terça-feira, 12 de junho de 2018

Evolução da população mundial 1950/2050 – O caso da Ásia (1)



A longo prazo, tudo indica que na Ásia se firmará o núcleo mais dinâmico do capitalismo global, mormente a partir da China, com um capitalismo controlado por um partido-estado tentacular que soube retirar as lições do fracasso do capitalismo de estado soviético. Essa dinâmica depende bastante da incorporação da Europa e vem beneficiando da evidente decadência dos EUA que, por sua vez, havia superado a Europa a seguir à II Guerra.
Essa mudança vai-se fazendo através da construção de redes políticas e de negócio por parte da China e por novas desigualdades e guerras estrategicamente defensivas, dos EUA, baseadas na sua evidente supremacia militar. Que custos humanos terão estas mudanças?
Sumário 

1 – A Ásia, depois de berço da civilização, reassume-se como o novo centro do mundo
1.1 – O predomínio da Europa através da colonização e do capitalismo decai depois de 1945
1.2 – A Europa, de novo uma península asiática?
2 – O perfil demográfico das áreas geopolíticas asiáticas
       2.1 – Evolução demográfica no Próximo e Médio Oriente

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1 – A Ásia, depois de berço da civilização, reassume-se como o novo centro do mundo

A Ásia acolheu o berço da civilização humana, depois dos primeiros homens terem saído de África, do vale do Rift, ao que se julga, por volta de 170000 AEC (Antes da Era Comum[1]). Essa viagem correspondeu à instalação na Mesopotâmia, na Arábia e no planalto iraniano cerca de 146000 AEC. A ocupação humana do norte da Índia terá ocorrido pelos 125000 anos AEC e a da China e da Indochina cerca de 30000 anos depois (95000 AEC). 

Apesar de geograficamente próximos da Mesopotâmia, a presença humana só terá ocorrido em torno de 38000 AEC em áreas como o Cáucaso, os Balcãs ou o sul da Itália; época em que, certamente os seres humanos da Indochina ou do sul da China chegaram à Austrália, aproveitando o nível das águas dos mares, muito mais baixo do que atualmente e que favoreceu as passagens. 

A expansão pela Europa prosseguiu, tendo os humanos chegado à Península Ibérica, ao sul da Grã-Bretanha e da Dinamarca em 29000 AEC; tal como à Sibéria. No que se refere à Europa, por alturas de 18000 AEC, toda ela incorporava colónias paleolíticas de seres humanos, excepto a Escócia e a Escandinávia; por essa época, os humanos atravessaram o estreito de Bering, principiando a colonização do continente americano.

Foi na Ásia que se procedeu primeiro à domesticação das espécies vegetais fornecedoras de frutos, cereais, leguminosas e verduras que permitiram ao Homem tornar-se menos dependente da caça, da captura de peixes e da recolha de frutos aqui ou ali, consoante a sorte que tivesse nos seus devaneios pelo espaço. Esses primeiros passos para a sedentarização e o aparecimento da agricultura surgiram, primeiramente, de modo independente, no denominado Crescente Fértil – então muito mais húmido do que hoje – e na China.

Os humanos que se instalaram nessas duas regiões asiáticas não eram mais inteligentes do que os seus congéneres que entretanto se foram espalhando pelo globo. As suas vantagens eram as fornecidas pelo clima que lhes oferecia chuvas de outono e calor no verão, num ciclo muito favorável para grande parte das espécies vegetais; estas, por sua vez, atraiam os animais, herbívoros e os seus predadores carnívoros. Essa regularidade relativa do clima permitiu aos homens uma adaptação facilitada a que se juntou o seu espírito de observação, por exemplo, para a seleção, pelo tamanho, dos grãos dos cereais – trigo e cevada e arroz na China - preferindo os maiores, para proceder à sua prioritária reprodução.

Foi na Ásia que se gerou a agricultura e a domesticação de animais, produtores de carne, leite e capacidade de aplicação da sua força no trabalho da terra, como montadas e na tração, a partir do momento em que a roda foi inventada em Mari, na actual Síria cerca de 2850 AEC. Isso não aconteceu, por exemplo, no isolado continente americano, antes da chegada de Cortez e Pizarro, uma vez que não havia grandes mamíferos como montadas ou animais de trabalho, no planalto mexicano; ou não eram adaptáveis a tal, como o lama, entre os incas. 

A agricultura, sedentarizou as pessoas, criou novas funções e a complexidade das sociedades aumenta; e aguçou a curiosidade, a criatividade e a experimentação, com um efeito de multiplicador. Assim, as técnicas utilizadas foram surgindo, aqui e ali, transmitindo-se, pelo espaço… sem registo de patentes. O neolítico chega à Índia e aos Balcãs, cerca de 6400 AEC e a cerâmica nasce na Mesopotâmia, beneficiando da abundância de água e argila. 

