quinta-feira, 14 de maio de 2015

O economicismo ou o discurso do empobrecimento compulsivo

Os sacerdotes do excel, como aqueles que na Antiguidade antecipavam o futuro lendo as vísceras de uma galinha inscrevem-se numa longa linhagem. A modernidade na história da aldrabice é hoje bem representada pelos economicistas.


Convém que se aponte a dívida como elemento de ordem política – e não apenas financeira - para a duradoura submissão de povos. Tão ilegítima é a dívida, como criminosa a classe política que a suporta.

Sumário

1 - A magia do excel
2 – Universidade, fábrica de obediência
3 – O economês, a linguagem do poder
4 - A ortodoxia economicista
5 – Desigualdades, pobreza e controlo político

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1 - A magia do excel

Recentemente, foram emanados pela escolástica economicista portuguesa dois textos. Uma “Proposta de Programa de Estabilidade 2015/19” vindo da área governamental e um relatório designado “Uma década para Portugal” encomendado por uma área política que quer ser governo.

O primeiro tem o selo de um ignorante chamado Passos e o segundo não é assumido pelo manhoso Costa. Neste último caso, não é preciso vários doutoramentos para perceber a jogada; o homem manda 12 sumidades configurar o futuro dos portugueses para uma década, como balão de ensaio, resguardando-se, para mais tarde aparecer como o corretor ortográfico do documento ou, um género de polícia bom que se demarca do polícia mau.

O excel pode ter muitos defeitos mas um não tem; não deixa de reproduzir de modo irrepreensível o resultado dos números que lhe metem dentro. O problema, naturalmente, não é do instrumento mas, de quem o manuseia e do que vai na sua cabeça. Se tiver bom senso e ética, procura incorporar e relacionar variáveis que conduzam ao bem-estar coletivo; se ética e cidadania lhe tiverem sido ensinados como reles produtos sem cotação na bolsa, sobressai o ridículo ou o prejuízo da coletividade.

O excel do Gaspar falhou e o homem, reconhecidamente lento na expressão, precisou de dois anos para ver que os dados que havia colocado na folha de excel obedeciam a uma aritmética diferente da que revela as relações económicas e sociais. Bateu com a porta e cedeu o lugar ao Portas, bem mais habilidoso a gerir numerário.

Simbolicamente, a folha de excel do Gaspar terá ficado perdida num computador do ministério e encontrada pelas duas turmas de economicistas.

Do ponto de vista dos interesses da esmagadora maioria da comunidade dos sobreviventes em Portugal, o resultado das folhas de excel dos entes encarregados de os produzir é um aglomerado de bestialidades bem adornadas pela insípida linguagem técnica que disfarça a petulância, o espírito antissocial ou a desonestidade intelectual de muitos universitários de topo.

Será algo semelhante a folhas de excel que emite as previsões do FMI, corrigidas constantemente para que no final batam certo com a realidade, numa esperteza infantil indigna de crânios viciados na laboriosa configuração das reformas estruturais, cujos benefícios os povos – ignorantes - nunca conseguem almejar. O excel também veicula as previsões dos resultados da denodada ação governamental que a realidade se recusa a subscrever, como no caso da dívida pública, do deficit, das exportações, do investimento estrangeiro, etc. Ainda não havia excel e já o planeamento soviético se mostrava expedito na aldrabice; os dados que descreviam a realidade eram inventados para ultrapassarem as previsões do plano e revelarem assim a maestria dos gloriosos líderes da classe operária.

Os sacerdotes do excel, como aqueles que na Antiguidade antecipavam o futuro lendo as vísceras de uma galinha inscrevem-se numa longa linhagem. A modernidade na história da aldrabice é hoje bem representada pelos economicistas.

2 – Universidade, fábrica de obediência

Num país de pacóvios, com o nível de instrução mais baixo da Europa (se excluirmos a Turquia) e onde muitos se inscrevem na categoria de homo videns, dado o tempo passado defronte da televisão, é cultivada a deferência por políticos comentaristas ou por produtos da universidade, sobretudo se bem-falantes, de onde sai, empacotado, o “Conhecimento”, a escolástica economicista, neoliberal.

Essa deferência tem raízes que remontam a uma passada e miserável ruralidade, à Inquisição e ao fascismo. No tempo de Salazar era hábito, em Coimbra, tratar-se por doutor qualquer adolescente com capa preta. Hoje, continua a usar-se, na linguagem verbal ou escrita, como prefixo para o nome de qualquer produto da universidade, um Dr., um Doutor, um Professor, quando não um Professor Doutor. E, entretanto, voltou a usar-se em escolas superiores aquela farda que se tornou símbolo da idiotia alcoolizada das praxes, que merecem a infinita benevolência de acomodados reitores.

É evidente que este modelo cultural elitista se esboroa quando dezenas de milhares de jovens doutrinados na obediência emigram sem retorno, como quaisquer reles proletários; ou, quando se observa, nos que ainda vivem em Portugal - desobedecendo a Passos, com a recusa da emigração - um desemprego massivo ou pagas precárias de € 500. Mas, mantém-se, na plebe, a deferência pela opinião de uns quantos comentaristas, construtores do conservadorismo que torna passiva e atávica a sociedade portuguesa. Veja-se a notoriedade televisiva daquele lente capaz de ler 50 índices e prefácios de livros por dia e de promover um livro sobre caroços de pêssego, entre duas irrelevâncias de caráter político. Na realidade, o pior não é o lente nem as suas vacuidades mas, os que se apoucam ao sorver as suas palavras.

A universidade tornou-se uma fábrica de especialistas[1] apesar de a palavra apontar para o conhecimento da globalidade, da realidade, forçosamente una. A universidade é capaz de promover a ciências, simples técnicas empresariais ou contábeis e o empreendedorismo, a competição e o individualismo são os instrumentos privilegiados de atuação, em detrimento da lógica colaborativa que promoveu o alargamento, a densificação e a difusão do conhecimento, desde os tempos mais remotos. Nessa lógica competitiva, o desempenho mede-se pelo número de papers, de bolseiros precarizados, em rácios de custo/benefício, com a utilização frequente de colagens de textos retirados da internet e longas referências bibliográficas para impressionar; a criatividade será a possível desde que se não melindre as opiniões expendidas pelo supervisor e não sejam esquecidas as referências aos seus papers. Por último, o produto final tenderá a não ser grande coisa.

O facto de o economicismo[2] se ter tornado a ideologia do neoliberalismo torna os seus práticos soberbos, verdadeiros sacerdotes que revelam aos donos do dinheiro os enigmas dos oráculos. São duas das suas faces mais desacreditadas e ridículas, as predições das empresas de rating que os media regurgitam com ar solene; e a informação fornecida, várias vezes ao dia, sobre a marcha das cotações na bolsa, neste caso, particularmente esclarecedora quando nos informam que a evolução está “mista”.

James Galbraith, economista de relevo, refere que há um fosso entre o exercício profissional dos economistas e a realidade. Segundo ele, na geração de seu pai (John Kenneth), os economistas sabiam que a economia é apenas parte de uma realidade complexa e de difícil previsão; e por isso eram humildes, ao contrário dos atuais que vivem num verdadeiro claustro[3]. Dessa soberba vivem professores universitários cujos elementos mais “avançados” conseguem ultrapassar a imbecilidade para chegar ao fascismo, como um tal Cosme Vieira[4]

3 – O economês, a linguagem do poder

Os relatórios ou programas acima citados recentemente revelados, escritos no mais puro economês, são a antítese da economia enquanto disciplina social. De facto, o economês, nada tem de social, os economicistas reviram os olhos de êxtase perante uma célebre frase da santificada Thatcher: “A sociedade não existe”. Nos dicionários do economês, a sociedade é uma ilusão de óptica típica dos ignorantes e que os impede de ver o pendular funcionamento dos divinos mercados.

