veias há sempre o recurso à corrupção, essa sim, um recurso abundante em Portugal, o terceiro produtor europeu desses serviços.


2.2 – A veneração das sotainas

O ministério entregue a Mota Soares, discípulo do pequeno fuhrer, expande  a lógica da entrega de instalações de caráter social a instituições – muitas delas ligadas à Igreja Católica – que assim, com dinheiros públicos, mostra a sua vocação caritativa, a secular lógica da mercê, concedida benevolamente pelos ricos aos pobres, neste caso, doadores formais e beneficiários, todos pagos pelo erário público. Caridade com dinheiro alheio não será o aviltamento de um preceito cristão?

Nesta regressão na forma como se encara a satisfação de dificuldades de parte da população, o Estado terá interesse na redução da pobreza ou das dificuldades sociais no mínimo, por razões orçamentais. O mesmo não sucede com a Igreja Católica uma vez que essa rede financiada pelo Estado tem todo o interesse na sua perpetuidade. De facto, o Estado e as receitas dos jogos explorados pela Misericórdia de Lisboa são os reais pagantes  de vasto corpo de auxiliares e funcionários muito mal pagos -  e com a genuina dedicação de muitos – em contraste com o luxo que rodeia emplumados bispos.

Essa fonte de financiamento ajuda a Igreja Católica a exercer uma influência ideológica permanente em parcela significativa da população, fulcral em época de forte descristianização e indiferença religiosa. Num país onde não existe um partido democrata-cristão, Portas coloca-se, como elo de ligação entre a cruz e o orçamento, sem concorrência do PSD/PS, recheado de aventais.

A contrapartida para o poder em geral é a garantia do apoio político dos dignitários da Igreja, como o atual cardeal de Lisboa e o seu antecessor; o primeiro, ao permitir o aproveitamento político da sua entronização nos Jerónimos e o segundo, na defesa da austeridade, com arrotos moralistas saidos do seu retiro dourado. Com a reforma do Torgal Ferreira deixa de haver sobressaltos contestatários provenientes do clero católico.


2.3 – O patriotismo como manto de cinismo e mentira

Para comover os corações patriotas Portas refere a urgência da recuperação da soberania perdida com a troika. Seria demorada a explicação de como Portugal não tem soberania desde 1580, quando passou para um patamar inferior dos jogos imperiais a que se entregava a Europa; e como a mesma dita soberania se reduziu gradualmente até atingir a bancarrota atual. Como seria extensa a consideração das diferenças entre a soberania das pessoas e a desse ente abstrato denominado estado-nação, com vocação para uma simples autarquia, em época de globalização.

Portas considera que na UE há uma soberania partilhada (pag. 43) para disfarçar que a UE não passa de uma hierarquia de Estados, de governos, de profundas desigualdades, com a formação de duas periferias criadas para servir as multinacionais e o sistema financeiro - estes, ancorados num Centro[2] - e gerida por um diretório de cinzentos funcionários, alheios a qualquer escrutínio, mesmo no contexto da chamada democracia representativa.

O cinismo não está somente na ocultação daquela realidade. Está na forma como esconde a aceitação submissa do elenco de elementos definidores da ausência actual da soberania, para fins ínvios como adiante se decifrará:

·     o Tratado de Estabilidade, Coordenação e Governança de março de 2012, foi subscrito e aceite por Portas e pelo governo que integra, sem um leve sobressalto;

·         o Tratado e Portas apontam para o cumprimento da “regra de ouro”, do deficit público a médio prazo equilibrado ou com excedente, admitindo-se apenas um valor anual, excepcional de deficit, inferior a 0.5% e que a dívida pública não superará… 60% do PIB (artº 3º);

·         obedientemente, Portas defende a inclusão da “regra de ouro”, na Constituição, sabendo que isso constitui um espartilho para a aplicação de qualquer política económica autónoma, tornando qualquer governo pouco mais que um conjunto de funcionários teleguiados de Bruxelas e Frankfurt;

·         o pequeno fuhrer parece desconhecer que os programas para o reequilíbrio são definidos pela UE, de acordo com o Pacto de Estabilidade e Crescimento e monitorados pela Comissão e pelo Conselho Europeu (arº 5º);

