quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

As aventuras guerreiras do império da pastilha elástica



A gula das multinacionais encontra sempre um apoio nos governos dos EUA e na sua propensão para a guerra. Hoje na Venezuela, ontem na Síria, Líbia, Iraque, Afeganistão…

As últimas intervenções militares dos EUA no exterior, nas últimas décadas, prendem-se quase sempre com combustíveis fósseis. Certamente que não é uma coincidência.

É muito longa a lista das intervenções e guerras dos EUA no âmbito do continente americano, desde as guerras contra o México e a absorção do Texas no século XIX e os muitos golpes de estado, sobretudo através de militares aliciados ou subornados para o efeito, no âmbito da doutrina Monroe segundo a qual a América é dos americanos… embora haja uns que se arrogam ao direito de intervir e decidir o que convém aos outros: para além, claro, do esmagamento das nações índias, cujos membros só deixaram de ser considerados formalmente estrangeiros (!) no século XX.

2019 – Venezuela, um apetecível filão
 
Na situação actual na Venezuela a animosidade de Trump relaciona-se claramente com o petróleo:

·        A bacia petrolífera do Orenoco abrange uma área de 600x70 km no curso médio do rio mais próximo da foz;

·        Em 2009 o USGS – US Geological Service estimava as reservas da bacia do Orenoco em 1 400 000 000 000 barris, contra os 1 300 000 000 000 calculados pela PDVSA (a empresa estatal venezuelana de petróleos); e a uma profundidade entre 150 e 1500 metros;

·        A mesma fonte norte-americana calcula entre 380/652 000 000 000 barris a parcela tecnicamente recuperável no Orenoco o que o coloca como uma das principais fontes de petróleo recuperável no mundo. E isso, sem a consideração da utilização da tecnologia SAGT (Steam Assisted Gravity Drainage) como veremos a seguir;

·        A consideração do SAGT e outras tecnologias de extração de petróleo muito denso elevaria essa estimativa para 70% das reservas calculadas; isto é, para 980 000 000 000 barris. Porém, esses cálculos não contemplam a utilização de novas tecnologias como o DHSG (Downhole Steam Generation) – que exige um enorme gasto energético com reatores nucleares produtores de fumo a uma temperatura de 900o; ou o Solvent Assisted SAGD que consiste na injeção de vapor impregnado de solventes químicos;

·        Admitindo um consumo global estabilizado em torno de 35 000 000 000 barris anuais, o Orenoco poderia satisfazer as necessidades mundiais atuais durante cerca de 30 anos. Se se considerar o preço actual (relativamente baixo) de $ 55/barril as receitas de quem explorar o filão podem avaliar-se em $ 1 925 000 000 000 por ano… sensivelmente quase oito vezes a dívida pública portuguesa…

·        As areias betuminosas de Alberta, no Canadá, há muito eram consideradas uma reserva de petróleo a utilizar quando outras fontes de mais fácil extração se reduzissem, ou se tornassem insuficientes ou inacessíveis por razões políticas. A tecnologia SAGT é utilizada para extrair 80% da extração em Alberta (2.7 M barris/dia). 

·        O petróleo extraído em Alberta só é viável para preços de mercado superiores a $ 35/barril mas, é preciso ter em conta que a sua bacia petrolífera é mais pequena do que a do Orenoco; que o petróleo venezuelano não é tão pesado como o canadiano; que o clima venezuelano é mais quente; e que a costa, para efeitos de exportação, está próxima, ao contrário do que acontece em Alberta.