Outros conhecimentos ou criações fulcrais no quarto milénio AEC, são: domesticação de cavalos na Sibéria, produção de linho na Síria, de seda na China e a navegação no Egipto. No terceiro milénio, elencamos as tábuas cuneiformes no Elam, o bronze e a moeda na Suméria, o calendário de 365 dias e o mel no Egipto, o chá na China e, já na passagem para o segundo milénio AEC, também as ervas medicinais, etc.

Relevamos ainda os códigos de Ur-Nammu (2040 AEC) e o de Hamurabi 270 anos depois, ambos na Mesopotâmia, vocacionados para o estabelecimento de leis que regrassem os direitos e os deveres comunitários. Em Roma, em 450 AEC viriam a estabelecer-se as 12 Tábuas da Lei, a base do direito romano que, por sua vez foi o alicerce para os atuais sistemas jurídicos na Europa.

Nem tudo foi positivo. Na Ásia surgiram as religiões que configuram ou manipulam as mentes, geradoras de ódios, conflitos e guerras, mormente no caso das designadas “do Livro” – judaísmo, cristianismo e islamismo; numa escala muito superior às outras, também todas ali nascidas – o hinduísmo, o budismo, o jainismo; para além do confucionismo, que se situa mais como uma moralidade pública do que uma religião. 

Na Europa, a cultura minoica, surge em Creta, ligada a Ebla, uma civilização existente onde hoje é a Síria, cerca de 2500 AEC e transmite-se ao Peloponeso, constituindo ambas as áreas mais desenvolvidas da Europa naquele tempo. Em torno de 1630 AEC, impõem-se na Grécia os aqueus, indo-europeus, portadores da cultura do bronze e que, pouco mais de 500 anos depois, são superados pelos dórios, conhecedores do ferro e procedentes da Macedónia.

Em 1070 os gregos estão instalados na Ilíria, na Córsega e na Sardenha e, em 779 regista-se com a Etrúria, o que se poderá chamar o primeiro estado europeu. Por essa época é a fundação de Roma e a instalação dos gregos na Crimeia e no sul de França. As guerras greco-persas (495 AEC) mostram a existência de um desenvolvimento nesta parte da Europa algo similar ao da Ásia Ocidental.

Entretanto, Roma desencadeia uma imparável expansão na bacia Mediterrânica que ficará, na sua totalidade, a enquadrar um Mare Nostrum; na Ásia ocidental constitui-se então, uma duradoura frente civilizacional, irregular do ponto de vista militar, entre Roma e o império parto e, depois o sassânida, que terminará com a expansão árabe, no século VII. 

O desmoronar do império romano através das várias partilhas entre generais acentuou-se, sobretudo a oeste, com um desmoronamento da unidade imperial no seguimento das invasões bárbaras. O império bizantino, portador da cultura greco-romana, bem implantada no Mediterrâneo oriental, foi enfraquecendo gradualmente, por ação da expansão muçulmana no século VIII, dos cruzados e seus aliados venezianos ou genoveses e dos turcos, seldjúcidas e depois dos otomanos.

Os otomanos constituíram a última ameaça para a Europa, vinda da Ásia, primeiro jugulada no mar, em Lepanto (1571) e mais tarde com um fracassado segundo cerco turco a Viena (1683). Nessa época iniciava-se a globalização, simbolicamente, com a chegada de Gama à Índia, a circum-navegação de Magalhães e a re(descoberta) da América. Os europeus iniciaram a apropriação do comércio marítimo na Ásia, a que se seguiu a ocupação de territórios e a partilha colonial que findou em finais do século XIX; beneficiando ainda do voluntário isolamento da China, o estado mais poderoso a nível global, no século XIV.

1.1 – O predomínio da Europa através da colonização e do capitalismo decai depois de 1945

A colonização europeia afundou a economia e a sociedade indiana na pobreza e foi acompanhada, nos séculos XIX e XX, pelos japoneses, na China e na Coreia, depois de tirarem a lição devida da ameaça de bombardeamento por parte do almirante norte-americano Perry. A partilha de territórios entre franceses, ingleses e holandeses (na Ásia, aos portugueses sobrou pouco mais do que a saudade do século XVI) foi acompanhada pelos americanos que subtraíram as Filipinas a uma Espanha decadente, na entrada do século XX. 

A China, demasiado grande e populosa para um só colonizador formal, foi objeto de uma parceria, no século XX, entre as principais potências europeias, os EUA e o Japão. A Rússia iniciou no século XVII a ocupação da Sibéria, do Cáucaso e dos estados da Ásia central. A Pérsia e o Afeganistão fugiram a uma colonização típica devido à rivalidade entre britânicos e russos, para além das derrotas militares que a Grã-Bretanha sofreu às mãos dos afegãos. 