·         esqueceu que há uma comunicação nacional dos planos de emissão de dívidas (art 6º) para não afetar a estabilidade dos “mercados” e do euro - o que os bancos fazem alegre e impunemente quando o entendem – ou… para que o BCE intervenha para garantir, no caso português, a subscrição dos títulos;

·         finge ignorar que os Estados assumem o compromisso de apoiar as propostas ou recomendações apresentadas pela Comissão Europeia (artº 7º) o que é uma forma de falsa mutualização da decisão, não extensível à responsabilização pelo pagamento dessa dívida, como sonha o PS e a esquerda do sistema. Nem sequer internamente o pagamento é mutualizado, pois os capitalistas são, em grande parte, isentos dos sacrifícios e cortes, tal como os bancos;

·         oculta que o Tribunal de Justiça pode condenar o país incumpridor ao pagamento de uma quantia fixa ou de uma sanção pecuniária compulsória, adequada às circunstâncias, não superior a 0,1 % do seu PIB (art 8º), o que no caso português pode ascender a € 165 M;

·         o vice, até podia ter feito um parêntesis no seu vício da aldrabice, referindo a benevolência da UE quando define que os países, contudo, “… estão disponíveis para recorrer mais ativamente… à cooperação reforçada … nas matérias essenciais para o bom funcionamento da área do euro, sem prejudicar o mercado interno” (artº 10º). Ora todos sabemos como o mercado interno dos países intervencionados tem sido… acarinhado pelos programas de resgate;

·         Portas não citou a soberania presente no preceito que assinou e em que os países terão uma supervisão pós-programa de resgate até que tenham sido reembolsados, no mínimo, 75% da assistência financeira recebida de um ou vários outros Estados-Membros, do MEEF, do FEEF ou do MEE. (artº 14 do Regulamento nº 472/2013 do Parlamento Europeu e do Conselho, de 21 de maio último). Essa supervisão, se tudo correr bem – o que é altamente improvável – ocorrerá até 2021;

·         não referiu que a partir de 2014, os subsídios da UE no âmbito do novo Quadro Financeiro Plurianual (2014-2020), os fundos estruturais e regionais serão condicionados à situação macroeconómica e ao cumprimento das regras da ortodoxia neoliberal;

·         e para terminar, a Assembleia da República que constitucionalmente aprova o orçamento assume um papel delegado e subalterno pois os Estados-membros têm de apresentar o seu projeto de plano orçamental para o ano seguinte à Comissão e ao Eurogrupo antes de 15 de outubro, conjuntamente com as previsões macroeconómicas em que se baseiam. “Caso a Comissão considere que o projeto de plano orçamental mostra não cumprir as regras acima mencionadas, a Comissão pode exigir a revisão do projeto de plano orçamental". À AR não cabe decidir, apenas aceitar;

Por além das limitações impostas pela suserania da UE e do capital financeiro que a orienta, o nosso pequeno fuhrer como vice do gang governamental, com altas responsabilidades na área económica, não explica:

·       como se pagam anualmente € 6000 M de juros (3.6% do PIB) relativos a uma dívida pública de € 203800 M em setembro último;

·         como se reduz a dívida quando parte substancial dela – a de médio/longo prazo (€ 125900 M) - tem uma amortização média anual de 14000 M (8.5% do PIB) entre 2014/2021? A  sua substituição por outros empréstimos representa a manutenção de fatura elevada de juros a pagar; e isso aumenta a soberania ?

·    qual o nível de crescimento da economia que permitirá pagar os juros e ainda dinamizar o mercado interno, o emprego, etc – e que terá certamente de ser superior aos referidos 3.6%? Qual o grau de políticas redistributivas do rendimento que Portas admite para impulsionar o poder de compra interno?

·         em que calendas - não diremos gregas porque essas porventura já foram vendidas a um consórcio internacional - haverá crescimento para que termine o sacrifício de trabalhadores da função pública e pensionistas, como solenemente garantido pelo pequeno fuhrer no seu Guião?

