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domingo, 15 de junho de 2014

O dia da ‘raça’ e a exibição circense na Guarda


1 - Salazar, a presença de um ausente
2 - Pátria, um fetiche em baixa de cotação nos mercados
3 – Forças armadas, brinquedo caro e inútil
4 – As intervenções externas não militarizadas
5 – A marcha celebrante do dia da ‘raça’


**********************!!********************

1 - Salazar, a presença de um ausente

No passado dia 10 de junho, excepcionalmente os nossos olhos cruzaram-se com uma emissão televisiva; e, por acaso, na transmissão das celebrações daquela data a que em tempos, Cavaco, numa sua emanação salazarista, designou por dia da ‘raça’. O homem andava nessa época assoberbado com o magno problema da identidade nacional, mostrando-se muito preocupado com o afluxo de imigrantes que poderiam vir a suplantar (!!), em número… os tugas de gema.

Há já algum tempo que encontramos muitas semelhanças entre Cavaco e Salazar. São os dois entes mais nocivos na História portuguesa do último século, com Salazar no degrau mais alto do pódio. Embora haja, entre outras, uma diferença visível entre os dois; Salazar era um intelectual e Cavaco um ignorante de alto gabarito.

No dia 10 observámos uma curiosa semelhança. Salazar, em 1967 caiu da cadeira (ou melhor, enganou-se quando julgava que se ia deixar cair na cadeira) e isso foi considerado como o início da última fase do regime fascista, um marcador da sua queda próxima. Cavaco no dia da sua ‘raça’, caiu do palanque, num claro símbolo da putrefação do regime cleptocrático atual, ainda que tivesse voltado ao púlpito, pouco depois e continuado com mais uma das suas vazias arengas. Em matéria de arengas, Cavaco aproxima-se mais dos discursos do seu antecessor Américo Tomás, inspirador do anedotário nacional da sua época.

Outro símbolo interessante é a queda do presidente nos braços do grande ayatollah castrense. Aliás, a centralização das comemorações do dia da ‘raça’ nas forças armadas sugere que a fragilidade do regime cleptocrático exige que o mesmo seja levado ao colo das forças armadas, papel que estas não recusarão para valorizar o seu papel e o quinhão do orçamento. Poderá considerar-se o folclore da Guarda como exibição dessa simbiose, da sintonia entre o poder civil e o militar, com os dez milhões de portugueses a assistir, desejavelmente anestesiados pelo brilho da cerimónia.

Minutos após o presidencial chelique surgiu no écran o emplumado general que comanda toda a tropa lusa; pensámos, por momentos, que iria anunciar estar Cavaco definitivamente para lá de Bagdad e assegurar que o poder não cairia nas ruas. Não há general que não goste da lei e da ordem nas ruas e de abastança nas messes.

A cinzenta figura estava tão preocupada com as ruas que logo admoestou os manifestantes anti-governo, colocando a parada em sentido, com um “tenham respeito por Portugal e pelas forças armadas!” Terá sido a necessidade de Cavaco elevar a voz para fazer ouvir o seu tosco bosquejo - sobre a presença na Flandres da tropa lusitana na I grande guerra - acima do coro dos manifestantes, que terá motivado o chelique. Uma fragilidade confrangedora!


2 - Pátria, um fetiche em baixa de cotação nos mercados

Já em tempos divulgámos o que pensamos dos patriotismos[1] e das forças armadas[2].

Não nos parece que a pátria, uma figura abstrata, um fetiche, seja merecedora de respeito algum, como qualquer conceito inventado para que muitos obedeçam e aceitem os privilégios de alguns, como instrumento de divisão entre pessoas da mesma condição, só porque têm línguas e culturas diferentes.