Já no século XX, após o desmembramento do império otomano, ingleses e franceses retalham o mundo árabe. Aos primeiros coube o correspondente ao Iraque, à Palestina e uma artificial Jordânia (entregue a uma família de dignitários, os hachemitas); a que, mais tarde. se seguiu o crime da entrega da Palestina e do seu povo aos instintos genocidas dos sionistas. A França, por seu turno, ficou com a Síria da qual decidiu separar o Líbano, porque então tinha uma maioria cristã maronita, com “óbvios” direitos acima dos árabes muçulmanos; e, mais tarde (1938) entregou o sandjak de Alexandretta (hoje Iskenderun) à Turquia para que esta ficasse neutra numa então já previsível II Guerra.

Entretanto, com a descoberta de petróleo na Arábia, quem mais se aproveita disso é uma tribo de salteadores do deserto - os Saud - que vence as outras tribos e conquista o cosmopolita Hedjaz, impondo a demência wahabita. A sua ligação às petrolíferas e mais tarde à sustentação do dólar como moeda global, tornou a monarquia saudita uma peça central no Médio Oriente, mormente para os EUA; a par com a continuidade da existência da entidade sionista, um género de fortaleza ocidental, com grande superioridade em armamento na região (é o único país a ter armas atómicas, com o tácito apoio do mundo ocidental).

No Extremo Oriente, o Japão desenvolveu uma forte economia entregando (ou forçado a entregar) aos EUA a suserania no mar da China e os respetivos custos que devem fazer sorrir a indústria militar americana; por outro lado, as suas relações históricas com a China e, sobretudo com a Coreia, geraram um caudal de danos, de queixas em que o racismo dos japoneses não ajuda de todo. Os EUA têm uma constelação de bases militares no Japão (Okinawa e mais outras dezenas de instalações militares); Guam, uma sua colónia nas Marianas; e uma trintena na Coreia do Sul, focadas na ameaça à China e à Coreia do Norte, à sombra da guerra que se desenvolveu há… 65 anos. 

1.2 – A Europa, de novo uma península asiática?

A separação terrestre entre a Ásia e a África faz-se numa curta faixa de terra que prolonga o golfo do Suez com o canal do mesmo nome; e que, de facto nunca separou coisa alguma através do tempo. Com a América, a separação da Ásia é nítida e processa-se através do frio estreito de Bering. 

Entre a Ásia e a Europa não há uma separação geográfica clara mas apenas delimitações meramente convencionais, de caráter político. Por exemplo, considera-se a Rússia um país europeu mas a parte maior do seu território é na Ásia, embora em termos populacionais a maior faixa esteja na Europa. 

Quanto à Turquia, o mesmo sucede mas, em sentido inverso, com o território e a população concentrados na Ásia, mantendo na Europa pouco mais do que a Grande Istambul. Só a economia e a política admitem que a Turquia seja um candidato à entrada na UE, desde há uns … 40 anos, enquanto tal cenário nunca se colocou à Rússia pelas instâncias comunitárias; nem a Rússia alguma vez terá colocado essa hipótese. 

A hipótese de integração europeia da Turquia, nunca passará disso mesmo, uma hipótese. A concretizar-se, o país tornar-se-ia o país com maior população da UE (acima da Alemanha, onde para mais residem milhões de turcos…); por outro lado, os turcos são na sua esmagadora maioria islâmicos, algo que iria encontrar muita oposição de nacionalistas, racistas, islamofóbicos, cujo número tem crescido à sombra da inépcia das oligarquias europeias, que têm alimentado AfDs, LePens, Salvinis, Wilders e entulho do mesmo tipo. A presença de um ditador como Erdogan, arrefece os mais entusiastas do alargamento que, no entanto aceitam Orbans e Kurz no núcleo duro do velho império dos Habsburgos; e, para terminar, teme-se na Europa a entrada de pessoas de línguas do ramo turco, como os azeris e os povos da Ásia central, com acordos com a Turquia no âmbito da turcofonia, para além dos ouighurs chineses. Quanto à Rússia é demasiado grande e poderosa, oferece anti-corpos vários aos burocratas que colocaria dores de cabeça ao Trump de serviço; e jamais pertenceria ao manso pelotão que integra uma NATO, dirigido a partir de Washington. Portanto, não haverá uma UE que chegue aos Urais.

Convencionou-se designar a Europa como um continente a par da Ásia, por razões mais políticas e económicas do que geográficas, repetimos; as orgulhosas e preconceituosas classes políticas europeias não aceitariam estar integrados numa península asiática, como a Índia, a Arábia, a penínsulas malaia ou a de… Kamchatka. As ilhas do Egeu unem mais do que separam as grandes massas contínuas dos dois lados do mar… como o perceberam os refugiados chegados a Lesbos. Por seu turno, o Bósforo (550 a 3000 m de largura) ou os Dardanelos (1500 m), são particularmente estreitos, com uma separação entre a Europa e a Ásia que se pode vencer com umas braçadas; são muito mais apertados do que o canal da Mancha que tem, na área mais estreita 33km… uma dimensão que, certamente não influenciou no Brexit; ou, mais estreitos do que o estreito de Messina (3300 m).