Sumariamente descrita a importância do petróleo venezuelano para a economia global, o quadro seguinte evidencia a acerba luta entre os EUA e os seus subalternos europeus, por um lado; e a China e os outros países da OCX – Organização de Cooperação de Xangai, por outro. Os euro-americanos estão em declínio estratégico e os segundos em ascensão e desafio face aos EUA, habituados, há cerca de um século, à uma situação de potência hegemónica; e que em desespero de causa colocam Trump a decretar sanções à Rússia, à China, ao Irão e a promover o boicote dos negócios com a Venezuela.
                                            Petróleo - Em % do total mundial                      2017

Reservas
Produção
Consumo
EUA
2,9
14,1
20,2
Venezuela
17,9
2,3
0,5
Canadá
10,0
5,2
2,5
Emiratos Árabes
5,8
4,2
1,0
Arábia Saudita
15,7
12,9
4,0
Irão
9,3
5,4
1,8
Iraque
8,8
4,9
0,8
Kuwait
6,0
3,3
0,5
Rússia
6,3
12,2
3,3
China
1,5
4,2
13.0
Europa
0,8
3,8
15,3
                                       Fonte: BP Statistical Review of World Energy

Neste contexto de grandes desequilíbrios entre a localização das reservas e o consumo, entendem-se as razões para a inclusão da Ásia Central no universo sino-russo, o apoio dos EUA às monarquias do Golfo, região essencial para o abastecimento da Índia, da China, do Japão e da Coreia do Sul, devidamente supervisionado pelo dispositivo militar dos EUA. Como se compreende o ostracismo e a animosidade dos EUA por não se poder apossar das grandes reservas do Irão; e, claro a preferência dos EUA pelo abastecimento na costa ocidental de África e sobretudo pela Venezuela, mais próximos dos EUA do que o Golfo e os jazigos da Rússia ou da Ásia Central, ligados à Europa por oleodutos. Recorde-se o incómodo da NATO perante a conduta submarina no Báltico ligando a Rússia à Alemanha, visando passar ao lado da Polónia, muito ligada aos EUA e com más memórias da Alemanha e da Rússia.

Num contexto de grande luta pelas reservas de combustíveis fósseis e, se se tiver em conta o potencial energético da Venezuela, parecem despiciendas as reservas brasileiras (0.8% do total mundial); mas, não tanto o fornecimento de energia a um país com mais de 200 M de pessoas, encabeçadas por um ex-soldado lateiro e o financeiro Paulo Guedes, dispostos a privatizar a Petrobras e a vender o Pre-Sal.

Assim, somam-se na Venezuela as dificuldades colocadas pelos EUA, desejosos de uma mudança de regime que favoreça a aquisição das reservas energéticas daquele país pelas multinacionais, para além da inabilidade de Maduro e dos gritos do tal Guaidó que já demonstrou – ao defender uma intervenção militar dos EUA no seu país – o seu papel de marioneta de Trump. Esse papel de Guaidó já foi denunciado mesmo por Henrique Capriles, um histórico adversário de Chavez e, posteriormente, de Maduro.

Na ausência de qualquer previsível atitude hostil da ONU contra a Venezuela, nomeadamente embargos, são os EUA que tomam a dianteira, no seguimento de uma já antiga hostilidade que vem do tempo de Chavez; o que não tem impedido que os EUA sejam o principal destino das exportações venezuelanas (41% do total, essencialmente constituídas por petróleo, bruto ou refinado) ou, como o primeiro fornecedor externo da Venezuela (38% do total em 2017). O que não dará qualquer conforto aos EUA é ver que a China passou a absorver 23% da exportação venezuelana em 2017 contra 11% em 2010, ano do arranque do papel da China no comércio externo da Venezuela; em contrapartida, a China preencheu 18% da importação venezuelana em 2017 (3.6% em 2005) e procedeu a vultuosos empréstimos ao país sul-americano. Esta rápida ascensão das relações comerciais sino-venezuelanas – em pleno “quintal” do tio Sam – não agrada minimamente ao “establishment” dos EUA.

O posicionamento subalterno da UE, ou melhor, de menos de metade dos seus membros[1] é completamente descabido. Em 2017, o principal exportador europeu para a Venezuela foi a Espanha com 2.1% da importação total daquele país e também como destino de 1.4% das exportações venezuelanas para a Europa. Isto é, do ponto de vista comercial, a Venezuela é irrelevante para a UE, mesmo em termos de abastecimento de petróleo. Assim, não parece haver grandes razões para que um pelotão europeu se perfile perante Trump; mais inteligente teria sido apoiarem os esforços da ONU, do México e do Uruguai na procura de soluções pacíficas, sem tomarem partido nas divergências internas, como é apanágio das relações entre estados. Ou, observarem o apoio da União Africana ao governo venezuelano, demarcando-se da agressividade norte-americana. 

