domingo, 1 de janeiro de 2012


Os  desafios actuais e as insuficiências à esquerda


Sumário

1  –  Introdução
2  -  Síntese de aspectos estruturais que configuraram a Europa nas
últimas décadas
3  -  Medidas anti-sociais levadas a cabo na Europa
4  -  Elementos da crise económica, social e política portuguesa
5  -  Inconsistências e insuficiências à esquerda - Construção da unidade

1 – Introdução

A situação actual que vivem os trabalhadores portugueses em geral e, mais especificamente, os desempregados, os reformados e os excluidos resulta, como é sabido, da interação entre a crise internacional e as debilidades próprias do capitalismo em Portugal.

Mas, também é uma sequela das fragilidades da visão predominante na esquerda portuguesa, do tipo de organização existente e da actuação popular e militante das organizações da esquerda portuguesa. Este tema é, em geral um tabu, preferindo-se ostentar uma auto-suficiência enganadora cujos resultados não se vêem, a não ser em desempenhos eleitorais ou institucionais ineficazes; e que demonstram os imensos limites das democracias de mercado.

Da nossa parte, não gostamos de tabus e preferimos mexer nas feridas para que a gangrena se não desenvolva.


2 - Síntese de aspectos estruturais que configuraram a Europa nas últimas décadas

Na Europa, particularmente, assistiu-se, desde o final da II Guerra, à observação de vários elementos de capital importância política:

  • Na Europa Ocidental, a consolidação de um modelo de paz social, que permitiu fortalecer os capitalistas e gerar uma aceitação pelos trabalhadores, de um crescimento do bem-estar, ilusoriamente tomado como permanente, num quadro de pluralismo político e sindical;
  • Na Europa de Leste, consolidou-se um modelo de capitalismo de Estado sem as mesmas bases tecnológicas e de mercado para gerar riqueza de modo satisfatório e, portanto, sem condições para “concorrer” com os níveis de bem-estar e consumo da parte ocidental do continente; para mais, num quadro de unicidade política, impropriamente denominado de socialismo, onde toda a iniciativa estava conferida ou filtrada por um partido único;
  • A criação da CEE constituiu um ensaio inicial de integração de capitalismos nacionais, protagonizado pelas multinacionais, potenciador de sinergias várias, resultantes do esbatimento da importância das fronteiras;
  • A descolonização reformulou a base territorial do poder económico europeu, subalternizando-o, claramente, sob a liderança dos EUA;
  • As revoltas do Maio de 1968, em França e Itália, bem como a invasão da Checoslováquia tiveram enormes consequências ideológicas, colocando em causa o chamado modelo social europeu, a preponderância dos PC´s tradicionais e das burocracias sindicais, e fez florescer uma constelação de alternativas criativas à esquerda, maoistas, trotskistas, anarquistas, luxemburguistas, guevaristas …
  • A queda das ditaduras em Portugal, Grécia e Espanha, nos anos 70 e, em 1989, o desmembramento do Comecon e do Pacto de Varsóvia constituiram a base para um enorme alargamento territorial da UE, com vantagens particulares para a Alemanha, reunificada e constituida em centro de gravidade da União;
  • Esse alargamento surgiu também como forma de aumentar o mercado disponível aos capitais europeus, em busca de uma alternativa ao fim do impulso da reconstrução dos danos da guerra de 1939/45;
  • As dificuldades da acumulação capitalista global reinventaram o liberalismo sob a forma de ditadura dos mercados, de repúdio da intervenção do Estado, de endeusamento da empresa e da iniciativa privada, de promoção do mais rasteiro individualismo, em antagonismo com quaisquer fórmulas de intervenção nas questões sociais decorrentes daqueles postulados. Foram seus criadores teóricos, Hayek e Milton Friedman e seus primeiros executores políticos, Pinochet e Thatcher;
  • Às medidas conducentes à liberdade de circulação de bens, serviços e capitais, corresponde a pressão para a supressão gradual das políticas que enformavam o referido “modelo social europeu”, as privatizações e um enorme crescimento da acumulação de capital, em paralelo com o aprofundamento das desigualdades;
  • Consequentemente, a produção mundial torna-se integrada, com a incorporação, num mesmo produto, do trabalho com várias origens geográficas e diversas qualificações. A Humanidade gera, assim, uma base colectiva para a produção de bens e serviços, através da segmentação do processo produtivo levada a cabo pelas multinacionais, financiada por um sistema financeiro global, com plataformas técnicas comuns de transmissão de informação;
  • O desenvolvimento desmesurado dos sistemas de transporte tornados necessários pela segmentação da produção, pela complexização dos processos produtivos e pelo crescimento do comércio mundial, associado ao fomento do automóvel particular e do turismo de massas, provocou danos brutais no ambiente, com impactos climáticos dramáticos;
  • Por outro lado, a financiarização das economias desenvolveu imenso formas especulativas e virtuais de criação de capital e geração de lucros que tornam pouco interessante o investimento na produção de bens e serviços essenciais em falta para a maioria dos 6300 M de seres humanos;
  • Neste contexto, a necessidade de mão de obra é relativamente menor que em épocas passadas, dada a grande produtividade do trabalho que somente beneficia, essencialmente, os capitalistas, não se reflectindo na redução da jornada de trabalho; a maior longevidade humana associada a sistemas de segurança na doença e na velhice torna aliciantes, para os capitalistas a ideia de que há gente a mais no planeta e o retorno de velhas doutrinas genocidas. Israel está, aliás bem à frente, nesse campo querendo apropriar-se da Palestina sem palestinianos;
  • O neoliberalismo, associado à falência do capitalismo de Estado nos antigos países chamados socialistas, traduziu-se num optimismo vanguardista por parte dos capitalistas, alardeado pelos seus “think tanks” e mandarins, ampliado pelos seus meios de comunicação. E daí a promoção da ausência de alternativas ao capitalismo neoliberal através da equiparação entre capitalismo de Estado e socialismo, para melhor se afastar os trabalhadores de qualquer alternativa de libertação das amarras do capitalismo. Daí resulta, a vigência do “pensamento único”. Em paralelo, oculta-se que o caso da China é um exemplo particularmente claro de simbiose entre capitalismo de Estado e neoliberalismo, “um país, dois sistemas” como reza a propaganda oficial. E que nada tem de progressista;
Finalmente, refira-se que à esquerda, na sua pluralidade, reina uma enorme inconsistência de análise da situação e das propostas de lhe fazer frente(1). Uns, continuam a defender o capitalismo de Estado, nada tendo aprendido com a experiência da URSS e similares; outros, consideram que nacionalizações só por si são sempre a favor da multidão, em qualquer contexto; há quem sonhe com um regresso ao “modelo social europeu”, como se a História se repetisse; muitos, ainda não conseguem descortinar que os PS europeus há muito nada têm de progressista, assumindo claramente a agenda neoliberal, etc. (2)


3 - Medidas anti-sociais levadas a cabo na Europa

Com variantes quantitativas, o quadro mais preciso das medidas que castigam os trabalhadores europeus, extrai-se do seguinte catálogo promovido a partir de Bruxelas, com a obediente aplicação dos governos europeus e o aplauso mais entusiástico proveniente do capital financeiro:

  • Políticas deliberadas de rebaixamento dos níveis salariais em paralelo com a exigência de maiores qualificações, o que constitui uma dupla exploração;
  • Constituição de bolsas enormes de pobreza, com especial incidência entre desempregados e reformados;