Perante a observação das monótonas centúrias de economicistas que por aí andam, Tchekov, se fosse vivo, voltaria a dizer, como há uns 150 anos “A universidade desenvolve todas as capacidades, inclusive a estupidez”; e falava com conhecimento de causa, pois era médico. Guerra Junqueiro, um pouco mais tarde dizia que a universidade iluminará o mundo no dia em que lhe largarem fogo; e sabia do que falava, pois licenciara-se em direito. Em tempos mais recentes, Agostinho da Silva e Bento Jesus Caraça, entre outros, foram expulsos da universidade como indignos de ombrear com os doutos colegas de Salazar, em tempos de feroz combate ao cosmopolitismo destruidor das virtudes pátrias.

Os escolásticos durante muito tempo entendiam que as obras de um tal Shakespeare pertenceriam a várias pessoas distintas daquele, pois achavam inconcebível que o William tivesse aquela maestria na análise social e na construção literária sem… nunca sequer ter frequentado a escola. Um reitor da universidade de Coimbra, ao ser confrontado com a gravidade, conceptualizada por Newton, entendeu recusá-la com o lapidar argumento de que não constava da Bíblia. Inversamente, David Graber antropólogo pouco dado a recitar o que convém ao poder, foi dispensado da universidade de Yale, enquanto ninguém persegue os muitos professores universitários de recorte trotsko-estalinista, dada a sua utilidade na promoção do Estado, da hierarquia e da propriedade, peças essenciais à fogosidade do capital.

Confundir conhecimento com religião e chamar factos a construções preconceituosas é de todas as épocas onde se assista ao casamento entre o poder de estado e a autoridade escolástica, par definidor do bem e do mal, como antes se observava, entre o rei e o clero.

4 - A ortodoxia economicista

A ortodoxia economicista no capítulo das dívidas soberanas da periferia Sul da zona euro – particularmente da Grécia e de Portugal – pretende, como objetivo supremo, que aquela seja paga. O que é absolutamente falso; a dívida é impagável e todos sabem isso[5].

Essa ortodoxia coloca-se tanto do lado do sistema financeiro (BCE incluído) acomodados nas suas funções de (eternos[6]) credores, como do lado dos poderes nos países endividados que se afincam na punção fiscal dos povos, com o argumento de que “não somos caloteiros”. Os primeiros, discretos, colocam-se atrás dos funcionários de Bruxelas e Frankfurt que os representam; e os governos dos países endividados colocam-se na posição confortável de cobradores, (falsos) impotentes intermediários que lastimam a exação fiscal que aplicam aos povos, por imposição ou melhor, por diktat externo.

Acontece que a dívida – particularmente nos casos grego e português - não é pagável[7]. Primeiro, porque em termos estritamente financeiros, um plano de amortização, com escrupuloso pagamento de capital e juros, não se coaduna com os objetivos impostos para o deficit e para o crescimento do PIB, sem a remessa dos povos dos países endividados para uma nova idade das trevas. Em segundo lugar, porque ao capital financeiro interessa somente manter o fluxo de uma renda eterna de juros, com a pressão necessária e suficiente para o seu pagamento, para a substituição de fatias de dívida pagas por novas dívidas, numa reciclagem perfeita. Em terceiro lugar, a manutenção da pressão para o pagamento da dívida e dos seus juros embaratece privatizações, precariza o trabalho, reduz salários, aumenta jornadas de trabalho, promove o assalto aos fundos de pensões, facilitando a acumulação de capital. O capital financeiro é bom conhecedor da fábula da galinha dos ovos de ouro…

Por outro lado, uma dívida imputável a Estados-nação periféricos e dependentes é uma aplicação segura, pois tem toda uma população como garante e por tempo ilimitado, o que não acontece com nenhuma instituição privada.

Por seu turno, as classes políticas, pretendem manter o papel de cobradores, perpetuando as suas comissões pelo serviço que prestam. Os governos assumem o seu odioso papel, usando a persuasão ou o cacete; e as oposições mantêm o circo a funcionar, mostrando-se alheias ou combatendo as reclamações radicais das vítimas da punção fiscal e da austeridade[8].

Uma coisa as classes políticas na sua generalidade não farão: apontar a dívida como elemento de ordem política – e não apenas financeira - para a duradoura submissão de povos.

Nesse contexto, tão ilegítima é a dívida, como criminosa a classe política que a suporta. Nesta frente de recusa da ilegitimidade há um consenso entre a classe política e o economicismo universitário, como natural produto da simbiose entre ambos.

Essa dívida (grega ou portuguesa) não é pagável, de todo, a não ser após uma reestruturação que contemple uma verdadeira tosquia que conduza o endividamento público aos níveis máximos admitidos pela UE – 60% do PIB - associado a um alongamento de prazos de pagamento e rebaixamento das taxas de juro. Para que não haja recaída torna-se também necessário proceder a alterações políticas que extingam a classe política e avancem para reformas estruturais (essas sim) na gestão das empresas e na redistribuição do rendimento.

A mais alarmante situação grega resume-se a uma escolha dicotómica: tosquia nos créditos dos bancos ou ceifa de vidas entre os 11 M de gregos. No caso português as coisas não são muito distintas; porém, a ausência de uma contestação social e a conivência da “esquerda” deixa todo o espaço mediático para o governo que anuncia a retoma e o fim da austeridade “do ano passado, para o mês que vem”, como diz Buarque. A propósito, não deixamos de achar curiosa a incoerência dos que querem pagar a dívida escrupulosamente e, ao mesmo tempo, acusam o euro de todos os males pátrios; em futebol, seria como querer ganhar o jogo com a mudança de cor das camisolas.

Para pagar a renda que alimenta o capital financeiro global por intermédio da dívida, a escolástica neoliberal é mais ou menos unânime nas medidas a adoptar; reformas estruturais como redução da despesa pública a partir de despedimentos, liberalização do “mercado” laboral, redução das pensões, privatizar, captar investimento estrangeiro com a oferta de reduções fiscais e exportar, exportar, investindo e ganhando competitividade no âmbito do livre comércio...

A pressão do Centro europeu sobre os países mais endividados da periferia Sul não se alivia com uma saída do euro, como se não modificarão as estruturas produtivas, europeia ou nacionais, estas, decorrentes da globalização capitalista. Esta globalização, de que a UE foi precursora, vai tornando as economias periféricas subalternas relativamente ao Centro, torna-as espaços atravessados por redes multinacionais de negócios, sem que daí resulte qualquer reforço da coerência interna da estrutura produtiva “nacional”; finalmente, reduzindo-se a relevância dos capitalistas autóctones, assim como a existência de centros de decisão dali oriundos ou ali instalados[9], estão criadas as condições para uma consolidação de economias neocoloniais.

Essas disfunções não são recentes, não nasceram no seguimento da crise financeira do subprime, nem da adopção do euro[10]. O capitalismo gera, por inerência, desigualdades e hierarquias territoriais e, em cada espaço, essas desigualdades e hierarquias evidenciam-se, entre os povos e as suas camadas possidentes, entre os de baixo e os de cima; e não é uma moeda própria que viabiliza uma soberania como o pretendem os nacionalistas lusos, sonhadores de uma saída negociada do euro, com Bruxelas e Frankfurt. As atuais dificuldades da Grécia, mesmo sem ter na agenda uma saída do euro, são premonitórias.

