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sábado, 28 de dezembro de 2019

Estado-nação, nacionalismo, instrumentos do capitalismo (2/3)



Sumário

1 – Como o capitalismo criou o estado-nação
2 - O nacionalismo como instrumento de controlo ideológico
3 - A cada nação um estado-nação?
4 - O capitalismo engrandece o estado-nação no seu processo de consolidação
5 – A globalização capitalista reconfigura o papel do estado-nação
5.1 – Alguns segmentos retirados ao domínio dos estados-nação
6 – O Estado, gestor local da estratificação do Homem

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3 - A cada nação um estado-nação?

Se um estado-nação surgisse apenas e “naturalmente” por ter como base uma nação -caraterizada pela etnia, a cultura, um passado comum, a religião, a língua ou tudo isso - seria necessário explicar porque existem apenas uns 200 estados-nação e não mais de 7000, correspondentes a cada binómio cultura/língua específica, ancorado em territórios mais ou menos específicos. Se assim fosse, poderia perguntar-se onde está a nação monegasca, a identidade do Liechtenstein ou, a de cada uma das antigas colónias inglesas das Caraíbas transformadas em estados-nação para servirem como offshores, plataformas de estacionamento e branqueamento de capitais mafiosos?

Se esse postulado fosse real, quantas seriam as guerras de libertação, os conflitos, massacres, deportações e colunas de refugiados em fuga à repressão de potências (pouco) acolhedoras de posturas independentistas? Quantos seriam os presos por separatismo ou lutadores pela independência da sua pátria?

Os refugiados que tentam atravessar o Mediterrâneo fogem à desestruturação económica, ao banditismo e à pobreza e não como vítimas da luta das suas culturas e etnias pela criação de um estado-nação. E os rohingyas que fogem para o Bangla Desh e não o fazem por pulsões independentistas.

Muitas dessas culturas têm poucos membros e falta de massa específica ou mesmo vontade em construir um estado-nação próprio; e certamente contariam com a oposição do aparelho do estado-nação hospedeiro, pouco dado a perdas territoriais, por natureza. Por outro lado, essas culturas subalternas no seio de um estado-nação típico, com exércitos, polícias, um aparelho de estado editor de propaganda nacionalista e um sistema educacional totalizante, são reprimidas para que se desvaneçam; ou, aceitam-nas como elementos geradores de atração turística. 

Hoje, as guerras de libertação nacional são escassas, passado o período áureo da descolonização nos anos 60/70. Os tamil no Sri Lanka não conseguiram a independência após muitos anos de guerra; as nações nativas nos EUA são objeto de uma visibilidade turística, como peças de museu; os curdos vão garantindo alguma autonomia na devastada Síria e no Iraque; os palestinianos continuam confinados a verdadeiras prisões ao ar livre; a separação entre checos e eslovacos procedeu-se pacificamente, apesar das suas muitas afinidades; a Escócia espera melhores dias para se separar da tutela formal dos Windsor; em Espanha, catalães, bascos e galegos continuam a ter a sua própria independência coartada pelo regime pós-franquista; e o Sudão do Sul separou-se recentemente do Sudão, de matriz árabe, após um período de guerra… pela partilha do petróleo.

A descolonização da África foi, em muitos casos pacífica e, no caso das colónias portuguesas, as guerras de libertação colonial terminaram em meados da década de 70; a que se seguiu, pouco depois, o desmoronamento do regime de exclusão da população originária, no Zimbabwe; ao qual o regime dava um nome que homenageava um businessman racista chamado Cecil Rhodes. Na África do Sul, o regime de apartheid manteve-se até aos anos 90 quando foi instituída como estado-nação multi-étnico, com onze línguas oficiais, sob a égide da figura excepcional de Nelson Mandela. Na mesma época, a Namíbia tornou-se um estado-nação livre da tutela sul-africana e da longa guerra de libertação. Os conflitos que se seguiram em África, para além dos massacres no Ruanda ou, da divisão em dois de um artificial Sudão, não tiveram origem em questões étnico-culturais; apenas lutas de poder, pilhagem (petróleo, ouro, urânio, terras raras…) e negócios de transporte de migrantes até ao Mediterrâneo, com envolvimentos ocidentais, como se está observando no Sahel.

O estado-nação, na sua génese juntou nações e territórios – por integração ou absorção - atribuindo rótulos nacionais a cada ser humano; porém, essa figura só se aplicava, de facto, na Europa e no final do século XVIII também nos EUA, embora na China e no Japão também existissem estados-nação centralizados mas, no âmbito de modelos autárcicos, alheios à dinâmica do capitalismo.  

Em paralelo com o caráter mais extensivo ou intensivo do domínio colonial europeu a presença do seu poder começou a decair, na transição entre os séculos XVIII/XIX. Depois da criação de uma república esclavagista e genocida pelos colonos europeus – EUA[1] – surgiu o pioneiro Haiti – uma república de ex-escravos – e de seguida a independência da América do Sul, onde cada estado-nação se pautava por imensa variedade de culturas e etnias mas sob a hegemonia política e militar dos criollos, descendentes mais ou menos diretos dos colonizadores espanhóis e portugueses. Entretanto, a doutrina Monroe – a América para os americanos – na realidade significava a suserania dos EUA no continente, com a conquista das últimas colónias espanholas e o perene hábito de intervir no “quintal das traseiras” a Sul do Rio Grande – com invasões, golpes militares, ditaduras, assassínios e, mais recentemente, através de sanções – com o apoio, a tolerância ou a distração dos estados-nações europeus.  

Até à I Guerra, a guerra foi o meio comum de criação ou expansão de estados-nação, em muitos casos com fronteiras muito instáveis, mormente na Europa central onde a Confederação Germânica e a Áustria repartiam os domínios do chamado Sacro Império (que era então um amontoado de centenas de pequenos e grandes senhorios); e, na Europa Oriental predominavam os impérios, russo e otomano, este em luta frequente com os safávidas persas, pelo controlo da Mesopotâmia. Na parte ocidental da Europa estavam as potências marítimas que controlavam o comércio colonial, com a França numa posição de charneira; por um lado, a França tinha as suas ambições coloniais contidas e reduzidas pelo maior poder inglês e, por outro, procurava um grande império continental europeu, centrado em Paris, como dois Napoleões (o original e o terceiro) procuraram erigir. A Rússia, entretanto, expulsou os suecos da margem oriental do Báltico e veio a ser a principal beneficiária do desmoronamento do eleitorado polaco-lituano, enquanto se estendia territorialmente até ao Alasca… posteriormente vendido aos EUA.

A Europa destacou-se através da conquista, da disputa e ocupação de territórios coloniais, e ainda com as guerras inter-imperialistas ou de ocupação dos mais fracos. Perante decadentes poderes imperiais nos finais do século XIX até à I Guerra Mundial – Áustria-Hungria e Turquia – tendo como objetivo o desmantelamento daqueles, foi defendido, com falso romantismo a ideia de “a cada nação o seu estado” por mais impraticável que isso fosse nos Balcãs ou no Médio Oriente, dada a interpenetração territorial e cultural dos povos dessas regiões. Nessa mesma época, as potências imperiais repartiam a África entre si, traçavam fronteiras sem preocupações de nenhuma espécie face às divisões que criavam no seio de etnias, povos e tribos ou, em manter as estruturas políticas anteriores, na África do Norte ou no Sahel. Os africanos eram seres inferiores, um conceito defendido convenientemente por “cientistas” empenhados na segmentação dos humanos em raças e na esterilização de débeis mentais ou de gente com feições menos belas. Na América, depois de retirados pelos EUA, imensos territórios ao México, reinava a Sul uma relativa paz entre os estados dos criollos; só faltando a expulsão final dos enfraquecidos colonizadores espanhóis (de Cuba e Porto Rico), uma vez que as colónias inglesas (nomeadamente o Canadá) pertenciam ao mais poderoso estado-nação da época.