  • Criminalização da imigração para mais fácil tornar a sobre-exploração dos imigrantes e, por indução, a de todos os trabalhadores;
  • Redução das contrapartidas sociais em casos de desemprego, doença e pobreza, com incentivos políticos ao assistencialismo;
  • Verdadeira perseguição e criminalização dos trabalhadores do Estado;
  • Redução do acesso ou encarecimento a cuidados médicos, medicamentosos e desprezo pela instituição de um ensino de qualidade;
  • Deliberada actuação no sentido da precarização das relações  laborais em geral;
  • Aumento das jornadas de trabalho e vulgarização do trabalho extraordinário não remunerado;
  • Transferência para as famílias dos encargos com a educação e formação, integrada numa pesrpectiva mercantilista;

  • Liberalização do despedimento, com alargamento dos motivos, redução das indemnizações e dos tempos de pré-aviso;
  • Privatização acelerada e extensiva de empresas públicas e vulgarização da contratação de serviços a empresas privadas. Verdadeira coabitação entre trabalhadores do Estado e de empresas privadas no exercício de funções de carácter público ou pagas pelo Orçamento;
  • Orgia privatizadora que pretende tornar mercadorias os cuidados de saúde, a educação, o espaço público, a água, a habitação, o património histórico, cultural e artístico, etc. Na realidade, a própria vida tende a ser uma mercadoria, com produção consumo e obsolescência;
  • Reduzidas possibilidades de emigração favorecem a pressão para a aceitação pelos trabalhadores do quadro vigente de compressão salarial e dependência neo-esclavagista. Por outro lado, a homonegeidade do quadro político, económico e laboral em toda a Europa torna escassas as possibildades de melhoria das condições de vida através da emigração, a não ser num contexto de sobre-exploração;
  • Acentuado pendor do controlo securitário da multidão, através de forças policiais e militares sofisticadas, agentes privados de segurança, videovigilância, formas de geolocalização, cruzamentos de bases de dados, controlo policial da internet, etc;
  • Afunilamento do poder político e do quadro institucional num leque estreito de alternativas, tão estreito que só há a evidenciar diferenças cosméticas; e onde a acção política se apresenta como um espectáculo mediático, com a multidão com a multidão, passivamente, sentada no sofá;
  • Crescente afastamento entre o conjunto formado por mandarins e patrões e a restante população, daí resultando uma crescente polarização social, com afundamento das classes médias que serviram de base a um fracassado “modelo social europeu”;
  • Crescente homogeneidade no seio da multidão entre quadros, trabalhadores qualificados e não qualificados, no que respeita à segurança no trabalho e remunerações; essa homogeneidade extrai-se da profunda matriz de conexões de qualificações inerente às condições da produção mundializada de hoje mas, também da intenção niveladora por baixo, levada a cabo pelas burguesias;
  • Estreitamento das opções no capítulo da informação, censurada manipulada e deturpada dos órgãos de informação mercantilizada e, demasiadas vezes, imbecilizante. O único espaço de liberdade de massas encontra-se, por enquanto, na internet, com ameaças poderosas por parte dos Estados e das grandes empresas de conteúdos.

4 –  Elementos da crise económica, social e política portuguesa

A crise é bem mais profunda que a existente antes do 25 de Abril e, por diversas razões:

