quinta-feira, 18 de julho de 2019

TEXTOS DE CIRCUNSTÂNCIA - 4



1 - A ordem medieval inscrita nas ordens profissionais
2 - Um país de merda, com uma justiça de merda
3 - Um grande negócio num país de merda – a Fertagus
4 – Costa a brincar aos comboios

+++++++ /////\\\\\+++++++

1 - A ordem medieval inscrita nas ordens profissionais


Bem no seio da estreiteza intelectual e política que se vive na paróquia lusa estão as ORDENS PROFISSIONAIS, uma emanação corporativa de tempos medievais, replicada pelo actual regime pós-fascista a antigas e novas profissões. 

Se um Estado reconhece um diploma emanado das suas próprias instituições (temos mais dúvidas em relação aos emitidos por algumas instituições privadas de venda de diplomas), o diplomado deveria ficar livre de tutelas corporativas de grupos mais ou menos mafiosos de profissionais encartados que se arrogam ao direito de condicionar a entrada de jovens na profissão que escolheram e, depois de tecnicamente tomados como habilitados a tal.
 
As castas ou gangs que dominam as Ordens equiparam-se aos medievais mestres das artes e ofícios que decidiam o enquadramento na profissão e avaliavam as qualidades dos aprendizes do ofício bem como a sua progressão. Na Idade Média as corporações eram autónomas do aparelho de Estado, pela simples razão que aquele era embrionário. Hoje, ao contrário dos tempos medievos, o Estado intervém nas Ordens da pior forma, validando condicionamentos no acesso ao exercício da profissão, para que os barões da mesma tenham um vasto mercado. 

As Ordens impõem as regras, os percursos e todos os passos para aceitarem um novo membro.

Daí surgem as obrigações de estágios, organizados pela Ordem e pagos pelos estagiários (ou melhor, pelas suas famílias), depois de terem arcado com as propinas de um ensino privado ou público. No caso de uma estagiária de advocacia que conhecemos, o seu patrono – dono de um conceituado escritório de advogados - no âmbito de um caso que entregara à estagiária para resolver, decidiu que ela deveria deslocar-se a uma cidade do norte do país, com as despesas … a seu cargo… mesmo que ela não auferisse um cêntimo durante o estágio. 

No caso dos psicólogos, os recém-licenciados começam a sua relação com a Ordem com a inscrição e o pagamento de quota mensal, mesmo que não tenham qualquer rendimento próprio. Depois, têm de encontrar onde possam estagiar – um estágio remunerado – o que no modelo neoliberal de redução constante dos direitos no âmbito do trabalho, não é coisa fácil. E ainda são obrigados a frequentar cursos de formação, ministrados pela Ordem e pagos, por quem ainda não tem o direito de trabalhar na sua profissão, sem o aval dos oligarcas. 

Como a psicologia é desprezada pelos governos, muito mais próximos da classe médica (psiquiatras, neste caso, que tendem a resolver as situações com antidepressivos ou com fármacos à base de lítio), Portugal está nos primeiros lugares na parcela da população com problemas de ordem psíquica – 22% (contra 9% em Espanha). 

Espanta, como num cenário político e económico tão neoliberal, onde se sublinham as delícias do empreendedorismo, da competitividade, do auto-emprego, da empregabilidade, existam Ordens de onde exala um fedor medieval e oligárquico, cuja função é hierarquizar os profissionais entre ricos, pobres e desempregados e obter o seu quinhão na partilha dos impostos

Salazar, nunca conseguiu levar até ao fim o seu projeto de instaurar o modelo de “Estado Corporativo” gerado na Itália fascista; e é interessante verificar a criatividade do regime pós-fascista (leia-se PS/PSD) no aprofundamento da ordem corporativa a muitas mais profissões do que Salazar conseguiu. 

Nesse contexto, existe uma coisa parasitária chamada CNOP – Conselho Nacional das Ordens Profissionais - que afirma ter por objetivo “promover a autorregulação e a descentralização administrativa, com respeito pelos princípios da harmonização e da transparência”; que visa “a autorregulação de profissões cujo exercício exige independência técnica”; e que as Ordens não podem exercer funções sindicais (à atenção de Ana Rita Cavaco…). 

Vamos de seguida enumerar as profissões regidas por Ordens por ordem alfabética, para que tudo fique na devida…ordem: arquitectos, biólogos, contabilistas certificados, despachantes oficiais, economistas, enfermeiros, engenheiros, farmacêuticos, médicos, médicos dentistas, médicos veterinários, notários, nutricionistas, psicólogos, revisores oficiais de contas e solicitadores e agentes de execução. Falta a fabulosa Ordem dos advogados que não se mistura com as anteriores, eventualmente requerendo uma CNOP… só para si.

A própria designação de bastonário para a figura realenga do chefe da Ordem tem um cunho medieval, pois designava o portador do bastão de uma confraria numa procissão; ou um apetrecho também usado por marechais… onde existam. Se um bastão tiver uma curva na ponta passa a chamar-se báculo e é usado por outra figura de autoridade com odor medieval – um bispo. Não confundir báculo com… um bácoro que por vezes empunha um bastão!

Para replicarem totalmente a prática das ordens profissionais da Idade Média, falta-lhes (?) arranjarem um santo padroeiro e terem fundos para apoio social das famílias com problemas. E mais, porque não ostentarem os seus pendões e bandeiras nas marchas ditas populares de Santo António? Os turistas deveriam achar very interesting a rivalidade entre a marcha dos advogados, de negro fardados e, a dos médicos de branco ataviados, com os respetivos bastonários à frente, fazendo piruetas com os bastões. Wonderful!

