domingo, 25 de dezembro de 2011

Saramago e a integração ibérica; a mítica e a existente

A ideia da integração ibérica defendida recentemente por Saramago é antiga. Antero também a defendeu na procura de um engrandecimento ibérico que mostrasse músculo ao império britânico, a grande potência de então.

Salazar, pelo contrário, inundou os manuais escolares de um nacionalismo anti-espanhol, com uma Aljubarrota por página, para arregimentar as consciências no apoio à construção de uma coutada para a inepta burguesia portuguesa poder sobreviver. Salazar visualizou os portugueses no papel que Goscinny tão bem retratou na aldeia gaulesa de Asterix: pequenos mas muito valentes, heróis do mar que avançam contra os canhões.

A formatação nacionalista que ainda hoje faz vibrar muitas almas lusas não resiste à evidência gritante de alguns factos e muitas das suas convenientes contradições. Vejamos:

  • O FMI decidiu, nos anos 70 e 80, reajustamentos estruturais, políticas orçamentais restritivas, contenções salariais, desvalorizações do escudo, num verdadeiro atentado às instituições portuguesas e os patriotas engoliram;

  • A integração na então CEE acabou com a política económica em geral, a política agrícola, de pescas, industrial… e ninguém protestou demasiado. Mesmo quando Portugal teve de marcar passo para a entrada na UE, à espera da conclusão dos dossiers do vizinho espanhol;

  • Essa coisa tão estruturante fez-se sem qualquer tipo de consulta popular pois os fundos comunitários compraram o silêncio dos esforçados patriotas;

  • Entretanto, veio o euro, os patriotas ficaram com o hino e a bandeira, símbolos sem grande cotação nos mercados, mas que dão uma ilusão de poder;

  • O capital estrangeiro e o espanhol em particular, vêm comprando o que lhes convém – bancos, indústrias, terras, imóveis e fornecem bens alimentares, móveis, electrodomésticos, etc. Onde está a vaga de fundo nacionalista para além da quixotesca carta dos 40 empresários para a defesa de centros de decisão nacionais? Recordamos que no meio desse processo um dos promotores, um tal Vaz Guedes vendeu a Somague aos espanhóis da Sacyr.

  • O BCE e Bruxelas determinam quase tudo o que afecta as nossas vidas, desde o preço das batatas aos juros dos empréstimos, utilizando os governos ditos portugueses como capatazes deixando aos patriotas lusos a ilusão de que têm uma pátria !

  • Finalmente, os patriotas lusos não vibram com as pretensões independentistas de bascos e catalães, por sinal com um potencial económico bem superior a Portugal. É estranho, não se percebe porquê!

O desenvolvimento do capitalismo vem reduzindo o poder dos estados nacionais de três formas. Uma, através de instituições regionais como a UE ou o BCE ou supranacionais como a OMC; outra, pela transferência de competências para as regiões; e, finalmente, com o ideário neoliberal que torna os territórios verdadeiros terrenos de caça das multinacionais as quais, decididamente, não gostam dos entraves estatais à sua predação.

Portugal está há 21 anos na UE, tal como a Espanha. A integração ibérica já existe no quadro da UE e vem-se aprofundando com as relações transfronteiriças, a convivência entre os povos e a Espanha vem-se afirmando como destino para emigrantes portugueses sem trabalho aqui. Recorda-se que meses atrás, em várias dezenas de trabalhadores portugueses descobertos em Espanha numa situação de semi-escravatura, só um quis regressar à ditosa pátria.

Em Portugal, a taxa de IVA é bem mais alta, o preço dos combustíveis também mas, os salários mais baixos. Tudo na exacta medida da burguesia lusa, a mais fraca e incapaz da Europa ocidental bem como do afastamento cada vez maior do nível de vida da Espanha e da Europa.

Para quem vive do trabalho que importância tem a nacionalidade do patrão que o rouba? 

Agosto 2007

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