Uma abordagem histórica simples relembra que a América Latina chegou à independência, com bandeiras, hinos e moedas próprias, há 200 anos e que em África a colonização europeia terminou com o fim do império colonial português. Foram as formais soberanias nacionais e esses símbolos e instrumentos suficientes para livraram esses povos da subalternidade, das fortes desigualdades internas mantidas pelas suas elites, das crises de dívida, das intervenções do FMI, de guerras, golpes militares ou ditaduras? Agora o foco está colocado nas periferias europeias, a Sul e Leste, abarcando até antigas potências coloniais, como há 100 anos a uma focagem semelhante desfez o atrasado império otomano, distribuindo as terras do petróleo pelas grandes potências europeias.

Estas questões com pesado lastro histórico, são absolutamente estruturais e não se resolvem com mais intervenção estatal ou com um imposto mundial (como defende a estrela Piketty e, antes dele, Tobin); essas são as soluções piedosas dos que acreditam que a causa das desigualdades até se pode manter desde que os seus causadores sejam menos avaros, menos… capitalistas! É a lógica da remissão dos pecados através da esmola.

Uma saída voluntária de Portugal do euro poderia ser um instrumento importante, se (e só se) num âmbito ibérico, com a Espanha ou as nações do actual estado espanhol, como mínimo de viabilidade. Essa situação abalaria sem dúvida o processo centrípeto do Centro e, tanto mais se acompanhado pela Grécia, pela Itália e por Chipre, num projeto que abrangesse o Sul da Europa; que poderia ter maior impacto se coincidisse com uma eventual saída da Inglaterra (com ou sem Escócia) da UE, em 2017[11]. Essas conjeturas exigiriam previamente o afastamento dos margraves ibéricos, profundas alterações na organização política, do modelo de representação e a construção de uma economia comum, baseada na satisfação das necessidades dos povos.

Voltando aos dias de hoje. A suserania de Frankfurt não admite secessões, tal como Madrid recusa a saída da rica Catalunha ou Lisboa reagiria a uma independência trasmontana. O poder transnacional da UE não é diferente dos poderes nacionais enquanto carcereiro de povos e beneficiário da extração do produto do seu trabalho.

5 – Desigualdades, pobreza e controlo político

Ignorar o que se vem expondo, o necessário relacionamento das realidades económicas, sociais, culturais e geopolíticas traduz-se nesta imagem:
O alargamento acelerado da UE a partir dos anos 80 e, particularmente após a implosão do bloco soviético, foi um instrumento do Centro, com relevo para a reforçada Alemanha, para a redefinição das hierarquias na Europa e suas decorrentes e inerentes desigualdades. O Centro reforçou a relevância de setores capitalizados, de alto valor acrescentado, incorporando periferias de mais baixos salários, vocacionando-os para a produção de bens de consumo ou intermédios, destinados de preferência ao Centro que, acumulando excedentes financeiros, ficou apto a colocá-los sob a forma de empréstimos nos bancos e nas empresas da periferia, altamente descapitalizadas e endividadas.

A liberalização crescente do comércio dentro da UE e, entre esta e o exterior, veio a conduzir à desindustrialização da periferia Sul e à sua sobredependência de atividades não transacionáveis com o exterior, a cargo de capitalistas indígenas em reconversão e, desenvolvidas com fundos comunitários ou fornecidos por bancos do Centro, alimentando uma prosperidade e níveis de consumo só temporariamente virtuosos, sem conduzirem a qualquer reforço da harmonia da estrutura económica ou do emprego sustentável, a prazo.

As desigualdades que se acumularam entre Centro e periferias, resultaram em desequilíbrios financeiros e estruturas produtivas enviesadas no sentido do imobiliário e do turismo, entusiasticamente alimentadas pelos bancos nacionais (com dinheiro emprestado pelo Centro) e que se pretendia reciclável pelos fluxos do turismo ou através do duradouro endividamento dos nativos, incitados a adquirir imobiliário, com o engodo da sua constante valorização.

Tamanhas disfunções, alimentadas durante cerca de década e meia (com a entrada do euro a meio do percurso) nunca seriam sustentáveis e iriam agudizar as desigualdades entre Centro e periferias; e também, porque no seio dos países periféricos a estagnação política facilitava a vida das elites económicas e politicas. Como se vem observando.

As disfunções agudizadas pela crise tendem a modificar o panorama político-partidário; e, são de tal ordem que rebentaram na Grécia com a direita ND/Pasok, criaram uma coligação de perfil social-democrata[12] (Syriza) vencedora das eleições de Janeiro, bem como o crescimento de um grupo xenófobo e nazi (Aurora Dourada) e a redução da relevância do estalinista KKE. Tudo isto num contexto de forte abstenção eleitoral (apesar do voto obrigatório) e do desenvolvimento de densas redes populares de solidariedade, reveladoras de um forte distanciamento de parte da população face ao sistema político e à economia de mercado.

Em Espanha, a crise atinge particularmente o PP que herdou o poder do PSOE, derrotado nas eleições de 2012 mas, coligados, ambos, na introdução na constituição da prioridade do pagamento da dívida sobre as responsabilidades sociais do Estado. Grandes movimentações sociais recolocaram no terreno as consignas libertárias, de uma democracia radical ou, fórmulas de autogestão que vieram a ser aproveitadas pela deriva partidocrata e social-democrata do Podemos ou, de uma direita renovada (Ciudadanos), para além do reforço das ambições autonomistas e independentistas, mormente na Catalunha. Aparentemente, também em contexto de elevada abstenção, como se observou na Andaluzia e que se poderá repetir nas eleições autárquicas de dia 24 de maio.

Em Portugal o sistema político tem resistido bem à crise apenas com um afundamento previsível do BE, cujos despojos são ambicionados por entidades de cariz tão pouco interessantes como o Livre (que procura integrar o PS) e o Agir que prolonga a burla política do “Que Se Lixe a Troika”[13].

Depois do golpe militar de 25 de novembro de 1975, o sistema cristalizou em torno de um partido-estado, bicéfalo (PSD/PS) com um CDS como contrapeso e um PC com um sucesso inegável na tarefa do controlo social que anulou a memória do radicalismo de 1974/75. Verificou-se com a crise um controlo partidário destruidor do frágil movimento social surgido na sequência do 15M espanhol e que tem facilitado a aceitação passiva e resignada da austeridade por parte da população.
(continua)
Este e outros textos também em:                           