A mesma lógica corporativa vem-se verificando com a criação de sindicatos como pequenos grupos profissionais fechados, com escasso número de elementos, com poder de chantagem sobre os governos e a sociedade e, desligados de qualquer integração com outros trabalhadores. Pequenas mafias e nada mais. Cada um é uma Cosa Nostra.

Neste contexto corporativo, é muito sentida a falta de Ordens para arrumadores de carros, condutores da Uber, canalizadores, eletricistas, reparadores das linhas telefónicas, pedreiros, vidraceiros, sem esquecer a Ordem dos Abrolhos para os membros da classe política…É injusta a discriminação!

2 - Um  país de merda, com uma justiça de merda

Nesse país (que não referimos para não sermos processados) foi descoberto, imagine-se, um juiz de merda (cujo nome não dizemos para não sermos processados). E cuja verdadeira vocação melhor teria sido a instrutiva leitura, a grupos de imbecis, de um compêndio de sacras idiotices, pelo menos duas vezes milenar.

Claro que a coisa não ficou por aí porque o dito juiz, frustrado nessa sua vocação, decidiu dar a bênção aos energúmenos que maltratam as mulheres; e isso, aliás, tem toda a coerência, dado que as coisas se passam num país de merda, com uma justiça de merda onde um juiz que não seja de merda, destoa e se arrisca a ser sancionado. 
 
No tal velho compêndio, as mulheres são tratadas abaixo de cão, como se diz no vernáculo … com o nosso pedido de indulgência pela referência ao canídeo perante os circunceliões que gostam muito dos animais, sobretudo se forem… de raça e encerrados todo o dia num terceiro-esquerdo, à espera de uma saída para largar a bosta. Adiante.

Esse tratamento decorre, apesar do esforço de muitos séculos de elevadas discussões teológicas, até que pelo século XVIII, os estudiosos do compêndio descobriram que, afinal, as mulheres também tinham alma! Há vários milénios a alma só havia sido outorgada, no compêndio, aos machos, o que não deve espantar ninguém pois o compêndio foi inventado em masculinas meninges. Para complicar e a despeito de tanto estudo teológico, essa coisa da alma, afinal, não existe em homem ou mulher, cão ou periquito, magnólia ou couve-lombarda. 

Embora se saiba que a alma não é coisa alguma que fique por aí a circular depois da morte do seu dono - para se livrar do enterro ou do fogo da cremação - o tal juiz de merda continua a basear-se no vetusto e divertido compêndio, despido dessas modernices que elevam as mulheres a ter prerrogativa masculina, como essa de ter alma. Imagine-se! E, zás, manda lavrar em acta.

“Se uma mulher é espancada é porque o merece dado que… muito justamente não tem alma, nem o discernimento e a propensão dos machos para a liderança. O lugar da mulher é abaixo e debaixo do homem”, diz o pouco imaginoso juiz, sentenciando a espancada fêmea ao sacrifício inerente à sua condição de subalterna, de saco de boxe, libertador dos maus humores do viril companheiro. 

E, sela a sentença com uma martelada na mesa que encima o cenário tribunaleiro onde também costuma figurar uma estátua de mulher de olhos vendados com uma espada na mão; nos tempos que correm, melhor seria tirarem-lhe a venda e deixaram-na com um telemóvel com jogos, muitos e cretinos, para se entreter, já que não é possível lavar loiça na sala de audiências embora haja uma bandeira que serviria para a secagem.

Entretanto, porque os serviços de advocacia contribuem decididamente para o aumento do PIB, o tal juiz de merda (que não nomeamos para não sermos processados) contrata um advogado de merda para tratar um assunto que é de merda e tem por cenário, um país de merda (que não referimos para não sermos processado) e onde vigora uma justiça de merda.

(texto escrito em momento crítico, na casa de banho)

3 - Um grande negócio num país de merda – a Fertagus

A Fertagus é uma mini-empresa ferroviária pertencente ao grupo Barraqueiro que iniciou atividade em 1999, ligando Lisboa ao Fogueteiro, e de seguida estendida até Coina antes de, em 2005, chegar a Setúbal. A Fertagus foi a beneficiária da subtração de um novo e suculento tráfego que deveria ter cabido à CP, como empresa única (e pública) de transporte ferroviário, até então; dessa subtração resultaram evidentes benefícios para o grupo Barraqueiro, com não menos evidentes e nefastos efeitos nas contas da CP cujo sub-investimento é crónico e com acrescidos custos para o erário público, que vai arcando com os seus deficits, fruto da desastrosa gestão dos sucessivos gangs governamentais. 

Trata-se de mais um caso do tipo parceria público-privada que o Tribunal de Contas considerou …um caso de sucesso único na Europa; portanto, com menos mediatismo do que as parcerias que alimentam parasitas como as pestilências que empestam as área da saúde ou das autoestradas, as escolas privadas com contratos com o Estado, etc. 
 
Desde o início se tornou escandalosa a diferença nas tarifas autorizadas à Fertagus, quando comparadas com as cobradas pela CP em tráfego urbano/suburbano para distâncias equiparadas. Essa diferenciação deverá ter correspondido a políticas emanadas dos gangs governamentais de… desarmonização regional, pois resultaram na oneração das populações da Margem Sul. O favorecimento é tal que um comboio da CP vindo do Sul para Lisboa, por exemplo, não pode parar e transportar pessoas para as estações intermédias entre o Pinhal Novo e o Pragal; os passageiros terão de sair no Pinhal Novo e comprar um bilhete da Fertagus, porque naquele troço da linha não pode haver concorrência; o funcionamento do sacrossanto “mercado” foi esquecido.