Ataturk, depois do desmembramento do Império Otomano levou tanto quanto possível à letra a ideia da uniformidade nacional no seio da Turquia; procedeu a uma troca de populações gregas na Ásia Menor por turcos habitantes da Grécia e ao genocídio dos arménios, cristãos, susceptíveis de serem … adoptados pelo czar da Rússia a expensas da Turquia. Ainda assim, para perturbar a “identidade” turca, sobrou o nacionalismo curdo, até hoje sem reconhecimento para a constituição de um estado-nação.

Logo na sequência do desmantelamento dos impérios turco e austro-húngaro surgiu a Jugoslávia, como mosaico de povos com várias religiões e línguas (estas, próximas, o que não acontecia com as religiões), com comunidades diversas muito misturadas e fronteiras muito difíceis de demarcar; no entanto, desta vez as grandes potências pretenderam dar ao conjunto uma dimensão racional e viável. Para evitar a “balcanização” ficava para trás a ideia de, “a cada nação, o seu estado”. Apesar dessa diversidade, os jugoslavos resistiram fortemente à ocupação nazi, apesar do apoio dos ustachas (basicamente católicos croatas) ao ocupante, numa postura ferozmente anti-sérvia, herdada da memória austríaca.

Cerca de oitenta anos depois, de novo aquele princípio de acentuação e exacerbamento do espírito nacionalista voltou à Jugoslávia como produto de vários interesses de entes estranhos ao seu povo. A Alemanha pretendia alargar o campo de expansão comercial, beneficiando do desmembramento do Comecon; o papa Wojtyla queria integrar as antigas províncias austríacas de tradição católica (Eslovénia e Croácia) no seu espírito ultramontano de cruzada, contra Belgrado e os sérvios, com tradicionais boas relações com a Rússia; e finalmente, os EUA (arrastando consigo a UE) incentivaram de novo a “balcanização” com a criação da tripartida Bósnia-Herzegovina, da FYROM (agora Macedónia do Norte), do Montenegro e de um território (Kosovo) promovido a estado-nação para acolher a grande base militar de Boldsteen, onde os EUA podem supervisionar toda a Península Balcânica, prevenindo-se contra influências russas sobre os povos eslavos da região.

O mesmo princípio de “a cada nação o seu estado” não foi, evidentemente, seguido na descolonização de África perante a qual as fronteiras coloniais foram mantidas, encerrando-se em cada um, muitas etnias e línguas que aliás, em regra, tinham séculos de partilha em comum do mesmo espaço, como por exemplo no vale do Níger, onde coabitam centenas de etnias e línguas. A criação de estados-nação pelas potências coloniais não acabou com essa coabitação, sedimentada com algumas línguas de comunicação entre comunidades distintas; a estranheza foi a existência de fronteiras e a presença de classes políticas autóctones como delegados dos antigos colonizadores – os tais “pele negra, máscara branca”[2]. O mesmo sucedeu com a língua quechua, falada da Colômbia à Argentina pelos povos indígenas, a par da língua espanhola introduzida pelo colonizador.

Seria insano aplicar a África o princípio identitário. Primeiro, porque resultaria numa redefinição, confusa e discutível de espaços e povos; depois porque as nações coloniais pretenderam manter as suas preferenciais influências e negócios nos territórios tornados independentes, bem como a continuidade da exploração mineira e dos regimes de plantação. Por outro lado, as pequenas elites ocidentalizadas, herdeiras da administração colonial não quiseram abrir o dossier das etnias pré-coloniais o que restringiria os seus poderes aos núcleos culturais e étnicos de onde provinham; nem perder o seu peso como intermediários face aos capitais ocidentais num espaço alargado, supra-tribal. Acima de tudo, era-lhes exigida a estabilidade do funcionamento dos… mercados e do saque. Assim, os únicos casos de futuras partições viriam a observar-se – após longos e violentos conflitos – com as separações Etiópia/Eritreia, Sudão/Sudão do Sul e, de modo não reconhecido pela “comunidade internacional”, no caso Somália/Somalilândia. 

O império britânico das Índias foi repartido inicialmente em quatro estados-nação, todos longe da unicidade étnica, cultural ou linguística. Com as notórias excepções do Japão e da Coreia o mesmo acontece em quase todos os países da Ásia. A Indonésia é outro grande mosaico de línguas e etnias mas aí, o colonizador holandês nunca sequer procurou instalar o uso da sua língua, aceitando a continuidade do malaio, tradicional língua de comunicação naquela região; resguardou para o círculo mais alto da administração colonial o uso do holandês.

A geopolítica é um jogo de interesses económicos, financeiros e logísticos e torna povos e estados-nação como instrumentos de disputa, tanto ou mais intensa e destrutiva, conforme as classes políticas conseguem - ou não - instilar o veneno do nacionalismo e da exclusão do Outro, para benefício de um capitalismo indígena ou globalizado.

A maioria das culturas ou línguas não aspira à constituição de um estado-nação e, por várias razões: 

·      Muitas, acham-se dispersas por vários estados-nação e, cada um destes, pouco disposto a ceder parte do seu território a uma das suas minorias para que esta se junte a um conjunto de gente com a mesma cultura, vivendo num segundo estado-nação e surgindo dessa aglutinação um terceiro estado-nação. A partilha, de facto, de Jammu-Caxemira, entre a Índia e o Paquistão revela que nenhum daqueles países cederá um milímetro de território, nem ao outro, nem para a criação de uma nova soberania estatal.
·      Em regra, um estado-nação tem as suas estruturas estatais ocupadas por etnias, culturas únicas ou fortemente maioritárias, com o monopólio do aparelho policial, militar e judicial; e, tendencialmente, é no âmbito dessa cultura dominante que também se situa o poder económico local ou nacional. As minorias só se rebelam se discriminadas, coartadas nos seus desejos de melhoria de vida, de promoção social ou de repressão cultural, linguística, religiosa, como a comunidade dita católica na Irlanda do Norte; mas já não nas comunidades húngaras (católicas) na Sérvia ou na Roménia (ambas, ortodoxas), como na comunidade turca na Bulgária, minoritárias, em todos esses casos.
·      Há também casos em que o poder político assenta em minorias. Podem citar-se os maronitas no Líbano, utilizados pelos franceses para criar uma entidade política separada da Síria, no seguimento da I Guerra e entretanto tornados minoria, em benefício dos xiitas; ou a Síria actual cujo poder político tem cabido aos minoritários alauitas. No caso dos maronitas ou dos alauitas há uma identidade baseada na religião (presente ou herdada dos ancestrais) mas, no caso dos negros americanos a identificação e segregação baseia-se na origem africana, mais ou menos presente, na cor da pele; o mesmo sucedendo no Brasil.
A relevância dos imigrantes, sobretudo na Europa e nos EUA tem crescido e é marcada por discriminações, exclusões e perseguições; a sua aceitação é tanto mais problemática quanto mais diferenciada for a tipologia física ou cultural dos imigrantes. Ser imigrante sul-americano nos EUA tem condições de aceitação social e política distinta face a imigrantes vindos da própria Europa; e na Europa há diferenças evidentes se o imigrante é africano, islâmico ou proveniente do Leste europeu. A discriminação dos imigrantes é sempre construída por uma narrativa recheada de preconceitos como o de serem oportunistas, de explorarem os sistemas de segurança social, de serem ladrões, javardos, violadores, terroristas, perturbadores da boa paz celestial havida no seu local de adopção. Sinteticamente, chama-se a esse conjunto de preconceitos, racismo; e, por um acaso da História, o racismo teve origem na Península Ibérica[3]. 