[1]  Fala-se que o deslumbrante Crato prepara uma licenciatura em Teoria do Parafuso, com duas opções; a do Aparafusamento e a do Desaparafusamento, obviamente a permitir diplomas como os obtidos por Sócrates, Relvas e outros que constam na lista recente dos alunos da Lusófona com créditos fornecidos de forma pouco límpida.
[2]  Em maio de 2006 um tal Correia de Campos, ministro da Saúde afirmou que a palavra economicista não existe. O imbecil catedrático, emitiu uma fatwa.    http://www.slideshare.net/durgarrai/economicismo-doena-mental-do-neoliberalismo 
[3]  Parágrafo adaptado de um artigo sobre Varoufakis inserto no Courrier Internacional, Abril/2015
[5]  Draghi quando se comprometeu a comprar € 1.1 biliões de títulos de dívida, mormente pública (cerca de 4.5 vezes a dívida pública portuguesa), até setembro de 2016, sabe que irão alimentar uma grandiosa fogueira, um dia mais tarde; mas, nunca o dirá. E, entretanto coloca dinheiro fresco nos bancos, com a troca desses títulos, rezando para que o investimento surja, o consumo retome a economia cresça. 
[6]  Num raro momento de sinceridade, no início da actual crise, Sócrates (o presidiário) disse que a dívida externa não era para pagar. Como se trata de um mentiroso compulsivo, houve indignação e protestos pois ninguém supunha que, no caso, ele falava verdade
[11] Para quem ache que do desmantelamento da actual UE surgirá, de imediato, uma guerra, numa perspetiva de repetição da História, convém esclarecer que a Alemanha, a principal afetada com esse desmoronamento tem umas forças armadas de 132000 pessoas (que não lhe permitiriam grandes feitos militares) e sobretudo quando se sabe que somente uns 9000 daquele total estão operacionais. E como temos sentido de humor, podemos referir que a forças armadas portuguesas (31000 pessoas), para manter a proporção face à Alemanha, deveriam pertencer de um país com… 20 M de habitantes!
[12]  Por social-democrata entendemos a defesa de um modelo de intervenção keynesiana do Estado com retorno ou reforço do “modelo social europeu” o que no nosso entender, não é viável porque os tempos são muito diferentes da época 1933/70. Como é óbvio, esse conceito de social-democracia não tem relação alguma com os partidos sociais-democratas e socialistas europeus que mantêm aquelas referências como forma de ocultar o seu caráter de direita neoliberal.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Um modelo democrático para os municípios

(Para uma Constituição Democrática com caráter de urgência – 4[1])

Um regime não é corrupto em função do número de casos que se vão conhecendo. Um regime é corrupto quando toda a sua arquitetura política e jurídica está feita para facilitar e legalizar a corrupção, como elemento fulcral da acumulação de capital.

As câmaras têm sido a base para a continuidade histórica do caciquismo, ancorado em oligarcas partidários, protagonistas do desordenamento urbanístico, oleados pelo setor imobiliário, todos financiados pelos bancos.

Sumário
11 – A soberania do povo é apropriada por um novo clero
12 - O retrato desolador da gestão camarária
13 - Municípios com uma estrutura democrática
a)   Configuração das Assembleias Municipais (AM)
b)    Configuração das Câmaras Municipais (CM)

11 – A soberania do povo é apropriada por um novo clero

A CRP evidencia uma lógica piramidal, hierárquica, que coloca no vértice da organização do poder político as altas esferas de nível nacional, os órgãos de soberania - o Presidente da República, a Assembleia da República, o Governo e os Tribunais (art. 110º). Contudo, logo no início do texto (artº 2º) a CRP estabelece que “A República Portuguesa é um Estado de direito democrático, baseado na soberania popular…” e que (artº 3º) “A soberania, una e indivisível, reside no povo, que a exerce segundo as formas previstas na Constituição.” Ora, acontece que a CRP através das ditas “formas previstas”, ao tornar, de facto, inamovíveis pelo povo os membros dos tais órgãos de soberania, nega precisamente a soberania popular…

Essa soberania, como se sabe, resume-se à votação em actos eleitorais e é truncada no que respeita à elegibilidade para funções de representação, uma vez que a CRP estabelece a mediação dos partidos políticos para o efeito. Estando previstas fórmulas para grupos de cidadãos a nível autárquico, elas são colocadas fora dos procedimentos regulares da “democracia representativa” e rodeadas de dificuldades práticas de ordem burocrática. Somente o PR é objeto de concurso individual, sabendo-se que ninguém terá hipóteses de uma votação apreciável sem apoios de partidos do regime, sem os seus financiamentos (e o dos meios dos negócios) para além dos favores dos media; daí que as pessoas comuns não tenham qualquer possibilidade de apresentar uma candidatura viável uma vez que a disponibilidade de fortunas é o grande condicionador da expressão que se diz democrática. Helena Roseta disse isso mesmo, dias atrás, reconhecendo que lhe falta apoio partidário e portanto dinheiro para se candidatar a residir perto dos pastéis de Belém.

Outro aspeto da truncagem democrática é que os eleitos não cumprem minimamente as obrigações inerentes a um contrato de mandato. O mandato é um contrato em que o mandatário recebe poderes do mandante para que possa atuar e praticar actos em função dos interesses do último. O facto da sua etimologia estar em manum datum (o aperto de mãos que selaria o contrato), dispensando a materialização de uma procuração, significa que o mandato relacionava gente digna de respeito, que honraria os seus compromissos.

Numa representação política, o potencial candidato elabora o seu programa que apresenta ao eleitorado; ao ser eleito torna-se mandatário dos seus eleitores e o seu programa equipara-se a uma procuração, a cumprir escrupulosamente. Se não cumpre os termos dessa procuração, por si elaborada, por inépcia, por má avaliação das suas possibilidades ou, por má-fé, isso deverá permitir que os mandantes coloquem em causa o mandatário e o possam substituir, por um acto formal, um referendo, se o faltoso não tiver a verticalidade de se demitir.

Nada disto funciona na denominada democracia representativa ou de “mercado” e por várias razões. Em regra, os membros da classe política não se sentem vinculados a contrato algum, nem a compromissos, nem a responsabilidades para com os eleitores; sentem-se membros de uma ordem superior, de uma casta e mais propriamente se deveriam designar por ungidos, sacralizados, em vez de eleitos. Por outro lado, o rol de promessas e futilidades chamado programa é coletivo, elaborado pela corte do chefe partidário, sem que com isso se possa ou deva eximir os membros individuais do partido de responsabilidades pessoais que possam ter, por atuação própria ou por estarem incluídos num coletivo que não cumpre os seus compromissos.

Essa responsabilidade por um programa pode mesmo exigir à classe política atitudes que ofereçam uma justificação aceitável para invalidar promessas eleitorais. Recordemos Sócrates em 2005 quando pediu ao tratante Constâncio, seu confrade partidário, então governador do Banco de Portugal, o conveniente estudo técnico de onde emanasse a necessidade de aumentar o IVA. Por seu turno, Passos construiu um programa eleitoral absolutamente contrário ao definido no Memorando da troika (assinado por ele) e, pior que isso, arranjou na intervenção da troika argumentos para justificar o seu não cumprimento do prometido e acrescentar atitudes favoráveis à sua clientela.

O pensamento único que enforma a realidade política, económica e mediática entra também na cultura da multidão que acaba por não levar a sério as promessas eleitorais, tornando-se cúmplice da classe política na ligeireza com que são encaradas as ditas promessas e ainda para que não existam mecanismos de colocação em causa dos eleitos durante os seus mandato. Neste contexto, a democracia representativa deve qualificar-se como farsa ou, para o não ser, a multidão ter-se-á de tornar exigente de uma verdadeira democracia, remetendo a classe política para os compêndios da História.

Não deixa de ser curioso que a classe política, tão lesta na defesa da precariedade - laboral e na vida de todos - como da liberalização dos despedimentos, se exclua com mandatos a termo certo e geralmente prorrogáveis, indemnizações, subsídios de reintegração e pensões de reformas precoces e … secretas.