  • A burguesia portuguesa perdeu qualquer autonomia no contexto global, contrariamente ao verificado nos anos 70 do século passado, quando lhe era permitido manter as guerras coloniais e, simultaneamente, beneficiar das vantagens comerciais da pertença à EFTA e do acordo com a CEE, lavrado em 2002;
  • Do ponto de vista político, a burguesia portuguesa vê reduzir-se gradualmente o quadro institucional do exercício da sua soberania sobre o território e sobre a multidão, por força das prerrogativas detidas pelas instituições da globalização (Comissão Europeia, BCE, OMC, Pentágono/NATO, “mercados” financeiros, etc);
  • Os capitalistas portugueses não têm qualquer projecto estratégico alternativo à diluição subalterna dentro de uma UE, dominada pelos capitais alemães e franceses. E, essa subalternidade, acentua-se pela incoerência política, pelo carácter neoliberal do chamado “projecto europeu”, alheio a qualquer política de geração de desenvolvimento harmónico e de solidariedades;
  • Toda a Europa se insere na estratégia de domínio mundial do Pentágono, baseada no controlo das fontes e corredores energéticos e na actuação militar, em proveito prioritário da segurança energética dos EUA, embora com algum reforço e reconhecimento da relevância relativa do pilar europeu;
  • A estrutura económica portuguesa anquilozou e vai definhando entre a desinsdustrialização e o esgotamento do crescimento alicerçado no imobiliário/obras públicas, espartilhada por um empresariato ignorante e incapaz e, por um menosprezo pela acumulação de saber e de qualificações dos trabalhadores, que remonta a Salazar;
  • As debilidades económicas próprias, a anemia europeia, com especial relevo para as dificuldades espanholas, a próxima quebra do volume dos fundos comunitários, a redução das capacidades da teta orçamental, conduzem os capitalistas lusos a desenvolver actividade em três sentidos:
    • a venda de activos (casos sintomáticos da Cimpor e da Vivo/PT); 
    • a alegre exportação de capitais para paraisos fiscais, Brasil ou Angola, com a cuidada conivência do seu governo;
    • o esmagamento dos preços do trabalho assalariado;
  • Para a multidão de trabalhadores e pobres, em Portugal, o quadro da continuidade é pouco auspicioso:
    • As instituições ditas democráticas, dia a dia, surgem como cosméticas ou como fonte de autoritarismo mas, em qualquer dos casos distanciadas dos interesses da multidão, objectivamente sem representação alguma na gestão colectiva da sociedade;
    • O Estado, cada vez mais empobrecido e assediado pelos capitalistas em busca de apoios e encomendas, vai abandonando ou restringindo a sua intervenção nas áreas sociais, da saúde e da educação e é atravessado pela impune e avassaladora corrupção protagonizada pelo PS/PSD, com o CDS a fazer o que pode para os acompanhar;
    • Contrariamente ao sucedido entes do 25 de Abril, a válvula da emigração maciça está relativamente fechada, por ausência de destinos promissores para o trabalho;
    • O autoritarismo evolui firmemente para um novo tipo de fascismo e é clara uma intenção genocida da burguesia portuguesa em relação a uma faixa da população com fracas capacidades de consumo e indutora de indesejados custos orçamentais – reformados, desempregados, trabalhadores pouco qualificados, excluidos;
    • Contrariamente ao sucedido em 1974, não há forças armadas para desencadear golpes de estado contra o apodrecido regime cleptocrático vigente e permitir o desenvolvimento das movimentações populares, como então. Os trabalhadores portugueses podem e devem apenas contar consigo e com a construção da unidade anti-capitalista com os seus congéneres de todos os países, europeus em particular;
    • Está-se longe da constituição de uma frente ou plataforma popular de unidade anti-capitalista susceptível de travar e fazer regredir o processo de retrocesso democrático e de perda de rendimentos e direitos, iniciado no final dos anos 70. As pretensões hegemónicas, o sectarismo messiânico, o conservadorismo, as tácticas conciliadoras com os governos e o patronato, afastam a multidão da actuação reivindicativa e política.
5 - Inconsistências e insuficiências à esquerda – Construção da unidade

Perante o simplificado elenco de factores estruturais, de ordem histórica, política, económica e social que se desenhou atrás, uma questão surge, instintivamente, na boca e no pensamento de todas as vítimas do capitalismo: que fazer?

É preciso avaliar melhor a configuração e a dimensão do que se torna necessário fazer para, numa primeira instância, estacar ou travar a ofensiva do capitalismo contra a multidão; e, numa segunda instância, preparar as acções para a extinção do capitalismo.

