terça-feira, 4 de junho de 2013

Apoio alemão a empresas portuguesas. Recordemos a Treuhand

Fomos surpreendidos nos últimos dias com a notícia de que o KfW[1]  – banco público alemão– iria financiar as pequenas e médias empresas portuguesas, espanholas e gregas em dificuldades financeiras.

A boa nova, como aliás todas as boas notícias que aparecem em Portugal, foi transmitida pelo Vítor Gaspar[2], depois de instruido pelo seu chefe, Wolfgang Schauble, ao seu lado, na divulgação da intenção alemã de prestar ajuda a Portugal. Schauble é ministro alemão das Finanças e por acaso do destino, também o presidente do conselho de supervisão do KfW. Enfim, dois em um, numa demonstração de produtividade e de poupança de recursos, para os preguiçosos e gastadores meridionais europeus.

Gaspar disse, na ocasião, as imbecilidades de um lambe-botas pois, a alternativa seria proferir aldrabices com ar sério. Como é habitual, Gaspar recorda-nos que a Alemanha quer ajudar os países do Sul a criar emprego e afastar a má imagem do cruel patrão teutónico, usando para o efeito a tradição benemérita do KfW. E, bajulador, agradeceu, na presença do "bom amigo", "o apoio e amizade do governo alemão", esse “activo precioso”… O cretino, na sua formação maniqueista de mercado, só conhece activos e passivos. Nós, somos certamente passivos a laminar.

Infelizmente, não conseguimos esquecer que o mesmo Schauble se encarniça sempre pelo cumprimento da agenda da troika que, em nada ajuda ou promove a melhoria da vida dos povos do Sul. Schauble, não sendo maneta tem duas mãos, uma que diz que dá e a outra que tira. Segundo a revista Der Spiegel, parece que Merkel está preocupada com a sua imagem junto dos povos do Sul e no que isso pode prejudicar as exportações alemãs… Deutschland uber alles!

Aparentemente, o KfW irá financiar os falidos bancos portugueses com uma parte dos € 10000 M a disponibilizar aos PIIGS, - também conhecidos por GIPSI (exala desta última designação um cheiro racista…) - para que o dinheiro chegue às descapitalizadas PME lusas. Claro que os estimáveis banqueiros saberão ganhar uma comissão.

Em Espanha o dinheiro será transferido para o Instituto de Crédito Oficial (ICO), que o colocará à disposição das empresas. Para além disso o KfW participaria com uns € 1200 M num fundo de capitais de risco[3] . Aqui, aparentemente sem a interferência dos bancos.

Todos sabemos que quem paga escolhe a música e o local do concerto. Isto é, serão escolhidas judiciosamente as empresas a financiar de acordo com os interesses estratégicos alemães, não sendo de estranhar que sejam empresas com potencial exportador, criador de sinergias para a Alemanha ou, importadoras de bens alemães para o parco mercado global português. E se essas empresas vierem a ser compradas por capitais alemães ninguém certamente estranhará; uma das vantagens potenciais desse “takeover” seria a estabilização de algum emprego e o pagamento tempestivo das contribuições para a Segurança Social a que os empresários lusos se furtam na primeira dificuldade.


Quem se lembra da Treuhand?

A propósito desta operação que se estará a configurar com mais detalhes, surge inevitavelmente na memória o que se passou com a Treuhand, nos anos 90, após a absorção da antiga Alemanha de Leste (RDA) pela Alemanha Ocidental (RFA), num processo designado por “reunificação”.

A Treuhand foi uma agência pública criada em junho de 1990 com a finalidade de privatizar as empresas estatais do Leste (Volkseigene Betriebe (VEBs). Num processo relativamente rápido, a agência reestruturou e vendeu 8500 empresas com um volume inicial de 4M de trabalhadores mas que deixou 2.5 M no desemprego, ainda hoje mais elevado no Leste do que no Ocidente do país. O processo foi de tal forma violento que o primeiro presidente da Treuhand foi assassinado por um desconhecido após seis meses no cargo.

A Treuhand apossou-se também de 2.4 M de hectares de terras agrícolas e florestais, dos bens da sinistra pide local - a Stasi - e ainda de parte substancial da propriedade das forças armadas, das habitações pertencentes ao Estado e da rede de farmácias.

O negócio surgia de tal forma prometedor que a Treuhand foi criada em junho de 1990 e o tratado da reunificação apenas em 3 de outubro, cerca de quatro meses depois. Depois desta última data a Treuhand ainda se apossou dos bens do SED o partido-guia e dos seus satélites, bem como das organizações de massas (sindicatos, órgãos juvenis, etc).

A operação de saque e privatização foi dada por terminada em 1994 com um prejuizo contabilizado na Treuhand de 260/270000 M de marcos, não se conhecendo queixas por parte dos compradores. Como ainda restavam muitos bens não vendidos, à Treuhand sucederam três agências, para gerir o que sobrava das empresas públicas, do imobiliário e dos terrenos agrícolas ou florestais e que prosseguiram o seu afã privatizador. Este processo de compra de bens públicos no Leste deverá relacionar-se com a estagnação do investimento nacional no exterior (média de $ 19398 M em 1991/94, contra $ 55118 M em 1995/98[4]).

Sabemos do processo de drenagam financeira dos países do Sul para o sistema financeiro global, mormente para o sediado no Norte da Europa [5]. Ora, sabendo-se da histórica descapitalização das empresas, que os bancos portugueses não têm margem para a assunção de riscos financeiros, há condições para os capitais acumulados na Europa do Norte encontrarem aplicações interessantes para o reforço da complementaridade subalterna entre a economia portuguesa e, neste caso concreto, a alemã. Por outro lado, a tendência para uma forte baixa dos salários e restantes custos laborais torna também apetecível algum investimento dentro da zona euro, uma vez que esses menores custos associados a distâncias mais curtas de transporte, pode encaminhar para Portugal algum investimento que, antes da crise e dos memorandos estariam melhor colocados em outras paragens. E, para mais, utilizam muito bem os mainatos lusos (Cavaco, Passos, Gaspar, Seguro…) dedicados subscritores dos memorandos da troika, encomendados pela estratégia alemã.





[1]  O KfW é um descendente do velho Kreditanstalt für Wiederaufbau instituição criada em 1948 para aplicar o Plano Marshall e promover a melhoria sustentável das condições de vida. O KfW recolhe fundos no mercado financeiro contra a entrega de títulos garantidos pelo Estado federal.

Só cerca de 10% dos empréstimos concedidos se destinam para o exterior, através da subsidiária KfW IPEX Bank GmbH. Os empréstimos que concede cobram juros mais baixos que os vigentes no mercado e os prazos são também mais largos, sem concorrer com os bancos privados. O KfW é um género de zelador dos interesses globais do capital alemão e um facilitador da penetração das grandes empresas germânicas no exterior.

[4]  Fonte: CNUCED/UNCTAD
[5]   http://grazia-tanta.blogspot.pt/2013/03/a-instrucao-e-o-modelo-economico-para-o.html

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