domingo, 15 de fevereiro de 2026
Sobre a União dos povos europeus e a tara sionista
Distingue-se totalmente a UE dessa União. O estado-nação tem sido um verdadeiro calvário para a existência
dos povos e para o caudal de guerras desde a sua real formação no século XVII, na sequência da herança dos
territórios das diversas casas dinásticas. Não nos devemos enrolar na lixeira da conjuntura e das corruptas
classes políticas.
A União dos povos europeus é uma ideia de superação das pátrias, dos nacionalismos, do capitalismo, dos
tentaculares e opressivos aparelhos de estado, provavelmente mais viável na Europa, do que em outros
continentes, tendo em conta o entrosamento entretanto gerado pelos povos – migrações, Erasmus, internet,
turismo, para além de operações militares. É um projeto de constituição de solidariedade entre os povos,
sem prejuízo das suas culturas próprias.
Não é difícil entender por que razão os estados - português ou sionista - se dão bem. Em parte, é a história
de ambos os projetos coloniais — tão recente que coexistiram em mais de duas décadas — o que torna tão evidente o
que têm em comum.
Primeiro, o império português foi fundado na mesma lógica que, no século XIX e XX, serviu como princípio
fundador para a criação do regime sionista: a ideia de que, do outro lado, as gentes indígenas que viam as
suas vidas colonizadas e os seus territórios ocupados era, sub-humana e até animalesca. Por seu turno,
o cronista do reino português Gomes Eanes de Zurara escrevia, em Chronica do descobrimento e conquista de Guiné,
no ano de 1453, que as pessoas guineenses raptadas por colonos portugueses eram “bestas”, descrevendo-as como
“almas perdidas” e, com isso, justificando a sua escravatura.
O ex-ministro sionista da Defesa, Yoav Gallant disse, pouco tempo depois de 7 de Outubro último, que o
seu exército estaria a lutar “contra animais humanos”, justificando, polindo, o genocídio em curso. Entre
uma e outra afirmação passam-se quase 600 anos, mas a ideologia por detrás de ambas é a mesma: a de que as
pessoas não-brancas não são humanas; estão, na “zona do não ser”, como escreveu Franz Fanon em Pele Negra,
Máscaras Brancas,
Nos momentos em que se viram a perder o apoio que sempre tiveram, cada vez mais isolados internacionalmente, “orgulhosamente sós”, ambos os impérios escalaram a violência e trataram de denominar quem lhes resistia como “terroristas”. Se Salazar decidiu, “rapidamente e em força”, embarcar numa guerra que acabaria por assassinar
dezenas de milhares de pessoas e deixar tantas outras feridas, presas, deslocadas ou dependentes, também
Netanyahu assim o fez desde há seis décadas.
Numa das leis fundadoras do Estado sionista, lê-se:
Israel é a pátria histórica do povo judeu na qual o Estado de Israel foi estabelecido. O Estado de Israel é o
Estado-nação do povo judeu, no qual realiza o seu direito natural, religioso e histórico à autodeterminação.
A efetivação do direito à autodeterminação nacional no Estado de Israel é exclusiva ao povo judeu [...]
O Estado vê o colonato judaico como um valor nacional e trabalhará para incentivar e promover o seu estabelecimento
e desenvolvimento.
E, se as semelhanças entre os dois projetos são muitas, é preciso reconhecer também que há uma diferença
significativa: mesmo que a linguagem do regime português tivesse sido racista e colonial, nunca ela chegou
ao espaço linguístico que os lideres sionistas alcançaram nos últimos dois anos.
É verdade que o longuíssimo e sombrio fascismo luso, se se deveu também à capacidade de Salazar para escolher
palavras certas, a estratégia de se agarrar ao poder, de desenhar um estado, “tão forte que não necessitasse
de ser violento”.
Por outro lado, os sionistas dizem tudo ao que vêm. Só até janeiro de 2024, o coletivo Law for Palestine
listou mais de 500 declarações de incentivo ao genocídio por parte de militares, políticos, jornalistas
e influenciadores israelitas. A organização de direitos humanos da palestiniana Al-Haq conta, agora,
mais de mil pessoas. E, ainda assim, parece que se continua a não acreditar nas suas palavras.
“Toda a Gaza será judaica”, disse o ministro do Património, Amichay Eliyahu. Entre um “1 milhão
e duzentos mil palestinianos, devem sair da Faixa de Gaza 700 mil, disse a ministra da Ciência e Tecnologia,
Gila Gamliel. “O meu plano de migração voluntária é viável e será posto em prática.”
“A Faixa de Gaza deve ser terraplanada; os palestinos terão apenas uma sentença possível, que é a morte”,
disse Yitzhak Kroizer, deputado sionista, do partido Otzma Yehudit de Itamar Bem Gvir.
“Estou, pessoalmente, orgulhoso das ruínas de Gaza e de que todos os bebés, mesmo daqui a 80 anos, vão
contar aos seus netos o que os judeus fizeram”, disse May Golan, ministra da Igualdade Social.
Erradicar Gaza. Nada menos do que isso nos satisfará. Não deixem lá uma só criança e expulsem todos os que
restarem, para que não tenham qualquer hipótese de recuperar”, escreveu Nissim Vaturi, vice-presidente do
parlamento israelita.
Estes responsáveis e decisores políticos não descrevem apenas o que querem fazer com Gaza hoje. Falam também das aspirações coloniais de amanhã.