Quanto maiores forem as inconsistências e insuficiências à esquerda, mais valioso é esse trunfo para a ofensiva capitalista em curso; mais necessária é a sua discussão e a procura de alternativas de compreensão e actuação; mais necessária é a autonomia dos movimentos dos trabalhadores, dos pobres, da multidão de explorados, em toda a sua diversidade. Pretende-se, em seguida abordar, entre muitas dessas inconsistências e insuficiências, as que se prendem com a construção da unidade, particularmente no caso de Portugal.

Não é, de todo, aconselhável acreditar na viabilidade de que o capitalismo se desmorona de per si e que o poder de gestão colectiva das sociedades caiará instantaneamente nas mãos da multidão. Mesmo perante a crise financeira actual, o capitalismo mostra ter grandes capacidades de regeneração e sobrevivência.

Essas capacidades só serão diminuidas e anuladas se existir uma acção concertada e suficientemente global por parte da multidão de trabalhadores, ex-trabalhadores e pobres. Essa concertação exige uma unidade muito sólida em pontos fulcrais e alargada em termos geográficos.

Unidade não é unicidade, é a união das diversidades para a execução de acções comuns, consensualizadas de modo democrático, com todas as decisões participadas por todos e por todos susceptíveis de crítica; não é a colocação disciplinada e obediente atrás de um caudilho (individual ou colectivo) pretensamente indiscutível.

A realidade sempre foi composta de pluralidade, de diversidade, de convergências e divergências de opiniões e práticas. Todas as experiências uniformizadoras com Constantino, a Inquisição, Hitler ou Stalin acabaram por fracassar; demasiadas vezes, com muito sofrimento e sangue de permeio e no final. E, como é verificável, o pensamento único vertido pelo ideário neoliberal, que se integra nessa linha de uniformizção, só tem futuro no caixote do lixo da História.

Passando ao concreto.

Em Portugal, durante muitos anos depois da estabilização nas ruas, nas empresas e nos quartéis imposta “manu militari” em Novembro de 1975, foi conferido ao PC (pela mão de Melo Antunes) um quase monopólio da oposição de esquerda, no mundo sindical e na AR, enquanto o PS surgia como coluna vertebral do sistema político.

Considerando os resultados das diversas eleições legislativas, assiste-se a uma lenta erosão dos votos no PC enquanto a outra esquerda eleitoral perde igualmente expressão, até 1999, com o surgimento do BE; em 2005 e pela primeira vez, as esquerdas fora do PC ultrapassam este último, o que se consolidou em 2009, quando o PC deixou de ser a principal força de esquerda na AR. (3)

A constituição do BE, independentemente da sua prática política ou do seu programa, demonstra como a unidade de forças de esquerda é vista pela multidão: constitui um polo de aglutinação de vontades e de mobilização, que vai muito para além da soma dos votos dos partidos, quando separados. A unidade é um factor incentivador da prática política ou, pelo menos, de interesse pela acção política e observa-se, quer no contexto eleitoral, sindical, ambiental e local, como no âmbito da empresa.

O nível das lutas sindicai e no local de trabalho constitui a principal base onde se torna mais fácil conseguir a unidade dos trabalhadores contra o capitalismo. Como se verá adiante, ela tem estado consciente e francamente dificultada.

Quase só no terreno e perante a desorientação, a repressão e a desorganização da restante esquerda após 1975, o PC tratou de consolidar o seu poder junto das organizações dos trabalhadores:

  • Essa intenção surge, em primeiro lugar, do quadro ideológico, através da pretensão leninista de controlo das organizações de massas, a partir de uma rede disciplinada de militantes dedicados e inseridos numa burocracia partidária muito estrita, hierarquizada e de cariz sectário;
  • Esta concepção típica dos PC’s é herdeira da tradição maniqueista das crenças monoteistas e baseadas num “livro” em que as pessoas se dividem em fiéis e infiéis, havendo entre estes alguma tolerância benevolente para com os convertíveis ou “recrutáveis” ou para os que aceitam a sua suserania e a subalternidade;
  • Sendo o PC, para os seus quadros, “O Partido”, tudo no seu exterior é reaccionarismo ou esquerdismo, tomado este como “radicalismo burguês de fachada socialista” na impagável designação de Cunhal e tratado com especial desdém e ódio. O Partido é o repositório de todo o saber e o CC o fiel guardião das certezas científicas;
  • Nesta concepção fechada e religiosa da realidade, a construção social não é plural ou, na melhor das hipóteses, restringe-se a uma pluralidade tolerada que interessa seja dominada, instruida pelos “illuminati”, os membros do partido; as decisões não são tomadas em moldes de democracia directa, apenas referendadas por elementos previamente escolhidos e instruidos sobre a votação conveniente;
  • Assim, dentro deste plano ideológico e organizativo, foi estruturado um poder sindical hierarquizado, em que todas as decisões cabem a várias esferas hierárquicas (direcção, comissão executiva, secretariado, coordenador), cuja manutenção exige um conservadorismo avassalador nos métodos e nas pessoas físicas que o protagonizam. O importante é o controlo das estruturas sindicais cujo objecto é a inserção no quadro mais global dos interesses do partido, por muito obscuros que pareçam, não passando os interesses dos trabalhadores enquanto tal, de subalternos e instrumentais;
  • Recorde-se que para essa pretensão hegemónica ser perpetuada pretendeu-se, ainda nos anos 70, que fosse o Estado a impor em lei, a unicidade sindical; isto é, o Estado definiria por lei o modo como os trabalhadores se organizariam, modelo aliás vigente nos países de capitalismo de Estado, cuja organização sindical nunca primou pela independencia face ao poder;
  • Naturalmente que a direita aproveitou essa prática. Não conseguindo opor-se dentro da maioria dos sindicatos, inventou uma coisa chamada UGT, com apoios financeiros alemães fornecidos pela Fundação Friederich Ebert, ligada ao SPD. A UGT, dominando alguns sindicatos importantes (bancários e seguros, por exemplo) rapidamente foi ocupada pelo PS que subalternizou o seu confrade PSD, parceiro inicial nesse projecto de criação de uma estrutura sindical pertencente ao governo;
  • Essa estrutura vertical e hierarquizada vigente não poderia ser aplicável em cada empresa, nas comissões de trabalhadores, contituidas na base, junto dos próprios trabalhadores, de difícil controlo burocrático e nas quais não seria fácil impor os interesses de qualquer partido. E por isso, as comissões de trabalhadores nunca foram incentivadas nem apoiadas, embora constituam as células elementares da luta e da unidade dos trabalhadores;
  • A escassa existência de comissões de trabalhadores, aliada a um papel passivo da maioria dos delegados sindicais, transformados em mensageiros das respectivas direcções, gera um hiato entre a base dos trabalhadores, integrantes de vários sindicatos ou, mesmo não sindicalizados e os dirigentes e funcionários sindicais, distanciados da realidade concreta;
  • Fica assim traçada uma situação em que os trabalhadores ficam mais facilmente submetidos às arbitrariedades e ao poder dos patrões, à informação da corporação mediática, sem uma representação democrática a nível do local de trabalho; e em que os dirigentes sindicais se constituem como casta muito interessada em se manter fora das agruras que impendem sobre a massa dos trabalhadores nos locais de trabalho, menos alcatifados que os gabinetes dos ministérios;
  • Está imanente na descrição efectuada atrás toda uma desconfiança face aos trabalhadores em geral, relativamente às suas capacidades de criação de reivindicação, de luta, de unidade, do seu futuro. Entre os efeitos, nefastos, sobressai:
    • Polarização da vida sindical em torno dos seus dirigentes e funcionários, em regra, quadros po PC;
    • Distanciamento por parte dos trabalhadores, que se referem ao sindicato, não coisa sua mas, como algo distanciado, pouco acessível, “os tipos lá do sindicato”;
    • Desindicalização acelerada, por desinteresse face à vida sindical, pela aposentação de muitos trabalhadores acompanhada com a não chegada de novos aderentes, dadas as condições de precariedade e mesmo de punição ou discriminação por parte dos patrões, dos trabalhadores sindicalizados;
    • Desinteresse pela vida sindical dos militantes de esquerda não pertencentes ao PC, dadas as limitações para a sua expressão, excepção feita a quantos se sentem bem numa posição de subalternidade e de objecto de benevolência.
Sublinham-se, em seguida, casos recentes de aplicações “unitárias” mas não de unidade de diversidades contra o inimigo capitalista.

