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domingo, 18 de janeiro de 2026

As balas da guerra parecem beliscar pouco as transações de energia

Os cães ladram e a caravana passa… Os palhaços mantêm-se no palco, a entreter os telespectadores. Mas agora, já se vai espalhando a realidade de cada dólar estar a ser garantido por um saldo negativo de $ 30 triliões, um valor de reembolso impossível mesmo que tudo nos EUA fosse vendido; e daí que a Rússia tenha recusado o pagamento em dólares dos seus hidrocarbonetos, para além de outros modelos de transações que, na Ásia, colocaram o dólar fora do circuito, de há algum tempo a esta parte. A decadência dos EUA segue-se à da Europa que, no final da II Guerra, havia aceitado a supremacia dos EUA, gerando a amálgama do que atualmente designamos por BideNato [1]. Neste conjunto, articulam-se duas situações. A decadência da Europa, constituída por pequenas paróquias nacionais, no exercício de constantes cotoveladas mútuas e, onde se destaca a Alemanha, a única potência comercial global dentro da UE. E o orgulho inglês, simbolicamente abatido com a independência da Índia e, consolidado quando Harold Wilson, 25 anos depois, decretou o Suez como limite oriental da atuação inglesa, aceitando a crescente estratégia dos EUA, que vem ancorando o seu poder numa presença militar disseminada pelo globo. O Center for Research on Energy and Clean Air (CREA) apurou o número de carregamentos de petróleo bruto, gás natural liquefeito, refinados de petróleo e carvão, durante os primeiros cem dias após o início da guerra na Ucrânia. Como se observa em seguida, a Rússia não tem tido dificuldades em vender… produtos energéticos. Mesmo que entre os compradores figurem países do círculo NATO. Descarregamentos de petróleo bruto russo (portos mais importantes) carregamentos Carga (1000 t) Roterdão (P. Baixos) 47 5345 Trieste (Itália) 30 3713 Maasvlakte (P. Baixos) 32 3645 Sikka (Índia) 20 2624 Nemrut Bay Turquia) 1887 Yeosu (Coreia Sul) 17 1793 Burgas (Bulgária) 15 1713 Gdansk (Polónia) 15 1680 Sta. Panagia (Itália) 14 1611 Lanshan (China) 14 1578 Total 220 25589 Descarregamentos de gás natural liquefeito (LNG) russo (10 mais importantes portos) nº de carregamentos Carga (1000 t) Montoir de Bretagne (França) 12 1162 Zeebrugge (Bélgica) 20 1079 Dunkerque (França) 5 484 Maasvlakte (P. Baixos) 8 433 Bilbao (Espanha) 4 387 Tianjin Xingang Pt (China) 4 317 Anjeong (Coreia Sul) 3 255 Kisarazu (Japão) 3 243 Niigata (Japão) 2 165 Yung-na (Taiwan) 2 159 63 4684 Descarregamentos de refinados de petróleo bruto russo (10 mais importantes portos) nº de carregamentos Carga (1000 t) 38 1554 Roterdão (P. Baixos) 33 1367 Ventspils (Letónia) 18 777 Hamburgo (Alemanha) 24 768 Sillamae (Estónia) 41 701 Amsterdão (P. Baixos) 15 663 Constantia (Roménia) 20 647 Agio Theodoroi (Grécia) 15 586 Korfez (Turquia) 12 472 Immingham (UK) 8 376 224 7911 O que será mesmo difícil é encontrar um naipe de gente tão minúscula como von Leyden, Boris, Stoltenberg, Zelensky, Borrell, sem esquecer o campeão Biden e o ajudante Costa, que tudo faz como servil caudatário nas altas esferas da burocracia europeia. E não referimos um verboso lusitano, por mais que se esmifre em frases tão cheias de profundidade literária, histórica e filosófica como "É o povo português a razão de sermos Portugal". Este e outros textos em: http://grazia-tanta.blogspot.com/ https://pt.scribd.com/uploads http://www.slideshare.net/durgarrai/documents ________________________________________ [1] Uma devida homenagem à incapacidade de Biden e de alguns confrades, como o fabuloso Boris, o inseguro trintanário Stoltenberg, o Borrel, a von Leyden, sem esquecer o esforço do mainato António Costa. Sobre o BideNato ver http://grazia-tanta.blogspot.com/2022/05/um-sobrevoo-do-bidenato.html Posted by grazia tanta at 10:14 Labels: classe