quarta-feira, 6 de julho de 2016

Eleições em Espanha – O medo venceu o tosco projeto social-democrata



Spinoza distinguiu a potentia, como capacidade de realização face a potestas, dominação. Pablo Iglésias e os seus iluminados amigos pretendem-se dignos da auctoritas para exercerem a potestas. Reacionarismo puro, nada de novo.

1 – Um pouco de História
2 - As eleições de junho em Espanha
   2.1 – Aumento da desafeição
   2.2 – As dificuldades do bipartidarismo não alteraram o regime
   2.3 – O Podemos, tentativa de integração autoritária do 15 M
3 - Como se constroem as alternativas



1 – Um pouco de História

O estado espanhol tem sido atravessado, historicamente, por tensões centrífugas e centrípetas, em regra afogadas com violenta repressão, como aconteceu após a vitória dos fascistas na guerra civil de 1936/39. No processo de transição do franquismo para o regime parlamentar, contemplou acordos entre as direitas representadas em Madrid com as sediadas em Euzkadi e Catalunha, para a continuidade de uma Espanha unida, dentro das suas fronteiras tradicionais, com a manutenção de um rei como chefe de estado. O PSOE de Felipe Gonzalez e o PCE de Santiago Carrillo, bem como as centrais sindicais que lhe são próximas, aceitaram essa configuração, desenhada em 1977 (Acordos de Moncloa). 

A ETA não aceitou essa situação e manteve as formas de luta armada, iniciadas no tempo de Franco, contra o governo nacional o qual, por seu turno, exerceu uma repressão muito violenta contra o independentismo basco, em concertação com a França; até que, há alguns anos atrás se decidiu o fim da luta armada. Em paralelo, para além das aspirações nacionais de Euzkadi e da Catalunha, alicerçadas nas mais poderosas economias do estado espanhol, outras se levantaram entretanto, com menos ímpeto, como na Galiza, na Comunidade Valenciana, na Canárias ou nas Baleares, para além de pulsões da afirmação regional e identitária, na Cantábria ou na Andaluzia. Assim, o estado espanhol é constituído por 17 Autonomias, com governos próprios e ainda, por Ceuta e Melilla, enclaves na costa marroquina que se apresentam com reminiscências coloniais; do mesmo modo que a Grã-Bretanha se tem mantido em Gibraltar há mais de 300 anos.

A crise financeira aberta em 2010, exigiu forte austeridade e gerou enorme desemprego, os quais provocaram, por um lado, mais tensões entre as Autonomias e o governo de Madrid, juntando as reivindicações autonómicas e independentistas, particularmente agudas na Catalunha, às lutas contra as dificuldades económicas e sociais. Desenvolveu-se uma contestação de um novo tipo, que cruza intenções de maior autonomia ou independência, com reivindicações de defesa dos padrões de vida através de formas organizativas autogestionárias e de democracia direta, que encontraram eco no passado, nos anos 30, esmagadas então, pela ação inicial do estalinismo e depois, pela do franquismo.

Do ponto de vista político e a nível nacional, estabeleceu-se o típico modelo de rotativismo em torno de dois partidos atravessados pelo compadrio e pela corrupção, representantes do poderoso sistema financeiro, cujas dificuldades foram superadas por uma rápida reestruturação e capitalização à custa das finanças públicas. O PP (Partido Popular), marcadamente de direita, centralista e católico, é membro do PPE (Partido Popular Europeu), onde estão também os portugueses PSD (Partido Social-Democrata) e CDS (Centro Democrático e Social); e o PSOE é membro da coligação europeia S&D (Socialistas e Democratas), onde se encontra também o PS (Partido socialista) português, está ligado à central sindical UGT e teve um passado de recusa do franquismo. Em comparação com os dois partidos dominantes e homólogos do vizinho ocidental de Espanha, o PP situa-se como mais reacionário que o PSD ou o CDS português, dado o maior peso político da Igreja em Espanha; e, por seu turno, o PSOE, pelo seu enraizamento social, mostra-se menos reacionário que o PS português, que se firmou como o elemento dirigente na “normalização” política de 1975.