No Cáucaso, as altas montanhas separam, a norte, as atuais seis repúblicas da Federação Russa, daquelas outras que se situam a sul, a Geórgia, a Arménia e o Azerbaijão. Geograficamente, as últimas estão contidas na Ásia, com maiores continuidades topográficas com a Turquia e o Irão do que com as seis repúblicas russas. Pode pensar-se que sendo a Geórgia e a Arménia de cultura cristã ortodoxa, deveriam ser incluídas na Europa mas, o mesmo não pode ser aplicado ao Azerbaijão, islâmico, xiita e com fortes ligações ao Irão, onde aliás há também uma população de azeris. Se a cultura religiosa é um fator determinante, então as repúblicas muçulmanas contidas na Federação Russa e a norte da cordilheira, deveriam ser incluídas na Ásia, Neste trabalho, decidimos considerar a cordilheira do Cáucaso, que aliás tem bastantes caraterísticas que dificultam a sua travessia, como o separador entre a Europa e a Ásia; e que permitem seja um caleidoscópio de etnias e culturas.

Se no Cáucaso, a geografia física se pode aplicar como elemento de separação e, se no Cáspio a separação se admite com naturalidade, o mesmo não acontece com a típica consideração nos Urais ou do Volga como separadores da Europa e da Ásia, tratando-se de mais uma delimitação arbitrária, de conveniência. Os Urais, não atingem mais do que 1500/1600 m de altitude em alguns pontos; e, por exemplo, na região de Yekaterimburg não chegam aos 400 m, nunca tendo constituído obstáculo para as invasões mongóis ou tártaras, como não contrariaram a incorporação da Sibéria ou dos estados islâmicos da Ásia Central pela Rússia imperial. Quando Stalin transferiu fábricas para Leste dos Urais, não foi tanto por estes serem de difícil transposição pelos nazis mas, porque o esforço e a logística para percorrer a distância de 1650 km (!) entre Moscovo e Ekaterinburgo, com emboscadas pelo caminho, não era coisa que os generais de Hitler considerassem de pouco risco; sobretudo quando não conseguiam sequer tomar Moscovo nem a então, Leninegrado. Quanto ao Volga, bastante navegável é, como todos os rios, mais um elemento de ligação do que de separação; e quando servem de fronteira mantém a sua porosidade.

Na realidade a Europa é uma península de um continente euro-asiático, com um largo istmo, é certo, com uma população de 745 M em 2016 (10% da Humanidade, contra 22.7% em 1950) o que contrasta claramente com os 4463 M de habitantes da Ásia (59.8% do total, contra 54.3% em 1950). 

Tendo em conta a perda de poder e protagonismo da Europa no quadro global, após a descolonização; o nanismo cultural que domina a maioria nas classes políticas europeias, bem como a sua estagnação demográfica, que contrasta com a explosiva demografia africana e a dimensão também crescente da população asiática, entende-se claramente a estratégia chinesa com a criação da rede de infraestruturas de transporte que atravessarão o continente euro-asiático. Será que a via percorrida por Marco Polo recupera importância relativamente à rota de Vasco da Gama na ligação entre a Ásia e a Europa? Peyrefitte em 1973, na senda de Napoleão, escreveu “Quando a China Despertar, o Mundo tremerá”. Talvez não venha a tremer, tal como a China não voltará à demência política dos mandarins, no século XIV, em afundar, os seus espetaculares navios e fechar-se no casulo; nem o Trump de serviço colocará sucedâneos de porta-aviões na Ásia Central… como acontece no mar da China.

No relatório Global Wealth Review-2018, pode observar-se o crescimento da riqueza nos principais países (em %), recente e no futuro, onde está bem presente o declínio da Europa; os indicadores têm pouco a ver com o PIB mas bastante com a valorização dos capitais em bolsa.