Os judeus durante cerca de dois milénios – e a despeito das suas divisões étnicas e sociais – viveram em comunidades bem identificadas, sem um estado-nação, autossegregando-se para se manterem como comunidade ou, sendo segregados e perseguidos por razões políticas, religiosas ou invejas populares, ou ainda, como bodes expiatórios dos descontentamentos populares nos estados-nação onde viviam. Durante séculos nunca procuraram constituir um estado-nação até que aproveitaram essa moda, nos finais do século XIX, para lançarem esse projeto, emigrando, alguns milhares para a Palestina, onde há muitos séculos havia apenas uma pequena comunidade judaica, em harmonia com a maioria islâmica. O sionismo, a doutrina racista de defesa dos israelitas como povo ungido, advogou uma ocupação da Palestina como sua terra ancestral de origem e, com o apoio inglês, firmou-se naquele território, expulsando ou segregando os seus ancestrais ocupantes, vítimas de brutalidades que se podem comparar com as dos nazis. Trata-se pois de um nacionalismo “científico”, excludente e fascista, ancorado no apoio dos EUA e do poder político e financeiro de oligarcas de origem judaica. Só o dinheiro e a influência dali resultante, permite tal excrescência “nacional”.

Inversamente, os ciganos sempre constituíram comunidades pobres, segregadas e errantes, empurradas para o ostracismo, com uma presença particular nos Balcãs, onde desenvolveram uma cultura musical deveras interessante. Obviamente, nenhum poder financeiro ou político lhes ofertou um território para construírem um estado-nação.

O que é, de facto, o estado-nação? É uma contingência onde desembocaram outras contingências, com um aparelho chamado Estado, com direitos totalitários de repressão e saque sobre os “seus” habitantes, segmentados em função dos vários desempenhos definidos pelo Estado[4]. O Estado, é preenchido por uma hierarquia mais ou menos mafiosa – a classe política, em permanente articulação com o topo da gama do capital; nacional e global. Para colorir e alegrar esse quadro sinistro, juntaram a esse estado-nação, um hino e uma bandeira.

4 – O capitalismo engrandece o estado-nação no processo de consolidação

A globalização, na sua forma primeira, começou quando os filhos de Lucy abandonaram o Vale do Rift e partiram para destinos incertos; porém, perdendo, temporariamente (milhares de anos) as referências uns dos outros[5]. E foi alargando o seu âmbito geográfico, incluindo mais e mais comunidades humanas, mormente através da formação de impérios que criavam as condições de segurança para as trocas. Alexandre da Macedónia queria conquistar o mundo mas foi contrariado pelas florestas da Índia, pelas alturas do Pamir e pelo cansaço das suas tropas. Mais tarde, os romanos tornaram o Mediterrâneo um Mare Nostrum estacando à beira do tempestuoso Atlântico, atrás do muro de defesa contra os pictos a Oeste, do Sahara a sul, do Reno e do Danúbio a norte e no confronto com os partos a Leste. Ainda mais tarde, os impérios muçulmanos constituíram pontes marítimas e terrestres com a Índia e a China, com Marco Polo, Veneza e Génova a fazerem a ligação entre a Ásia e o resto da Europa feudal. Este comércio longínquo incidia sobre bens de luxo cujo elevado preço resultava, em parte, da dimensão da viagem total e dos riscos durante a mesma.

Se se pensar na globalização em simples termos geográficos, ela consumou-se com os feitos de Colombo, Vasco da Gama e Magalhães, a que se seguiu o desvendar de alguns recantos, até ao século XVIII com Cook e, já no século XX, com os exploradores das zonas polares. Ancorada em cinco países da faixa atlântica da Europa – Portugal, Espanha, Holanda, França e Inglaterra – a globalização desenvolveu a guerra, o comércio, a conquista, a escravatura, desenvolvimentos tecnológicos e uma imensa troca de conhecimentos. Dessa evolução, caótica, não programada, resultou um modo novo de gerar riqueza - o capitalismo - que teve como instrumentos essenciais:

·          o estado-nação, enquanto modelo organizativo de pessoas, bens e capitais, ancorado num espaço bem delimitado;
·          o nacionalismo, como ideologia, forma aglutinadora para uma população específica e multifacetada mas excludente ou desconfiada para com os de fora;
·          e, finalmente o Estado, como aparelho gestor dessa criação de riqueza mantendo a população pacificada, por força das leis ou da repressão.
Sendo o mundo um espaço aberto, o comércio longínquo de bens de luxo ou especiarias desejadas pelas camadas abastadas – agora, mais numerosas - era altamente rentável. A produção artesanal de bens, destinada a uma área próxima, típica dos tempos medievais cedeu o lugar à produção para destinos longínquos, desconhecidos dos seus produtores e numa escala que não caberia nas capacidades dos artesãos medievais, agrupados em confrarias[6]. 

Não havendo qualquer elo entre produtor e consumidor tudo se torna dependente do comerciante que define os preços, as quantidades, as (elevadas) margens de lucro que permitem grande acumulação de dinheiro e a criação de um setor bancário e financeiro. Os comerciantes e armadores de um dado país procedem a uma defesa coletiva, como cartel (avant la lettre) face à concorrência externa, com o apoio real às Companhias das Índias, detentoras de monopólios “nacionais” (leia-se, dos mais ricos comerciantes), alargando as funções administrativas do reino, com o rei a cobrar direitos sobre as importações, para defesa da concorrência externa e da produção… nacional. O termo nacional vulgarizou-se, precisamente com a consolidação do estado-nação, como atributo de tudo o que é pertença ou atributo daquele. E cada estado-nação era como uma fortaleza que, através dos canhões e do comércio, tomava o mundo como mercado, sem jamais perder a sua individualidade.

Esse espaço protegido, com um aparelho administrativo e militar com um rei no topo, ganha uniformidade e coesão face ao exterior, de onde podem surgir ameaças; a relevância das fronteiras e a guerra para conquistas territoriais, para a captura de terra, pessoas e mercados. Os reis aumentam o seu poder com uma área administrativa alargada – tesouro, alfândegas, exército e marinha, polícia, tribunais e legislação de enquadramento administrativo e de controlo do trabalho – muito para além do exigido nos feudos senhoriais. Grandes impulsionadores dessas transformações eram os ricos comerciantes das transações globais, com as Índias Orientais, Ocidentais ou envolvidos no comércio de escravos africanos, nomeadamente a partir do século XVII.

A demarcação das fronteiras, a vigência de uma estrutura administrativa e financeira, através de um aparelho – Estado - num espaço bem definido e bem defendido, materializa o estado-nação, um estado-fortaleza. Por exemplo, em França com as ordenações de Villiers-Cotterêts (1539) procede-se a um registo nacional de nascimentos e óbitos a partir dos registos das estruturas religiosas; e, adoptou-se a par do latim habitual, a língua francesa, que só passaria a ser a única utilizada depois da Revolução Francesa (ainda que houvesse muitas versões da mesma). Por outro lado, essas ordenações continham a proibição das confrarias de artes e ofícios, estruturas típicas da época feudal, tomadas como ultrapassadas pela globalização, em consolidação e, pela implícita lógica do mercado.