O longo passado fascista em ambos os estados ibéricos atuais tem mantido marginal a expressão e a formação de organizações e partidos assumidamente xenófobos, pese embora a grande população de imigrantes em Espanha, muitos dos quais provenientes de países islâmicos; do mesmo modo que são residuais as organizações fascistas. A integração dentro da UE ou na zona euro não têm grande contestação em ambos os países, sobretudo porque não existe o referido caldo de cultura xenófobo, como acontece em França, Holanda ou Inglaterra. No caso português, o PCP (Partido Comunista Português), historicamente, defende uma política “patriótica de esquerda” por muito incoerente que seja essa designação, com saída da UE e do euro, como expressão salvítica para uma decadência nacional secular e que exerce uma clara influência ideológica sobre pequenos grupos da área trotsko-estalinista ou de professores universitários.

Ainda na área esquerda dos espetros partidários há a relevar, em Espanha a IU (Izquierda Unida) e o recente Podemos, que concorreram coligados nas últimas eleições, que são simples partidos sociais-democratas, tal como em Portugal, o já referido PCP e o BE (Bloco de Esquerda). Estes partidos, tal como o Syriza grego merecem da imprensa e dos partidos mais à direita a designação ridícula de esquerda… radical!

2 - As eleições de junho em Espanha

2.1 – Aumento da desafeição

É complicada a análise das eleições em Espanha tendo em conta o posicionamento dos grupos e partidos concorrentes, entre defensores de um estado centralizado e regionalistas, autonómicos ou independentistas para além da habitual divisão entre direitas e esquerdas e daqueles que se não afinam por esse diapasão, como o PACMA. A tarefa é ainda mais complicada porque há uma enorme diversidade de candidaturas, a que se acrescentam alterações sensíveis nas referências concorrentes, entre os dois últimos actos eleitorais; e ainda, quando surgem coligações onde se cruzam formações centralistas com outras restritas aos seus espaços territoriais, autonómicos.
Os três últimos atos eleitorais para o Congresso espanhol, apresentam os seguintes elementos de caráter geral:


2011
2015
2016
Censo
      35.779.491
     34.630.658  
34.597.038
Votantes
      24.666.441  
     25.349.824  
24.161.083
     Votos dirigidos
    23.917.752
24.925.004
23.744.650
     Brancos
           431.134  
           197.826  
190.545
     Nulos
           317.555  
           226.994  
225.888
Abstenções
     11.113.050  
       9.280.429  
10.435.955
Taxa de desafeição[1]
33,2 %
        28,0 % 
       31,4%  
            Fonte primária: http://resultados.elpais.com/elecciones/2011/generales/congreso/

Após uma retoma do interesse na participação eleitoral em 2015, de novo aquela volta a cair, seis meses depois, para valores de votos dirigidos a partidos, inferiores aos observados em 2011; ao aumento de 1 M de novos votantes em partidos entre 2011 e 2015, segue-se uma quebra de 1.2 M de participantes seis meses depois do momento eleitoral de dezembro. Entre 2015 e 2016 não há praticamente nenhuma variação nos quantitativos dos votos brancos ou nulos, pelo que a grande alteração nesta análise global é a do aumento de abstencionistas que se aproxima dos referidos 1.2 M de pessoas.

Sendo assim. a taxa de desafeição que baixara mais de 5 pontos percentuais entre 2011 e 2015, como resultado da existência de novidades eleitorais com perspetivas de bons resultados – Podemos e Ciudadanos – recuperou em 2016, para valores que se aproximam dos de 2011, sabendo-se que os principais prejudicados com essa regressão eleitoral foram, precisamente, as coligações Unidos Podemos e o Ciudadanos. 

A intervenção das instituições europeias, a submissão dos dois partidos PP/PSOE aos interesses do capital financeiro, a política de saneamento das burlas bancárias, o enorme incremento do desemprego, a inclusão do pagamento prioritário da dívida na Constituição, o despejo das suas casas, de pessoas arruinadas, para satisfação dos bancos, a repressão sobre os movimentos sociais, a revelação de variados casos de corrupção, constituíram outras tantas razões para essas quebras eleitorais.