política, decadência, energia, EUA, Europa, guerra, Rússia, Ucrânia, UE As balas da guerra parecem beliscar pouco as transações de energia Os cães ladram e a caravana passa… Os palhaços mantêm-se no palco, a entreter os telespectadores. Mas agora, já se vai espalhando a realidade de cada dólar estar a ser garantido por um saldo negativo de $ 30 triliões, um valor de reembolso impossível mesmo que tudo nos EUA fosse vendido; e daí que a Rússia tenha recusado o pagamento em dólares dos seus hidrocarbonetos, para além de outros modelos de transações que, na Ásia, colocaram o dólar fora do circuito, de há algum tempo a esta parte. A decadência dos EUA segue-se à da Europa que, no final da II Guerra, havia aceitado a supremacia dos EUA, gerando a amálgama do que atualmente designamos por BideNato [1]. Neste conjunto, articulam-se duas situações. A decadência da Europa, constituída por pequenas paróquias nacionais, no exercício de constantes cotoveladas mútuas e, onde se destaca a Alemanha, a única potência comercial global dentro da UE. E o orgulho inglês, simbolicamente abatido com a independência da Índia e, consolidado quando Harold Wilson, 25 anos depois, decretou o Suez como limite oriental da atuação inglesa, aceitando a crescente estratégia dos EUA, que vem ancorando o seu poder numa presença militar disseminada pelo globo. O Center for Research on Energy and Clean Air (CREA) apurou o número de carregamentos de petróleo bruto, gás natural liquefeito, refinados de petróleo e carvão, durante os primeiros cem dias após o início da guerra na Ucrânia. Como se observa em seguida, a Rússia não tem tido dificuldades em vender… produtos energéticos. Mesmo que entre os compradores figurem países do círculo NATO. Descarregamentos de petróleo bruto russo (portos mais importantes) nº de carregamentos Carga (1000 t) Roterdão (P. Baixos) 47 5345 Trieste (Itália) 30 3713 Maasvlakte (P. Baixos) 32 3645 Sikka (Índia) 20 2624 Nemrut Bay Turquia) 1887 Yeosu (Coreia Sul) 17 1793 Burgas (Bulgária) 15 1713 Gdansk (Polónia) 15 1680 Sta. Panagia (Itália) 14 1611 Lanshan (China) 14 1578 Total 220 25589 Descarregamentos de gás natural liquefeito (LNG) russo (10 mais importantes portos) nº de carregamentos Carga (1000 t) Montoir de Bretagne (França) 12 1162 Zeebrugge (Bélgica) 20 1079 Dunkerque (França) 5 484 Maasvlakte (P. Baixos) 8 433 Bilbao (Espanha) 4 387 Tianjin Xingang Pt (China) 4 317 Anjeong (Coreia Sul) 3 255 Kisarazu (Japão) 3 243 Niigata (Japão) 2 165 Yung-na (Taiwan) 2 159 63 4684 Descarregamentos de refinados de petróleo bruto russo (10 mais importantes portos) nº de carregamentos Carga (1000 t) 38 1554 Roterdão (P. Baixos) 33 1367 Ventspils (Letónia) 18 777 Hamburgo (Alemanha) 24 768 Sillamae (Estónia) 41 701 Amsterdão (P. Baixos) 15 663 Constantia (Roménia) 20 647 Agio Theodoroi (Grécia) 15 586 Korfez (Turquia) 12 472 Immingham (UK) 8 376 224 7911 O que será mesmo difícil é encontrar um naipe de gente tão minúscula como von Leyden, Boris, Stoltenberg, Zelensky, Borrell, sem esquecer o campeão Biden e o ajudante Costa, que tudo faz como servil caudatário nas altas esferas da burocracia europeia. E não referimos um verboso lusitano, por mais que se esmifre em frases tão cheias de profundidade literária, histórica e filosófica como "É o povo português a razão de sermos Portugal". Este e outros textos em: http://grazia-tanta.blogspot.com/ https://pt.scribd.com/uploads http://www.slideshare.net/durgarrai/documents ________________________________________ [1] Uma devida homenagem à incapacidade de Biden e de alguns confrades, como o fabuloso Boris, o inseguro trintanário Stoltenberg, o Borrel, a von Leyden, sem esquecer o esforço do mainato António Costa. Sobre o BideNato ver http://grazia-tanta.blogspot.com/2022/05/um-sobrevoo-do-bidenato.html Posted by grazia tanta at 10:14 Labels: classe política, decadência, energia, EUA, Europa, guerra, Rússia, Ucrânia, UE