O que se veio a chamar burguesia nacional institui uma relação íntima com o Estado, personalizado num rei ou num equiparado (Cromwell) como liderança do estado-nação; um conjunto coeso face ao exterior ou na repressão de camadas sociais descontentes. A presença do aparelho de Estado é condição essencial para o aumento da riqueza e do poder dos ricos comerciantes a que se pode chamar capitalistas – são detentores de capitais móveis, armam navios, procedem ao comércio e encomendam tecidos, armas… sobretudo, para venda no exterior, mais próximo ou longínquo.

A produção capitalista exige um aparelho (Estado) ao seu serviço, uma delimitação territorial e uma catalogação da população como nacionais, mantendo de fora, como estrangeiros, gente com qualquer distinção face às pessoas que pertençam à nação. Note-se que a China, com uma organização administrativa, tecnologia e riqueza muito superiores, inicialmente, às dos europeus, nunca demonstrou interesse em desenvolver comércio com os esses “bárbaros”. E, pela sua dimensão, entendeu prescindir de transações com o exterior desde o século XIV, zombando dos objetos que os Ocidentais, mais tarde lhe apresentavam, para efeitos de troca. O grande problema surgiu no século XIX quando os “bárbaros” obrigaram a China, perante a ameaça dos seus canhões, a colaborar no enriquecimento dos estrangeiros, comprando ópio.

A Holanda sobressai como herdeira de uma tradição comercial e manufatureira com raízes na Idade Média e com a liberdade de pensamento que conseguiu, após uma longa guerra contra as pretensões da Espanha; esta, ancorada nos poderes de transmissão típicos do feudalismo afunda-se financeiramente em guerras constantes na defesa de possessões muito fracionadas na Europa e enquista como guardiã do tradicionalismo católico, combatendo as ideias humanistas[7]. Ao tratado de Westfália segue-se um longo período de rivalidade entre a França e a Inglaterra até que esta assume uma clara liderança mundial com a derrota de Napoleão e o Tratado de Viena em 1815. Depois da guerra franco-prussiana (1870) a Inglaterra reparte a hegemonia global com a Alemanha e os EUA, um equilíbrio que se irá romper com a I Guerra, quando a Alemanha perde todas as suas colónias e os EUA superam a Inglaterra como principal potência. Depois da II Guerra, os EUA reforçam a sua liderança no mundo ocidental e na primeira configuração de um sistema mundial - financeiro (Bretton Woods, FMI…), comercial (GATT/OMC) e militar (NATO); mas, tendo a URSS como a potência rival, nomeadamente no campo militar. A ONU surge, como descendente da defunta Sociedade das Nações, como denominador comum entre os estados-nação, reforçando o papel destes como elementos soberanos de enquadramento das populações; porém, com um diretório de grandes potências – EUA, França, Grã-Bretanha, URSS e China (primeiro como aliada do Ocidente e depois sob a forma actual de República Popular, posicionada ao lado da URSS).

Já publicado:

Estado-nação, nacionalismo, instrumentos do capitalismo (1/3)

https://grazia-tanta.blogspot.com/2019/12/estado-nacao-nacionalismo-instrumentos.html


Continua em:

Estado-nação, nacionalismo, instrumentos do capitalismo (3/3)


Este e outros textos em:
http://grazia-tanta.blogspot.com/                             

http://www.slideshare.net/durgarrai/documents



[1] Simbolicamente, o primeiro presidente dos EUA, George Washington era um abastado dono de imenso número de escravos.
[2] Título de um livro de Franz Fanon
[3]  Racismos – Francisco de Bethencourt
[5] A hecatombe de 20 milhões de pessoas, provocada no México, nomeadamente, pela chegada, com os espanhóis, do sarampo e da varíola (para além da superioridade bélica dos primeiros) resultou, essencialmente de os mexicanos não terem contactos com outros humanos desde que o estreito de Bering voltou a ficar inundado após a última era glaciária.
[6] Curiosamente, certas categorias profissionais, relativamente privilegiadas voltam a assumir-se como verdadeiras confrarias, ao arrepio da lógica de mercado aberto e livre que consta no discurso neoliberal
[7]  Na mais prestigiada universidade ibérica – Salamanca  - agostinhos e trinitários, no século XVII, envolvem-se à pancada porque uns consideravam Adão imperfeito após Deus lhe ter retirado uma costela (para criar a mulher) e outros entendiam que o mesmo Deus teria preenchido o buraco com carne (!)

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Estado-nação, nacionalismo, instrumentos do capitalismo (1/3)


O capitalismo, para se consolidar criou o estado-nação, dotou-o de aparelhos estatais tentaculares e repressivos e de uma ideologia discriminatória quando não racista, o nacionalismo. Como processo, o capitalismo globalizou-se, sem perder o uso daqueles seus instrumentos de acumulação e gestão social; mesmo com a preponderância do sistema financeiro, como principal elemento de criação de capital (fictício), o capitalismo é o responsável pelas agressões ao clima. E não há solução para o planeta e para a Humanidade dentro do capitalismo e usando os seus instrumentos de sempre – estado-nação, Estado, nacionalismo, classes políticas.

Índice Geral

1 – Como o capitalismo criou o estado-nação

2 - O nacionalismo como instrumento de controlo ideológico

3 - A cada nação um estado-nação?

4 - O capitalismo engrandece o estado-nação no seu processo de consolidação

5 – A globalização capitalista reconfigura o papel do estado-nação

5.1 – Alguns segmentos retirados ao domínio dos estados-nação

6 – O Estado, gestor local da estratificação do Homem

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1 – Como o capitalismo criou o estado-nação

A sedentarização dos seres humanos criou vários e encadeados grupos, com relações cada vez mais complexas. As famílias alargaram-se e os cruzamentos com outras famílias surgiram, no âmbito de encontros próprios de uma vida errante ou de conflitos que conduziam à integração dos derrotados; essa integração correspondia ao apreço implícito pelo capital humano, onde e quando a hostilidade do meio a isso obrigava. Por outro lado, evitou-se o encerramento numa mesma consanguinidade[1] e foi favorecido o surgimento de uma grande diversidade dos seres humanos espalhados pelo planeta. 

Em Roma, as gens eram conjuntos de famílias que se reviam num antepassado ilustre ou tomado como importante na vida daquelas, como elemento unificador e gerador implícito de identidade; o que é equiparável aos clãs existentes noutras sociedades do Norte da Europa, da Arábia, da China, do Japão, etc. Essas linhagens conduziram mais tarde aos conceitos de nobre e de nobreza, enquanto classe social nos quais a filiação numa mesma linhagem era essencial. É sabido que a linhagem só tinha verdadeiro significado quando havia posse sobre terras, engenhos e escravos, alavancas necessárias para o exercício de poder político; para quem não tivesse essa propriedade a questão da linhagem seria irrelevante, para além da transmissão de pais ou mães para filho(s) dos haveres, mesmo incluindo nestes pequenas porções de terreno agrícola ou oficinas de ferreiro, carpinteiro, etc.

Num plano mais alargado surgiu a tribo, um conceito também vindo dos romanos e que também se baseava remotamente na consanguinidade, selada pela veneração dos mesmos deuses, os lares. A incorporação de outros elementos, por fusão ou incorporação de grupos humanos distintos ou indivíduos, como era prática em nativos da América do Norte, raras vezes esteve afastada; a variedade de povos, tribos e línguas registadas na Antiguidade, entre o Mediterrâneo e a Mesopotâmia, não tem comparação com o mosaico existente atualmente.