Qualquer ideia de defesa da democracia na Venezuela, ou qualquer outro lugar, por parte da UE é ridícula. Primeiro, porque cada vez mais, na Europa, os regimes nacionais e as instituições globais se mostram fechados, reacionários, oligárquicos, numa relação osmótica com forças políticas xenófobas e nacionalistas; depois, porque se a democracia (ainda) é um valor na Europa, esta olha para o lado, face aos regimes das monarquias do Golfo como no que respeita à guerra da Arábia Saudita e seus pares no Iémen; Europa que considera como respeitável o regime sionista, racista e genocida, esquecida que está dos acordos para a criação de um estado palestiniano, mesmo nessa forma recuada de admitirem algo tão aberrante como a entidade sionista. 

Ao seguirem os propósitos guerreiros dos EUA na Venezuela, os apoiantes dos mesmos colocam em risco as numerosas comunidades de europeus (sobretudo portugueses, espanhóis e italianos) e seus descendentes; abrem caminho para riscos de vida ou de perda de haveres, como de fuga desordenada para os países vizinhos ou sob a forma de pontes aéreas.

Outras intervenções dos EUA no mundo (por ordem cronológica)

a)      1980 - Saddam recebe procuração para atacar o Irão 

Banidos do Irão depois da queda do seu amado Reza Palehvi, os EUA incentivaram o Iraque de Saddam a invadir o país e apossar-se das reservas do Kuzistão iraniano, como prémio pelo derrube ou domesticação do novo regime iraniano. Saddam falhou o objetivo e, para se recompor dos custos de vários anos de guerra (1980/1988), em situação de urgência, invadiu o Kuwait, também rico em petróleo, para se apropriar do cofre do emir;

                                               Teheran, a homenagem aos mortos na guerra

b)      1991 - A primeira guerra do Golfo

Perante tão enorme erro de cálculo político – os EUA são firmes apoiantes do statu quo no Golfo - o Iraque foi obrigado a sair, a tiro, do Kuwait (1991), pela tropa do Bush-pai e os seus muitos apoiantes; e, a ficar sem soberania sobre a zona sul do país e a Curdistão… por acaso as áreas onde estão os jazigos petrolíferos. Os EUA não derrubaram Saddam, apenas se dedicaram a controlar o seu armamento, organizando um criminoso embargo que matou centenas de milhar de civis, mormente crianças.

c)      2001 - O 11 de Setembro e a invasão do Afeganistão

Na sequência dos acontecimentos de 11 de Setembro de 2001, o Trump daquele tempo, que se chamava George W. Bush, decidiu procurar no Afeganistão o chefe da Al-Qaeda (bin Laden) e o seu anfitrião, o mullah Omar[2] dirigente máximo dos talibans que haviam chegado ao poder. Este país montanhoso é povoado por várias tribos de duros pastores, pouco dados à aceitação de invasores, como os ingleses no século XIX e os soviéticos na recente década de 80 puderam verificar. E não parece que as coligações chefiadas pelos EUA tenham tido melhor sorte, mesmo depois de adestrarem um exército nacional afegão.

Porém, os EUA, grandes promotores do empreendedorismo e da criação de valor, apossaram-se do tráfico de heroína cuja produção se tem centrado no Afeganistão para compensar a despesa.
Do ponto de vista político de grande potência, a invasão do Afeganistão – país sem recursos petrolíferos – fez parte da “war against terror” decretada por G. W. Bush, humilhado pela vulnerabilidade dos EUA a uma ação suicida bem montada pela al-Qaeda. Era necessária uma retaliação para encobrir as enormes falhas da segurança norte-americana e elevar o orgulho e a moral do Império. E, o alvo parecia fácil – um dos países mais pobres da Ásia, governado por um grupo sunita rigorista – os talibans, os “estudantes de teologia”. Hoje, passados 18 anos da invasão, os talibans dominam grande parte do país, o governo de Cabul e a embaixada dos EUA estão acantonados numa zona fortemente protegida da capital e não conseguem evitar os frequentes e sangrentos atentados levados a cabo pelos insurgentes. Porém, o tosco Trump, no princípio do seu mandato mandou experimentar no Afeganistão “a mãe de todas as bombas” numa zona esvaziada de população para o efeito e que… terá dado boleia aos talibans… com o espetáculo que acima se pode ver; entretanto, Trump mudou de ideias e prenuncia a retirada total.