sexta-feira, 23 de setembro de 2022

Ucrânia – Uma realidade pobre e volátil

1 - O que é historicamente a Ucrânia? 

2 - O discreto papel dos EUA na manipulação da classe política ucraniana

3 - A demografia da Ucrânia; um país de …sucesso

 - - - - - - - - - - - - 

1 - O que é historicamente a Ucrânia? 

A designação do território e dos seus habitantes surgiu nos séculos XI/XII, como um ramo dos povos rus que viviam na larga região que se estende do Báltico oriental até ao mar Negro, com os Cárpatos a marcarem a separação face aos Balcãs; e um amplo campo aberto a leste, por onde chegaram mongóis, turcos e, um ramo destes, os pechenegues. A ausência de grandes obstáculos naturais gerou povos com grandes afinidades, mesmo que concorrentes quanto à posse de territórios e às hierarquias do poder. 

Com as invasões dos tártaros nos séculos XIII/XIV os povos rus, a ocidente, foram incorporados na Mazóvia e depois, na Polónia. A união dinástica polaco-lituana, no século XV dominou as terras habitadas, não só por polacos mas também por russos e ucranianos, todos conscientes das excelentes terras (ditas negras) a norte do mar Negro; e cuja produção cerealífera, ainda recentemente, gerou acordos internacionais, para o seu escoamento para o mundo. 

No século XVII, os cossacos de Chmielnicki venceram os polacos e tentaram efemeramente criar uma Ucrânia autónoma que só durou … dois anos… até ao pedido de proteção ao czar russo que, se não fez rogado em tomar conta da “Pequena Rússia”… a Ucrânia. Quando aquele chefe cossaco morreu seguiu-se uma guerra de oito anos, entre russos, por um lado e polaco-lituanos do outro, que usaram o rio Dnieper como fronteira entre duas parcelas do que seria então a Ucrânia. 

A derrota sueca em Poltava, no início do século XVIII veio consolidar o poder russo, de Pedro o Grande. Mais especificamente… Mazepa, um chefe cossaco-ucraniano, depois de várias vassalagens – entre elas perante os suecos e os polacos - acabou por se refugiar junto de um sultão da Moldávia. No final do mesmo século, com a segunda partilha da Polónia, a área ucraniana ficou incluída no império russo; e, após alguma tolerância nacionalista por parte do czar, no final do século XIX a repressão acentuou-se e foi proibido o ensino da língua ucraniana. 

Essa repressão também se observou na Galícia por parte do poder polaco, perante ucranianos, rutenos e outros grupos étnico-linguísticos. Vivia-se no tempo da formação dos estados-nação (como entes agregadores de capitalistas em concorrência), dos nacionalismos, das taras patrióticas que colocam os seres humanos em conflitos sangrentos, em ações de rapina, na afirmação de distinções só porque nasceram em lugares distintos mas, com a imposição de um estúpido rótulo nacional.

 No rescaldo da revolução de 1917 foi proclamada a república ucraniana e proposta uma assembleia constituinte, logo abandonada porque se formou em Kharkov uma administração ucraniana comunista. Em 1918, a Alemanha concluiu uma paz separada com o governo ucraniano, com a imediata destituição do governo, criando uma mais que efémera república da Ucrânia Ocidental; com uma curta existência depois da derrota dos impérios centrais. Entretanto a Rússia soviética criava uma República Socialista Soviética da Ucrânia, nos escombros da derrota do general “branco” Denikin que iria perdurar até 1991, quando a URSS se desmantelou. 

É na Ucrânia que surge o exército guerrilheiro dirigido por Mahkno que, em simultâneo procurava, derrotar o exército “branco” de Denikin e criar uma nova sociedade ancorada na autogestão e alheia à afirmação da propriedade privada. Trotsky, inicialmente, aliou-se aos makhnovistas contra os “brancos” e, vencidos estes, lançou-se numa escalada repressiva contra os milicianos de Makhno que foram dizimados, com o seu líder refugiado na Suíça, onde morreu. Seguiu-se o consulado estalinista com a quase totalidade dos ucranianos inseridos numa República Socialista Soviética da Ucrânia, fundadora da ONU e que veio a ser palco de uma coletivização forçada da indústria e da agricultura; incluía a Crimeia embora esta não tivesse grandes afinidades com a Ucrânia, como se veio a verificar mais recentemente.

A instabilidade histórica que envolve a território e a população do que se designou por ucraniana prende-se também com a presença na margem norte do Mar Negro de um vasto território que durante séculos foi atravessado e povoado por diversos povos ou ocupantes. Esse território foi devassado pelos nazis desejosos de se apossarem do petróleo do Cáucaso uma vez que o existente na Roménia era escasso para fazer mover um exército motorizado. 