Outro exemplo interessante dos entendimentos capciosos contidos na CRP evidencia-se no seu artº 239, nº 2 onde consta  que “A assembleia (municipal ou de freguesia) é eleita por sufrágio universal, direto…” quando compaginado com o referido no nº 4º. do mesmo artigo, onde se estatui que “As candidaturas para as eleições dos órgãos das autarquias locais podem ser apresentadas por partidos políticos, isoladamente ou em coligação, ou por grupos de cidadãos eleitores”. Ora, as assembleias são constituídas por pessoas e os eleitores votam em partidos ou grupos de cidadãos que assim se tornam em veículos para o preenchimento com pessoas das assembleias. Se existe um intermediário entre o votante e os elementos que integrarão as assembleias, que sentido fará dizer-se que o sufrágio é direto se quem as vai integrar só indiretamente é votado pelo eleitor? E, por outro lado, o eleitor não controla minimamente o efetivo preenchimento das assembleias pois frequentemente os eleitos transitam para outras funções e são substituídos por figuras consideradas secundárias, colocadas em lugares menos cimeiros das listas pelos chefes partidários que procedem à sua hierarquização.

Ainda o nº 4 do artº 239 ao referir a potencial candidatura de listas de cidadãos estabelece uma franca desigualdade entre aquelas e os partidos políticos. Estes, ao constituírem-se, apresentam 7500 assinaturas de subscritores e podem concorrer em todos os âmbitos, local, regional e nacional e sem limites temporais; as listas de cidadãos mesmo com um propósito local de intervenção política vêem-se confrontadas com um processo burocrático, com uma recolha desproporcionada de assinaturas e que serão apenas válidas para uma eleição.

12 – O retrato desolador da gestão camarária

Os municípios têm uma relevância muito superior à das freguesias, cuja configuração democrática foi exposta no capítulo anterior destas cogitações sobre uma Constituição alternativa.

Iniciaremos este capítulo com alguns indicadores globais da gestão camarária em 2013, colocando entre parêntesis valores de 2003, para comparação:

a) As câmaras dão trabalho a 121160 pessoas a que se devem somar 5402 dos serviços municipalizados. Em 2014 aquele número ter-se-á reduzido para 116560 trabalhadores[2].

O volume dos trabalhadores torna muitos municípios como os principais empregadores locais. Esse facto deve-se, por um lado, à necessidade da prestação de serviços à população e por outro, à fragilidade das estruturas económicas presentes em cerca de 80% do território, à abundância de negociantes encostados aos erários e favores públicos com a ausência de verdadeiros empresários.
Neste contexto de subdesenvolvimento económico crónico, mantém-se uma cultura histórica de fatalismo, tanto maior quanto mais envelhecidas e dependentes ficam as populações. Ali encastra-se uma estrutura política hierárquica e autoritária alicerçada em mafias partidárias locais, que têm no topo oligarcas - os presidentes de câmara - com influência direta na vida dos trabalhadores municipais e suas famílias, com o fomento de um acentuado clientelismo que atinge quase toda a população e as atividades locais.

b)  Os executivos camarários (vereações) envolviam 2086 indivíduos[3] e 6487 eleitos para as assembleias municipais; em média, cada município tem 9 vereadores e 21 deputados municipais.

O presidente é, em regra, uma figura mediática, permanentemente rodeado de séquito, como um senhor feudal. Os seus principais acólitos são o vereador do urbanismo, sobretudo pelo papel que desempenha no licenciamento de obras; e o da área financeira, por razões evidentes. É aliás comum, haver na vereação empresários da construção civil e no “empreendedorismo” imobiliário, indivíduos que tirocinaram em vereações, conformados na falta de gabarito para deputados, secretários de estado ou ministros.

Pode aquilatar-se a relevância do “mercado” do licenciamento de obras através do seu número a nível nacional em 2013 (16253) o que é uma pálida imagem dos bons tempos da orgia imobiliária (em 2003 aqueles licenciamentos foram de 55209). Todos sabemos como terrenos rústicos se tornam urbanos por licenciamento camarário, com uma valorização enorme; essa valorização garantida, transformada em casas, enriquecia o requerente e poderia alegrar autarcas e/ou os seus partidos.

c)     O volume de impostos e taxas foi de € 2547 M (€ 2031 M) sobressaindo ali a cobrança de IMI, na ordem dos € 1306 M (€ 695 M)

As receitas fiscais dos municípios representam apenas cerca de 38% das entradas de fundos (36%) embora tenham crescido 25,4% em dez anos, revelando-se assim a escassa capacidade da base tributária local para o financiamento das despesas municipais, mantendo-se, portanto, os municípios dependentes financeiramente do governo, como já acontecia no tempo do fascismo, quando não existiam impostos autárquicos. Acrescente-se que os impostos autárquicos são cobrados pela Autoridade Tributária, dependente dos governos.

Nessas receitas pesa particularmente o IMI que passou a representar 51.3% do seu total, contra apenas 34.2% em 2003 e enquanto as outras receitas fiscais que não o IMI cresceram apenas 7.7%, contra os 88% de crescimento da receita do IMI. A quebra das receitas do IMT, associadas às transações imobiliárias, em declínio com a crise financeira, foi o motivo para o enorme aumento do IMI. Este é o principal imposto que se paga pela posse de um bem (como o IUC, batizado de “circulação” mas que qualquer veículo paga, mesmo que não circule); assemelha-se ao imposto francês sobre as grandes fortunas embora, em Portugal sejam as camadas populares os verdadeiros contribuintes. O IMI é um imposto de total ilegitimidade quando se refere às casas de habitação que as famílias foram obrigadas a adquirir, com endividamento bancário, com os riscos conhecidos em caso de desemprego, porque o regime cleptocrático nunca (governos ou câmaras) cumpriram a prescrição constitucional de materialização do direito à habitação. O partido-estado PSD/PS deixou a habitação ao sabor do “mercado”, alimentado por crédito bancário de modo suicida, como se vê pelas dificuldades do sistema bancário português. Colocando a habitação como vulgar mercadoria, para lucrativo benefício da especulação imobiliária, da corrupção camarária e dos bancos. Um novelo de desastres, como se vai observando e que desenvolvemos há pouco tempo[4].

d)   As vendas e os serviços prestados corresponderam a € 738 M (€ 511 M)

O seu crescimento no período considerado foi de 44.4% e foi mais um dos elementos de compensação das quebras em algumas receitas fiscais – mormente o IMT – bem como das transferências. Uma das suas vantagens para os executivos camarários é que não dependem de prévias decisões dos governos, só havendo a ponderar a não concretização de aumentos na prestação de serviços, nas proximidades de campanhas eleitorais autárquicas.

e)   As receitas de transferências computam-se em € 3383 M (€ 3008 M)

As transferências, com origem essencial no Estado mas, também na UE, apresentam um acréscimo muito moderado no decénio (12.5%). Esse fraco crescimento resultou dos apertos da troika dos últimos anos em que o governo fez as autarquias participar e por isso, a parcela das transferências no total das receitas municipais passaram para 50.7% (eram 54.2% em 2003).

