terça-feira, 3 de janeiro de 2012

O capitalismo predatório e a estupidez patriótica (1)


1 - O capitalismo predatório de hoje

Os chamados “hedge funds” apostam na expansão da crise da dívida da Grécia, para Portugal, Espanha e Itália uma vez que os apoios dados têm fornecido liquidez aos devedores, sem cuidar da sua solvência. Dito de outro modo, arrastam o problema da dívida quando falam de “medidas estruturais” para enganar os tolos e proceder a massivas  transferência de capitais.

Sob aquele sombrio nome de  “medidas estruturais”  escancaram-se todas as janelas de oportunidade para o saque dos rendimentos das populações por um lado e, para a apropriação de empresas por baixo preço, por outro. Com aquele nome, embaratece-se direta e indiretamente o trabalho para gáudio dos grandes capitalistas e como forma de sobrevivência dos pequenos capitalistas, pois o sistema precisa de dar a ideia de que existe uma classe média, mobilidade, oportunidades, para garantir a coesão social. Tudo isto com a conveniente mediação dos Estados e dos gangs corruptos a que benevolamente chamamos mandarinato e a que os poetas designam por classe política. O maestro é o Estado mas, a partitura, não é dele. Se preferirem, o Estado é uma barriga de aluguer onde se renova diariamente o capitalismo predatório de hoje.

Tudo se passa num tempo em que nas próprias altas esferas da UE se tem a consciência de que as dívidas dos países periféricos não são susceptíveis de serem pagas; num tempo, em que a bela Lagarde incita os gregos a tomarem “todas as medidas necessárias”, ignorando olimpicamente, as dificuldades e o desmantelamento social que se conhece na sociedade grega. “En garde”, com a Lagarde!

De facto, a solvência cada vez parece menos possível e os especuladores apostam na queda das cotações das empresas de telecomunicações, concessionários de autoestradas e serviços daqueles países, os tais PIIGS; não só as empresas que estão mais ou menos na órbita dos Estados, como as empresas privadas com lucros, mercado ou património bem como os bancos dos países visados.

Para facilitar esse desiderato existem os planos validados pelo FMI/BE/UE - a sinistra “troika” - que impõem extensos planos de privatização. Está, portanto, aberta a época de saldos, prolongando a centralização do capital, o domínio da lógica de financiarização, mesmo que isso se faça à custa do acelerado empobrecimento de muitos milhões de pessoas e do desapossamento relativo das burguesias nacionais em benefício dos capital financeiro globalizado, dos fundos de investimento e de pensões, dos “hedge funds”.

O colapso económico larvar é corroborado pelo conhecido especulador George Soros, a iniciar-se na Grécia enquanto o estratega investidor Dennis Gartman situa até final de 2012, a falência para a Grécia, Portugal, Espanha, Irlanda e Itália (1). A falência de um país não é o mesmo que a falência de uma empresa ou uma pessoa mas, certamente, é portadora de acrescidas dificuldades para trabalhadores e população em geral. Confirma-se, pois, que “os mercados” não acreditam nas medidas tomadas pelos governos, inspiradas na “troika” e apostam no desastre; no final, o sistema financeiro, já terá adquirido as empresas privatizadas compradas a baixo preço, arrastadas pelas qualificações de “lixo” para os títulos de dívida soberana, promoverá a sua venda com excelentes mais-valias, sobretudo se encabeçarem drásticas operações de “downsizing” e desmembramento para maximizarem os preços de venda. E os abutres nacionais também esfregam as mãos para o saque perante o ar satisfeito duma pileca política chamada PPC, que sorrirá como um escuteiro com o dever cumprido. Tudo Isto. para eles, é trivial.


2 - O caso Moody’s

No passado dia 8 (2) os títulos dos bancos italianos sofreram fortes quebras com o regulador financeiro local a aprovar medidas para o conhecimento dos protagonistas de operações de venda a descoberto; e por cá, diga-se de passagem, o papel do BCP tornava-se mais barato que o higiénico (€ 0.31). Talvez não seja coincidência a reunião urgente para dia 11/7 convocada pelo van Rompuy para avaliar a “alarmante especulação contra a Itália” num momento em que os juros da dívida espanhola atingem máximos e se esperam más notícias dos testes de “stress” aos bancos europeus. Tudo isto secundariza, obviamente, a notação da Moody’s a Portugal e os auto-elogios do PPC.

Porém, um grupo de economistas franceses defendeu que somente o FMI deverá avaliar as dívidas soberanas, em vez das agências e que a Europa "deve fixar regras rigorosas de intervenção das agências de notação financeira nas dívidas soberanas"(3).  Tendo em consideração a conhecida ortodoxia neoliberal e a devoção pelos mercados manifestada pelo FMI não se crê que tal proposta dos académicos franceses trouxesse descanso às vítimas dos mercados financeiros. Estão na linha dos burocratas acampados em Bruxelas sobre a criação de uma agência de “rating” europeia; e raciocinam como muita da chamada esquerda que entende estar uma empresa nacionalizada menos eivada de lógica capitalista que uma privada “tout court”; e que a gestão feita por um cardume de mandarins é a favor do povo.

A comissária europeia da justiça Viviane Reding, propõe a extinção das três agências de ”rating” dominantes e propõe fórmulas criativas como a sua substituição por …seis agências ou a criação de agências independentes (?) na Europa e na Ásia, com o salutar intuito de promover transparência e concorrência (4). Como se essas fossem alguma vez características do mundo da finança… ou houvesse sentido ou obediência patriótica nas empresas capitalistas como as agências de “rating”, que têm sede nos EUA como poderiam estar em Nauru.