2007/17
2016/17
2017/27
EUA
20
15
20
China
198
22
180
Japão
22
15
30
Grã-Bretanha
-2
3
10
Alemanha
0
5
10
Índia
160
25
200
França
-11
5
10
Canadá
25
11
30
Austrália
83
17
70
Itália
-19
4
10

Na questão do projeto “One belt, one road”, há a considerar:

·      É, obviamente, um projeto político levado a cabo por um país (a China) relativamente homogéneo em termos étnicos e culturais, com uma população enorme, num ambiente capitalista, com um poder estatal centralizado e despótico que tem uma estratégia de longo prazo, de condução da economia e da política; 

·      Em termos económicos, trata-se de facilitar o enquadramento de uma Europa rica, com elevados rendimentos e capacidades tecnológicas que funcione como mercado para a produção chinesa; em capitalismo, quem não conquista ou inventa mercados, morre. Para além da Europa, pretende-se incluir: a Ásia Central e o Médio Oriente, com grandes recursos energéticos, muito úteis enquanto durar o paradigma dos combustíveis fósseis; as grandes populações da Ásia do Sul, como reserva de mão-de-obra barata e uma massa enorme de futuros consumidores; as matérias-primas africanas e, um futuro mercado com 2500 M de pessoas em 2050; e ter do mesmo lado, os recursos energéticos e a capacidade militar da Rússia;

·        A designada Rota da Seda, com todas as suas variantes terrestres e marítimas é uma rede de comércio muito alargada – mercadorias e energia - que funcionará numa rede de infraestruturas, em curso, para a qual estão disponíveis os enormes recursos financeiros da China e do AIIB (Asian Infrastructure Investment Bank) criado em 2017 com 57 países fundadores, entre os quais estão a maioria dos países ocidentais da UE, da Ásia (mas não o Japão), a Rússia e o Brasil - único do continente americano - o que constitui um facto revelador do desagrado dos EUA face ao projeto;

 
·      É evidente que neste contexto de integração dos três continentes – Europa, Ásia e África – haverá lugar também para uma ligação mais profunda da América Latina, pese embora o seu caráter excêntrico naquele contexto; mas que poderá proceder a uma integração entre as duas margens do Pacífico (o Acordo de Associação Transpacífico (TPP) foi lançado, mesmo com a recusa de Trump e a China de fora mas, incluindo, entre outros, o Japão e a Austrália, o Chile, o México e o Peru). 

·      O elemento implícita e voluntariamente fora desta estratégia são os EUA, herdeiros e protagonistas da teoria de Alfred Mahan[2] segundo o qual, as massas continentais devem ser monitoradas e dominadas pelas “ilhas”, que as rodeiam e contêm. Dentro dessa lógica, os EUA vão mantendo, nomeadamente em torno da Ásia, um cordão de dezenas de instalações militares, várias esquadras de navios de guerra e zonas em permanente estado de insegurança e guerra (Médio Oriente e Coreia), tendo como aliados próximos a entidade sionista e a Arábia Saudita e outras criações ocasionais como o Isis/Daesh, depois da al-Qaeda; que depois, como o Golem, ficam incontroláveis, como se tem assistido.

2 – O perfil demográfico das áreas geopolíticas asiáticas

Tal como efetuámos relativamente à Europa e à África, medimos a evolução da população asiática entre 1950 e 2016, procedendo ainda a uma avaliação prospetiva para 2050, seguindo as projeções divulgadas pela CNUCED/UNCTAD, instituição do universo das Nações Unidas. Assim, a demografia asiática revela 1374 M de pessoas em 1950, 4463 M em 2016 e prevê uns adicionais 800 M em meados deste século.

Ainda que sempre crescente em todo o período, a população asiática, no contexto global, mostra que o seu peso relativo sobe regularmente de 54.3% em 1950 para 60.7% em 2000, decaindo um pouco até 2016 (59.8%), prevendo-se para 2050 que corresponda a uma parcela do total, próxima da registada um século atrás; isto é, 53.8% do total. Essa previsão de perda de peso relativo da Ásia deverá ocorrer também, especialmente na Europa e também de modo mais ligeiro, na América; todos esses três continentes perdem representatividade na população mundial face à África como vimos atrás. Assim, a população asiática que, em 1950 era seis vezes superior à africana é 3.7 vezes superior em 2016 e sê-lo-á, cerca do dobro em 2050. Quanto à Europa a situação evolui de modo muito rápido, com a Ásia a ter 2.4 vezes mais população que a Europa em 1950 e, seis ou 7.3 vezes mais, em 2016 e 2050, respetivamente. Para além de geografia física indicar a Europa como península asiática, também a demografia aponta para uma menor relevância no seio da massa euro-asiática, como também acontece na comparação com a África.

Procedemos, para detalhar mais a abordagem demográfica, à divisão da Ásia em duas enormes áreas, sensivelmente separadas pelo rio Indo – uma separação que vem de remota antiguidade: uma será o Próximo e Médio Oriente, na clássica e eurocêntrica forma de considerar a parte mais ocidental da Ásia, muito maioritariamente de cultura islâmica e a outra, muito menos homogénea culturalmente, a leste do Indo e que designámos por Ásia Central e Oriental[3].

Em qualquer dessas áreas há diferentes ritmos de criação de riqueza e bem-estar, podendo separar-se dos restantes, uns quantos países-âncora, como fizemos para a África; esses países que terão uma representatividade e uma força centrípeta relativamente aos povos situados num raio mais ou menos alargado. Por outro lado, a Ásia, no seu todo, tem uma determinante influência planetária, mormente nos casos evidentes da China, da Índia e do Japão, por razões demográficas, económicas e políticas.