Os nazis cobiçavam também as denominadas terras negras da margem norte do Mar Negro para alimentar a tropa e a população dos territórios europeus ocupados. A importância global da produção cerealífera obrigou a uma concertação recente para o escoamento de cereais por Odessa. 

Com a chegada do novo regime de Maidan (2014) e a ascensão dos fascistas, estes logo procuraram prejudicar, em nome de uma homogeneidade linguística impossível, os falantes de outras línguas; mormente o russo mas também o húngaro e o romeno. Porém, o novo regime ter-se-á esquecido da grande concentração de falantes de russo no Donbass e que estes iriam ter o apoio da Rússia, como se viu; e daí a ocupação russa da Crimeia e a formação das repúblicas de Donets e Luhansk, de maioria russófona, através de referendos. 

2 - O discreto papel dos EUA na manipulação da classe política ucraniana

É altura de introduzir neste texto a sombria figura de Victoria Nuland , com funções em 2013/17 de assistente da Secretaria de Estado para os Assuntos Europeus e da Eurásia, no âmbito do Departamento de Estado dos EUA; e ainda Representante Permanente dos EUA na NATO. Filha de pai judeu ucraniano, estudou literatura, história russa e os assuntos soviéticos. Em 2014 encaminhou $ 1000 M (um bilião no conceito dos EUA) para equipamento não letal para militares e guardas fronteiriços ucranianos. 

Em 2016, Nuland levanta-se contra a corrupção na Ucrânia que, naturalmente, prosseguiu, serenamente com novas caras; e daí surgiu o seu apoio a um ex-banqueiro milionário, Arseniy Yatsenyuk, para primeiro-ministro, cargo que cessou em 2016. E, de permeio, Victoria incitava políticos europeus para tomarem uma atitude mais agressiva contra a Rússia. 

 Com a chegada de Trump à Casa Branca, Nuland sai do Departamento de Estado, no âmbito da mudança nas relações com a Rússia, em que se evidenciam Steve Bannon, figura grada da extrema-direita, com conexões na Europa; Jared Kushner, genro de Trump e ainda Donald Trump Jr. 

Nuland foi a arquiteta de uma política de exclusão da Rússia de um quadro europeu, organizado política e economicamente em torno da NATO e da UE, respetivamente; essa exclusão tendia a isolar os países da Europa Ocidental no âmbito de uma integração de subalternidade política perante os EUA, tendo estes como principal caudatário no espaço europeu, o decadente Reino Unido. Note-se ainda que, excluindo a Alemanha, os países europeus têm relações comerciais exteriores centradas no cenário europeu, apresentando-se, portanto como potências menores inseridas num quadro geográfico circunscrito.

A fascização do novo regime, bem vincada depois de 2014, voltou a elevar o nome de Stepan Bandera como herói nacional, defensor de uma Ucrânia etnicamente “pura” e mono-linguística; isto é, as habituais taras que facilmente despontam na cabeça dos fascistas. Bandera aproveitara a ocupação nazi para criar um estado independente, russófobo, com um exército ucraniano dentro da mesma linha fascista, com alargamento do território à Bielorrússia e à Polônia. Mesmo depois do final da II guerra, sobraram restos dos grupos fascistas de Bandera mormente na Polónia, até 1956; e, foi essa “gloriosa” atividade que reanimou os fascistas de Maidan e levou um tal Zelensky a extinguir vários partidos que lhe eram avessos. Ainda no seguimento de Maidan, a Verkhovna Rada (Assembleia Nacional) aboliu a lei sobre as línguas minoritárias, que só poderiam ter o estatuto de língua oficial no caso de serem faladas por mais de 10% da população; com evidente prejuízo para os falantes de russo nas áreas oriental e meridional do país e ainda as minorias de falantes de húngaro ou romeno. Zelensky tornou-se presidente em maio de 2019, vencendo Petro Poroshenko, um outro banqueiro bilionário corrupto, conhecido como “rei do chocolate”. 

Zelensky, dentro da mesma linha tradicional de saque do erário público quando chegado à presidência - segundo os Pandora Papers - começou a receber fundos de várias empresas offshore, sendo-lhe apontados bens imobiliários de luxo, mormente em Londres. 

3 - A demografia da  Ucrânia; um país de …sucesso

A evolução demográfica é um indicador essencial para se medir o grau de bem-estar de um povo.

A Ucrânia apresenta um perfil demográfico a longo prazo, claramente regressivo, correspondente à instabilidade geográfica e política observadas durante séculos, como atrás referimos. A sua população cresceu em cerca de 11 M no período 1955/1990, um ano muito especial para o país – a véspera da independência, na sequência do desmembramento da URSS. Segue-se um período de quebra demográfica contínua que evolui para valores praticamente constantes desde 2010, depois da quebra observada em 1990, ano do seu mais elevado valor. Posteriormente a 1990, a população reduziu-se em cerca de 8 M de pessoas.