Do ponto de vista estratégico, os EUA procuraram cumprir vários objetivos. Primeiro, estabelecer uma plataforma para controlar ou condicionar as repúblicas ex-soviéticas da Ásia Central ricas em hidrocarbonetos (Turquemenistão e Cazaquistão); em segundo lugar, posicionou-se nas “traseiras” da Rússia e da China (a instabilizar, se conveniente, chegando mesmo a ter uma base militar no Quirguizistão, a 40 km de uma outra, russa); e ainda, porque serviria de base para cercar o Irão[3], utilizar os generais paquistaneses e, constituir enfim, um reforço em terra, para as muitas bases militares e frotas que os EUA mantêm, em permanência, no Golfo, na Turquia, no Índico e nos mares da China. 

A presença militar dos EUA no Afeganistão é ineficaz a vários níveis. Primeiro porque o governo de Cabul depende do apoio dos EUA e não é difícil ver que os talibans, ou uma coligação com a sua presença, voltará a dominar o país. O capital estrangeiro investido no país é chinês e indiano, estando prevista para breve uma ligação direta por estrada, entre a China e o Afeganistão, pelo corredor de Wakhan.

d)      2001 – A criação na Eurásia de um bloco político, económico e militar 

A intervenção dos EUA no Afeganistão acelerou a integração económica e a cooperação política na Ásia, que veio a desembocar na constituição da OCX – Organização de Cooperação de Xangai, em 2001, com posteriores alargamentos e à qual pertencem a China, a Rússia, a Índia e o Paquistão, entre outros. Essa integração favorece o desenvolvimento das vias de comunicação, denominadas “One Road and One Belt Initiative” (ou Rota da Seda) que envolvem também capitais europeus (incluindo Portugal); mas com a ostensiva ausência dos EUA… como se compreende.

A Rota da Seda, nas suas várias vertentes marítima e rodo-ferroviária tende a integrar não só a Eurásia mas também a África, reduzindo a margem de manobra dos EUA que, fiéis à doutrina de Mackinder, Alfred Mahan ou Saul Cohen, apostam num “cordão sanitário” de bases marítimas, aéreas e de frotas de guerra, numa estratégia de domínio herdada do império britânico, capaz de manter a “ordem colonial” em áreas politica e economicamente dominadas e desestruturadas; e que hoje, não são, de todo, caraterísticas dos países asiáticos. A esse grande projeto fica associada a Europa, mormente oriental, para a qual, já há alguns anos as transações com a China superam as que se fazem com os EUA. As reticências partem dos países europeus da fachada atlântica, mais fiéis adeptos da NATO, como a Noruega, a Grã-Bretanha, a Holanda e… Portugal (sobre a geopolítica que envolve a Europa veja-se [4].


e)      2003 – A invasão do Iraque

A invasão, ocupação e desmembramento do Iraque, em 2003, acontece sob os auspícios de uma coisa nebulosa chamada “comunidade internacional” que, por acaso, tem sempre uma opinião, sobre qualquer assunto, coincidente com os EUA… Claro que o mundo tremia perante a ameaça das armas de destruição massiva que Saddam possuiria e até as crianças logo comiam a sopa quando os pais falavam dessas armas… No ano seguinte, porém, o relatório Duelfer do Grupo de Pesquisa do Iraque demonstrou não existirem tais armas … apesar de Bush ter mostrado a Blair, Aznar e Durão provas insofismáveis da sua existência! A sua não existência, a guerra e a ocupação tornariam aquele quarteto alvo de processos de crimes contra a Humanidade e objeto de julgamento, como aconteceu aos generais sérvios, a Milosevich (que morreu, entretanto) e Karadjic, com poucas simpatias nos EUA. O referido quarteto é ainda responsável pelas vítimas civis 183/205000, num último apuramento datado de janeiro último.