2.2 – As dificuldades do bipartidarismo não alteraram o regime
 
Os dois grupos do bipartidarismo tradicional – PP e PSOE – face ao ocorrido em 2011, apresentam pesadas perdas nos dois últimos actos eleitorais; um total de 5.1 M em 2015 e 4.5 M em 2016, em virtude da recuperação de quase 700000 votos por parte do PP. Os partidos do bipartidarismo passaram de quase 18 M de votos em 2011 para 13.3 M cinco anos depois; no caso do PSOE, as perdas foram proporcionalmente maiores na Catalunha e em Euzkadi, onde a ambição independentista é mais forte. 
                                                                                                                                                                                                                                                                 1000

2011
2015
2016
PP                         dos quais:
10867
7216
7906
 - UPN-PP de Navarra
127
102
106
PSOE                     dos quais:
7004
5531
5425
 - PSOE-NCa, de Canárias
231
218
220
 - PS Catalunha
923
589
558
 - PSdeG-PSOE, da Galiza
458
348
345
 - PSE/EE, do País Basco
255
161
164




Fonte primária: http://resultados.elpais.com/elecciones/2011/generales/congreso/

A distribuição, nas três últimas eleições, dos votos dos outros partidos que não colocam em causa a actual arquitetura política do estado espanhol e, com mais de 100 mil votos, apresenta-se deste modo:                                                                                                                                                                                                  1000
2011
2015
2016
IU-UPeC Unidade Popular, IU Unidade Popular en Comum
1.686
Coligações que envolvem Podemos, IU e outros
2.007
Coligações que envolvem Podemos, IU e outros
2.541
Podemos apenas
3.182
Unidos Podemos
2515
UPyD
1.143
Ciudadanos
3.500
Ciudadanos
3.124
EQUO
217
IU-UPeC Unidade Popular, IU Unidade Popular en Comum
923
PACMA - Partido Animalista Contra el Maltrato Animal
285
PACMA - Partido Animalista Contra el Maltrato Animal
        102
  
PACMA - Partido Animalista Contra el Maltrato Animal
219




UPyD
153


Partidos com 10/ 100000 votos
102 (5)
Partidos com 10/ 100000 votos
148 (4)
Partidos com 10/ 100000 votos
175 (4)
       Fonte primária: http://resultados.elpais.com/elecciones/2011/generales/congreso/

Nesse processo de descrença no bipartidarismo, surgiu à direita o Ciudadanos, como elemento de captação do eleitorado mais conservador, incomodado com os imensos escândalos financeiros e com a corrupção que caraterizou altos quadros do PP ou, lateralmente, do PSOE. Beneficiou também com a derrocada da UPyD – Unión Progreso y Democracia que passou de 1.1 M de votos em 2011 para 50000 cinco anos depois. No projeto Ciudadanos o marketing faz-se pela apresentação de uma nova classe política, de quadros não publicamente (pelo menos) manchados pela corrupção, ecléticos o suficiente para eventuais acordos com o PP ou o PSOE e com uma imagem de modernidade e descontração. Esse desiderato, no dia 26 ficou prejudicado pelo cerrar de fileiras na direita tradicional, o susto e a insegurança provocada pelo Brexit ocorrido em vésperas das eleições; por outro lado, não houve a hemorragia do PSOE que as sondagens remetiam para o lugar mais baixo do pódio; e o conformismo dos eleitores com uma corrupção que consideram sistémica, equiparou as forças políticas e contribuiu para a elevação dos níveis de desafeição face ao sistema político, prejudicando as estrelas de 2015, o Ciudadanos à direita e o Podemos, na área social-democrata.

2.3 – O Podemos, tentativa de integração autoritária do 15 M

Para o desafeto face aos partidos tradicionais do regime e ao modelo antidemocrático de representação foi determinante o papel da movimentação social que desabrochou em 2011 nas ruas, baseada em lógicas de democracia direta, sem chefes carismáticos ou inamovíveis, sem mafias partidárias a exercer o pastoreio e capaz de promover protestos e gerar ideias para uma nova sociedade, democrática e despida das taras do capitalismo. Porém, como confluência de lógicas libertárias, universalistas e defensores dos vários autonomismos e independentismos conhecidos no estado espanhol, foi difícil criar uma rede rizomática com um grau de coesão suficiente que impedisse a incursão de elementos mediáticos, estatistas e tolerantes com o capitalismo, imbuídos do mesmo espírito de tomada do poder para dele se servirem, como é característico nos regimes políticos vigentes na Europa.

Referimo-nos particularmente ao Podemos e ao seu chefe carismático e autoritário, Pablo Iglésias, politólogo, admirador de Santiago Carrillo e inspirado em Ernesto Laclau, popularizado por um programa de televisão e hábil manipulador de massas, com o evidente fito de enfraquecimento e substituição do PSOE, como contraponto ao PP, à direita tradicional e dos negócios, coluna vertebral do sistema político. O Podemos tem protagonizado um aggiornamento, um projeto de cara lavada para a manutenção do rotativismo bipartidarista, com alterações adequadas a uma continuidade feliz da marcha dos negócios.