O conceito de tribo, na Europa, deixou de se usar, à medida que se constituíam os territórios senhoriais, com uma clivagem social bem marcada entre senhores e servos; os servos passaram a enquadrar-se como súbditos do senhor (conde, duque, rei), num quadro de sedentariedade, de ligação à terra. A chegada de outras tribos, movimentando-se de Norte para Sul ou, provenientes das estepes asiáticas, como os lombardos na Itália; ou, a chegada dos godos e dos berberes à Península Ibérica, por exemplo, redundou numa total miscigenação. Na Baixa Idade Média, à medida que as relações comerciais se densificaram e a fuga para as cidades se vulgarizou, a referência de origem deixou de ser a da ligação a uma casa feudal para ser substituída pela região de proveniência, o gentílico, como referência de identificação, até que com a constituição dos estados-nação, este passou a ser a principal referência de identificação de origem; como hoje, continua a ser.

Essa identificação de origem, inicialmente era uma simples referência que traduzia hábitos, costumes e uma cultura, perante gente de outras proveniências. Se Colombo era genovês (o que não será pacífico), a sua ida para a Península Ibérica não arrastou direitos ou deveres face a Génova; o mesmo se passando com Magalhães, quando se dirigiu para Espanha depois de ver o seu projeto recusado pelo rei português. Naquela época, as pessoas circulavam, viajavam, sem prévio conhecimento por parte do seu “Estado” porque nas fronteiras não se exigiam passaportes, à saída ou à entrada; embora poucas pessoas viajassem, quedando-se toda a vida num pequeno círculo em volta da sua comunidade, agrícola e auto-suficiente.

Com a desintegração do Império Romano as habituais redes de comércio deixaram de funcionar e a população urbana decresceu, como se evidencia, por exemplo, no abandono de Conimbriga, com os mais ricos a deslocarem-se para o campo, para as suas villae, desenvolvendo uma economia muito localizada e tendencialmente autossustentada. Assim, em toda a Idade Média predominou uma economia agrária, autónoma, com uma gama de conhecimentos que passava de pais para filhos, todos iletrados (excepto o padre que dava a missa… em latim), com um baixo volume de trocas com o exterior. As referências da população fixavam-se no local, com esparsas idas a centros urbanos; uma sociedade autocentrada, fechada, autossuficiente quanto a alimentos (desde que não houvesse guerras ou más colheitas) e, autónoma quanto a conhecimentos para tratar dos campos e dos animais domésticos. O conhecimento erudito ancorava-se na Bíblia e cingia-se aos mosteiros e às universidades, cujos professores eram clérigos.

A dialética entre os camponeses e os senhores feudais tinha como centro, o tributo a pagar ao nobre para este garantir a segurança do povo, sem o arruinar; em épocas de más colheitas isso era uma questão vital. Assim, o pêndulo oscilava entre a tolerância das comunidades rurais e a cupidez dos senhores; e, dos abusos destes, resultaram grandes e sangrentos levantamentos de camponeses como a revolta dos remensas, na Catalunha, na segunda metade do século XV, de Walt Tyler e John Ball na Inglaterra dos finais do século XIV ou, a Jacquerie em França, poucas décadas antes, no seguimento de muitas outras, contra os abusos dos senhores, desde o século X. Na Alemanha, os camponeses tentaram aproveitar as movimentações decorrentes da secessão luterana para se libertarem dos senhores mas, Lutero preferiu ajudar a nobreza alemã no seu propósito de abandono da suserania papal. Nestas lutas, os revoltosos não se dirigiam contra um longínquo rei, a quem pedissem intervenção mas, contra os senhores, seus opressores diretos.

Nas sociedades agrárias típicas da Idade Média europeia a ideia de estado-nação era desconhecida porque as solidariedades manifestavam-se entre classes sociais – os camponeses, entre si contra os senhores; e, entre estes últimos, o alargamento de domínios concretizava-se pela guerra, onde não fosse possível obtê-los através de cruzamentos familiares. 

No topo da hierarquia senhorial numa dada área, estava um rei que muitas vezes tinha igual ou menos relevância do que algumas casas senhoriais e, por outro lado, as lealdades entre a nobreza eram muito volúveis[2] como sempre acontece, em todas as épocas, quando há riquezas em disputa. 

O vértice da pirâmide do poder no cenário da Europa cristã era o Papa, “vigário de Cristo” a quem todos deviam obediência e herdeiro das responsabilidades atribuídas à Igreja, embora durante a passagem do século XIV para o XV tivesse havido uma concorrência inter-papal, com um em Roma, outro em Avinhão e durante alguns anos um terceiro, em Pisa. Durante séculos houve sérias disputas da primazia entre o poder clerical e os poderes senhoriais – todos com o domínio sobre vastos territórios e servos; a partir dos cismas, luterano e calvinista, nos estados protestantes, o rei passou a ser o chefe da igreja local, acrescentando com isso mais um elemento para a integração do território respetivo, no processo de criação de um estado-nação. Na sequência da Revolução Francesa e da formação dos EUA, vincou-se o princípio da liberdade religiosa. Hoje, observam-se situações mais rigorosas de religião estatal, por exemplo na Arábia Saudita, com o monopólio do Islão wahabita ou, no Irão, xiita, onde no entanto, existem templos de outros cultos e o ateísmo não é punido.

Ninguém se lembraria, nos finais da Idade Média de falar de pátria, nação e menos ainda de Estado. Vejamos, como exemplo, a génese de Portugal. 

O primeiro rei português era vassalo do seu primo, de Castela e Leão, imperador das Espanhas; e, para se livrar dessa dependência manteve negociações com o Papa durante décadas, sobre o número de onças de ouro a pagar, para passar apenas a dever obediência a Roma. Quem vivia naquelas terras, do que veio a ser Portugal, eram vassalos do rei, fossem cristãos de obediência ao Papa (o povo do Norte), muçulmanos, moçárabes ou judeus (o povo do Sul), sem que houvesse qualquer sentimento de nação, ou sequer uma cultura comum, mesmo que os nacionalistas atuais tenham celebrado os 840 anos de Portugal, contados a partir da compra em ouro, do fim da obediência do rei português ao primo de Castela e Leão. Só muito mais tarde, no século XVI, com a expulsão ou conversão forçada de muçulmanos e judeus, os reis ibéricos procuraram a homogeneidade cultural; o que no caso de Espanha, se mantém ausente, como é notório, passados 500 anos.

As repúblicas italianas, mormente Génova e Veneza, tinham uma estrutura de poder de cariz oligárquico com uma diplomacia madura, adequada à sua lógica mercantil e financeira, com possessões territoriais circunscritas ao Mediterrâneo, através da guerra ou do saque; e com pouco em comum com os austeros reinos europeus, aos quais emprestavam dinheiro. A sua decadência iniciou-se com a expansão otomana e o desvio da coluna vertebral do comércio, do Mediterrâneo para o Atlântico, numa primeira fase através de Espanha e Portugal. Para mais as repúblicas italianas para concorrerem no espaço exterior ao Mediterrâneo teriam de usar novas tecnologias de construção naval e de armamento, de bases logísticas de apoio ao comércio e aumentar o volume de gastos militares para concorrer com os países ibéricos já instalados nas rotas do Oriente e das Américas.

Nas repúblicas italianas, a dinâmica económica focada em relações com o exterior, ancorava-se numa casta de comerciantes e banqueiros, unidos pelo negócio, sem pretensões a um nível mais elevado de integração, mormente nacional. A extensa Liga Hanseática que unia dezenas de cidades do Báltico e do Mar do Norte constituía uma aliança para o comércio e transporte naquela região, com a minimização de ataques piratas. Nestes dois casos, o ordenamento económico e político nada tinha em comum com os territórios feudais baseados na constituição de rendas extraídas a camponeses por parte de poderes senhoriais ou na guerra; e nada tinha em comum com os estados-nação que começavam a despontar.