Na ocupação do Iraque brilhou logo no início, a argúcia do procônsul Bremer, nomeado pelos EUA e que, provavelmente só ao entrar no avião para Bagdad viu no mapa onde isso seria. Deve ter tido grande surpresa quando descobriu que a minoria sunita reinante com Saddam, uma vez derrubada, abria espaço para um poder da maioria xiita e um caminho para vinganças e violência entre as duas comunidades; para não falar dos curdos que, embora sendo sunitas, jogavam em pista própria. Na sua estupidez, Bremer desmantelou o partido Baath em que se ancorava o poder de estado e o exército iraquiano (de base sunita) colocando cerca de 800000 militares no desemprego e impedidos de trabalhar. Num país caótico, onde o armamento se achava disseminado em toda a parte, com tanto militar no desemprego e com um legítimo repúdio popular pelos invasores, desenvolve-se o jihadismo e um espaço para a atuação da al-Qaeda e o surgimento do Daesh.

f)       2011/2019 – Síria

No âmbito das chamadas primaveras árabes, na Síria registaram-se manifestações contra o regime de Assad. Entre a violência do governo e a dos grupos armados que surgiu em simultâneo, rapidamente se desenvolveu uma violenta guerra com enorme grau de destruição e fuga das populações. Ao lado de Assad e das forças armadas sírias posicionaram-se principalmente o Hezbollah libanês, o Irão e a Rússia, com apoios em armamento da China, do Iraque ou da Coreia do Norte. Do lado contrário colocaram-se, entre outros, as potências ocidentais, a Turquia, a Arabia Saudita (fornecedor de armas), o Qatar (financiador da compra de armas) o Exército Livre da Síria, constituído por opositores do regime e desertores do exército e grupos islamitas como o Ahrar al-Sham, ou o Jaysh al Islam (salafistas), o Hayat Tahrir al-Sham (al-Qaeda) e o ISIS ou Daesh. Fora desse quadro, essencialmente confessional situam-se as Forças Democráticas Sírias, milícias de várias origens étnicas ou religiosas, com particular relevo para os curdos sírios que formaram estruturas democráticas e seculares de autogoverno popularizadas pelo nome de Rojava. 

A entrada na Síria, em força, do Daesh (2014), com enorme brutalidade e um imenso fanatismo religioso, seguiu-se às suas conquistas no Iraque, mormente de Mossul, no âmbito das quais se apoderaram de muito armamento; recorde-se o apoio que o Daesh havia obtido junto de antigos militares do exército de Saddam. Nesse contexto, em 2015, os EUA, outros países ocidentais e árabes, envolveram-se em bombardeamentos na Síria, atacando o Daesh, apoiando outros grupos de oposição a Assad, sem nunca apoiarem este último, obviamente.

Em finais de 2015, sucede-se a chegada da aviação russa no apoio a Assad, contra o Daesh e os outros grupos de rebeldes, numa ação concertada com o Hezbollah e (não formalmente) com o Irão. Em fevereiro de 2016 celebra-se um acordo de cessar-fogo, russo-mericano, que passaram a colaborar no combate ao Daesh. Pouco depois, a Turquia entra em campo, contra o Daesh (a quem discretamente comprara petróleo sírio, meses antes) e as milícias curdas, de Rojava ou iraquianas, para evitar um “contágio secessionista” na sua grande minoria curda.