No entanto a adjudicação é dada como tendo resultado na "proposta mais vantajosa para o interesse público, definido pelos menores preços para os clientes e menores encargos e riscos para o estado, desde que garantido um serviço de transporte seguro e de qualidade". O desaforo das mafias governamentais é tanto quanto a mansidão das populações.

Todos os gangs das duas últimas décadas são responsáveis pela situação. Primeiro, Guterres com os seus ministros Cravinho, Jorge Coelho e Ferro Rodrigues; seguiu-se uma dupla de luxo, Santana/Mexia e, mais recentemente, a intervenção do governo Sócrates onde brilharam Teixeira dos Santos e Mário Lino. Os gangs seguintes garantiram a continuidade da situação.

O momento mais delicioso surgiu, em 2005, com o alargamento da circulação até Setúbal. Sabendo-se que a Fertagus não tinha composições que permitissem a continuidade das frequências nesse percurso expandido, a CP aprestou-se a alugar carruagens para que o serviço se mantivesse, proposta recusada pela referida dupla de luxo Santana/Mexia, que preferiu alargar os tempos de passagem de comboios.

Presentemente, fruto de um cuidado planeamento (?), António Costa e Pedro Marques – o criminoso introdutor do fator de sustentabilidade – lançaram um novo regime de passes sociais - cujo lançamento peca por muito tardio - e com um tempo de funcionamento delimitado. Como é óbvio, daí surgiu um aumento da utilização do transporte público e a Fertagus, sempre muito pouco dada ao investimento decidiu reduzir o número de lugares sentados, num contexto em que, hoje, nas horas de ponta, as viagens se fazem com grande número de passageiros de pé. 

Não se ficam por aqui os favores do regime ao grupo Barraqueiro. Certamente, por intervenção divina, alguém deve ter descoberto uma vocação do grupo para o transporte aéreo, dando-lhe uma participação qualificada na TAP; e, antes disso, com a atribuição da linha de metro de superfície, na Margem sul do Tejo. Decididamente, o grupo Barraqueiro é recebido com passadeira vermelha nos antros da corrupção que enformam o regime pós-fascista.

4 – Costa a brincar aos comboios

Em pompa pré-eleitoral António Costa promete muitos investimentos na ferrovia, numa lógica provinciana, da sua distribuição por todo o território. Só faltou falar de uma linha férrea entre … Ponta Delgada e Angra do Heroísmo...

A modernização – palavra mágica de todos os gangs governamentais - cai sempre bem na pastosa plateia dos telejornais. Vejamos alguns exemplos.

A internacionalização tem de estar sempre nos lábios dos mandarins – é um dever de ofício. E assim, surge o projeto turístico da linha do Douro ao qual falta o tipicismo e a inovação de colocarem …os turistas a carregar cestos de uvas das encostas do rio para o comboio. Depois, surgem na grandiosa internacionalização do Costa, os projetos de ligação entre os portos de Sines e Leixões, respetivamente, a terras de Castela e da Galiza e que já têm barbas brancas; sempre num plano de grande preocupação ambiental[1] – coisa que se tornou obrigatório nos discursos da classe política, dos mais à direita aos menos à direita. Essa preocupação ambiental sobressai, quando a par dos novos passes para o transporte urbano e suburbano - um tal Medina, o grande gentrificador de Lisboa, aumenta a capacidade de estacionamento em Lisboa e… as receitas da sua EMEL.

Costa falou na aposta na ferrovia, de grandes projetos para o sec XXI enunciando melhorias que já deveriam ter sido efetuadas há 30 ou 40 anos! Como dono e senhor da paróquia sabe que vai convencer o povo com menos instrução da Europa através dos telejornais, dos plumitivos de serviço e beneficiar da vacuidade dos grilos falantes da AR. 

Nos últimos anos o PS/PSD depois do encerramento de milhares de quilómetros de linhas, na sequência da desertificação da maior parte do território; depois do encolhimento das oficinas de manutenção e reparação do material em contrassenso com a acumulação de equipamento para reparação; da privatização e entrega a uma multinacional do negócio da carga acompanhado de muito material circulante; e das carências que promovem brechas no cumprimento de carreiras, horários e na qualidade do transporte, teve como única aposta o abandono doa via ferroviária. 

Qualquer plano sério para o século XXI (pese embora o atraso) deveria contemplar linhas TGV para Madrid e Europa, em substituição das velhas carruagens que a Renfe coloca naqueles troços internacionais; recorde-se que o AVE entre Madrid e Sevilha foi inaugurado há 28 anos! Coisa que Costa não referiu perante o silêncio dos seus aliados, que continuam focados nas pequenas coisas, sem pingo de visão estratégica.

Sendo Portugal claramente periférico no âmbito europeu, maior é a premência para encurtar as distâncias a percorrer para chegar à Europa transpirenaica ou mesmo à maior parte do território do estado espanhol … para ganhar competitividade, não é assim que se diz?. Porém, um TGV tem um adversário de peso com influência nos gangs governamentais PS/PSD – a Vinci que explora os aeroportos; mesmo que a via ferroviária seja incomparavelmente menos nociva para o ambiente.

Em consonância com o que atrás se disse, a salvação da pátria passará pelo aeroporto do Montijo susceptível do aumento dos negócios da Vinci na área de Lisboa, admitindo que os turistas continuarão a inundar as terras do burgermeister Medina e que o binómio Ota/Montijo tenha viabilidade assegurada.

A Vinci também está atenta à continuidade dos voos Lisboa/Porto e vice-versa que seriam mais confortável e ecologicamente efetuados por um comboio de velocidade elevada, próprio para uma distância de 300 km que separa as duas cidades. E aí a Vinci tem como aliados os protegidos operadores de autoestradas, com farta influência nos gangs governamentais.