Esta situação de dependência face ao governo de turno mantém uma subalternidade financeira que não corresponde a uma desejável autonomia política. Nas atuais disputas entre o poder autárquico e o governo a propósito da privatização da água e da gestão dos resíduos é bem clara essa subalternidade, que inquina na realidade o significado da autonomia autárquica. Em ambos os assuntos somente a população de cada autarquia deveria escrutinar, de acordo com o princípio da subsidiariedade. A tradição centralista em Portugal, temerosa de perda de controlo sobre a população mais não revela (e induz) a continuidade do atraso português. Nenhum dos clubes instalados em S. Bento prescinde de monitorar a alta corrupção nem de cobrar a sua parcela na corrupção a nível autárquico, através das suas antenas locais.

f)    O montante de empréstimos a médio/longo prazo era de € 4273 M (€ 4016 M)

O endividamento a médio/longo prazo das câmaras não cresce particularmente entre os dois anos considerados. Isso não se deverá tanto a uma viragem dos oligarcas para uma gestão pública cuidada mas, às imposições da troika, empenhada em reduzir o nível de endividamento das administrações públicas, em geral. Em 2011 este tipo de endividamento era de € 4517 M e reduziu-se por evidente retração dos bancos, impossibilitados de refinanciamento no exterior, em conjunto com a aplicação do PAEL - Programa de Apoio à Economia Local, (Lei nº43/2012 de 28/8) no âmbito do qual já terão sido concedidos a título de empréstimo, € 810 M a 110 municípios, num total previsto de € 1000 M[5].

Neste campo, a relevância deste endividamento mede-se melhor com a sua relação com as suas receitas fiscais ou de vendas e prestações de serviços. Assim, a dívida financeira correspondia em 2013 a 130% das receitas referidas, contra 158% em 2003. Para colmatar parte desta incúria na gestão, os oligarcas nada melhor encontraram do que aumentar o IMI que, como vimos atrás, corresponde em 2013 a 30.6% das dívidas de médio/longo prazo (17.3% dez anos antes).

Este grande endividamento tornou-se estrutural e, na classe política que se arroga ao monopólio da ação política local e nacional, nada surgiu que viesse a evitar este endividamento; para o efeito é preciso que a população se mantenha afastada e mesmo na ignorância do que se passa na sua autarquia.

      g)   Os outros débitos para além dos empréstimos a médio/longo prazo equivaliam a € 6437M (€ 1367 M)
Este tipo de débitos, de curto prazo, em princípio, serve para resolver problemas transitórios ligados ao funcionamento corrente e cresceu 4.7 vezes nos dez anos considerados; um verdadeira lição de gestão ao nível rasteiro que carateriza a classe política. Porque se terá constituído tamanho volume de responsabilidades, de débitos que se renovam, sucessivamente? A que custos correntes se referirão? Fornecimento de bens e serviços e quais? Crédito bancário de curto prazo?

O que se sabe é que em 2003 estas dívidas equivaliam a 53.8% das receitas fiscais adicionadas das vendas e serviços prestados, relação essa que evoluiu para 196% (!) em 2013.

Os vereadores das oposições mesmo que denunciem estas situações, estando em minoria, pouco podem fazer e nem sequer têm o poder de demitir o executivo camarário. As Assembleias Municipais são, em regra, réplicas ainda mais cinzentas que a Assembleia da República, uma vez que são constituídas por segundas linhas da classe política. Por seu turno, o Tribunal de Contas prende-se com o cumprimento das normas legais e não intervem na gestão financeira dos municípios.

A população, mantida à margem da gestão pública, remetida para o exercício do voto nas romarias eleitorais, está longe da realidade. Finalmente, a imprensa local, muitas vezes dependente politica ou financeiramente dos poderes locais representados no executivo camarário prefere outros temas; e a imprensa nacional perde todo o seu tempo a recolher futilidades dos governantes ou dos chefes da oposição, não se envolvendo nas minudências da gestão de 308 câmaras.

Em suma, as maiorias no executivo, têm um poder quase absoluto até às eleições seguintes, embora o mais comum seja a continuidade, se não do partido dominante, das práticas que são transversais aquele e à oposição. Neste contexto, falar de responsabilidade financeira e criminal, por gestão danosa, dos causadores desta situação apresenta-se como totalmente deslocado dado o caráter cleptocrático do atual regime político que legaliza, de facto, os desmandos e a corrupção.

      h)   Os juros e outros encargos financeiros pagos foram de € 1282 M (€ 105 M)

Como lógico corolário do que se disse atrás, o volume dos juros e outros encargos com o financiamento cresceu 12 vezes (!) nos dez anos terminados em 2013.

Assim, os juros absorveram, em 2013, 39% das receitas fiscais e das vendas e serviços prestados pelas autarquias quando essa proporção era apenas de 4.1% em 2003. Em 2013 os juros e encargos financeiros pagos absorviam toda a receita de IMI evidenciando-se assim que o aumento do imposto foi concebido para que toda essa receita transite para os cofres do sistema financeiro.

A situação calamitosa que a síntese anterior deixa aflorar evidencia o modo leviano ou criminoso como tem sido, em regra, efetuada a gestão autárquica por parte da classe política, que localmente se alicerça e se funde com um caciquismo tradicional o qual, por seu turno, radica no subdesenvolvimento económico, nos baixos níveis de instrução e na pouca ou nula democraticidade do sistema político e do modelo de representação.

As autarquias locais surgem na CRP depois de todas as várias formas de poder (artºs 235º a 254º) perto, portanto, do final do documento que termina no artº 296º; a sua relevância na organização política revela a lógica piramidal da mesma. Ainda que se caraterizem pela presença de órgãos eleitos pelas pessoas, pela maior proximidade face a estas, com responsabilidades administrativas e financeiras, com relevância evidente na vida das comunidades, são relegados para o final. Note-se, por comparação, que o Conselho de Estado, apenas um órgão consultivo e com vários membros de escolha pessoal do Presidente da República, está colocado numa área muito mais relevante para os constituintes (artºs 141º a 146º).

A Lei das Autarquias Locais (Lei n.º 75/2013 de 12/9) no seu artº 23º n.º 2 consagra dezasseis atribuições dos municípios no natural âmbito da salvaguarda dos interesses da população. Porém, uma análise ligeira do que se passa na realidade revela que a lei aponta para atribuições esquecidas ou remetidas para outras instâncias.

·  No domínio da energia, a distribuição de eletricidade ou gás procede-se a partir de empresas privadas que pouco recorrerão às instâncias municipais. Os municípios intervêm nas situações em que famílias insolventes são objeto de cortes pelas empresas? Por outro lado, qual a intervenção dos órgãos municipais no fomento da utilização de energias renováveis para autoconsumo, cuja presença em Portugal é muito inferior a países como a Turquia ou a Grécia?

·      Na área dos transportes e comunicações prepondera a existência de empresas privadas, intervindo, os municípios, na garantia dos transportes escolares, alugados a empresas rodoviárias. Em regra, os transportes são caros, com escassas frequências ou nem sequer existem, não se conhecendo a existência de muitos casos de empresas municipais, (Barreiro…). Na sequência da austeridade exigida pela troika em 2011, as empresas públicas de transporte em Lisboa e Porto encareceram e reduziram o seu serviço, sem que os municípios o possam ter obviado; e da mesma forma, não são considerados no âmbito das privatizações iniciadas pelo governo.

·  No contexto da educação, a intervenção municipal é também reduzida, convivendo com a proliferação de negócios privados em creches ou escolas infantis e assistindo passivas aos compadrios entre o Estado e grupos económicos na área da educação, como por exemplo o grupo GPS[6]. Assiste-se atualmente a uma transferência de competências do Estado para as autarquias no âmbito da educação, cujas divergências sobre a repartição de custos certamente reverterão em prejuízo das populações. Por outro lado, se a colocação de professores constitui um drama constante para os docentes, em particular, a sua gestão a nível municipal não será um poder discricionário para os oligarcas locais estenderem a sua influência?

·     No campo da cultura e desporto, para além de algum trabalho meritório haverá um mérito especial em eventos estivais de duvidosa qualidade ou nas facilidades a clubes de futebol, mesmo que se utilize o argumento de que atraem turistas e receitas para as áreas da restauração e hotelaria?