A passagem da Idade Média para a Idade Moderna estrutura-se sob vários eixos. Os prestamistas existentes nos principais núcleos urbanos financiaram os monarcas para que estes promovessem a exploração ou conquista dos seus territórios coloniais, concessionados a pequenos nobres como Cortez, Pizarro, Almagro ou aos donatários de capitanias portuguesas no Brasil[3].

A abundância de ouro e prata nas colónias americanas de Espanha, verificadas as fragilidades dos nativos, com o seu modo de vida destruído pelos colonizadores e acrescido pelas doenças ofertadas pelos últimos, originou o tráfico de escravos negros até ao século XIX, distribuídos pelo sul do que são hoje os EUA, as Caraíbas, as minas e os engenhos de açúcar do Brasil, durante três séculos.

O ouro e a prata entravam em Sevilha duas vezes por ano em grandes frotas protegidas por navios de guerra; e, como senhores feudais, os reis ibéricos usavam o ouro para pagar a guerra, a contratação de exércitos com muitos mercenários e o fausto, sem qualquer propósito de fomento económico ou lógicas de redistribuição de rendimentos, como hoje se diria. Agiam como verdadeiros senhores feudais, donos de muitas terras e presos ideologicamente ao boullionismo, a avidez pela posse de ouro e prata para a criação de moeda. 

As cidades espanholas continuavam a ser pardieiros insalubres onde acorriam fidalgos sem dinheiro (que tinham um escudeiro a pedir esmola por eles) mas candidatos a rendas e cargos junto do rei, da alta nobreza e do clero; também rufiões, à espera de contrato para o uso da espada na defesa de um senhor que pagasse o serviço; muitos comerciantes de várias origens, para a venda das suas mercadorias; rurais sem trabalho, dado o abandono das terras pelos nobres; e muitos mendigos e pequenos ladrões à espera de comida à porta dos conventos. O importante era ter ouro ou prata nas mãos. 

No século XVI, em Espanha ou Portugal, continuava a não haver nem nação, nem Estado[4] porque a ascensão do capitalismo era ainda incipiente. O poder estava em monarcas, marcados pelo espírito de cruzada, imbuídos de uma mentalidade feudal, no âmbito da qual o território era seu; e, onde não frutificava uma burguesia comercial semelhante à observada nas repúblicas italianas ou nas cidades hanseáticas. A sua incapacidade de perceber a nova dinâmica económica foi aproveitada por comerciantes estrangeiros que chegavam a Sevilha para vender aquilo que em Espanha não se produzia, sendo pagos em ouro. Em Portugal, onde o cenário era semelhante, à ruina económica somou-se, em 1578, a desastrada aventura militar do rei em Marrocos, que conduziu à união dinástica dos dois países ibéricos, perante a indiferença do povo perante o facto de o novo rei ser espanhol. 

Os países ibéricos, não se desenvolveram como potências capitalistas, mantiveram-se dirigidos por monarcas com uma visão expansionista marcada por preocupações de evangelização nos novos territórios das Américas e do Oriente. E, no caso de Espanha, com um caro e desgastante envolvimento nas guerras políticas e religiosas que marcavam o Sacro Império. Daí surgiu o seu declínio e a cedência do poder marítimo a holandeses, franceses e ingleses. 

A Holanda[5] (Países Baixos do Norte) tinha nos séculos XVI e XVII caraterísticas muito diferentes das monarquias ibéricas; tinha criado um regime republicano depois de se libertar, após uma longa guerra, do domínio espanhol, que continuou a exercer-se nos Países Baixos do Sul, a Bélgica. Produziu grandes trabalhos na construção de diques e canais, modernizou a agricultura com a introdução da rotação de culturas e aumentando a criação de gado; e, na manufatura, começou a gerar-se a especialização dos trabalhadores no âmbito da indústria, produzindo-se navios maiores, mais rápidos e mais rentáveis no âmbito do comércio colonial. 

O seu regime político, republicano, correspondia ao domínio de uma burguesia empreendedora e rica, o que favorecia a imigração, mormente de artistas, filósofos e cientistas; por outro lado, a tolerância religiosa atraia judeus ricos ou cultos, expulsos de Espanha, de Portugal[6] e da Bélgica onde os espanhóis procuravam manter a unicidade religiosa.

O papel desempenhado no desenvolvimento do comércio mundial gerou grandes movimentos de capitais e originou a bolsa de Amesterdão, o Banco de Amesterdão, o surgimento das sociedades por ações que vieram a originar as Companhias das Índias Orientais e Ocidentais, às quais o Estado deu o monopólio dos produtos coloniais, aumentando assim, as margens de lucro dos seus detentores. Quase em simultâneo surgiram Companhias homólogas inglesas, o Banco de Inglaterra e a Carta de Direitos que limitava os poderes reais e firmava os direitos de propriedade.

Amesterdão veio a substituir Lisboa e Sevilha como centro do comércio global. A Holanda aproveitou e cimentou a deslocação do comércio europeu do Mediterrâneo para o Atlântico, tornando-se o polo das ligações marítimas e terrestres desenvolvidas com toda a Europa do Norte ou do Sul, substituindo, por exemplo, as decadentes repúblicas italianas no comércio com Marrocos. 

O comércio colonial complementava-se com as transações, no cenário europeu, de alimentos e matérias-primas. O ecletismo religioso permitiu o monopólio do comércio com o Japão, depois de expulsos dali os portugueses, sempre interessados no comércio mas, ligado à evangelização, naturalmente tomada como ofensiva para os cultos japoneses.

Esta rede de interesses entre comerciantes, transportadores e banqueiros, funcionando numa base mundial e a ausência de um poder central despótico e impositivo, bem como a liberdade religiosa, foram elementos que alargaram muito o capitalismo comercial e financeiro desenhado nas repúblicas italianas, num quadro essencialmente mediterrânico. Essa rede, agregava também os vários estratos sociais dependentes, interessados na prosperidade vigente e na sua continuidade. A densidade das relações sociais e económicas, para mais num espaço territorial pequeno, unificou os seus habitantes numa cultura comum e interessados num Estado que desse cobertura à iniciativa privada. Como havia a concorrência de outras regiões – Inglaterra, França, Espanha, Portugal e países escandinavos - convinha erigir uma delimitação de fronteiras, a existência de um exército e, sobretudo, uma poderosa marinha de guerra – a cargo de um aparelho de Estado, financeiramente ancorado em impostos alfandegários, sisas, dízimas. 

Esse projeto global em desenvolvimento que envolveu os holandeses, para mais como povo homogéneo do ponto de vista cultural e linguístico (uma nação) e avesso ao domínio de uma monarquia estrangeira (Espanha), designa-se por capitalismo. Para garantir a paz social internamente e defender-se da concorrência, esse projeto político criou uma etiqueta nacional[7] (Holanda) que unificasse a população em torno de certos desígnios económicos e políticos no quadro global e, europeu em particular – esse projeto materializou-se num estado-nação. Na mesma época e na medida em que se foi processando o desenvolvimento económico europeu, num quadro global de competição e guerra, era essencial para os capitalistas dos vários países, a criação de estados-nação, com território e uma população afeta, mormente daquela sua parcela mobilizada para o trabalho e para a guerra.