Na falta de empenho na alta velocidade haverá também, na classe política, algo do bacoco nacionalismo que pretende manter as distâncias com a Espanha e minimizar as dependências daquela, preferindo-se assim um tipo de bypass, com a via aérea e a pouca atração de ligações internacionais terrestres[2]. Esse nacionalismo é tanto mais bacoco quando se sabe que os capitais espanhóis têm uma relevância determinante na indústria e no setor financeiro português e que a Espanha é, de longe, o principal parceiro comercial de Portugal. 

Curiosamente o TGV não está na agenda dos governos portugueses mas já se concretizou em Marrocos, no percurso Casablanca/Tanger.

          Política ferroviária em Portugal                    Política ferroviária no século XXI


    Este e outros textos em:

https://pt.scribd.com/uploads
           



[1]  Para azar dos saloios, a neutralidade carbónica fixada para 2050 acaba por ser antecipada para 2030 pela nova presidente da CE, Ursula von del Leyen
[2]  A distância por caminho de ferro entre Lisboa e Madrid é de 10/12.30 horas, o que significará, na melhor das hipóteses uma estonteante velocidade de 60 km/h, ou de 13/15 h de Lisboa a Irun (cerca de 900 km)

sábado, 29 de junho de 2019

Um perigoso circo ali, ao lado, no Médio Oriente


O perigo maior é que os estados decadentes, tendem a não aceitar essa decadência e provocam desastres, não optando preferencialmente pelo hara-kiri.

Índice

Apresentação dos palhaços
Um debicar errante, caótico
Golfo Pérsico - muitos agressores para um alvo
Onde estão as ameaças?

========== ##### ==========

Apresentação dos palhaços

Há mais de 2000 anos formou-se o primeiro triunvirato em Roma, com Júlio César, Pompeu (o Grande) e um tal Crasso que tinha como fixação conquistar o império parto acabando por morrer nessa guerra. Roma nunca conseguiu essa conquista, sendo o culto imperador Adriano a estabelecer a paz, muito mais tarde, depois de ter feito uma análise custo-benefício dessa contínua guerra. 

No decadente império americano de hoje também domina um triunvirato[1], de pechisbeque, com um outro Pompeu (grande e gordo), um Bolton que cumpre bem o papel de Crasso, pela insensatez que o fez estar na prateleira muitos anos e, deixando o pior para o fim, Trump está a anos-luz de ser um Júlio César. O perigo é que os estados decadentes, tendem a não aceitar essa decadência e provocam desastres, não optando preferencialmente pelo hara-kiri.


Um debicar errante, caótico

Nos altos e baixos da já crónica crise política no Golfo Pérsico, há vários campos em confronto, com menos ou mais moderação política, com vários níveis de integração e de contributos para essa crise. O Médio Oriente está agora na montra, depois das sanções à China e de uma tentativa de venda em saldo de um tal Guaidó, numa ação em que a uma ameaça qualquer se seguirá uma qualquer ameaça. Um percevejo, saltita sedento de sangue.

Os EUA constituem, apesar da sua distância geográfica e cultural face aos povos do Médio Oriente, a única presença[2] massiva, a peça mais relevante no xadrez político e, sobretudo militar, global, numa atuação frenética iniciada em 1990. 

Isso resulta em termos históricos da tara salvítica dos EUA quando se entenderam livres e acima das barafundas europeias do seculo XVIII que, no entanto, não compreendia qualquer respeito pelos nativos americanos, chacinados ou, pelos negros, escravizados. Daí resulta parcialmente o facto de os EUA de hoje continuarem a assumir um alegado direito de intervir nos problemas que existem ou vão surgindo na região do Golfo, como no Mar da China, preparando-se mesmo para colocar uma base militar num santuário da vida selvagem chamado Ilhas Galápagos, para prevenir que as iguanas possam prejudicar os interesses dos EUA e do “mundo livre”

Na sequência da II Guerra Mundial beneficiaram, numa fase inicial, do fim dos impérios coloniais europeus, do recuo estratégico das principais potências europeias, da implantação do modelo neoliberal, do desmembramento do Bloco de Leste, das tecnologias que desenvolveram a globalização dos mercados, mormente financeiros, bem como da tradicional subalternidade do “quintal” latino-americano, que hoje se vem reconstituindo. Como revezes, refira-se a derrota no Vietnam, como no resto da Indochina, a humilhação iraniana em 1979, o surgimento em força da China, como potência desafiante, a maior autonomia dos países asiáticos, o caos provocado pelas intervenções militares no Médio Oriente ou no Mediterrâneo, para além do retorno da Rússia, como potência também desafiante, para mais numa estreita relação estratégica com a China; e que para azar do messianismo dos EUA, veio coincidir com o descalabro do sistema financeiro, em 2008, baseado em pirâmides de Ponzi. 