·       como atrai novo investimento estrangeiro ou mantém os níveis do já existente em Portugal[3], oferecendo apenas um mercado interno reduzido, salários baixos, reduções de IRC, afogamento em impostos de uma população empobrecida e com os jovens mais qualificados em fuga para o exterior, com uma Europa em estagnação económica, um orçamento monitorado do exterior que limitará também as benesses aos empresários e que obrigará a uma seleção mais cuidadosa dos actos corruptos que têm permitido a subsistência de muitos dos grandes e médios empresários?

·     sem ter uma Krupp ou uma IG Farben, como o seu defunto inspirador alemão, o pequeno fuhrer só poderá tentar “Il ritorno de Belmiro in patria” trauteando Verdi e orar ajoelhado perante o cardeal Clemente que a Isabel dos Santos e o papá não desviem os seus fundos para outras paragens. É obra!

Como pode, uma pessoa que aceita estas limitações inerentes a uma tutela externa, ter o cinismo suficiente para se arvorar no mais arraigado patriota das terras lusas. Portas mente com todos os seus branqueados dentes.

Como se observa, a soberania não existe mas, o argumento da soberania permite a aplicação de um plano macabro de liquidação de qualquer réstea de bem-estar para os portugueses, com a criação de uma sociedade onde não há direitos mas, bens ou serviços que se compram e se vendem.

Como na actual configuração do enquadramento geopolítico não há soberania alguma para povos pobres e periféricos como os português; como o paradigma económico de produção para o mercado não tem em conta as necessidades dos residentes em Portugal; como estes últimos não dispõem de um sistema político democrático no âmbito do qual possam colocar no topo da agenda a satisfação dessas necessidades; e porque lhes tem sido negado um modelo de representação que obvie ao domínio de uma classe política subserviente e conivente com esta subordinação, a questão da soberania é uma meta inalcançável, um conto do vigário permanente que dá todo o tempo para que os interesses políticos e económicos procedam aos experimentalismos exigidos para a garantia da sua angustiada mas doce existência.


2.4 – A “operação Barbarrossa” do pequeno fuhrer

Para desenrolar o novelo citemos o digno autor do Guião; “a situação de emergência financeira levou a um conjunto de efeitos políticos, económicos e sociais que, legitimamente, a sociedade portuguesa não deseja repetir” (pag 10). Esta frase é tão tautológica que se torna imbecil.

O caminho é traçado com clareza, “não há qualquer possibilidade de superar a emergência financeira sem reduzir a despesa pública; e não há qualquer possibilidade de reduzir a despesa pública sem ter impacto nos salários das Administrações Públicas e nas aposentações do Estado” (pag 11).

Assim, recai sobre uma faixa restrita da população a responsabilidade do retorno a uma imaginária soberania que reconstrói o orgulho pátrio de gente deslocada no tempo como Portas. Nessas pessoas é delegada a responsabilidade do pagamento dos desvarios financeiros que a classe política protagonizou ao serviço do capital financeiro indígena, desestruturando totalmente a economia portuguesa, endividando famílias e empresas com dinheiro fácil, empurrando para o Estado os impactos dos reduzidos capitais próprios de bancos e empresas e das impunes burlas do gang BPN ou dos arquitetos das parcerias público-privadas. São culpados do crime de trabalhar ou ter trabalhado em serviços públicos.

Nessas pessoas recai o anátema de viverem almofadados em mordomias e regalias enquanto se tornam secretas aquelas, reais e ilegítimas que a classe política decretou para benefício próprio. Procura-se assim segmentar a população trabalhadora apontando para uns que terão vivido,  mais do que os outros, acima das suas (parcas) possibilidades.

Estão eleitos os herejes e os judeus deste Torquemada v.2 que, tal como Hitler, se prepara para a locupletação com os bens das vítimas, antes de concretizar o genocídio; não em caras câmaras de gás mas, através de forçadas reduções em gastos de alimentação, saúde, energia. Estão em causa as poupanças que os trabalhadores, agora na reforma, confiaram à ladroagem pós-salazarista do partido-estado PSD/PS - tendo como gestor da sacristia o partido do Portas - para se valerem na velhice, saqueadas retroativamente com os cortes e que, conjugados com o aumento da carga fiscal em IRS, IVA e IMI, colocam em risco a posse das suas casas, adquiridas num processo da agiotagem montado pelos bancos e pelos beneficiários da volúpia imobiliária, amparados por um Estado cuja política de habitação foi o recurso ao “mercado”.