2 – O nacionalismo como instrumento de controlo ideológico

Cada estado-nação circunscrevia-se a um espaço vedado por fronteiras que o separavam de outros estados-nação concorrentes, quanto à posse de territórios e respetivas riquezas; e que hoje, compreende outras estruturas e distintos enquadramentos. Entre essas riquezas destacavam-se grupos populacionais relevantes, aos quais era exigido, em cada estado-nação, se crispassem e antagonizassem o necessário e conveniente face a idênticos grupos, do outro lado da fronteira, como potenciais ameaças. Como são “os meus capitalistas” que me dão trabalho e “o meu aparelho de Estado” que me dá a segurança face a agressões externas “eu aceito uma narrativa que nos una a todos” – o nacionalismo; e contra vizinhos e intrusos que queiram empobrecer ou violar “a minha pátria”.

Os capitalistas locais, com os quais se foi integrando uma nova aristocracia (já não apenas especialistas no uso da espada como os seus antepassados feudais mas, também letrados, precisavam de ter a seu lado a massa da população contra um inimigo potencial ou efetivo. O nacionalismo é um sentimento arraigado de pertença que transforma qualquer pobre diabo vivendo num estado-nação, em inimigo declarado de outro pobre diabo, pela única razão de o último ter nascido do outro lado da fronteira; cada qual na defesa dos interesses dos “seus” capitalistas contra os capitalistas do outro. O que se poderá considerar como uma forma de captura ideológica e material – uma nova servidão - do trabalho pelo capital.

Na realidade, em termos objetivos, um trabalhador dos estaleiros, um produtor de couraças, armas, trigo ou, um marinheiro, em pouco alterariam a sua posição social e económica se, no desenlace de uma guerra, passassem a incluir-se num outro estado-nação, após uma perda territorial do estado-nação derrotado. As imensas alterações nas fronteiras políticas da Europa desde o século XVI, poucas vezes tiveram correspondência em movimentos massivos de população. Citamos duas excepções; as trocas entre gregos e turcos nas margens do Egeu há cem anos e a re-arrumação da população germânica na sequência da reformulação das fronteiras na Europa de Leste, após a II Guerra, num quadro de grande animosidade anti-germânica. Inversamente, as nações africanas, mantiveram, no essencial, as fronteiras coloniais, sem grandes migrações, porque o trabalho, forçado ou não, era nas plantações ou numa agricultura de subsistência, num contexto de integração étnica tradicional, em que a autoridade colonial era distanciada e o seu poder económico muito concentrado nas commodities. 

Para os povos, em geral, o poder e as classes políticas são coisas estranhas e distantes que se aceitam, melhor ou pior, por muitas e gradas razões, nomeadamente porque detêm o poder coercivo do Estado nas suas mãos, pouco importando a cor da bandeira. Na UE, a bandeira azul da União passou a ombrear com as bandeiras nacionais nos edifícios públicos, sem qualquer problema; excepto, na Grã-Bretanha onde isso não foi replicado desde muito antes de se falar em Brexit.

Não são as mudanças de delimitações fronteiriças que mais conduzem a migrações. As guerras, as perseguições étnicas e religiosas e, sobretudo a procura de vida melhor, são os motores das migrações, mesmo num mundo construído pelo capitalismo, por natureza obreiro de enormes destruições e convenientes (para si) desigualdades. Os seres humanos procuram fixar-se onde possam viver em paz, sem falta de comida, trabalho, alojamento, educação ou cuidados de saúde; e, para isso, desligam-se dos seus locais de origem, encaixam-se em culturas distintas das suas, acarretam discriminações várias e, acabam por se integrar, incorporando até, o nacionalismo vigente e mesmo a repulsa, face a quem acabou de fazer o mesmo percurso de emigrante.  

Os vínculos nacionais originários perdem-se, no espaço de duas ou três gerações, à medida que se procede à sua inserção na nova sociedade, à adaptação a uma nova cultura. Por exemplo, na II Guerra, nos EUA, muitos milhares de soldados, com ascendências recentes na Alemanha, Itália ou Japão, combateram contra os países dessa sua origem próxima, sem constrangimentos[8]. 

Esta base material de criação do nacionalismo é profundamente oposta às narrativas infantis, falsas, metafísicas e reacionárias construídas pelas classes políticas, que justificam o estado-nação como simples organização de uma nação, pura, diferente, com o seu passado invariavelmente glorioso, com os seus heróis míticos e feitos espetaculares, com o apoio ocasional dos deuses... O nacionalismo constitui um desvio cultural e psicológico com provas dadas como carburante de guerras, perseguições, violações, saques, destruições, expulsões, massacres, barbaridades, discriminações… 

O estado-nação é uma mescla de interesses comuns, com um ou vários povos presentes no seu território; com uma mística, mais ou menos intensa, inventada para enformar o nacionalismo, para exorcizar a diferenciação face ao Outro, em regra com base em elementos fantasistas ou infantis, utilizados para marcar essa diferença. Sendo o estado-nação uma construção política do capitalismo, o nacionalismo é um instrumento ideológico do último cuja utilização é desempenhada pelas instituições do estado-nação; e serve para estabelecer separação, diferença e antagonismo entre os habitantes de um estado-nação, face aos de outros estados-nação, no âmbito de uma concorrência global e generalizada. É por isso, um elemento de consolidação do estado-nação, favorecedor do domínio dos seus capitalistas e da administração, levada a cabo pela sua classe política, numa base de diferenciação, discriminação, de racismo; embora não procure a homogeneidade, uma vez que a existência de várias culturas pode ser útil para manter alguma tensão e divisão no seio da pátria, gerar faixas populacionais discriminadas, uma vez que a acumulação de capital, para acontecer, exige divergências, hierarquias sociais, raciais ou religiosas e, luta, dinamismo. No alto, estará um governo para gerir divergências e conflitos entre os vários interesses capitalistas, que saberão compensar os seus mandatários.

O nacionalismo é uma arma pronta a ser arremessada, instilado junto da plebe, por parte das camadas possidentes contra outros estados-nação e seus povos. No que respeita a grupos culturais específicos inseridos intramuros, distinguem-se os casos em que esses grupos pretendem criar o seu próprio estado-nação, como é o caso dos curdos, dos catalães, dos bascos… ou dos fascistas da Lega que clamaram por uma Padânia independente, antes de se tornarem um partido nacional; outros, em que esses grupos ou culturas se inserem no estado-nação onde são minoria mas sem pretensões independentistas (os berberes ou os coptas, por exemplo); e casos, em que essas culturas são expelidas e perseguidas como párias, indesejáveis (palestinianos, ciganos, rohingyas…). Assim, uns podem viver com as suas culturas, de modo pacífico; e outros são tomados como ameaças à unidade e ao bom viver da pátria que, não recuará, se conveniente, em praticar genocídios, perseguições ou, promover colunas de refugiados em fuga. 

O nacionalismo não exige a homogeneidade cultural e aceita a heterogeneidade desde que não constitua uma ameaça, um prejuízo para a marcha dos negócios ou a unidade da pátria. A construção do estado-nação gerou a predominância da língua falada na zona onde estivesse centrado o poder e a vulgarização dessa língua nos documentos administrativos, através da escrita; mais tarde, com as redes escolares e o ensino obrigatório, geraram a generalização da adopção da(s) língua(s) usadas pelo poder com o retrocesso ou extinção das línguas, entretanto, tornadas regionais ou locais. A imprensa e mais tarde a rádio e a televisão vieram acentuar esse predomínio da língua falada pelo poder político. E, finalmente, a supremacia dos EUA, na política, nos negócios e na internet tornaram o inglês a grande língua de comunicação global.

Na Itália toda a gente fala italiano (o toscano) mas há milhões de pessoas que usam as suas línguas tradicionais, regionais; o mesmo sucede em França mas em menor escala (basco, bretão, occitano, corso, catalão…). Mais escabroso foi a proibição da língua catalã, do euzkera ou do galego, pelo regime fascista de Franco, durante quarenta anos; e cujo efeito foi exatamente o oposto, quando restabelecida a liberdade de expressão, com a natural crispação dos partidos herdeiros do franquismo.