Como símbolos adequados dessa decadência podem considerar-se G W Bush ou Trump - cujas riquezas materiais contrastam com a impreparação intelectual, como se tem visto recentemente, na sucessão de ameaças e sorrisos de Trump, face à Coreia do Norte, à China, à UE, à Venezuela, ao México... às iguanas, como se disse atrás… Essa procura de retoma de hegemonia, é frequentemente desastrada, cada vez mais difícil e, crescentemente contestada, baseando-se em certos vetores:

·        O controlo político da produção e distribuição de hidrocarbonetos no Médio Oriente e na Venezuela, cujas transações, maioritariamente em dólares, constituem uma forma de manutenção de uma elevada dívida externa por parte dos EUA e dar viabilidade à exportação de petróleo de xisto made in USA;

·        O Médio Oriente, mormente as monarquias árabes são, com os países da NATO, os grandes compradores da produção da indústria de armamento dos EUA; uma “boa” guerra ou uma mera ameaça de guerra, incentiva os sultões a encomendar armas[3];

·        A tentativa de afetar ou condicionar o abastecimento de hidrocarbonetos à China, à Índia e todo o Extremo Oriente ou, boicotar a importação de petróleo venezuelano, congelando capitais desse país ou boicotando o seu abastecimento de bens essenciais à sua população;

·        A impotência face à integração energética euroasiática, bem como face ao canal de integração comercial com o mesmo âmbito geográfico (e incluindo a África), conhecido como Rota da Seda. A queda dos regimes latino-americanos de “esquerda” surge como uma forma dos EUA compensarem dificuldades em outras geografias e, restabelecerem a sua ordem no “quintal”.

Golfo Pérsico - muitos agressores para um alvo

Voltando ao Médio Oriente, os EUA ostentam as suas dificuldades de afirmação estratégica, depois dos desaires do Afeganistão, do Iraque, da Síria, do impasse iemenita e de assistirem à Turquia – o segundo mais populoso membro da NATO – comprar armas à rival Rússia. Neste contexto e, açulados pela sua fortaleza sionista, em estado de pânico, os EUA intentam atacar o país mais populoso da região, o Irão – uma das três mais antigas e consolidadas entidades políticas do planeta, em conjunto com o Egipto e a China.

No cenário do Médio Oriente podem considerar-se vários conjuntos… mesmo quando têm um só elemento:

1.     A entidade sionista surge, neste contexto, como a fortaleza norte-americana, com uma iniciativa estratégica mediatizada e inserida na dos EUA, dos quais depende a sua existência política, financeira e militar. Tem, porém, uma influência suficiente (via Jared Kushner[4]) para levar a administração Trump a actos insanos – Jerusalém como capital sionista e anexação do território sírio dos Golan – com a aceitação tácita dos sultões árabes. 

Note-se que na Palestina ocupada pela entidade sionista vigora um regime racista em que os eventuais judeus (?) mantêm a ferro e fogo uma raça “inferior”, os palestinianos, numa prática semelhante ao apartheid sul-africano ou da Alemanha nazi.

Sublinhe-se ainda que a entidade sionista possui umas 200 bombas atómicas - inicialmente construídas com apoio francês - fora do Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares. Este último, foi assinado pelo Irão há uns cinquenta anos, não tendo o país armas nucleares; e, mesmo a sua utilização para produção de energia é submetida ao controlo da Agência Internacional da Energia, após validação de potências nucleares como a Rússia, a Grã-Bretanha, a China, a França ou a Alemanha, após a retirada dos EUA desse acordo, por iniciativa de Trump, para justificar a sua actual deriva guerreira no Golfo.

2 – As monarquias árabes, lideradas pela Arábia Saudita do mediático Mohammed bin Salman (MbS), tendo falhado no uso do ISIS para mudar o regime na Síria e com pouca influência no Iraque, jogam em dois planos. Um, no Yémen para anular o poder das tribos do norte - os huti - zaiditas, próximos do xiismo; e, sobretudo, controlarem a margem oriental do estreito de Bab el-Mandeb[5], estratégica passagem de 20 km de largura que liga o Índico ao Mar Vermelho, ao norte do qual está o canal do Suez… com a Europa “à vista”. O outro objetivo de MbS é procurar abater o Irão, seu grande rival na região, para o qual terá de contar, forçosamente, com os EUA. Finalmente, refira-se que não há total unidade entre o conjunto de reis, emires e sultões, pois o monarca do Qatar é ostracizado pelos colegas, uma vez que tem uma velha ligação ao Irão e, para mais tendo a Turquia como aliado, sente-se ao abrigo de intervenções musculadas do MbS e seus confrades.



                    Salvador Dali – El Jinete de la Muerte

3 – O Irão é um “problema” que os EUA tentam resolver desde a queda do xá, em 1979, quando o país deixou de ser um vassalo americano. O apoio dos EUA ao repressivo regime monárquico conduziu à ocupação da embaixada americana, por estudantes que fizeram reféns os seus funcionários, num processo que só terminou em 1981. A desastrada tentativa militar de resgate (poucos anos após a derrota no Vietnam) acentuou nos EUA um sentimento de humilhação que promoveu a vitória de Reagan nas presidenciais daquele mesmo ano. A chegada de Reagan constituiu um pilar essencial para o reforço do neoliberalismo, já em aplicação na Grã-Bretanha pela baronesa Thatcher; Reagan foi um género de anjo anunciador dos trastes que se lhe seguiram, George W Bush e Trump.


Imagem pintada no muro da antiga embaixada dos EUA em Teerão
      
       Os EUA, encomendaram a Saddam Hussein uma guerra contra o Irão em que aquele se apoderaria do petrolífero Kuzistan como recompensa, caso conseguisse derrubar o regime iraniano. Essa guerra provocou um milhão de mortos, consolidou o regime mas fragilizou o Iraque, levando  Saddam a invadir o rico Kuwait para fazer face às dívidas contraídas com a guerra; e, fez isso, sem curar de obter o aval da suserania americana, sem contar que os EUA são o tutor das monarquias petrolíferas do Golfo, sucessor dos britânicos que as inventaram, depois da descoberta de petróleo sob as areias do deserto. 