Tendo como referência o ano de 1970 verifica-se que a evolução demográfica da Ásia no seu total é determinada pela Ásia Central e Oriental que tem uma grande ponderação no total do continente; e isso dá maior relevo, no gráfico, ao conjunto dos países do Próximo e Médio Oriente quando observados isoladamente. Olhando para o gráfico, observa-se que para a Ásia Central e Oriental a população cresce 2.4 vezes, enquanto para o Próximo e Médio Oriente o aumento é superior a cinco vezes, na projeção para 2050.

Em regra, os conjuntos âncora em cada um dos blocos de países têm um dinamismo demográfico claramente inferior aos países restantes do mesmo conjunto. No caso da Ásia Central e Oriental, nos 46 anos terminados em 2016, a população fica um pouco além da duplicação para os países âncora mas, multiplica-se por 2.7 vezes para os restantes; e, na projeção para 2050, também face a 1970, os países âncora tendem a aumentar a sua população 2.1 vezes enquanto para os outros o aumento poderá ser de 3.6 vezes.

No caso dos países do Próximo e Médio Oriente a situação é semelhante ao atrás referido mas em patamares muito mais elevados. Os países âncora apresentam valores de crescimento claramente abaixo dos restantes, relativamente a 1970 (2.8 contra 4.9 vezes, em 2016); nas previsões para 2050 aumenta a desproporção (3.4 vezes para os países âncora e 8.5 vezes para os outros do agrupamento).

Finalmente, refira-se que o crescimento demográfico dos países âncora no Próximo e Médio Oriente evolui em paralelo com os outros (não âncora) da Ásia Central e Oriental; o que revelará – não iremos aprofundar a questão – diferenças em termos de taxas de natalidade e mortalidade infantil, como também uma relativa equiparação entre o dinamismo demográfico entre os mais pobres dos mais ricos com os mais ricos dos mais pobres.

Comparando a situação dos países âncora e restantes, de África e do Próximo e Médio Oriente, em 2016 e 2050, observa-se que em África há uma evolução demográfica aproximada entre os países âncora e os restantes; e que nos países do Próximo e Médio Oriente as diferenças são muito mais acentuadas. Isto poderá interpretar-se como uma grande homogeneidade entre as populações africanas, com índices de crescimento demográfico indiferentes à situação de países âncora ou não; e que as diferenças de dinamismo económico não diferenciam os níveis de crescimento demográfico.  

                                                            nº de vezes a população de 1970

2016
2050
Âncoras - África
3.2
6.3
Âncoras – P M Oriente
2.8
3.4
Restantes - África
3.6
8.1
Restantes – P M Oriente
4.9
8.5

2.1 – Evolução demográfica no Próximo e Médio Oriente
 
Os países do Próximo e Médio Oriente podem agrupar-se de vários modos. Quase todos são de matriz islâmica, exceptuando a Arménia e a Geórgia onde a cultura dominante se baseia no cristianismo de raiz bizantina. O mesmo sucede com a entidade sionista que se arvora politicamente numa designação de “estado judeu” que não é; primeiro, porque o judaísmo histórico sempre se integrou nos outros estados-nação sem almejar constituir um próprio – até ao surgimento do sionismo, em meados do século XIX; e, em segundo lugar, porque no poder domina uma oligarquia racista, genocida e descrente. 

Entre os estados de cultura islâmica a sua maioria tem população sunita, embora os xiitas sejam dominantes no Irão, no Iraque, no Líbano, no Bahrein, no Azerbaijão e no Yémen (zaiditas) ou constituam importantes minorias na Arábia Saudita, no Afeganistão, na Síria (alauitas) e na Turquia. Por sua vez, no Oman, o predomínio cabe aos ibaditas, uma outra expressão do islamismo.

A maioria dos países deste conjunto tem grande dependência da exploração de combustíveis fósseis - Azerbaijão, Arábia Saudita, Emiratos (entre estes, só três têm hidrocarbonetos, Abu Dhabi, Dubai e Sharja), Kuwait, Irão, Iraque, Qatar e Oman, tendo a entidade sionista iniciado recentemente a captação de gás natural no mar. Nos restantes, os hidrocarbonetos têm pouco significado relativo ou, não existem para exploração; para além do Bahrein – pioneiro da extração, no Golfo, em 1932 – onde a exploração acabou, por exaustão dos jazigos. 