Pela sua irracionalidade, o nacionalismo tende a impor-se sobre outras ideologias ou culturas quando tem por base o medo perante uma ameaça tomada e mantida como latente, embora muitas vezes apenas imaginária; serve também para unir um povo na produção do isolamento ou da punição dos “traidores” que vivem intramuros.

O nacionalismo funde-se, articula-se com a religião dominante na produção de atuações persecutórias e excludentes, como na Espanha franquista. Idêntica repressão nacionalista aconteceu no Portugal de Salazar, criador de uma “nação multicontinental” para legitimar a posse de colónias. E, nas monarquias protestantes, o rei, como chefe da igreja nacional, representa a unidade nacional.

O nacionalismo pode ser um excelente meio de elevar a uma liderança incontestável, um ditador, um demagogo, um tratante chefe de gang, como dirigente da nação, a qual se sentirá em dívida perante tanta capacidade política, tanto amor à pátria; e que será um dos merecedores de estátuas e de que o seu nome figure em muitas avenidas por todos os cantos do país. 

Em suma, o estado-nação não é a resultante lógica e inapelável da existência de um povo, de uma cultura, da partilha de uma língua comum. A ideia oitocentista de “a cada nação o seu estado-nação” foi um conceito com fins específicos e oportunistas, num contexto histórico, posteriormente utilizado de acordo com conveniências políticas e que nunca foi desejado ou aplicado pela grande maioria dos povos e culturas específicas.

O estado-nação depois de se firmar com um poder político (Estado), integrador dos grupos e das hierarquias do capital, instala símbolos unificadores para veneração do povo – o hino e a bandeira[9], nomeadamente; e, nos tempos modernos, também com a seleção nacional de futebol, tomada como uma esquadra cuja missão é derrotar o inimigo. 

Através da escola em geral, mormente nos escalões onde participam os mais jovens, é incutido o nacionalismo através do agigantar dos heróis, dos feitos do passado que, por regra, são grandiosos face aos da concorrência próxima. Essa doutrinação serve para criar um espírito coletivo e de desconfiança face aos outros povos da vizinhança. É um indutor de desconfiança, de desqualificação e exclusão de um abstrato Outro e que deve tornar cada pessoa num patriota, defensor objetivo dos interesses da pátria ou melhor, dos “seus” capitalistas; pelo verbo e pela espingarda.

Outro elemento histórico na indução do nacionalismo é o serviço militar obrigatório (SMO) ao qual eram chamados todos os jovens varões[10] para receberem a instrução devida para a defesa da pátria, a qualquer momento, sem limite para o sacrifício, que poderá representar um final glorioso enrolado na bandeira pátria[11]… mesmo que nessa pátria possam não ter mais do que as ruas livres para andar. A presença no SMO significa também um adestramento da obediência a uma hierarquia estrita, no âmbito da subordinação integral, quando não na humilhação dos subordinados; uma obediência induzida nos jovens e que os levaria a aceitar a hierarquia no trabalho, a obedecer à autoridade patronal, estatal, policial; e, no caso das mulheres, também à subalternidade face aos homens – em casa, no trabalho, no salário, nos direitos…

Hoje, por razões técnicas, o SMO foi abandonado[12] e as forças armadas[13] passaram a ser uma guarda pretoriana, sem qualquer vínculo à população que, para muitos é tomada como um bando de paisanos indisciplinados. Os militares de hoje são voluntários, contratados a prazo, qualificados para o manuseio de equipamentos sofisticados, gente que procura uma remuneração condigna (difícil de encontrar como civis) e um certo respeito por parte da plebe. Nos escalões mais baixos, são gente ignorante, facilmente doutrinável e de uso fácil da violência[14]. 

Assim, voltou-se aos tempos iniciais do capitalismo, ao século XVI, quando os exércitos europeus eram constituídos por mercenários. Hoje, nos EUA, o recrutamento dos jovens, sobretudo pobres, consegue-se com a contrapartida de uma entrada na universidade, algo que no país só é acessível a famílias com posses ou, à custa de níveis brutais de endividamento pessoal. Desta forma, os EUA, criando uma tropa de mercenários, evitam a contestação da juventude obrigada, no passado, a ir para a desastrada e impopular guerra do Vietnam; um mercenário é pago para correr todos os riscos e, se algo correr mal na sua saúde… é um risco profissional.

Continua em:

Estado-nação, nacionalismo, instrumentos do capitalismo (2/3)

Estado-nação, nacionalismo, instrumentos do capitalismo (3/3)


Este e outros textos em:




[1]  O que não preocupou durante séculos, as famílias reais europeias, produzindo amiudadas vezes débeis físicos ou mentais
[2] Recorde-se, a propósito, que a maioria da nobreza portuguesa, no âmbito da crise dinástica de 1383/85 apoiou a entrega do poder ao rei de Castela; o que não aconteceu com os filhos não primogénitos ou bastardos que viram no conflito uma oportunidade de se apossarem das terras dos nobres apoiantes de Castela.
[3] Esses donatários, tinham direito hereditário sobre o território e, em contrapartida, dar ao rei 20% do ouro ou pedras preciosas encontradas ou, 10% se se tratasse de produtos da exploração agrícola.
[4]  Somente no final do século XV, com o rei João II se gerou, de facto um aparelho administrativo nacional, um esboço de Estado… com a chegada à Índia num horizonte muito próximo.
[5] Não tendo este trabalho o objetivo de proceder a um resumo da História do surgimento do capitalismo e das rivalidades entre os primeiros países capitalistas, cingimo-nos particularmente ao caso da Holanda, não procedendo a um desenvolvimento do mesmo processo na Inglaterra ou em França, a não ser quando tal seja particularmente útil para enquadrar este ensaio sobre a ascensão e queda do estado-nação.
[6] Spinoza tinha ascendentes ibéricos muito próximos. O mesmo sucedeu com David Ricardo, cujo pai era um judeu holandês, com uma ascendência portuguesa mais remota.
[7]  Uma marca, como se diria hoje, na linguagem neoliberal


[8] Inversamente, soldados guineenses, da Guiné-Bissau, que combateram no exército colonial português e que não conseguiram sair do país, foram justiçados por essa sua opção; opção tomada, muitas vezes para evitar a fome e não por amor ao colonizador
[9]  Quando não se trata de um nome inventado tendo por base, por exemplo, o nome da capital (Argélia, Tunísia, Kuwait, Djibouti); algo tão artificial como República Centro Africana (antes Ubangui-Chari); ou Paquistão que parece uma sopa de letras.
[10] Entretanto, as mulheres passaram também a integrar as forças armadas, num espírito de geração de igualdade entre os dois sexos; como se uma igualdade entre os dois géneros num contexto de estruturas fortemente autoritárias e até amesquinhantes, possa constituir a elevação de alguém.
[12] O nacionalismo, muito presente em formações políticas de direita como de “esquerda”, gera a ideia da importância de um SMO, porventura porque pensam replicar a situação pré-revolucionária vivida na Rússia de 1917, com os seus comités de “operários, soldados e marinheiros”. Se ser-se de esquerda significa necessariamente ser antimilitarista, recusar hierarquias e classificações de seres humanos em função da “nacionalidade”, é evidente que não há uma Esquerda visível na Europa
[14]  Muitos transitam posteriormente para as polícias ou para empresas de segurança, para intervenção, mormente onde a violência física é “aceitável”, como as discotecas.