       Seguiram-se duas intervenções ocidentais no Iraque, comandadas pelos EUA e de onde resultou a queda e posterior execução de Saddam, novos sofrimentos para o povo iraquiano e a transição de antigos militares para o Daesh/ISIS, cuja missão seria a criação de um califado (!) juntando territórios curdos, sírios e iraquianos. Para os EUA o importante nessa conjuntura era a venda de armas (pagas por qataris e sauditas) para a queda de Assad, o que, a acontecer, fragilizaria, na sequência, o Líbano, dando ao regime sionista uma fronteira tranquila a norte e causando alegria às monarquias sunitas por verem alauitas sírios e xiitas libaneses em desgraça e com o Irão em maior isolamento.

       Como se observa, há hoje um eixo xiita (e afins) que vai do Irão ao Mediterrâneo, onde os EUA e os seus cadetes europeus perderam posições, incluindo nessas perdas, as boas graças da Turquia, parceiro na NATO.

Ainda no que respeita ao Irão, este país tem o estatuto de observador junto da OCX – Organização de Cooperação de Xangai e relações próximas com os seus membros, mormente Rússia e China (nos hotéis de Teerão é visível a forte presença de quadros chineses) mas também com a Índia e o Paquistão. Ao que se sabe, o recuo de Trump (pressionado por Pompeo e Bolton) 15 minutos antes de um ataque ao Irão - na sequência do abate do drone americano (20/6) - não se ficou a dever a um impulso humanitário de Trump, perante a perspetiva do mesmo resultarem 150 mortos; a causa estará numa comunicação russa de que estariam ao lado do Irão face a qualquer agressão.

4 – A Turquia, país da NATO com uma posição estratégica ímpar, com influência na Europa, nos mares Negro, Egeu e Mediterrâneo, no Próximo Oriente e na Ásia Central tem-se distanciado dos EUA e mesmo ameaçado as monarquias árabes em caso de intervenção no Qatar. Por outro lado, a Turquia, a despeito da sua posição de sempre, contra as autonomias curdas, vem atuando no norte da Síria com a mediação da Rússia que tem na Turquia – país da NATO – um comprador de armamento; e tem uma relação amistosa com o Irão, ao contrário dos países árabes que estiveram incluídos no Império Otomano durante quatro séculos.

5 - Os EUA constituem o único caso, entre os presentes na área do Golfo que desempenha um papel global e que, a despeito das suas próprias e crescentes fraquezas, em termos comparativos com outras potências, se arroga ao direito de ameaçar, intervir, emitir recados e opiniões, inclusivamente nas questões internas de outros países, como se viu recentemente na Grã-Bretanha onde Trump anunciou, sem qualquer detalhe, um plano gigantesco de apoio ao país, uma vez concretizado o Brexit… como brinde de desempenho.

Para um retrato simplificado da decadência dos EUA, vejam-se as dinâmicas recentes:


2017
2000
2017
2000

Grandes Exportadores (% do total mundial)
Grandes Importadores (% do total mundial)
Alemanha, Espanha, França, Holanda e Itália
19,0
21.9
24.3
29.6
China
15,0
  5.7
9.5
  3.0
EUA
  7.7
12,0
13.0
19.0
Deficit/Excedente externo
China
EUA
     Milhões $
896500
391400
- 863900
- 434000
                              ver: Comércio internacional – quem ganha e quem perde

A isso soma-se a regular emissão de sanções e ameaças contra o Canadá, o México, a UE, a China, a Venezuela, a Coreia do Norte, o Irão, para além do já crónico caso de Cuba e de outros de que… já ninguém se lembra; para além da procura de semear bases militares um pouco por todo o lado, sendo o último dos casos, o das ilhas Galápagos - um santuário de vida selvagem - e que terá já obtido o acordo do mordomo-mor do quintal equatoriano, um tal Lenin Moreno. 


Salvador Dali – O Grande Masturbador

Onde estão as ameaças?

Vamos proceder à apresentação de alguns indicadores sobre os países que protagonizam a crise do Golfo para que se possa aquilatar a diferença de forças em presença. Uns, serão indicadores económicos e outros de conteúdo eminentemente militar; e inserimos dados sobre Portugal para efeitos de comparação.

Indicadores económicos
Irão

Emiratos
Oman
Kuwait
A. Saudita
Israel
Qatar
Bahrein
EUA

Portugal
População (milhões )
83.0

9.7
3.5
2.9
33.1
8.4
2.4
1.4
329.3

10,4
                                                                     PIB per capita ($ )                                   2017  Banco Mundial
 5470

39441
20224
41423
20747
42056
69554
25309
59172

21087
Dívida externa (% PIB)
1,8

62,1
65,4
39,3
29,9
25,1
100,5
147,2
91,9

204,7
Divida externa per capita ($)
96

24495
13220
16290
6196
10555
69917
37250
54388

43173
Dívida externa/Reservas de ouro e divisas
0,1

2,5
2,9
1,4
0,4
0,8
11,2
22,2
145,3

17,2
Gasto militar per capita ($)
76

1482,0
1918,6
1793,1
2114,8
2333,3
804,2
521,4
2174,3

365,4
                                                         Fonte: https://www.globalfirepower.com/countries-listing.asp

Em termos demográficos, o Irão supera largamente a população dos seus antagonistas da outra margem do Golfo, incluindo a da entidade sionista, onde se incluem vários milhões de “árabes israelitas” ou falachas etíopes, cidadãos de segunda categoria, segregados, porque os sionistas são eminentes racistas e temem os efeitos das ligações daqueles com os seus concidadãos que vivem fora das fronteiras guardadas pelos sionistas. Nas monarquias do Golfo encontram-se milhões de imigrantes, vindos de África ou da Ásia (com relevo para as Filipinas) remetidos aos seus espaços e com a negação de reagrupamento familiar. Nas crispações que se revelam regularmente nesta região, os EUA são o grande desequilibrador, tendo em conta o seu poder militar e económico. Não incluímos no quadro acima dados sobre a Jordânia porque é apenas uma monarquia débil, mais uma criação britânica do final da I Guerra, com forte população palestiniana e dependente do financiamento exterior, vindo das petromonarquias vizinhas.