Moshe Feiglin, líder do partido Zehut, disse: “Cada criança, cada bebé em Gaza é um inimigo. O inimigo
não é o Hamas. Precisamos de conquistar Gaza e colonizá-la e, não deixar lá uma única criança de Gaza.
Não há outra forma de alcançar a vitória.”
O ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, disse: “Nós conquistamos, limpamos e ficamos no caminho, aniquilamos
tudo o que ainda resta. Estamos a destruir Gaza deixando-a como a uma pilha de escombros, uma destruição total
sem precedentes. E o mundo ainda não nos impediu.” Mais recentemente, disse ainda: “Já completamos a fase de
demolição, que é sempre a primeira etapa da renovação urbana. Agora é preciso construir.” Será, defende ele,
“uma oportunidade imobiliária de ouro”.
O ministro da Segurança Nacional, Itamar Bem Gvir, disse: “Rezamos para que os justos e bondosos soldados
do IDF [sigla, em inglês, para as forças armadas israelitas] cumpram a missão, conquistem Gaza e encorajem
a emigração voluntária. É o certo, é apropriado, é moral, é verdadeiro. E disse ainda: “Se mudarmos a nossa
mentalidade e compreendermos que esta terra nos pertence, tudo se torna mais simples. Derrubar o regime do Hamas.
Primeiro ocupar, depois estabelecer, anexar e encorajar a emigração voluntária. Esse é “o caminho a seguir.”
E não param sequer em Gaza. “Querem soberania?”, perguntou ao público israelita numa conferência o ministro
Amichay Eliyahu. “Então, gritem! Querem a Judeia e a Samaria [o que o estado de Israel chama à Cisjordânia]?
Querem a Síria? Querem o Líbano?”, “Sim!”, respondem.
O ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, disse: “Nós vamos aplicar a soberania sobre a Cisjordânia, primeiro
através de ações no terreno e, posteriormente, por meio de legislação e reconhecimento formal”. Disse ainda que
o trabalho da sua vida é o de “impedir qualquer possibilidade de se estabelecer um Estado palestiniano no
coração do país [Israel]. O objetivo é mudar o ADN do sistema por muitos e muitos anos. Isto é uma revolução:
é assim que se traz um milhão de pessoas para a Judeia e Samaria”.
O ministro dos Negócios Estrangeiros, Gideon Saar, disse que, se os países europeus estão “tão entusiasmados
com a criação de um Estado palestiniano, podem fazê-lo nos seus próprios territórios”. Acrescentou: “É uma ilusão
pensar que o futuro da Judeia e da Samaria, o berço do povo judeu, será decidido em Paris, Madrid ou Bruxelas.
Será decidido apenas em Jerusalém.”
E o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu disse, ao anunciar a ampliação de um colonato que pretende separar
Jerusalém do resto da Cisjordânia: “Dissemos que não seria criado um Estado palestiniano e, de facto, não
será criado. […] Esta decisão vai duplicar a população da cidade de Ma’ale Adumim. Haverá aqui 70 mil
pessoas dentro de cinco anos.”
Não só os líderes sionistas sabem perfeitamente o que estão a fazer, como o dizem para que todos saibamos também.
É por isso que qualquer pessoa que tenha estado minimamente atenta às suas palavras, não pode acreditar que os representantes de estados europeus não o saibam também. É óbvio, hoje, que representantes do Estado e do
governo português — como o ministro dos Negócios Estrangeiros Paulo Rangel, o presidente da República Marcelo
Rebelo de Sousa e o primeiro-ministro Luís Montenegro — entendem tão bem quanto nós que o genocídio que o Estado
sionista leva a cabo na Palestina é, de maneira assumida, a continuação da limpeza étnica de um povo e da estratégia de ampliação colonial que, há mais de 100 anos, temos assistido.
Perante isto, Paulo Rangel escolhe tomar uma única decisão: a que, de maneira mais subtil, procura garantir
que pelo menos fez alguma coisa não fazendo coisa nenhuma. O ministro sabe que o estado israelita não deixará
que exista, realmente, um estado palestiniano. Sabe também que o recente reconhecimento deste estado é,
na verdade, um ato sionista, de apoio à manutenção do status quo — por isso mesmo, deixou imediatamente claro
o seu apoio ao império. E sabe, claro, que este acto não vai, de maneira nenhuma, desafiar a limpeza étnica do povo palestiniano.
Paulo Rangel, Marcelo Rebelo de Sousa e Luís Montenegro são entes vassalos do projeto imperial sionista. Acreditam,
como antes acreditaram os líderes do projeto colonial português, que pessoas brancas são sobre-humanas, estão na
zona do não ser. Estivessem eles na mesma posição que Netanyahu, tomariam as mesmas decisões. Por isso, ficarão
para sempre na história ao deixarem clara uma coisa fundamental: que o estado português de hoje só difere do
formado há mais de 500 anos pela falta de poder.
ESCUTA COLETIVA
27 SETEMBRO | 14H
RED ZONE GALLERY | PÓVOA DE SANTA IRIA
Nesta escuta coletiva, convidamos-te a vires ouvir connosco o episódio Amanhecer em Gaza, construído com textos e testemunhos de antes e durante o genocídio em Gaza, recolhidos pelo livreiro Mahmoud Muna e o jornalista Matthew
Teller. Esta sessão de escuta, partilhada e imersiva, com auscultadores, acontece na Red Zone Gallery, uma galeria
de arte pública dedicada à Palestina, criada nas ruínas de um espaço abandonado.
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