A guerra na Síria tinha uma importância estratégica para os dois campos em luta contra o Daesh e, mesmo antes da irrupção deste. A tomada do poder no Iraque pela maioria xiita, na sequência da invasão dos EUA em 2003 abriu uma relação próxima do país com o Irão, algo que deve ter surpreendido a estreita visão dos EUA quando da invasão do Iraque. Por outro lado, a Síria, com Assad e a comunidade alauita no poder, permitiria ao Irão uma ligação fluida com o Mediterrâneo, por intermédio do Hezbollah, a principal força no Líbano, igualmente xiita. Esta realidade que se veio a estabelecer criou um “arco xiita” desde a fronteira oriental do Irão, com o Afeganistão e o Paquistão e os portos libaneses e sírios[5], no Mediterrâneo; que viria a inviabilizar o escoamento de petróleo, por via terrestre entre as monarquias do Golfo e a costa sírio-libanesa, encurtando os custos de venda para a Europa. Essa situação é também muito desfavorável à entidade sionista que sente no Irão o seu principal adversário, deteriorando-se também a sua relação com a Turquia desde o episódio do Mavi Marmara, em 2010.

A nova situação geopolítica que isolou as monarquias sunitas levou-as a envolverem-se na guerra civil no Iémen em 2016, que se desenvolveu na sequência das movimentações populares de 2011.
As razões para esse envolvimento são várias. Uma, é de caráter confessional uma vez que em 2015 os Houthis (xiitas) com aliados sunitas tomaram Sanaa, a capital, assustando a Arábia Saudita e os emires do Golfo que viram ali uma influência do Irão junto do estratégico Bab el Mandeb. Como este estreito é vital para o tráfego marítimo global as monarquias, com apoio logístico e de informações fornecido pelos EUA, Grã-Bretanha e França, decidiram invadir o Iémen ainda em 2015. 

O que parecia fácil tornou-se difícil. Passados quatro anos e muita destruição, as monarquias árabes não conseguiram dominar os adversários e a guerra vai desbastando as suas finanças; com muito agrado para Trump que, em 2018 se encontrou com Mohammed bin Salman (MbS) para realizar um contrato fabuloso de venda de armas.

Paralelamente, em junho de 2017 a Arábia Saudita, as monarquias do Golfo e o Egipto decidem bloquear as suas relações económicas e diplomáticas com o Qatar com acusações de apoio ao terrorismo, de ter boas relações com o Irão (de há muito tempo, por razões históricas), pretendendo ainda o encerramento da estação al-Jazira e ameaçando construir um fosso que tornaria o Qatar numa ilha!

g)      2011 - As primaveras árabes – Egipto

O Egipto é o mais populoso país árabe e onde se situa o canal do Suez, via vital para o tráfego marítimo entre o Índico e o Mediterrâneo, entre a Ásia ou a África Oriental com a Europa e o Norte de África. O Egipto foi invadido por Napoleão que pretendia, a partir dali atacar a Índia onde dominavam os ingleses. Seguidamente, franceses, egípcios e ingleses dominaram a exploração do canal até que em 1956, Nasser o nacionalizou; na sequência, a França, a Grã-Bretanha e a entidade sionista tentam reverter a situação através das armas mas, com a intervenção da ONU foram obrigados a ceder. 

Depois da guerra dos Seis Dias, em 1967 o canal foi fechado, depois da ocupação da sua margem oriental pelos sionistas. Em 1973, numa nova guerra, o Egipto expulsou os sionistas do Sinai e recuperou o canal que foi reaberto em 1975, provocando, durante o seu encerramento e depois da reabertura, alterações profundas na indústria e no comércio marítimo.

Sadat, o sucessor de Nasser foi assassinado em 1981, na sequência de ter assinado um acordo de paz entre o Egipto e a entidade sionista, em 1978, patrocinado por Carter, à altura presidente dos EUA; e que teve a oposição de quase todo o mundo árabe. Sucedeu-lhe outro militar, Mubarak, que durante o seu longo consulado beneficiou de forte apoio militar e financeiro dos EUA, para que assegurasse a segurança do Suez e da fronteira com a entidade sionista, no que respeita aos palestinianos. 