Quanto aos funcionários públicos pretende-se a sua saída seja seguida da contratação de gente precarizada – que até poderão ser os antes despedidos - para o exercício de funções públicas, com salários miseráveis, sem direitos e contratados através das prestimosas empresas de trabalho temporário. É esse o modelo apontado com a “entrega das escolas aos professores” em que aquelas deixam de ter uma gestão pública para serem pertença de grupos privados, financiados pelos impostos – como os hospitais privados de hoje – sem riscos e rendabilidade garantida; e que agradecidos acabam por acolher, reconhecidos, ex-mandarins reciclados como reputados gestores.

O pequeno fuhrer com este modelo polariza as responsabilidades da dívida para cerca de 10% da população; de permeio utiliza a desvalorização dos salários e das condições de trabalho no Estado, como exemplo incentivador dos capitalistas sem capitais e culturalmente indigentes[4]; a carga fiscal recai sobre a população trabalhadora e os reformados para não afetar empresários, historicamente avessos ao investimento criador de riqueza; tenta manter falsos empresários – sociedades unipessoais e empresários em nome pessoal para gerar uma ficção de classe média.

O nosso pequeno fuhrer é matreiro e ancorou-se na opinião da OCDE e do FMI. Este último, em janeiro emitia esta fatwa; "A massa salarial e as despesas com pensões representam 24% do PIB e 58% das despesas públicas antes de juros. Seria impossível alcançar as metas de redução de despesa sem alterações nestas duas áreas, devendo assim ser dada prioridade a reformas relevantes com elas relacionadas"[5]. Portas traduziu para português e incorporou a ideia no seu Guião para dar a entender que é criativo e que Portugal até tem soberania. Como foi denunciado mas, com fraco interesse por parte da imprensa, até as atualizações do Memorando são cozinhadas nos computadores da troika, para assinatura pelo governo, numa clara manifestação de submissão e até de falta de dignidade pessoal.

Algo pode correr mal nesta operação, sobretudo na parte respeitante ao Tribunal Constitucional, incapaz de se adaptar “aos tempos que correm”, como sugere o burro economicista Vítor Bento que disserta[6] sobre a alteração “do rácio entre o número de beneficiários do direito (de pensão) e o número de sujeitos à correspondente obrigação (de contribuição social)” sem atender à alteração do grau de capitalização das empresas ou da composição orgânica do capital, à existência de empresas sem trabalhadores mas, com formação de elevadas receitas e resultados e, sobretudo, à imensa sonegação de rendimentos produzidos pelo trabalho através de aumentos de produtividade que em nada beneficiam o trabalhador, quer no salário direto, quer no indireto. Mas essa temática é demasiado para ele entender pois… não é por acaso que se tornou conselheiro da bafienta figura acampada em Belém.

Nesta linha se posiciona também Portas com “as medidas previstas no Memorando de Entendimento numa leitura dinâmica da lei fundamental, levando em conta a excepcionalidade do resgate” (pag 22) tal como esse vulto da vacuidade chamado Durão Barroso e o Ângelo Correia defraudado mentor do Passos, que defende um “estado de emergência nacional determinado por razões económico-financeiras” ou a Ferreira Leite, com a célebre proposta de “suspensão da democracia”. Na nossa opinião, pouco há que se possa suspender mas, percebe-se a intenção: o total domínio dos “mercados”, sem máscaras, nem floclore. Mais recentemente o ministro Aguiar-Branco e o intelectual orgânico do sistema, António Barreto referiram o “estado totalitário” sem terem percebido que o estavam a ver a imagem do seu próprio projeto político


2.5 – O pequeno fuhrer interpreta o sentido da tradição pátria

O indómito estratega, na sua peça, apenas replica, pretendendo aperfeiçoar o modelo económico tradicional do capitalismo português, enterrando as sequelas e até a memória do 25 de Abril, para assegurar a continuidade dos “bons velhos tempos” de ditadura, os privilégios do clero e da nobreza capitalista[7]. Essa continuidade, sinteticamente carateriza-se assim:

·   a burguesia portuguesa, incapaz de ter aproveitado a pilhagem colonial como acumulação primitiva para promover o salto qualitativo de desenvolvimento capitalista, encaixou-se num papel subordinado e subalterno na hierarquia dos estados e do capital;

·  assegura a sobrevivência no seio da UE e, sendo esta uma vanguarda da concentração e centralização de capitais inerente à globalização, exige:

o  o apoio do Estado nacional (e dos fundos comunitários possíveis) em benefícios fiscais, contratos, empreitadas, privatizações…

o       o recurso extensivo à fraude e à evasão fiscal, bem como à corrupção como elemento decisivo na concorrência;

o   a punção fiscal concentrada numa população empobrecida e amansada através do controlo social exercido pela esquerda do sistema político;

o       a apropriação do produto dessa punção, acentuando desigualdades sociais e baixos níveis de qualidade de vida;

o   mantendo a norma tradicional dos baixos salários com alta emigração, gerando um estreito mercado interno ainda que oleado por remessas de emigrantes;

o       baixo nível de investimento estrangeiro que até tem a vantagem de evitar a concorrência ao trabalho qualificado;

O ciclo fecha-se com a constatação de que a burguesia portuguesa, depois de ter sido um denodado gerador de subdesenvolvimento nas colónias refugiou-se em Portugal como último refúgio, enquanto existir alguma autonomia do Estado, no seio da UE; também esta, por seu turno, é uma estrutura anti-democrática, bem marcada pela incoerência sistémica que convém ao sistema financeiro global.

Como dizia Almada Negreiros, a burguesia portuguesa tem os defeitos de todas as burguesias e mais um, o de ser portuguesa.

Quanto a Portas, ao ler o seu Guião à hora do jantar, ter-se-á visto no lugar de outro alucinado, Nero, diante de Roma a arder.


Documentos e textos em:





[1]   http://www.youtube.com/watch?v=5YOnCK79cpw  - um excelente documento para a área da educação
    http://grazia-tanta.blogspot.pt/2013/03/a-instrucao-e-o-modelo-economico-para-o.html
[4]   http://www.scribd.com/doc/22311099/Empresarios-portugueses-incapazes-inuteis-nocivos-e-batoteiros

sábado, 7 de julho de 2012

O Tribunal Constitucional e o roubo dos subsídios


O Tribunal Constitucional e o roubo dos subsídios 


O TC e a sua “fatwa”

Já sabemos que o Tribunal Constitucional (TC) é uma instituição do partido-estado PS/PSD. Para os mais desatentos, recordamos aquelas discussões internas, sempre que há cadeiras a preencher, quando algum dos ungidos juízes passa à (dourada) reforma.

A imagem seguinte atesta o bolor que dali emana. Pela postura solene, pela negra farda utilizada, o naipe de celebridades jurídicas mais se parece com outro famoso tribunal, já enterrado na História - o do Santo Ofício. E, como na sinistra Inquisição, estes juízes não são objeto de escrutínio democrático e constituem uma instância de lapidares e inapeláveis decisões – “fatwa”, como no Islão mais rigorista.


O dito TC emitiu uma “fatwa” no passado dia 5 de julho do ano do Senhor de 2012, apesar do voto divergente de três dos seus membros. Sem desonerar os trabalhadores da administração pública nem os pensionistas dos efeitos do assalto aos rendimentos decretado pela troika, através do chamado governo, o TC abre a porta para que o dito governo vitime os trabalhadores do setor privado com idêntico roubo.

Amor, com amor se paga. O mesmo partido-estado que nomeou os insignes juízes, para cargos tão repousantes e isentos de avaliação, recolhe, na volta do correio, os frutos da confiança depositada e da obediência desejada.


A “fatwa” do TC, mais conhecida por acórdão

O princípio da igualdade alegado pelos doutos juízes só tem aplicação para 2013. O ano corrente fica assim, decretado na “fatwa” do TC, como um ano de desigualdade. As mesmas leis em vigor têm uma interpretação distinta, de acordo com o ano civil que se queira considerar. Sendo o direito real um verdadeiro bazar há, certamente, uma lógica para isto, por muito esdrúxula que possa ser. E se não houvesse, pouco importaria, porque o TC é um género de Deus ex machina, cria matéria a partir do vácuo; nesse entendimento, ficamos dispensados de arcar com o elevado custo do recurso às habituais sociedades de advogados.