O exemplo de Tsipras e do Syriza, como substituto do velho e desacreditado Pasok, esteve certamente no cérebro de Iglésias e no dos seus iluminados amigos, Monedero e Errejón. Em épocas de crise económica, social e política, surgem sempre os placebos de esquerda para cumprir o papel que a direita, desacreditada, não pode assumir. 

                                                           Fonte: Lusbert[2], 

Há quem diga que não houve surpresa nos resultados recentes do Unidos Podemos mas antes, nos que foram obtidos em dezembro de 2015, surgidos após os bons desempenhos do Podemos nas europeias de 2014 e nas municipais do ano passado. 

Neste último caso, os resultados foram devidos ao protagonismo local de ativistas do 15M, à sua autenticidade, espírito inclusivo e não sectário, ao seu conhecimento da sociedade e da rua, refletindo o trabalho da PAH contra os despejos, do 15MpaRato para a detenção de Rodrigo Rato, da PACD pela auditoria à dívida, das Mareas, do Legal Sol pela defesa dos direitos e muitos outros. Obviamente, o Podemos pela sua recente aparição não poderia ter grandes resultados nas eleições municipais se se não tivesse ligado aos grupos locais, coletivamente designados Indignados.

Assim, Manuela Carmena e Ada Colau, vencedoras em Madrid e Barcelona, respetivamente, não são do Podemos mas, de outras plataformas baseadas na cidadania - Ahora Madrid e Barcelona en Comú. E foram vítimas do manobrismo de Iglésias para gerar confusões e reinterpretações da realidade, para construir a posteriori a sua imagem de lutador e dourar o seu papel como grande líder. Assim, Colau e Carmena surgem sob o rótulo Podemos, sem o seu consentimento[3].

Um exemplo do papel dos Indignados observa-se quando se compara a votação do Podemos nas autonómicas em Madrid (285000) e as de Ahora Madrid para o município, que teve 519000. 

Em 2015 e 2016, nas eleições para deputados, os resultados relacionados com o Podemos, IU e coligações tiveram a seguinte expressão, pretendendo-se apresentar elementos tão comparáveis quanto possível:  
                                                                                                                                      1000
2015
2016
Podemos
3182
Unidos Podemos
2515
Coligações que incluem Podemos e IU
1336
Coligações que incluem Podemos e IU
2541
En Comú (Catalunha)
928
ECP - En Comú Podem-Guanyem el Canvi (Catalunha)
849
Podemos -En Marea-ANOVA-EU (Galiza)
408
Podemos -En Marea-ANOVA-EU (Galiza)
344


Podemos-Compromis-EUPV (C. Valenc.)
656


Podemos /A.DUGU-IU-Equo (P. Basco)
334


Podemos -IU-Equi-Batzarre (Navarra)
95


Podemos -EUIB-MÉS (Baleares)
118


Podemos -IU-Equo-IAS-CLIAS (Astúrias)
146
Coligações que incluem Podemos e não IU
671


Podemos-Compromis (Com. Valenciana)
671


Izquierda Unida
923

-
Total  Podemos, IU e coligados
6112

5056
         Fonte primária: http://resultados.elpais.com/elecciones/2011/generales/congreso/

A coligação Unidos Podemos e as suas parcerias com forças políticas de caráter autonómico ou ecologista apresentaram uma quebra significativa e, de modo mais preciso, apresentaram em 2016 quebras nítidas face a dezembro de 2015 na Catalunha e Galiza, bem como na Comunidade Valenciana, aqui apesar da junção da IU, em junho; e ainda, globalmente, apesar das novas frentes políticas no País Basco, em Navarra, nas Baleares e nas Astúrias.

Observa-se um não reconhecimento das virtudes da coligação Unidos Podemos, sobretudo no seu propósito de esvaziamento do PSOE com a passagem de Unidos Podemos para o segundo posto no ranking partidário. O PSOE foi um grande beneficiado com as perdas da coligação chefiada por Iglésias e mesmo assim perdeu votos, com uma distribuição geograficamente bem marcada, como assinalada pelo jornal El Diário[4]

Si se suma la población de las 10 mayores ciudades españolas y se comparan los resultados entre el 20D y el 26J, las fuerzas de Unidos Podemos han perdido 4 puntos. Solo han perdido 1 punto con respecto al 20D allí donde ya eran más débiles: en el ámbito rural.