Em muitos destes países há grande parcela de imigrantes. Na Jordânia, parte substancial da população é palestiniana ou tem essa ascendência. Na Arábia Saudita há uma grande minoria de yemenitas para além dos xiitas da margem do Golfo que, sendo sauditas, não deixam de ser discriminados, por esse motivo. No Kuwait, no Qatar e nos Emiratos os seus naturais são francamente minoritários e os imigrantes, em grande parte, paquistaneses, bengalis ou filipinos, são discriminados e objeto de grande exploração, ocupando-se sobretudo de serviços domésticos.

Quanto à demografia na região, observa-se grande diversidade de situações no período 1970/2016. Em primeiro lugar, referimos o assombroso ritmo de crescimento demográfico nos Emiratos (83.4% ao ano), seguidos do Qatar com “apenas” 48.8% anuais; em termos reais significa a passagem de 235 mil para 9270 mil no primeiro caso e de 110 para 2570 mil no segundo, na sequência de um inusitado recurso à entrada de imigrantes. Outros casos de elevada média de crescimento populacional registam-se no Bahrein, no Oman, na Jordânia, na Arábia Saudita e no Kuwait.

Os casos de mais baixo crescimento demográfico anual verificam-se no Azerbaijão (1.2%) e Turquia (2.8%). Comparando com a Europa, no mesmo período, só alguns países têm taxas semelhantes ou superiores a estas últimas situações; falamos de… Andorra (4.8%), S. Marino (1.6) e Luxemburgo (1.5%) como observámos recentemente. Em suma, os maiores dinamismos demográficos da Europa estão ao nível dos mais baixos do Próximo e Médio Oriente. E isso, a despeito das guerras levadas a esta região pelos chamados Ocidentais, cujo parco crescimento demográfico – quando existe – depende essencialmente da importação de imigrantes baratos, mormente de África ou do Próximo e Médio Oriente. “Isto é civilização, assim falou um senhor” (Fausto Bordalo Dias).

No Próximo e Médio Oriente também há casos de redução populacional em 1970/2016 – Arménia e Geórgia – cujas perdas se situam, respetivamente, em -0.3 e -1.1% anuais.

Quanto às perspetivas de evolução para 2050, tendo como base as populações registadas em 2016, observa-se uma quebra acentuada e generalizada nos ritmos de crescimento demográfico anual, comparativamente ao período atrás referido, findo em 2016. Para o Líbano surge uma quebra populacional média de 0.3% tal como se verifica para a Arménia e a Geórgia, nestes últimos casos, com um abrandamento do ritmo de perda de população que já vem de trás. Os casos onde são previstas maiores taxas de crescimento populacional para 2050 são o Iraque (3.5% por ano), a Palestina (3%) e a Síria (2.5%); e entre os mais anémicos dinamismos demográficos na região, salientam-se o Irão (0.5%) e a Turquia (0.6%), dois dos três estados-nação que considerámos como âncoras regionais. Estes dois últimos casos, contudo, apresentam indicadores muito superiores à generalidade dos países europeus, se se excluírem o Luxemburgo e a Noruega.
     
                Evolução da população do Próximo e Médio Oriente em 2050 face a 2016  

Uma comparação interessante entre indicadores de crescimento demográfico em 1970/2016 é a que relaciona a Palestina (7.1% anuais) e a entidade sionista (4.1%), reproduzindo-se essa grande desproporção nas expectativas para 2050 (3% e 1.6%, respetivamente). Se se considerar a população do estado palestiniano, somando os chamados “árabes” de origem palestiniana que vivem no estado sionista (15 a 20% do total), acrescentando o facto de que a sua natalidade é mais elevada que a dos ocupantes e, finalmente, que há um elevado número de imigrantes vindos de outros locais, pode dizer-se que hoje, a população palestiniana é equiparada à dos efetivos israelitas. Se as dinâmicas demográficas até 2050 se confirmarem e que não é previsível uma massiva chegada de novos judeus atraídos pela “pátria israelita” é evidente que há um problema grave que se coloca, a longo prazo, ao chamado estado israelita, revelador da sua fragilidade estratégica. Essa fragilidade vai subsistindo enquanto garantida pelo poder militar, pela desunião ou conivência dos estados árabes e ainda, da tolerância dos europeus ou do declarado apoio dos EUA de Trump, como se vem observando no episódio do reconhecimento de Jerusalém como capital sionista ou, do desprezo face à morte de populares palestinianos pelas balas da FDI/Tsahal, no aniversário da Nakba.

Outra questão que vai subsistindo na região prende-se com a identidade curda, repartida por quatro países – Turquia, Iraque, Irão e Síria – com maior peso na população total dos dois primeiros. As guerras no Iraque elevaram as capacidades de organização autónoma dos curdos, beneficiando, primeiro, da proteção dos EUA contra Saddam; e depois do mesmo apoio face à ameaça do ISIS sobre o território curdo, como também do governo iraquiano (xiita) instalado em Bagdad. Na Síria, as comunidades curdas, vivendo junto da fronteira turca beneficiaram da incapacidade militar inicial de Assad perante as investidas do ISIS e outros grupos, para gerarem áreas de auto-organização, no seguimento da expulsão dos jihadistas das áreas de implantação curda na Síria. Sabe-se, porém que para o governo turco, o seu exemplo é visto como um fator de contágio para a população curda vivendo na Turquia; como se observou na recente investida turca sobre Afrin.