Na recente manifestação da CGTP de 29 de Maio foi visível como a direcção da central discrimina os não integrados na ordem sindical vigente, os não submetidos ao pensamento único decretado pelo que se pode designar como a “Confraria dos Órfãos de Brejnev”, isto é, a direcção do PC e os seus braços executivos, a coorte de funcionários, em regra, tão obedientes como canhestros.

  • A direcção da CGTP teve o cuidado de ordenar a constituição de um cordão de segurança para impedir a entrada autónoma de grupos de activistas na manifestação. Só podem entrar os credenciados pelos burocratas sindicais, todas as outras pessoas são suspeitas ou indesejáveis;
  • Mesmo o institucional BE só teve direito de se acrescentar ao desfile oficial, encerrado pelo mesmo cordão de segurança; repetimos, o direito de se acrescentar, não o direito de participar;
  • Com essa atitude a CGTP demonstra que a unidade de que recorrentemente fala é a unidade dos submetidos ao pensamento único, legitimado pela sua direcção;
  • Com esse cordão de segurança transformam-se trabalhadores em vigilantes de outros trabalhadores, em polícias privados, num papel vergonhoso e indigno de ser desempenhado por uma central sindical.
Em Setembro do ano passado foi criada a PAGAN – Plataforma Anti-Guerra, Anti-NATO vocacionada para gerar repúdio à cimeira da NATO em Novembro próximo, a realizar em Lisboa. Aberta a todas as tendências que se revejam naqueles propósitos, sabemos que a PAGAN, por duas vezes, escreveu à CGTP a solicitar um encontro; porém, como o grupo é constituido por activistas independentes, a CGTP nunca deu resposta.

Episódio pitoresco, segundo sabemos, verificou-se em Maio, no seguimento de um debate sobre a NATO em que Carvalho da Silva usou da palavra. À saída, o coordenador da CGTP foi abordado por um activista da PAGAN que lhe perguntou porque não havia respondido às cartas e o que tem contra aquele grupo anti-guerra. Carvalho da Silva ficou tão surpreendido, titubeante, qual pardal assustado, que até garantiu ir ver o que se passava, para dar resposta. O que ainda não fez.

No entanto a CGTP há meses que deu todo o seu apoio a uma estrutura que se diz pela Paz, constituida por organizações (ou meras siglas) do PC e alguns dos “compagnons de route” habituais. Se a CGTP é a central dos trabalhadores portugueses porque exclui uns a favor de outros? Não lhe competiria apoiar TODAS as forças políticas e sociais que se oponham à NATO e sejam pela paz?

Desta cegueira reaccionária e sectária o beneficiário é o capitalismo e Sócrates. Enquanto este assegura o apoio do PSD, dos banqueiros e do patronato para expoliar a grande maioria da população, os trabalhadores não conseguem unir-se para acções comuns, numa base democrática e fraterna, mesmo numa conjuntura tão negativa e perante uma ofensiva tão forte do capitalismo.

Não é altura de se construir uma unidade das diversidades todas que existem na esquerda portuguesa?


 (1) Capitalismo hoje. Caracterização, crises e eixos estratégicos


(2) A resposta capitalista que estão a preparar para a crise

http://www.scribd.com/doc/23725522/A-resposta-capitalista-que-estao-a-preparar-para-a-crise

(3) Os últimos 30 anos de eleições legislativas; perspectivas para Setembro



Este e outros textos em:



Junho 2010


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