Las fuerzas de Unidos Podemos y sus confluencias pierden 250.000 votos en las 10 ciudades más pobladas, el doble que en los pequeños pueblos, donde pierden 150.000 votos con respecto al 20D.”

Estes resultados revelam as insuficiências dos projetos sociais-democratas defendidos pelo PSOE e por Unidos Podemos em convencer os povos do estado espanhol sobre as suas capacidades e vontades de resolver os problemas agudos que o país tem e que podem conduzir a sanções decretadas pelos totalitários da Comissão Europeia e do Eurogrupo. Daí resulta o recrudescimento da abstenção, o reforço da confiança no PP, como expressão de medo que faz esquecer as malfeitorias e a corrupção que caraterizam a direita tradicional; e ainda uma estagnação ou redução do voto a favor de partidos defensores de maior autonomia, em todas as suas formulações.

A análise pode completar-se, para o caso de Podemos e IU, para o período 2011/16, para as autonomias mais povoadas onde não houve coligações formais envolvendo aqueles partidos políticos e onde o voto regionalista tem pouca expressão.
                                                                                                   1000

2011
2015
2016
Comun. Madrid
271
939
730
Podemos
-
750
730
IU
271
189
Andaluzia
360
1015
787
Podemos
-
749
787
IU
360
256
                                 Fonte primária:
http://resultados.elpais.com/elecciones/2011/generales/congreso/

O programa apresentado pelo Unidos Podemos, nada tem de progressista – há um século que a social-democracia se dedica à gestão do capital; nada tem que efetivamente contribua para avanços democráticos consolidados, nem toca no caráter capitalista e excludente dos regimes vigentes nos países da UE.

  • Mantém o Estado (sobretudo o central) como a pedra angular por onde passa tudo o que afecta a vida das pessoas, repleto de medidas específicas que nada alteram a substância do poder capitalista, nem os poderes da classe política;
  • Mantém a vida política centrada nos partidos políticos, como instituições verticais, autoritárias, não-democráticas e excludentes que atribuem às suas próprias oligarquias o direito irrevogável de decidir sobre os destinos coletivos. Ao pretender-se como um partido inter-classista, onde caberá toda a gente, bastando para tal ser contra a casta, abre caminho a todas as derivas reacionárias e populistas; 

  • A concepção da casta, polariza a luta na corrupção, no compadrio e visa moralizar o capitalismo, cobrar um imposto (sempre adiado) sobre as movimentações financeiras e que, naturalmente, já fez esquecer os Panama Papers. Não tem em conta que o funcionamento das instituições, dos estados nacionais ou do super-estado com sede em Bruxelas, se encarrega facilmente de promover um clone do último corrupto caído em desgraça;
  • A dívida pública é aceite como globalmente legítima a submeter apenas a uma reestruturação que não prejudique o sistema financeiro global, que utiliza a dívida para a constituição de uma renda perpétua a pagar pelos povos. Foram esquecidos, por exemplo o repúdio da dívida pública odiosa[5] ou o direito de autodeterminação, defendidos nas eleições para o Parlamento Europeu;
  • A NATO (OTAN), a presença de bases militares (algumas com armas nucleares armazenadas), a própria existência de forças armadas não é posta em causa, cingindo-se a coligação a uma defesa dos direitos das mulheres no estreito mundo do machismo militarista.
3 - Como se constroem as alternativas[6]

Será conveniente e indispensável pensar-se – uma vez mais - se a ligação dos movimentos sociais às estruturas políticas do Estado traz avanços significativos na libertação dos povos das santas alianças entre o poder económico e as classes políticas que o servem. Ou se a sua contribuição para a legitimação de encenações democráticas é algo mais do que perpetuar o engano de que haverá soluções saídas das mediatizadas disputas entre bandos de reacionários e corruptos, em ligação promíscua com o capital financeiro internacional, com a banca nacional e que trouxe consigo o desemprego, os despejos, a austeridade e o deficit.

Como se disse atrás, essa promiscuidade entre os movimentos sociais e um projeto vagamente social-democrata, protagonizada por um autocrata soberbo que pretende chegar ao poder servindo-se do apoio popular, nada traz de positivo. Visa canalizar a contestação para o campo estreito do circo parlamentar, para as decisões tomadas sem que as pessoas sejam consultadas e sem possibilidades de contestação, por mais lesivas que possam ser essas decisões. 