·      Na área da saúde, o SNS acossado com cortes e disfunções orquestradas por Paulo Macedo reparte com serviços privados (recolha de análises, clinicas, consultórios e hospitais), com a intermediação de seguradoras, do SNS e da ADSE, os recursos na área da saúde, não se descortinando onde está a intervenção dos municípios.

·   No campo da ação social, sem prejuízo de alguns apoios a indigentes nas maiores cidades, as creches, os centros de dia e os lares de idosos são explorados por entidades privadas ou IPSS mais ou menos próximas da Igreja Católica, com o suporte financeiro das famílias e da Segurança Social.

·    Na habitação, há em alguns municípios casas com rendas sociais nem sempre tão sociais como seria natural ou, em mau estado de conservação. Não é tradição dos entes públicos portugueses promoverem habitação social, deixando o tema habitação ao sabor do idolatrado mercado. A intervenção municipal tem-se feito no âmbito do licenciamento de construção, palco de muita arbitrariedade, de pouca qualidade e de corrupção.

A desastrosa política global de habitação mostra-se em centenas de milhar de casas arruinadas, abandonadas ou encerradas sem que os municípios intervenham para exigir obras, utilização e menos ainda, com expropriações (… horror dos horrores face ao amor pelo capitalismo que carateriza a classe política!).

No caso do ordenamento do território e do urbanismo a promoção do turismo tornou-se o grande desígnio nacional e justifica fenómenos de gentrificação, desde que sirvam de âncora a um duvidoso desenvolvimento local.

·  E, para terminar, no capítulo da água e do saneamento vai-se estendendo gradualmente a intervenção privada com a introdução de contratos leoninos que depauperam as finanças locais.

13 - Municípios com uma estrutura democrática

Em termos médios de população e área, os municípios portugueses são superiores aos correspondentes alemão, espanhol e francês, pelo que, em geral; a sua dimensão e mesmo a ancoragem na História, afirmam os municípios portugueses com uma grau de consolidação aceitável. Porém, a desertificação do interior permite que se diga que Portugal está inclinado para o mar, ainda que de modo irregular e que a sua população escorrega para o mar ou para o exterior. Por outro lado, o envelhecimento da população que, certamente irá acentuar a referida desertificação, poderá contribuir para que seja aconselhável a consideração de casos de revisão da realidade concelhia. Esclareça-se que a CRP considera como uma das competências exclusivas da Assembleia da República a “Criação, extinção e modificação de autarquias locais” (artº 164 al. n) não admitindo, portanto iniciativas locais ou sequer qualquer tipo de audição vinculativa das populações, no sentido da alteração do mapa concelhio.

a.    Configuração das Assembleias Municipais (AM)

Como dissemos no segundo texto deste conjunto sobre a revisão da CRP[7] “os elementos centrais da expressão democrática, no contexto dos vários círculos de agregação territorial das pessoas, são as assembleias”. Neste texto, dedicado aos municípios, essa pedra base das instituições autárquicas é a Assembleia Municipal e não o executivo, como na prática se verifica.

Na terceira parcela destes textos subordinados ao tema “Para uma Constituição Democrática com Caráter de Urgência” apresentámos uma configuração para os órgãos das freguesias relativamente próxima da existente atualmente, embora com conteúdos e, sobretudo, por um modelo de representação distanciado do actual. Defendeu-se ali a existência de Assembleias de Freguesia (AF) e Juntas de Freguesia (JF), com membros distintos, todos eleitos e, com a atribuição à AF de um forte poder deliberativo e fiscalizador, com um papel essencialmente executivo para a JF.

O número actual de membros das AM[8] resultantes das eleições de 2013 é de 6487 a que se devem somar os 3094 presidentes de Juntas de Freguesia. No que respeita aos deputados diretamente eleitos, o seu número varia entre 51 (Lisboa) e 15 para os concelhos com menos de 10000 eleitores, embora, na totalidade haja demasiadas excepções resultantes do modo displicente como a classe política organiza o recenseamento eleitoral, revelando assim o seu apreço pela democracia; ao contrário do rigor que coloca no que concerne ao NIF, essencial para o exercício da punção fiscal.

Uma maior maturação permite a apresentação de dois modelos organizativos, alternativos, para as estruturas dos municípios e que poderá, até mais facilmente, ser adoptada para as freguesias. Esses modelos, sinteticamente são:

A - Eleição pela população, em separado, dos membros da Assembleia Municipal (AM) e da Câmara Municipal (CM) com o já referido reforçado papel deliberativo e fiscalizador da AM e um desempenho principalmente executivo da CM.

Nesta hipótese, estarão presentes os vereadores e os representantes das Juntas de Freguesia do concelho, os últimos sem direito de voto[9], pelo menos nas situações de gestão corrente do município.

B - Eleição pela população dos membros da Assembleia Municipal (AM) que escolherão entre si um elenco de três a nove vereadores (consoante o número de eleitores) para proceder à gestão da Câmara (CM).

Nesta fórmula, os vereadores terão todos os direitos como membros da AM para a qual foram eleitos enquanto os representantes das Juntas de Freguesia do concelho estarão presentes mas, sem direito de voto, pelo menos nas situações de gestão corrente do município.

As AM serão os órgãos basilares do exercício da democracia a nível municipal e onde se tomam as decisões mais relevantes da autarquia. E daqui que sejamos totalmente adversos a alterações ao modelo vigente que visem a redução ou mesmo a extinção das AM, com o argumento de que a relação entre AM e CM nem sempre é pacífica[10]. As divergências confrontam-se abertamente e não devem ser anuladas ab initio para que vingue a paz celestial de que tanto gostam os apreciadores do pensamento único. Na mesma lógica, discordamos da promoção de vereações “homogéneas” tão do agrado dos defensores da gestão empresarial e da transformação das autarquias em meras concessões a gangs partidários para agilizar o pasto corrupto do erário público.

·    As AM serão constituídas por um número variável de membros eleitos, de acordo com o volume de eleitores, como no exercício que se segue:

Exercício - Membros de Assembleias e Câmaras Municipais

AM
CM
Nº eleitores
Municípios
cada
total
cada
total
< 10000
113
20
2260
3
339
10000-50000
145
30
4350
5
725
50000 - 100000
26
50
1300
7
182
> 100000
24
70
1680
9
216
soma
308

9590

1462

Como se observa, o total dos membros das AM não difere muito do actual, salientando-se que na hipótese B - acima referida - desse total, 1462 estarão a desempenhar também funções executivas nas CM. No modelo A os membros serão eleitos diretamente, tal como hoje acontece;

·      Todos os residentes com idade superior a 16 anos[11] serão eleitores;

·      Todos os eleitores residentes há mais de um ano, poderão candidatar-se pessoalmente a membros da AM, não havendo lugar a quaisquer candidaturas coletivas. A propósito da redução da idade eleitoral pode levantar-se a questão de se considerar se os menores de 18 anos deverão ser elegíveis para funções de representação;

·      São eleitos os mais votados dos candidatos até ao preenchimento dos lugares estipulados e desde que, cada um, detenha, pelo menos 5% dos votos expressos;

o Se não houver candidatos em número suficiente, depois de aplicado o atrás exposto, os restantes serão escolhidos por sorteio entre os eleitores;

o   Ao eleito mais votado cabem as funções de representação externa da autarquia.