Após a independência (1991) verifica-se uma quebra demográfica contínua, com o elenco populacional em 2020 (43.7 M), apenas superior ao registado em 1960 (42.7 M); … após um intervalo de sessenta anos. Por outro lado, o volume demográfico registado em 1990 (o desmembramento da URSS foi no ano seguinte) é o mais elevado (51.5 M) entre toda a série de dados de que dispomos. Sumariamente, apontaremos alguns elementos sobre a demografia do país;

·     A população decresce cerca de 8 M no período 1990/2020, no seguimento de um aumento superior a 11 M entre 1955 e 1990. Daí que o seu peso na população mundial tenha evoluído de 1.41% para 0.56%, entre 1960 e 2020; e que o lugar da Ucrânia entre os países mais populosos tenha passado do 15º para o 35º. Certamente que a chamada explosão demográfica do Terceiro Mundo constitui o elemento com mais impacto na descida da Ucrânia na hierarquia demográfica.

·     Na Ucrânia, a média da idade na população passou de 29 anos em 1960 para 41.2 em 2020, o que continua (?) a configurar uma população jovem;

·     A taxa de fertilidade decresce de modo quase contínuo, passando de 2.7 em 1960 para 1.44 em 2020

·     A população urbana cresce de 46.8% em 1960 para 69.4% em 2020

A histórica irregularidade dos limites entre Ucrânia e Rússia - para além da variabilidade geográfica da Polónia - prosseguiu, disputando-se entre os dois países os territórios pretendidos. Releva-se a diferença entre a secular estabilidade da Rússia como estado multinacional e a fragilidade histórica da Ucrânia que continua instável na sua configuração geográfica e demográfica.

Vejamos agora a estranha evolução do comércio externo ucraniano, com uma forte quebra em 2015 e uma recuperação quase total nos últimos anos.


2013

2014

2015

2016

2017

2018

2019

2020

2021

Exportações

68,7

63,3

53,9

38,1

36,4

43,4

47,3

49,9

65,9

Importações

84,7

77,0

54,4

37,5

39,2

49,4

57,2

60,7

70,0

                                                                                               (milhões de euros)

Observando as maiores discrepâncias no comércio externo ucraniano, sublinhamos os seguintes factos, referentes ao período designado (2012/2021);

·       A exportação ucraniana decaiu 4% no período. Quanto às importações ucranianas em geral, elas decaem 17.4% em 2013/21;

·       A China tornou-se o principal destino da exportação ucraniana com um aumento de 4.5 vezes superior ao valor de 2012, seguindo-se-lhe os Países Baixos (2.5 vezes), a Polónia (1.9 vezes), referindo-se ainda os EUA com um aumento, no período de 50% perante o mesmo ano de referência. Em contrapartida, a exportação para a Rússia decai 81% no período considerado, certamente na sequência do ódio fascista à Rússia que veio à tona em Maidan;

·       Destacam-se entre os principais fornecedores externos da Ucrânia, a China (+35% da importação registada em 2012), a par da Polónia (+37%) e ainda da Suíça e da Turquia, cujos aumentos das exportações para a Ucrânia foram da ordem dos 111% e 62%, respetivamente;

·       Quanto aos EUA, em 2021, as suas vendas para a Ucrânia passaram de 3.4% do total para 4.9%, cifrando-se neste último ano com um valor de € 3.4 M. Por comparação, observe-se que as vendas chinesas à Ucrânia, no último ano, correspondiam a 15.2% do total - cerca de € 70 M - contra 9.3% em 2012.

Como se denota nos elementos numéricos divulgados, o papel dos EUA na Ucrânia, no âmbito comercial, não é relevante; nem para os EUA nem, de modo especial, para a maioria dos estados-nação da região leste-europeia. Um interesse geopolítico não tem de coincidir forçosamente com um interesse comercial; situa-se, sobretudo na consideração e estudo de espaços onde se cruzem interesses comerciais, demográficos, militares, políticos e, tendo em conta o que a História nos disponibiliza e ensina.

O interesse dos EUA na Europa centra-se na monitorização e controlo político e ideológico da turma europeia – cuja menoridade estratégica e política – tem sido bem evidente; sobretudo quando passados mais de 75 anos da II Guerra Mundial se tolera a existência de tropas e bases militares com armas nucleares no seio da Europa; como na Coreia ou, no Japão. As bases militares dos EUA polvilham quase todo o planeta para o exercício de um papel de gendarme; um gendarme que gera a todo o momento títulos de dívida (com o nome de dólar) que jamais poderá pagar mas que os estados-nação, em geral aceitam, falsos distraídos perante essa forma demente de geração de rendimento.