Face à decisão do TC, imaginamos o bater de palmas em reunião do conselho de ministros enquanto a partícula de Relvas (Passos), aparece, pesaroso, dentro do seu ar de sonâmbulo, a dizer que vai cumprir a “fatwa”. Mas entretanto, descansa a suserania internacional informando que não irá fazer nada sem o aval da troika. Tocante, esta sinceridade.

Vejamos. O governo garante, em 2012, a arrecadação dos subsídios de férias (já concretizada) e fica descansado quanto a semelhante saque em novembro. Nada de novo, com ou sem “fatwa”.

Várias vezes foi levantada a questão do assalto aos subsídios dos trabalhadores do setor privado, como reserva estratégica para o cumprimento do santificado memorando da troika. Perante a evidência de que a meta do deficit inventado pelo Gaspar para 2012 não vai ser alcançada, essa reserva estratégica vai ser ativada, como sempre foi claro; com a vantagem de contar, ab initio, com a última “fatwa” do TC, já emitida para os anos vindouros. Assim sendo, até a veneranda figura que costuma emitir dislates a partir de Belém, fica isenta de ser acusada de não pedir a apreciação da constitucionalidade da medida governamental, podendo dormir a sesta descansado.

Enquanto os cães ladram a caravana passa, com os alforges repletos do dinheiro roubado.

Para o TC, a questão não é a violência e a violação de direitos, a desigualdade da medida aplicada em 2012 a trabalhadores da administração pública e a pensionistas. A lógica do TC não é a aplicação do mal a alguns mas, o facto dessa aplicação não ter sido universal, de não ter recaído sobre todos os trabalhadores por conta de outrém. Que despautério! A questão, como colocada pelo TC é a de que o mal não foi generalizado e jamais a sua natureza maléfica.

Assim, o TC promove o sentimento de olho gordo para as vítimas do assalto de 2012, esperando que fiquem felizes por serem acompanhados em 2013, na redução de rendimentos, pelos vizinhos e amigos que o acaso colocou a trabalhar no setor privado.

Na lógica do TC, a aplicação da justiça constitucional faz-se pelo alastrar do mal praticado, não pela prática de actos que beneficiem ou evitem males à multidão. Os membros do TC revelaram não ter qualquer sentido de cidadania; emitem acórdãos, com a sensibilidade  de uma enfardadeira a produzir fardos de palha.


Análise política da “fatwa”

A interpretação do artº 282 da Constituição revela o comprometimento dos juízes do TC com o poder cleptocrático e a soberania do capital financeiro global. Diz o nº1 do referido artigo que “a declaração de inconstitucionalidade ou de ilegalidade com força obrigatória geral produz efeitos desde a entrada em vigor da norma declarada inconstitucional ou ilegal e determina a repristinação das normas que ela, eventualmente, haja revogado.”

Em linguagem corrente, não iniciática, a declaração de inconstitucionalidade de uma norma torna nula essa norma e o retorno à situação que a dita norma pretendia alterar. Embora latim não seja algo em que estejamos familiarizados, não resistimos à citação de uma vetusta frase que calará fundo no espírito dos juristas: cessante ratione legis, cessat ejus dispositio[1]

No articulado das leis, começa-se sempre pelo elemento mais determinante, basilar da norma, deixando para os pontos subsequentes, os casos particulares ou excepcionais de aplicação. Sendo assim, o nº 1 acima transcrito, constitui o real alicerce do artigo e do seu espírito.

Os nº 2 e nº 3[2] do mesmo artº 282 referem, precisamente, casos particulares, sem aplicação no caso vertente.