A afirmação de uma movimentação popular autónoma, passa por se clarificar, a todo o momento, a diferença face aos placebos de esquerda, da ala esquerda dos regimes reacionários que nos oprimem e roubam.

Nos últimos anos, nos países do Sul da Europa acossados pela crise financeira, pelo desemprego e pela austeridade, desenharam-se três casos diferentes de evolução nas esquerdas dos regimes políticos, onde o espírito conservador se evidencia.

  • Na Grécia, como referimos acima Tsipras e o Syriza conseguiram eliminar o velho Pasok e procuram cimentar-se no poder como sociais-democratas ao serviço dos interesses do capital financeiro, através da aceitação de uma dívida pública crescente e impagável, mantendo-se o KKE num gueto ou como peça de museu; 
  • Em Portugal, o PS capturou os partidos da “esquerda” para o apoio de uma política mitigada de cumprimento das decisões do diretório da UE; é previsível uma incorporação do BE no PS[7], uma vez que o partido não tem estruturas locais ou sectoriais e não pode copiar o modelo do Podemos de procurar uma simbiose com os movimentos sociais, frágeis no país; em grande parte, porque a movimentação social em Portugal foi objeto de destruição por parte do próprio BE em 2011/13. Finalmente, o PCP acantonado nos seus redutos autárquicos e sindicais, mantém-se fiel às suas propostas habituais de “política patriótica de esquerda”, de abandono do euro e da UE, como atualização da “revolução democrática e nacional” dos tempos do salazarismo;
  • Em Espanha, observa-se um fracasso do Podemos enquanto projeto de substituição do PSOE, como partido do rotativismo com o PP; em contrapartida, tenderá a subalternizar a IU, apontando para os seus habituais votantes, lógicas de voto útil no Podemos.
O fortalecimento dos movimentos sociais passa por redes rizomáticas, por práticas e decisões democráticas, nos âmbitos regionais e nacionais, com o seu alargamento a níveis internacionais, sobretudo no âmbito ibérico, como forma de combater os governos e as classes políticas nacionais e comunitárias corruptas e ainda, de travar as derivas nacionalistas fascistas ou de “esquerda”.

Em termos muito sumários, esse conjunto de redes poderá constituir-se com base em pontos estratégicos, como os seguintes:

    União dos povos da Europa, sem fronteiras, nem taras isolacionistas, patriotismos e suas degenerescências xenófobas;
    Europa vocacionada para a satisfação das necessidades dos seus povos e não para o “mercado”;
    Europa baseada nas solidariedades e não na competição, nas hierarquias ou, nas várias formas que caraterizam o patriarcado;
    Decisões sobre as necessidades coletivas tomadas pelos seus diretos interessados e não emanadas de diretórios partidários ou aparelhos estatais;
    Prioridade à sustentabilidade ambiental e à salvaguarda dos recursos do planeta;
    Aproveitamento integral e criativo das novas tecnologias para reduzir para todos o tempo dedicado à produção de bens e serviços.

E considerar como aspetos táticos:

    Suspensão do pagamento da dívida pública, com repúdio de parte substancial da mesma;
  Destruição das redes e práticas que hoje servem o capital financeiro, as multinacionais e a acumulação capitalista;
     Fim da política de empobrecimento e forte redistribuição do rendimento;
   Instauração de direitos fundamentais nas áreas do trabalho, saúde, educação, segurança social… incluindo aí práticas democráticas e de autogestão;
  Início de processos de revisão constitucional que estabeleçam a tomada democrática de decisões, sem cargas burocráticas ou intermediários institucionais;
    Estabelecimento de uma relação prioritária e aprofundada entre os povos ibéricos.


Este e outros textos em: 




[1] Designamos por taxa de desafeição o seguinte cálculo: (votos brancos+votos nulos+abstenções) x 100 /total dos recenseados
[5] Na primeira apresentação do Podemos em Lisboa, no jardim de S. Pedro de Alcântara, Teresa Rodriguez afirmou o repúdio da dívida pública, para grande incómodo dos chefes do Bloco de Esquerda presentes, sempre prontos a mostrar os bons exemplos vindos do exterior, seja atualmente do Podemos, seja do (agora) repudiado Syriza, seja há mais tempo, do Die Linke. Como é sabido, Iglésias retirou notoriedade a Teresa, incómoda para quem queria conquistar o eleitorado do PSOE

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