·    Nenhum eleito poderá cumprir mais de dois mandatos seguidos e só poderá voltar  a candidatar-se depois de duas legislaturas sem mandato;

·  Qualquer eleito poderá ter o mandato retirado por referendo onde votem mais de 50% dos eleitores;

·   As decisões da AM serão tomadas por maioria, podendo encarar-se um leque de decisões que exijam maioria qualificada dos seus membros;

·   Todas as AM são públicas, tendo os residentes um período prévio à realização da AM para a colocação de questões à discussão e que deverão ser divulgadas com antecedência face à data de realização da AM;

·    Fica estipulado um calendário mensal para a realização mínima de sessões das AM onde a vereação apresentará contas, propostas e um relato da sua atividade. As sessões da AM podem também ser objeto de convocação extraordinária através de petição que reúna mais de 10% dos residentes (num máximo de 5000), por solicitação da CM ou por decisão da maioria dos membros da AM;

Competirá à AM, particularmente:

·     escolher entre os seus membros, o executivo camarário (válido apenas para o modelo B), podendo ainda, por maioria absoluta exonerar qualquer ou mesmo todos os membros daquele executivo[12];

·    acompanhar o desempenho da Câmara Municipal, discutir e aprovar medidas corretivas da atuação da vereação;

·   a aprovação das opções do plano e do orçamento municipal e dos respetivos relatórios de execução, elaborados pela CM;

·    aprovar acordos, parcerias ou transferências de serviços de/para outras autarquias ou o Estado, bem como contratos de concessão;

·   a aprovação de projetos de investimento ou melhoramento das infraestruturas físicas ou dos equipamentos sociais, bem como de alterações patrimoniais ou obrigações correlacionadas e ainda, a assunção de responsabilidades financeiras;

·    criar ou alterar taxas ou preços de serviços, bem como autorizar o recrutamento de pessoal para quaisquer órgãos da autarquia e ainda ainda aprovar alterações na estrutura orgânica da autarquia;

·      Aprovação dos planos de ordenamento e das normas da sua aplicação;

·      Decisão sobre propostas governamentais que afetem as receitas municipais;

·      Convocar referendos, por maioria simples dos seus membros, sem prejuízo das decisões populares no sentido da sua realização.

b.   Configuração das Câmaras Municipais (CM)

As CM são órgãos executivos cuja função é proceder à gestão corrente da autarquia e cumprir as decisões da AM.

·   No caso do modelo A acima definido, serão eleitores da CM, todos os residentes com idade superior a 16 anos;

·    No caso do modelo A, todos os eleitores residentes há mais de um ano, poderão candidatar-se pessoalmente a membros da CM, não havendo lugar a quaisquer candidaturas coletivas. A propósito da redução da idade eleitoral pode levantar-se a questão de se considerar se os menores de 18 anos deverão ser elegíveis para funções de representação;

·    O elenco das vereações camarárias foi definido acima e aplica-se para qualquer dos modelos de organização autárquica municipal;

·    No caso de haver eleição direta dos membros da CM, são eleitos os mais votados dos candidatos até ao preenchimento dos lugares estipulados e desde que detenham, cada um, pelo menos, 10% dos votos;

·    Se não houver candidatos em número suficiente os restantes serão escolhidos por sorteio entre os eleitores;

·    Ao eleito mais votado (modelo A) caberá, em termos genéricos, a representação (delegável), da autarquia em questões executivas, sem prejuízo da AM poder escolher outro representante para uma função específica. No caso do modelo B, os designados para as funções executivas escolherão entre si essa representação;

·     Nenhum membro da CM poderá cumprir mais de dois mandatos seguidos e só poderá voltar a candidatar-se depois de duas legislaturas sem mandato, com as adequações resultantes de cada um dos modelos acima definidos;

o   No caso do modelo A o limite dos dois mandatos é aplicável a todos os membros da AM quer haja ou não desempenho de funções camarárias.

·   Qualquer eleito poderá ter o mandato retirado por referendo no qual votem mais de 50% dos eleitores;

·      As decisões da CM serão tomadas por maioria;

Compete à CM, particularmente[13]:

§  Apresentar à AM propostas para decisão sobre assuntos que não se incluam na gestão corrente (ver acima nas competências da AM);

§  Executar as deliberações da AM;

§  Gerir todas as funções que não exijam um desempenho que, por razões de ordem financeira ou complexidade técnica obriguem a outro nível de coordenação, mormente a nível regional ou no âmbito de associação de municípios (princípio da subsidiariedade);

§  Divulgar publicamente as actas das reuniões da CM, no máximo uma semana depois da sua realização;

§  Promover a divulgação mensal, pública e detalhada dos balancetes e mapas de receitas e despesas, bem como propiciar aos residentes a visualização de qualquer documento, sempre que tal seja solicitado (excepto de candidaturas a concursos ainda em aberto).






[1] Texto inicial em:   http://grazia-tanta.blogspot.pt/2015/02/para-uma-constituicao-democratica-com.html  o segundo em: http://grazia-tanta.blogspot.pt/2015/03/para-uma-constituicao-democratica-com.html e o terceiro em http://grazia-tanta.blogspot.pt/2015/03/para-uma-constituicao-democratica-com_22.html
[3]  http://grazia-tanta.blogspot.pt/2013/11/autarquicas-2013-e-putrefacao-do.html
http://grazia-tanta.blogspot.pt/2013/01/a-nao-politica-de-habitacao-e-o-imi.html
[5]   http://grazia-tanta.blogspot.pt/2013/07/a-divida-autarquica-e-romaria-eleitoral.html
[7]  http://grazia-tanta.blogspot.pt/2015/03/para-uma-constituicao-democratica-com.html
[8] Atualmente, o artº 42 da Lei nº 169/99 de 18/9 estabelece que o número de deputados eleitos diretamente pela população terá sempre de ser superior ao número de presidentes de junta de freguesia que a integram e, simultaneamente, ter pelo menos o triplo do número de vereadores da câmara respetiva. A soma dos diretamente eleitos e dos presidentes de junta enformam o elenco das assembleias municipais. A título de exemplo, em Lisboa, há 51 deputados municipais com eleição direta e 24 que acumulam com o cargo de presidentes das freguesias que representam.
[9] Atualmente os presidentes de JF são membros de corpo inteiro das AM. Sendo ambas as autarquias independentes, sem vínculos de subordinação e com legitimidades próprias, não nos parece lógico que aos  presidentes de JF seja conferido um poder deliberativo de uma outra autarquia, pela mesma razão que as instâncias municipais não têm poder deliberativo nas freguesias.
[10]  Por exemplo em “A Atual Reforma da Administração Local” de Nuno J. Vasconcelos Albuquerque Sousa
[11] Considerámos aqui  a redução da idade para o exercício do voto  http://grazia-tanta.blogspot.pt/2015/03/para-uma-constituicao-democratica-com.html
[12] É sintomático que na lei portuguesa uma Assembleia Municipal não possa destituir uma vereação à semelhança do que acontece coma Assembleia da República face ao governo nacional; ou um vereador sequer. Trata-se de uma forma de introduzir um verniz democrático nas autarquias mantendo todo o poder no executivo, mormente no presidente da câmara, como acontecia durante o fascismo. Em contrapartida cabem às assembleias as autorizações tão relevantes como as … geminações ( Lei 75/2013 de 12/9, artº 25 1, t))
[13]   A Lei das Autarquias Locais (Lei n.º 75/2013 de 12 de setembro), apresenta listas muito pormenorizadas de funções a cargo das CM