Os EUA envolveram-se na desestabilização do corredor de ligação entre o litoral sírio/libanês e o Iraque ou o Irão, procurando o seu encerramento, enquanto a Rússia, se mostra decidida a manter a sua única posição política e militar no Mediterrâneo, em torno do que se chama o eixo xiita. Os EUA e os seus peões regionais – mormente a Arábia Saudita e a entidade sionista - falharam no derrube de Assad, cuja consequência seria o isolamento do Líbano, dominado pelo xiita Hezbollah e principalmente, distanciando o Irão, cujo acesso ao Mediterrâneo passaria pela Turquia, também com propósitos de suserania na região. Quando se tornou clara a derrota dos grupos jihadistas[4], Trump criou uma nova frente de disputa, denunciando o acordo multilateral de 2015 relativo ao não uso pelo Irão de armas nucleares que, no entanto, são detidas e aceites tacitamente a Israel, há décadas. 

Por seu turno, a Turquia procede a uma política de ziguezagues. Dá uma natural prioridade ao não levantamento da sua população curda; negociou petróleo, numa fase inicial, com o ISIS que combatia Assad; aceitou a oferta monetária da UE para controlar/reter os refugiados a caminho da Europa; esperou o momento certo para ocupar a zona curda síria de Afrin e, apesar de ser membro da NATO, vem estabelecendo pontes com a Rússia, com promessas de compra de armamento sofisticado. 

A Arábia Saudita há vários anos, com o apoio dos emires do Golfo, envolveu-se numa guerra civil no Yémen, com o objetivo de ter um acesso mais alargado ao Índico, com o domínio da margem oriental do Bab el Mandeb e alargar o predomínio wahabita na região, em detrimento do xiismo. Uma guerra pouco mediática para a qual a “comunidade internacional”, alinhada pelo seu tenor Trump (como antes por Obama) olha para o lado; tal como acontece com o abate de manifestantes palestinianos pelos sionistas. que se tornou também uma rotina.

Finalmente, outro crónico foco de conflito na região, o Afeganistão. Depois da falhada invasão soviética que contribuiu largamente para o desmembramento da URSS, seguiu-se a intervenção dos EUA à frente da “comunidade internacional[5]” na busca de bin Laden e do mullah Omar. Com a formação de um governo afegão apoiado pelos EUA, estes ensaiaram uma retirada; porém, atualmente, os talibans controlam grande parte do território e o governo e a embaixada dos EUA, estão acantonados numa “zona verde” de Cabul, fortemente defendida, com a presença acrescida de tropas americanas, com soldados portugueses a ajudar na segurança do aeroporto da capital. Neste contexto, a China negoceia com o governo afegão áreas de exploração mineira e, certamente saberá como não ser vítima de ataques dos talibans.

(continua)

Textos anteriores sobre a evolução da população mundial

Europa

África

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[1] AEC é uma forma de apresentar a cronologia sem a conectar com qualquer religião, como o tradicional  AC (antes de Cristo); se conveniente pode usar-se EC (Era Comum) para os tempos posteriores a um instituído ano zero
[2]  Alfred Mahan foi um oficial de marinha norte-americana que considerou necessário para a preponderância das potências imperiais (Grã-Bretanha e depois, os EUA) a posse de uma marinha de guerra poderosa e bases navais para rodear as grandes massas continentais, mormente na Ásia 
[3] Próximo e Médio Oriente – Afeganistão, Arábia Saudita, Arménia, Azerbaijão, Bahrein, Emiratos Árabes Unidos, Entidade sionista, Geórgia, Irão, Iraque, Jordânia, Kuwait, Líbano, Oman, Palestina, Qatar, Síria, Turquia e Yémen, onde sublinhamos os que considerámos como âncoras regionais.
Ásia Central e Oriental – Bangla Desh, Butão, Brunei Darussalam, Cambodja, Cazaquistão, China (mantendo em separado, para efeitos de análise a República Popular, Hong-Kong, Macau e Taiwan), Coreia do Norte, Coreia do Sul, Filipinas, Guam (colónia dos EUA), Índia, Indonésia, Japão, Quirguizistão, Laos, Malásia, Maldivas, Maurícia, Mongólia, Myanmar, Nepal, Palau, Paquistão, Singapura, Sri Lanka, Tailândia, Tajiquistão, Timor-Leste, Turquemenistão, Uzbequistão e Vietnam. Os países que considerámos como âncoras regionais estão identificados com um sublinhado.