Quando convém ao legislador, as leis deixam verdadeiros alçapões para admitir interpretações e soluções a contento do poder ou de quem tiver dinheiro para contratar advogados de maior gabarito ou nome no mercado da toga. Assim acontece com o nº 4 do tal artº 282 tão esprimido e esticado pelo TC; aí, o coletivo de togados encontrou a escapatória para satisfazer o partido-estado e transpor para acordão “their master voice”. Transcrevemos a seguir o nº 4 do artigo:

“Quando a segurança jurídica, razões de equidade ou interesse público de excepcional relevo, que deverá ser fundamentado, o exigirem, poderá o Tribunal Constitucional fixar os efeitos da inconstitucionalidade ou da ilegalidade com alcance mais restrito do que o previsto nos n.os 1 e 2.”

A segurança jurídica não pode ser utilizada como argumento. A equidade também não, porque o acórdão não aplica a equidade para 2012 e deixa subjacente a possibilidade da medida governamental ser estendida a todos os trabalhadores por conta de outrém, em 2013 e anos posteriores, sem que isso perturbe a habitual hibernação dos pacatos juízes do TC. E, por outro lado, cabe perguntar se, em nome da equidade, o TC não irá chumbar as medidas por isentarem os esforçados “empresários” ou os preocupados especuladores, banqueiros e afins da imolação no altar da troika.

Que pensará o TC sobre o que seja o interesse público? Quase certamente entende ser do interesse público o que interessa a Portugal, sem cuidar de observar que Portugal é uma abstração, um conceito vazio, se não for materializado em gente, nas pessoas que nele residem, fonte de direitos e obrigações; embora os primeiros tendam a ser evanescentes e o aumento das segundas, galopante. Que sentido fará aceitar e abrir as portas à extensão dos sacrifícios em rendimentos e direitos para os trabalhadores e pensionistas se estes constituem a esmagadora maioria da população? Qual o interesse público que se constitui à revelia e em antagonismo aos interesses da população, excluído um punhado de empresários de topo, banqueiros e mandarins?

Cavaco não levantou questões de inconstitucionalidade quando o diploma definindo o assalto aos direitos e rendimentos de trabalhadores da administração pública e reformados lhe aterrou diante do nariz. No seu espírito tacanho de economicista, o orçamento estaria “uber alles” como ordenado pelo Merkel, para salvaguarda dos mercados financeiros. E o TC, no seu tosco argumentário, mais não faz que replicar a lógica do chamado presidente.

Nem um nem outro teve dúvidas; o primeiro, já nos seus tempos de alguma lucidez, havia proferido “raramente ter dúvidas”, coisa que também não ocorre aos muares. E os emissores de “fatwa” por definição também não têm dúvidas. Afastam ambos, PR e TC assim, liminarmente, o princípo de que ambiguitas, vel dubietas, in meliorem semper partem est interpretanda[3].

Torna-se pois lógico que, não tendo dúvidas nunca podem aferir se a interpretação que fazem é feita no melhor sentido; circulam numa “einbahnstrasse”, numa via de sentido único, sem rotundas,  cruzamentos ou entroncamentos. Sendo o melhor sentido, em democracia, aquele que corresponde ao mais favorável à maioria, Cavaco e o TC, como ungidos, colocam-se acima da plebe e definem eles o sentido único que paira nas suas cabecinhas, indiferentes ao impato das suas decisões sobre a multidão.

Observe-se, o parágrafo da peça jurídica do TC que, no âmbito do sistema cleptocrático se chama tecnicamente “acórdão” face ao qual a multidão tem muitas razões para o designar por “desacórdão”:

“Atendendo a que a execução orçamental de 2012 já se encontra em curso avançado, o Tribunal reconheceu que as consequências desta declaração de inconstitucionalidade, poderiam colocar em risco o cumprimento da meta do défice público imposta nos memorandos que condicionam a concretização dos empréstimos faseados acordados com a União Europeia e o Fundo Monetário Internacional, pelo que restringiu os efeitos da declaração de inconstitucionalidade, nos termos permitidos pelo artigo 282.º, n.º 4, da Constituição, não os aplicando à suspensão do pagamento dos subsídios de férias e de Natal, ou quaisquer prestações correspondentes aos 13.º e, ou, 14.º meses, relativos ao ano de 2012.”

Aqui se denota o significado de interesse público no pensamento togado.