O interesse dos europeus deverá contemplar as periferias fronteiriças, com a estabilização no Mediterrâneo, passados os conflitos nos Balcãs; uma autonomia popular para a Líbia que contemple a apropriação das suas riquezas energéticas pelo seu povo; e, a manutenção de uma situação podre na margem leste do Mediterrâneo que se estende da Líbia ao Afeganistão, tendo como elementos essenciais a cessação da entidade sionista e a libertação do povo palestiniano, com a tomada de posse do seu território ancestral.

 

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domingo, 28 de agosto de 2022

As desigualdades entre mais pobres e menos pobres

 

Os países com grandes saldos positivos no comércio externo são a Alemanha, a China e a Rússia; os que acumulam grandes deficits são os EUA e o seu acólito Grã-Bretanha

 

As oligarquias financeiras, as classes políticas - regionais ou nacionais - e a competição comercial vão destruindo o planeta; perante a ausência e as dificuldades dos povos na superação do desastre anunciado. Talvez um dia a multidão dos humanos se liberte da estupidez nacionalista, do torniquete capitalista, se canse das corruptas classes políticas e saiba como coexistir sem preocupações com o PIB, a dívida, as fronteiras e a competição, sem forças armadas e seus arsenais. Convirá é que isso aconteça antes do planeta entrar em decadência irreversível e que o capitalismo, direta ou indiretamente, deite tudo a perder.

Os saldos comerciais

Procedemos a uma recolha para cinco anos de dados (2016/21) sobre o comércio externo de mercadorias, da maioria dos países europeus e ainda da China, da Rússia e dos EUA. Assim, para cada um dos países identificados, apurámos os principais parceiros na exportação e na importação, com o apuramento de deficits e superavits.

Os países com excedente comercial médio (milhões de dólares) nos seis anos do período (2016/21) são os seguintes, incluindo-se também no quadro, o excedente médio por ano e habitante. Os valores por habitante são baixos mas, quando multiplicados pelo volume da população, sobressai uma quantia enorme de dinheiro que, naturalmente, será gerido por capitalistas e pelas classes políticas, gestoras do aparelho de Estado, manipuladores da legislação e, sempre atentos para subtrair mais um pouco dos bolsos da população. É evidente que um excedente resultante de uma atividade assente na produção material tem um significado muito superior do que um outro onde, na contabilização do PIB, domine a produção de serviços e as habilidades do sector financeiro na criação de “valor”.


País

Superavit anual

médio

(2016/21) (M $)

$/hab

País

Superavit anual

médio

(2016/21) (M $)

$/hab

Alemanha

248.2

3.0

Itália

58.3

1.0

Bélgica

21.1

1.8

Países Baixos

65.5

3.9

China

478.8

0.3

Rep. Checa

19.1

1.7

Dinamarca

8.8

1.5

Rússia

154.6

1.1

Hungria

6.7

0.7

Suíça

36.0

4.0

Irlanda

61.8

12.4

Total

1159.0

0.6

Nos países atrás considerados e, quanto aos excedentes comerciais, sobressaem a China e a Alemanha, logo seguidos pela Rússia que, em conjunto, representam cerca de 2/3 do total do excedente relativo ao conjunto dos países destacados. Em termos de superavit anual por habitante, o país que mais se destaca é a Irlanda com $ 12.4, surgindo com um valor aparentemente irrisório, o indicador relativo à China… $ 0.3 por habitante.

O cálculo para os países com um regular deficit comercial, em todos os anos do período (2016/21) mostra uma grande diferença face aos países elencados atrás e, evidencia ainda, no quadro seguinte, quanto cabe anualmente, em média, a cada habitante.