O PIB per capita do Irão é sensivelmente mais baixo do que o dos restantes antagonistas que, em regra, têm um indicador superior ao europeu Portugal, como também acontece com os EUA. Os níveis de desigualdades são enormes dentro de cada país. No entanto, quem conhecer o Irão saberá que Teerão tem 12 milhões de pessoas, que recebe diariamente 4 milhões de trabalhadores que vivem fora, tem um trânsito intenso, um elevado grau de autossuficiência e as pessoas apresentam-se com um aspeto digno, não se observando os magotes de pedintes que se conhecem em outras paragens do mundo islâmico. Porém, o regime, decidiu construir um espaço luxuoso, faraónico, para conter o corpo do… fundador Khomeini.

Ao contrário do Irão que é uma das três mais antigas entidades políticas do planeta – a par com a China e o Egipto - entre as monarquias árabes, abundam entidades de criação recente, antigas possessões e protetorados britânicos que a descoberta de petróleo elevou, para muito além de chefes tribais, de comerciantes, de criadores de cavalos e camelos e que os diversos impérios que se sucederam no Médio Oriente nunca cobiçaram. A família Saud por exemplo, teve de esperar até aos anos 30 para, com a ajuda ocidental, constituir um reino, abandonando então a tradicional prática de assalto a caravanas. O Qatar foi um território persa durante séculos, o Bahrein vivia da apanha de ostras e o Oman é o único caso com presença na História porque constituiu uma potência marítima no Índico ocidental, durante alguns séculos, criando, por exemplo, Zanzibar.

Tendo em conta que Portugal está no pódio europeu da dívida, todos os indicadores de capitação de capitação apresentam-se como desprezíveis, excepto no Bahrein que já não tem reservas petrolíferas. É notória a irrelevância da dívida externa iraniana no contexto do PIB, o que tem consequências na capitação, apresentando-se como verdadeiros campeões nesse indicador, o Qatar e os EUA.

A comparação das reservas em ouro e divisas com a dívida externa evidencia grandes desigualdades. A dívida externa dos EUA corresponde a 145.3 vezes o valor das reservas monetárias do país o que, associado ao seu gigantesco deficit comercial, só é admissível por razões de ordem política, ancoradas na sua supremacia militar disseminada pelo planeta evitando, com toda a artificialidade, que se considere o dólar como algo sem qualquer préstimo. Entre os restantes países considerados, todos com indicadores substancialmente mais baixos do que os EUA, sobressaem o Bahrein e Portugal - pelas piores razões em termos de solvabilidade - e o Irão bem como a Arábia Saudita, por razões diametralmente opostas.

Finalmente e antes de se abordarem os indicadores de cariz militar, são visíveis os enormes gastos dos países do Golfo, sendo comparativamente mais modestos nos casos do Bahrein e do Qatar; os quais se mostram claramente superiores aos (já exagerados) gastos militares portugueses. Os gastos militares por habitante são particularmente elevados nos EUA e na Arábia Saudita, superados apenas pela fortaleza sionista; e, em contrapartida, são comparativamente muito mais baixos no Irão. Levanta-se a questão dos gastos militares portugueses que, tendo em conta o enquadramento geográfico, se mostram muito elevados, como aliás referimos, anos atrás e somente justificados pela pertença à NATO, como escoadouro de armamento made in USA, como determinante do envio de tropas para locais onde Portugal não tem qualquer interesse estratégico ou comercial e ainda, porque “é preciso” manter um número demasiado elevado de generais sentados”. Neste contexto leviano de gastos militares, a compreensão da realidade no Golfo será mais nítida se se souber que o orçamento militar da Arábia Saudita é 23 vezes superior ao português.

Indicadores militares
Irão

Emiratos
Oman
Kuwait
A. Saudita
Israel
Qatar
Bahrein
EUA

Portugal
Militares no ativo por 1000 habitantes
6

6,6
12,1
5,3
6,9
20,2
5,0
5,9
3,9

2,9
Força aérea (nº)
509

541
175
85
848
595
100
107
13398

87
Tanques de combate (nº)
1634

510
117
567
1062
2760
95
180
6287

186
Veículos armados (nº)
2345

5936
735
715
11100
6541
465
850
39223

700
Lançadores de rockets (nº)
1900

72
12
27
122
150
17
17
1056

0
Navios de guerra (nº)
398

75
16
38
55
65
80
39
415

41
                                           Fonte:    https://www.globalfirepower.com/countries-listing.asp

Quanto aos efetivos militares por cada mil habitantes, há um destaque evidente para a entidade sionista, cerca de cinco vezes a dos EUA que se pretende com capacidade de intervenção em todo o globo. Nos outros países da região, os indicadores têm valores próximos, excluindo o caso do Oman. 

Quanto a Portugal, o indicador deveria ser mais baixo, ainda que seja compreensivelmente inferior aos registados para a região do Golfo. Em Espanha, há uns anos, havia um oficial general por cada 186 militares; em Portugal o número reduz-se a 131.

No capítulo da força aérea, sem entrarmos em detalhes quanto à sua composição e modernidade e, para além do caso especial dos EUA, sobressai a Arábia Saudita, surgindo num segundo plano a entidade sionista, os Emiratos e o Irão. O Kuwait, a despeito da exiguidade da sua população e do seu território apresenta uma força aérea quantitativamente semelhante à portuguesa.