O orçamento para 2012 foi aprovado em 2011. Foi preciso mais de um semestre para o TC emitir o acórdão? Não acreditamos que a interpretação vertida no acórdão tivesse necessitado de tanto tempo de aturado estudo dos treze conselheiros e dos seus assessores; não os temos em grande consideração em termos políticos e de cidadania mas, não os consideramos asnos. 

Se tivessem agido na devida altura, a execução orçamental não se encontraria “em curso avançado” nem se colocaria “em risco o cumprimento da meta do défice público”. Mas, não agiram, arrastaram os pés para permitir que o partido-estado pudesse cumprir o seu plano de saque dos trabalhadores da administração pública e dos pensionistas; agiram sim, em total conivência e da conveniência da facção do partido-estado no poder com a tolerância benevolente da outra ala do PS/PSD, “Seguramente”, para agora alegarem com o facto consumado.

A meta do deficit público é um instrumento de política económica e financeira, não é uma lei e o TC tem apenas de considerar e interpretar o que pode ser ou não antagónico com a lei fundamental; não tem de se preocupar com as questões conjunturais da ação governativa. E, por isso argumentar com a meta do deficit é um embuste que ficará impune dado o caráter de bula, de “fatwa”, o caráter inapelável dos acórdãos do TC. E por isso, quando Passos mostrou um ar preocupado com a situação, deveria estar a dizer aos seus botões “bom trabalho, companheiros, já nos safaram para 2013”. O seu correligionário Mira Amaral, funcionário da família Dos Santos apressou-se a clamar por despedimentos na administração pública[4]

Pior anda o TC quando argumenta com “os memorandos que condicionam a concretização dos empréstimos faseados acordados” para enformar o acórdão. O TC, desistiu da sua soberania e manifesta vassalagem aos interesses do capital financeiro internacional, a preocupação com as notações das agências de rating, as contas do ministério das finanças. Revela assim duas falhas políticas e éticas:

1.      que, para um TC o texto constitucional é O texto fundamental para um estado soberano e que reflete, naturalmente as obrigações do enquadramento internacional; ora, o memorando da troika não está contido, obviamente, na Constituição.

2.      que, como instituição, deve ter como substrato ético, não um interesse nacional abstrato mas, o interesse público, o da maioria dos residentes em Portugal.

Atuando como atuou, o TC só veio a evidenciar-se como estrutura partidária, veio dar razão aos que defendem a sua inutilidade prática para a multidão, sendo a Constituição um documento que, nas suas mãos, só admite as interpretações que beneficiam os poderes, só contemplando a satisfação da multidão de modo acessório ou ocasional.

Atuando como atuou, o TC só vem demonstrar que o constante apontar para as instâncias judiciais e de salvaguarda da Constituição por parte da esquerda institucional, representa uma forma de alimentar expetativas falsas na multidão e, nos trabalhadores em particular. Esse recurso é em geral, uma forma de alijar responsabilidades de esclarecimento e mobilização da multidão, colocando as decisões sobre os seus interesses, não nas suas mãos, na sua capacidade de luta e contestação mas, nas instituições do regime cletocrático, da democracia de mercado e do partido-estado, representante dos capitalistas lusos, delegado do capital financeiro global para a magna tarefa de empobrecimento e genocídio da multidão.

A escolha é clara. Democracia exige a supressão do partido-estado em toda a sua extensão, como temos vindo a demonstrar[5].



Este e outros textos em:



[1]     Cessando a razão da lei, cessa aquilo sobre que ela dispõe

[2]    “2. Tratando-se, porém, de inconstitucionalidade ou de ilegalidade por infracção de norma constitucional ou legal posterior, a declaração só produz efeitos desde a entrada em vigor desta última.”
“3. Ficam ressalvados os casos julgados, salvo decisão em contrário do Tribunal Constitucional quando a norma respeitar a matéria penal, disciplinar ou de ilícito de mera ordenação social e for de conteúdo menos favorável ao arguido.”

[3]   A ambiguidade ou dúvida deve sempre interpretar-se no melhor sentido
[5]   Sobre a democracia: A democracia e a sua usurpação (1ª parte)

http://pt.scribd.com/doc/85519669/Sobre-a-democracia-A-democracia-e-a-sua-usurpacao-1a-parte

     Para um novo paradigma político; a re-criação da democracia