 


País

Deficit  anual médio

(2016/21) (M $)

$/hab

País

Deficit  anual médio

(2016/21) (M $)

$/hab

Bulgária

-3.7

-0.5

Grã-Bretanha

-214.9

-19,0

Chipre

-5.7

-4.7

Grécia

-23.5

-2.3

Croácia

-10.0

-2.5

Letónia

-2.9

-1.5

Espanha

-30.7

-0.7

Lituânia

-2.3

-0.8

EUA

-947.6

-2.9

Malta

-3.4

-8.5

Estónia

-1,7

-1.3

Portugal

-18.7

-1.9

Finlândia

-2.9

-0.5

Roménia

-19.0

-1,0

França

-94.1

-1.4

Total

-1381.1

-2.4

Na sua maioria, trata-se de países de pequena dimensão demográfica e económica. Sobressai, claramente, o deficit anual médio dos EUA, com um valor cerca do dobro do superavit chinês durante o mesmo período, seguindo-se a Grã-Bretanha, o segundo maior desequilíbrio, com um deficit acumulado de $ 1289 M em seis anos. De modo mais preciso, os EUA, a despeito do seu potencial tecnológico, apresentam a balança comercial mais desequilibrada, entre todos os países considerados. Nenhum país poderia contrair empréstimos para colmatar tamanhos deficits; porém, os EUA, como emissores incontrolados e incontroláveis da sua moeda – que sabem ser aceite na generalidade – espalham a sua moeda pelo mundo, confiantes de que o resto do mundo não vai entregar dólares à Reserva Federal e, menos ainda, reclamar parte do ouro em Fort Knox; de facto, os EUA são totalmente insolventes.

As transações e pagamentos feitos na Ásia – mais ou menos no seio da Organização de Cooperação de Xangai - vão-se processando nas suas moedas próprias, sem intervenção do dólar, como se assistiu, recentemente, na sequência da guerra na Ucrânia.

A soma dos deficits dos EUA e da Grã-Bretanha em 2016/21 foi de $ 6974 milhões, um valor que quase corresponde ao total dos excedentes revelados pelo grupo de países com superavits comerciais ($ 6954 milhões). Enquanto a maioria dos países procura tanto quanto possível gerar um superavit – o correspondente a uma poupança – o neoliberalismo descabelado e agressivo do binómio EUA/GB, apresenta deficits enormes que se situam fora das preocupações do FMI. A arrogância associada às taras imperiais está bem espelhada na incapacidade de Biden e do recentemente apeado, Boris.

A França surge, em seguida, com um deficit global acumulado muito acima do observado por Espanha, Portugal Roménia e Grécia; no entanto, quando se focam os valores do deficit em $/hab, os casos mais relevantes são os de Malta e Chipre. Uma comparação entre os países ibéricos mostra uma clara diferenciação entre ambos.

Como dissemos, o volume de dólares em circulação tem pouco a ver com a produção de bens e serviços e, de facto ancora-se na especulação financeira; o sistema financeiro dinheiro abundantemente e em cada momento. Há poucos anos, os valores ancorados na bolsa de Nova York e no NASDAK representavam 46% do total das bolsas mundiais e, as principais empresas americanas de referência (Microsoft, Apple, Amazon, Alphabet e Facebook) eram avaliadas na revista Fortune em $ 5,444 biliões (um bilião, na norma maioritária na Europa corresponde a 1*10^12).

O terceiro grupo de países, exceptuando a Polónia, é constituído por países de pouca população, três dos quais com um grau elevado de riqueza – Áustria, Luxemburgo e Suécia. Neste conjunto heterogéneo, os resultados líquidos têm pouco significado excepto no caso da Áustria que em 2017 evidenciou um superavit distanciado dos deficits observados nos outros anos em apreço; e, refira-se ainda, um centro financeiro chamado Luxemburgo que só em 2016 mostrou um superavit comercial externo.

 


País

Deficit/superavit  anual médio

(2016/21) (M $)

$/hab

País

Deficit/superavit    anual médio

(2016/21) (M $)

$/hab

Áustria

8.8

5.8

Luxemburgo

-6.4

-64,1

Eslováquia

0.7

0.9

Polónia

-1.3

-0.2

Eslovénia

-0.1

-0.3

Suécia

0.6

0.3

 

Para todos os países considerados, vamos observar as respetivas dinâmicas, entre 2016 e 2021, no âmbito da globalidade das suas relações comerciais. Os indicadores que se apresentam em seguida mostram as situações de países com superavit comercial em todos os anos do período referido (valores em US $ 10^6).

 

 

 

2016

2017

2018

2019

2020

2021

2016/21

Alemanha

276

280

271

251

207

205

1489

China

530

431

359

430

535

588

2873

Bélgica

19

20

14

19

24

31

127

Dinamarca

10

9

7

13

10

3

53

Hungria

11

9

7

5

7

2

40

P. Baixos

60

66

67

62

67

71

393

Irlanda

50

44

57

69

81

70

371

Suíça

33

30

31

37

28

57

216

Itália

55

54

46

63

72

59

350

Rep Checa

20

19

18

20

21

17

114

Rússia

103

130

211

179

105

199

928

 

1167

1093

1087

1146

1157

1303

6954

Descortina-se, neste conjunto, a elevada dimensão do superavit chinês e, num plano inferior, os indicadores positivos da Alemanha e da Rússia; mais modestos são os valores associados aos Países Baixos, à Irlanda e à Itália.