Recordamos que há dezenas de anos se conhecem os malefícios para as finanças dos paises, da existência de paraísos fiscais, bem como da sua importância para os campeões da evasão fiscal e para o capital mafioso. Frequentemente, mandarins avulsos de várias nacionalidades afirmam concordar com o fim dos “off-shores” mas, dizem que não o podem fazer pois esperam a concretização dos estimados colegas o façam! Entretanto, os tais paraísos vão existindo, mesmo na Europa e… prosperam, obviamente, apesar dos sobressaltos recentes sofridos pela Suíça, na defesa do seu sigilo bancário.

É algo quixotesco e mistificador o alarido em torno das agências de “rating”, com relevo para a Moody’s e para as suas classificações com as primeiras letras do alfabeto repetidas várias vezes numa combinatória infantil com os símbolos da soma e da subtração. O sector das empresas de “rating” é dominado pela Moody’s, pela Fitch e pela Standard  Poor’s mas, há muitas mais cuja utilização e credibilidade é muito menor por parte dos “mercados”; e são aquelas que marcam o terreno.

As suas ligações com o sistema financeiro são comerciais e accionistas, políticas e financeiras, de colaboração interessada ou distração organizada como se observou através da “consultadoria”, da Goldman Sachs ao mandarinato grego;  ou no caso BPN; como no encobrimento das vigarices da Enron que custaram a desaparição da sigla Arthur Anderson do panorama da consultadoria, no princípio do século. As agências de “rating” só vêem o que convém, só divulgam o que concertam com os seus principais clientes e accionistas. A dimensão das empresas é diretamente proporcional à das vigarices.

É portanto divertido assistir ao afinado coro do mandarinato e dos banqueiros portugueses, com o apoio de alguns pesos pesados da UE, como Trichet e Barroso a acusarem a Moody’s, cujos responsáveis devem ter encolhido os ombros, a sorrir, com essa reação unânime, sabendo muito bem que tal faz parte do teatro de fantoches; tal como sabem que passará o periodo do bloqueio dos servidores da Moody’s com os frutos da indignação patriótica de muitos.  Escassos dias antes da notação de lixo para a dívida soberana da Lusolândia, uma delegação da Moody’s constituida por um punhado de jovens precários (como é também habitual nas consultoras internacionais como a Cap Gemini, a Accenture, a Price) estivera no Banco de Portugal a ouvir as justificações oficiais dos portugueses. Claro que esses jovens nada decidiam, apenas tinham ouvidos, funcionavam como biombos que separavam as autoridades lusas dos verdadeiros decisores, na cúpula do Moody’s. Convém que se saiba haver um habitual corropio no Banco de Portugal entre técnicos das moody’s, do FMI, do Eurostat, do BCE… numa lógica de porta aberta semelhante à das casas de passe ali próximas, no Intendente.

Os gangs partidários apareceram agora muito activos a vociferar contra a Moody’s, a cancelar contratos com a mesma, a ameaçar, numa salutar concorrência de vólvulos radicais. Esses mandarins são os mesmos que víamos por aí, com um sorriso fingido de pena e, com um encolher de ombros, dias antes, a justificar a omnipotência e a omnisciência do “mercado”, a justificar o necessário sacrifício de “todos”.

Também o triste Cavaco ensinava (ele é um pedagogo…), um ano atrás, os ignorantes, dizendo “não vale a pena recriminar as agências de “rating'” e na campanha das presidenciais, prevenia, (é um homem de vistas largas…) que “aqueles que insultam os mercados estão a prejudicar seriamente o país. Deus nos livre se o Presidente da República não mede as palavras que usa” (5). E como não gostou nada que lhe tivessem feita essa referência, recomendou, do alto da cátedra “par a aqueles que sofrem de ignorância na análise, eu apenas posso recomendar um pouco mais de estudo. Estudem um pouco mais”. Como os dislates são habituais na veneranda figura, esta referência aqui é somente para gerar um momento de diversão aos leitores.

A efémera indignação dos mandarins surgiu porque a atitude da Moody’s atingia os interesses das grandes empresas portuguesas a privatizar e dos frágeis e descapitalizados bancos portugueses. É o patriotismo dos miseráveis.

Será que só agora é que observaram a maldade das empresas de “rating” que têm vindo a utilizar para a avaliação das capacidades de solvência do Estado, das câmaras municipais, etc? Então é porque são burros.

Todos sabemos que os títulos da dívida portuguesa valem somente o apoio do FMI/BCE e que sem este, são mesmo lixo, são títulos emitidos por uma entidade sem capacidade autónoma de solvência dos seus débitos. E sabe-se também que o apoio das instituições da “troika” é um rebuçado e não uma refeição reparadora dessa solvência. E a Moody’s apenas afirmou aquilo que o “mercado” bem sabe e lhe convém afirmar publicamente, como arma de pressão.

Enquanto isto se passou, PPC apresentava-se, não só com o habitual ar sonolento mas, na figura da vítima, do político diligente e amante do seu povo, da sua pátria amada, agredidos ambos pelo ogre Moody’s. Assim ficariam esquecidas as suas próprias malfeitorias, de capelão neoliberal encarregue de convocar o povo para o sacrifício exigido pelo deus  mercado.

Portugal apodrece na exacta medida em que os portugueses empobrecem.

Em breve a continuação deste texto: sobre o patriotismo

Notas:

(1)                  http://revoltatotalglobal.blogspot.com/2011/07/edge-funds-fast-money-casino-apostas.html#.Thne_p2feUQ.facebook
(2)                  http://www.parana-online.com.br/editoria/economia/news/543332/?noticia=ITALIA+ADOTA+MEDIDAS+PARA+CONTER+ESPECULACAO+FINANCEIRA para concretizar o assalto aos bolsos e aos direitos da multidão

Este e outros textos em:
                   http://www.scribd.com/group/16730-esquerda-desalinhada

12 julho 2011

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