Mubarak, acusado de corrupção e pelos assassínios durante as manifestações da praça Tahrir em 2011, foi afastado do poder. Ainda na cadeia, em 2014 manifestou o seu apoio a al-Sissi para lhe suceder; o que veio, de facto, a suceder depois de um curto período em que a presidência recaiu sobre Morsi, o candidato da Irmandade Muçulmana que havia vencido as eleições de 2012, na sequência de ganhos eleitorais que vinha acumulando desde 2005. 

Com al-Sissi, os EUA ficaram mais sossegados relativamente ao Egipto, uma vez que a Irmandade Muçulmana é claramente adversária da entidade sionista e apoiante do Hamas palestiniano. O reiterado apoio de Hilary Clinton à democratização do Egipto esmoreceu bastante quando al-Sissi consolidou o seu poder, após a deposição de Morsi, garantindo assim a continuidade do Egipto como peão dos EUA na região e beneficiário de forte apoio militar e financeiro. E daí que Trump tenha avançado recentemente com o gesto simbólico de reconhecer Jerusalem como a capital sionista, sem grandes manifestações de desagrado dos estados árabes.

h)      2011 - As primaveras árabes – Bahrein

No Bahrein, em 2011 a população manifestou-se contra a monarquia ancorada na família al-Khalifa e pela democracia, por um regime parlamentar, numa luta que se estendeu até meados de 2012. A intervenção dos militares do Conselho de Cooperação do Golfo, sobretudo sauditas, representou a solidariedade dos emires para com o colega do Barhein; para mais, numa situação em que a população é, em grande maioria xiita, sem grande afeto pela família reinante que é sunita. 

Os EUA, que têm no Bahrein 1500 militares na base da sua V Esquadra[6], cuja função é controlar o tráfego no Golfo e participar na cortina de cerco ao Irão, não poderiam deixar que ali se instalasse a instabilidade. No entanto, souberam fomentar a guerra na Líbia, nessa ocasião e criticar a brutalidade da repressão de Assad na Síria, perante uma oposição armada. Dois pesos duas medidas.

i)       2011 - As primaveras árabes - Tunísia

Em princípios de 2011, os tunisinos revoltaram-se, no seguimento do suicídio de Mohamed Bouazizi e em protesto contra o esmagamento dos pobres pelo regime corrupto de Ben Ali e sua família, apoiados na polícia e na tropa, odiados pela população que sofria as suas extorsões e comportamentos brutais. Ben Ali fugiu para local seguro - Arábia Saudita - e a situação evoluiu para uma típica democracia de mercado. Neste caso, os EUA, certamente acompanharam os acontecimentos mas não intervieram; provavelmente porque… a Tunísia não é uma potência petrolífera.

j)       2011 – A invasão da Líbia

Em 2012 a Líbia detinha o segundo lugar entre os países africanos no capítulo do desenvolvimento humano (IDH), o décimo lugar quanto a reservas petrolíferas e, como em 2010 somente tinha 6.2 milhões de habitantes tornava-se um filão apetecido; para mais apresentando um Kadhafi como uma figura com mais de 40 anos no poder, majestático e autoritário; mas que sabia aliciar dirigentes ocidentais, como Sarkozy ou Cameron. Este último teve a infelicidade de ser confrontado com a intervenção dos EUA e seus cortesãos na Líbia, que inviabilizou uma vultuosa venda de armamento inglês.

Em fevereiro de 2011 os ecos de Tahrir e de Tunes fazem-se sentir na Líbia e são aproveitados por dois partidos de inspiração jihadista – Al-Watan (próximo da al-Qaeda) e a Umma al-Wasat, para além do salafista al-Asala, entre outros; forma-se um Conselho Nacional de Transição que teve na França o seu primeiro apoiante externo. Os insurgentes são obrigados a recuar para Benghazi que é cercada pelas tropas de Kadhafi; e, como em março a ONU aprova o estabelecimento de uma zona de exclusão aérea para proteger os civis, os EUA e a França começam os bombardeamentos. 