Os valores associados aos países com deficits persistentes são muito díspares, com destaque para os indicadores dos EUA e muito mais atrás, para a Grã-Bretanha, com a França num terceiro posto; qualquer deles com uma clara progressão durante o período. França e Grã-Bretanha mostram valores muito distintos, embora com volumes de população pouco diferentes. Num terceiro escalão de valores, destacam-se – Espanha, Grécia, Roménia e Portugal, ainda que sejam distintos os graus de riqueza entre a Espanha e os restantes citados.

             

 

2016

2017

2018

2019

2020

2021

2016/21

Bulgária

-2

-3

-4

-4

-3

-6

-22

Chipre

-5

-6

-6

-6

-6

-6

-34

Croácia

-8

-9

-11

-11

-10

-12

-60

Espanha

-19

-30

-45

-38

-18

-35

-184

EUA

-798

-859

-943

-921

-982

-1183

-5686

Estónia

-2

-2

-2

-2

-1

-2

-10

Finlândia

-3

-3

-3

-1

-3

-5

-17

França

-69

-86

-96

-87

-93

-132

-565

Grécia

-20

-23

-26

-24

-20

-28

-141

Letónia

-2

-3

-4

-3

-2

-3

-17

Lituânia

-2

-2

-3

-3

-1

-4

-14

Malta

-3

-3

-4

-4

-3

-4

-21

Portugal

-13

-17

-21

-22

-16

-23

-112

Roménia

-11

-15

-18

-20

-21

-29

-114

Grã-Bretanha

-225

-199

-181

-224

-238

-222

-1289


-1182

-1258

1367

-1371

-1417

-1692

-8287

Os países selecionados que se seguem têm pouca relevância, bem como os resultados das suas balanças comerciais. A Áustria tem um valor acumulado enganador porquanto ele resulta do resultado de um único ano. O Luxemburgo tem uma balança comercial negativa, o que nada tem a ver com o papel que o país desenvolve na área financeira. Quanto aos restantes países os saldos, positivos ou negativos, têm pouco significado.

 


2016

2017

2018

2019

2020

2021

2016/21

Áustria

-5

92

-9

-6

-3

-16

53

Eslováquia

2

2

0

-1

2

0

4

Eslovénia

1

1

0

-1

1

-3

-1

Luxemburgo

4

-10

-8

-8

-7

-9

-38

Polónia

8

3

-6

5

0

-18

-8

Suécia

-1

-1

-4

2

5

3

3


8

88

-26

-9

-3

-44

14










 Para cada um dos (32) países considerados apurámos quais se apresentam entre os principais cinco clientes; e tomámos em conta apenas alguns exemplos de uma matriz muito complexa de relações comerciais.

A Alemanha, apresenta como seus primeiros clientes, países como Áustria, Bélgica, Bulgária, Eslováquia, Dinamarca, Eslovénia, Finlândia, França, Hungria, Luxemburgo, Malta, Países Baixos, Polónia, República Checa e Roménia; nos segundos lugares posicionam-se países como Espanha, Grã-Bretanha, Grécia, Suécia e Suíça. Esta situação evidencia o relevante papel do país no seio europeu; o que não esconde a irrelevância europeia no plano global.

Os outros países europeus apresentam-se muito distanciados daquele papel cimeiro desempenhado pela Alemanha no comércio comunitário e não só. A Itália mostra o seu papel comercial dominante perante a Grã-Bretanha; a França é o maior cliente da Espanha; a Grécia tem como importador mais relevante a Itália, entre outras relações bilaterais

No caso dos EUA, os seus principais clientes são o Canadá, o México, a China, o Japão e a Coreia do Sul[1]… evidenciando o papel secundário que a Europa desempenha no plano global. E, dessa situação, resulta que os EUA são pouco afetados pela conjuntura europeia, que não para tornar a Europa – e a UE em particular - como peão, como auxiliar na estratégia global do Pentágono.

Sabe-se que o Pentágono é uma instituição marcante para um país que se pretende como hegemónico e que dá à força armada um papel essencial de intervenção; e isso, onde seja tomado como importante para firmar negócios, impor regras comerciais, fomentar guerras, corromper políticos ou, conter rivais, semeando bases militares um pouco por toda a parte.

 (continua)

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[1] Comércio internacional – quem ganha e quem perde

 https://grazia-tanta.blogspot.com/2019/03/comercio-internacional-quem-ganha-e.html