Como potência global, os EUA apoiam-se sobretudo na força aérea e menos em tanques de combate, necessários em casos de combates convencionais, em terra. Como as guerras tendem, hoje, a ser muito assimétricas, a utilização de tanques contra forças de guerrilheiros ou em cenários urbanos não é a mais adequada. Neste tipo de arma, sobressai o seu número entre os sionistas, temerosos de ataques convencionais ou, para eventuais penetrações profundas em terreno dos países limítrofes. Quer o Irão ou a Arábia Saudita têm territórios vastos para poderem circular com tanques. Mais estranho é o número destas máquinas de guerra em territórios tão exíguos como os do Kuwait (quiçá ainda temeroso de uma nova invasão iraquiana…) do Qatar ou do Bahrein. Este último é um pequeno estado insular (780 km2 repartidos por 35 ilhas) e tem um número de veículos semelhante ao de Portugal, muito maior e com uma longa fronteira terrestre. Os sultões são muito criteriosos; saberão certamente utilizar uma tal frota de tanques num tão pequeno território insular …

Quanto aos veículos armados, mais ligeiros do que os tanques, é também curioso o seu número entre os sauditas (pouco menos que 1/3 dos norte-americanos) mas com uma população quase quarenta vezes inferior; outro indicador espantoso é o da fortaleza sionista, com um veículo armado por cada dois quilómetros quadrados,,, e que não poderão ser todos usados em simultâneo para não gerarem… engarrafamentos. Uma vez mais, observam-se as assimetrias nas dotações destes veículos, com números próximos para territórios tão desiguais, nos casos do Kuwait, ou do insular Bahrein, quando a comparação é feita com Portugal.

Quanto a lançadores de rockets – uma arma com grande mobilidade, usada por exemplo, em Gaza contra alvos sionistas - o Irão está mais bem munido do que os próprios EUA que, naturalmente, não esperam ser atacados numa guerra convencional. E isso justifica que se diga que "o sistema de defesa aéreo iraniano é extremamente poderoso" e que os Estados Unidos iriam enfrentar "um inimigo que, apesar de ser militarmente mais fraco (...), tem uma capacidade de retaliação e de causar dano tremenda" (afirmações de Carlos Branco major-general na reserva). Para além do encerramento do estreito de Ormuz[6], em caso de guerra, com implicações incalculáveis na economia global.

Note-se que os outros países da área do Golfo têm, comparativamente, poucos lançadores de rockets pela simples razão que não esperam ser atacados. Nessa lógica percebe-se a razão para Portugal não ter lançadores de rockets. 


Quanto à dimensão das marinhas de guerra – todos os países considerados são ribeirinhos – a maior é a marinha iraniana ainda que a Arábia Saudita e Oman detenham também litorais extensos. Em termos de unidades a marinha iraniana tem uma dimensão próxima da dos EUA mas os respetivos perfis são muito distintos; num caso trata-se de uma frota de vigilância de costa e no outro uma armada poderosa, presente em todos os oceanos. Assim, por exemplo, os EUA têm 24 porta-aviões e, entre os restantes países do Próximo e Médio Oriente somente o Egipto tem esse tipo de navio e, apenas 2 unidades.

Que solução para o Médio Oriente? Algumas ideias gerais:

  • Todas as mediações em conflitos deverão passar pela ONU
  • Afastamento de bases militares estrangeiras e de qualquer outro tipo de intervenção militar, na região
  • Canalização das reservas monetárias e das riquezas detidas pelas oligarquias para vastos planos geradores de bem-estar das populações
  • Redução substancial dos meios militares existentes, mormente com a renúncia à posse de armas nucleares
  • Efetivação de um estado palestiniano, democrático e multiconfessional, no seguimento da extinção do regime de apartheid montado pelos sionistas
Este e outros textos em:
http://grazia-tanta.blogspot.com/                             

http://www.slideshare.net/durgarrai/documents



[1] Como triúnviro suplente apostamos no secretário interino da Defesa, um tal Mark Esper, um espírito brilhante que anunciou deverem os países preparar-se contra ataques de mísseis russos. Esper espera que todos escavem um abrigo no quintal.
[2]  A Rússia, desde há poucos anos mantém duas bases militares no norte da Síria (Tartus e Latakia), com uma capacidade de intervenção militar muito limitada no âmbito da região conhecida por Próximo e Médio Oriente.
[3]  Muito recentemente os EUA venderam $ 8000 M (mais do dobro do orçamento português de defesa) de armamento aos sultões do Golfo, mesmo sem o aval do Congresso. O businessman Trump não se prende a… burocracias… Por outro lado, a Turquia ao pretender comprar armamento à Rússia incorre em represálias e ameaças por parte dos EUA; e o mesmo Trump vem ameaçando a Índia com sanções, pela sua compra de $ 5000 M em mísseis S-400 à Rússia, revelando assim a sua função de vendedor ao serviço do complexo militar-industrial americano.
[4]  Kushner, com o seu irmão ideológico Netanyahou desenharam um plano de criação de um estado palestiniano que na realidade é uma mudança de nome para o bantustão actual mas onde se prevê a construção de pesadas infraestruturas para alegria de empresas de topo na área do betão. O plano é tão irreal no seu facciosismo que dá vontade de rir…

[5] Do outro lado do Bab el Mandeb, no Djibouti, estão instaladas bases militares dos EUA, da China, do Japão e da França onde se acolhem como hóspedes, militares alemães e espanhóis: num terreno onde se verifica a maior densidade de bases militares do mundo, confraterniza-se.
[6] Pelo estreito de Ormuz, passa 76% do petróleo destinado à China, ao Japão, à Coreia do Sul e à Índia, bem como 25% do comércio global de gás liquefeito