O apoio da NATO foi decisivo no apoio aos rebeldes que chegam a Tripoli em agosto e, após a morte de Kadhafi, assassinado depois de sexualmente violentado seguiu-se um longo período de guerra entre facções rivais que ainda dura. No rescaldo da agressão externa, a produção de petróleo e gaz foi assenhoreada por multinacionais como a Total (França), a ENI (Itália), a Repsol (Espanha), Wintershall (Alemanha) a Occidental (EUA), entre outras.

Na sequência da intervenção da NATO, continuam hoje rivalidades armadas na Líbia, com poderes locais antagónicos. Para além disso, no seguimento do colapso da unidade política na Líbia, muito armamento foi levado para Sul, onde as populações tuaregs vivem, tal como no Chade, no Níger e no Mali, pouco sensíveis às fronteiras nacionais. Formou-se assim uma vasta área onde as armas líbias abastecem os movimentos regionais de guerrilha.

A espantosa atuação do ministro Santos Silva 

A pronta subserviência do governo português a Trump é a todos os títulos, estúpida. Ou, se se preferir, revela a subserviência paroquial no contexto europeu, da NATO, ibérico e até da CPLP. 

·      Tendo em conta que a maioria dos países da UE não se colocaram ao lado de Trump, reconhecendo uma mais que duvidosa legitimidade de Guaidó, o governo português não era obrigado a esse alinhamento;

·      Portugal tem algumas centenas de milhares de portugueses e seus descendentes na Venezuela e, qualquer agravamento da situação naquele país – sobretudo se acentuado pelo governo em Lisboa – é de uma enorme irresponsabilidade. A memória do ministro está esvaziada da recordação da chegada de muitos milhares de retornados das antigas colónias?

·      Depois da ilegítima e estúpida intervenção nos assuntos internos da Venezuela, com uma ainda mais desastrada aceitação de Guaidó que, na realidade, só tem a notoriedade política criada por Trump, Santos Silva manda oito polícias e armamento para a Venezuela, sabendo que o poder legítimo e real pertence a uma entidade que não reconhece. Daí, o imediato envio à precedência dos polícias e das armas. Com tanta estupidez, Santos Silva deveria ser despromovido a escriturário do consulado português em Punta Arenas.

Este e outros textos em:
http://grazia-tanta.blogspot.com/                              
http://www.slideshare.net/durgarrai/documents


[1] Países da UE que não se intrometeram nos assuntos internos da Venezuela: Irlanda, Bélgica, Luxemburgo, Itália, Polónia, Estónia, Rep. Checa, Eslováquia, Hungria, Roménia, Bulgária, Grécia, Eslovénia, Croácia, Chipre, Malta
Paises da UE apoiantes de Trump: Reino Unido, França, Alemanha, Áustria, Suécia, Dinamarca, Portugal, Holanda, Lituânia, Letónia, Finlândia, Espanha
[2] Bin Laden foi abatido por forças especiais dos EUA, no Paquistão em 2011 e o seu corpo foi deitado ao mar, no Índico. O mullah Omar, morreu de tuberculose em 2013, embora a sua morte só tenha sido revelada dois anos depois
[3]  Rapidamente, os EUA situaram em Shindand, a 100 km da fronteira iraniana a maior base militar no Afeganistão; embora o grande centro logístico fosse em Bagram, a norte de Cabul
[5]  Onde se encontram as bases militares russas, em Latakya (aviação) e Tartus (marinha)
[6]  Para além do Bahrein e para policiar o Golfo Pérsico, vital para o abastecimento, sobretudo da Ásia e o Irão ao qual pertence a margem direita, os EUA dispunham de um dispositivo militar composto por 32 bases na região do Golfo, onde se destaca Seeb, Thumrait e Masirah no Oman, Al-Ubeid no Qatar, e Camp Arifjan ou Camp Doha no Kuwait. Entre 1991 e 2003, os EUA tiveram 5/10000 soldados na Arábia Saudita que retiraram porque os sauditas não gostavam de ter tropas estrangeiras no país onde se situam lugares tão santos do Islão, como Meca e Medina. O que não impede que discretamente estejam apoiando o governo saudita na guerra do men