Diz-se que uma nação é composta por território, povo e Estado. O território merece-nos respeito enquanto parcela do habitat global de seres vivos e que se pretende seja preservado na sua harmonia, considerando-se como ínvia e desastrosa a apropriação privada da utilização dos seus recursos. Quanto ao povo, há certamente uma pequena faixa de elementos tóxicos que nos não merece respeito algum - as várias estirpes de capitalistas e mandarins - tendo-se em conta que a esmagadora maioria das pessoas tem um grande potencial de expressão solidária na construção das suas vidas, pessoais e coletivas. Quanto ao Estado, constitui outro inconveniente fetiche, emanado das referidas estirpes e para seu exclusivo uso e abuso, com funções repressivas, de punção fiscal, agravadas recentemente com cortes em rendimentos e direitos da esmagadora maioria em nome de uma dama virtuosa (diz-se), a austeridade.


3 – Forças armadas, brinquedo caro e inútil

A existência de forças armadas em Portugal é um luxo, incompatível com um povo que vive, na doutrina do poder, acima das suas possibilidades[3]. Entre as suas funções atuais, umas não se justificam, de todo, no quadro da segurança externa; outras, podem ser desmilitarizadas, como seja a vigilância das águas territoriais, que uma guarda costeira pode promover para a dissuação dos vários tipos de tráficos que utilizam a via marítima, bem como da pilhagem dos recursos haliêuticos ou de descargas poluentes.

Não é divisável qualquer ameaça militar externa à integridade do território; e, a acontecer, teria de ser protagonizada por força militar considerável que tornaria irrelevante a resistência das atuais forças armadas portuguesas. Imaginemos que a UE é empurrada pelo sistema financeiro para a venda dos Açores em leilão, como forma de devolver a dívida pública portuguesa para níveis de razoabilidade.

O território português não é invadido desde meados do século XIX e a atuação das forças armadas fez-se, posteriormente no exterior, em África, na Índia e na Flandres com resultados estrategicamente desastrosos ou colocados do lado errado da História. Em contrapartida, as forças armadas portuguesas protagonizaram vários golpes de estado até que a criação das democracias cleptocráticas, de mercado, lhes retiraram esse privilégio. Que o digam italianos e gregos quando os mercados impuseram Monti e Papademos, respetivamente, ao arrepio das práticas constitucionais. Por outro lado, o território português não tem profundidade estratégica para uma guerra moderna e, naturalmente, seria uma resistência popular que mais teria condições para desgastar e tornar insalubre a permanência de um invasor militar.

Nos tempos que correm, as forças armadas portuguesas limitam-se a organizar pequenos pelotões para enquadramento às ordens das forças da NATO ou a promover luzidas paradas militares como a do dia 10. As forças armadas deixaram sequer de se poder arrogar ao epíteto de “povo em armas” com o fim do serviço militar obrigatório, sendo-lhes reservada uma função de força repressiva de retaguarda, de guarda pretoriana do regime, constituída por funcionários com forte espírito corporativo. Ou não fosse a guerra contra os seus próprios povos a justificação mais profunda da existência da tropa.

A situação atrás descrita não é específica de Portugal, uma vez que no contexto da UE, além da França e da Inglaterra, nenhum país tem a chamada capacidade de projeção no exterior; embora alguns outros – Alemanha, Itália, Espanha, Suécia – usem as suas forças armadas como elemento complementar de uma indústria exportadora de armamento[4] que Portugal, de facto, não tem.


4 – As intervenções externas não militarizadas

As intervenções externas nos países de média ou pequena dimensão só excepcionalmente são militarizadas, nos dias de hoje.

Com a evolução do capitalismo o domínio político e económico não se processa hoje, tanto pela ocupação militar, pela colonização típica do século XIX e pela guerra, como antes. A liberalização dos movimentos de capitais, a atuação das multinacionais e do sistema financeiro, a segmentação da produção e a constituição de instituições internacionais ou multilaterais, de uma classe política global são factores de enquadramento dos espaços, dos povos e das riquezas tornando a maioria das nações irrelevantes como tal. Para o capitalismo globalizado há apenas localizações de recursos, individualizados através de bandeiras e hinos.

Nessa configuração atual do capitalismo, os países são intervencionados através do investimento estrangeiro, nas movimentações das bolsas, pelos sempre ignotos desígnios dos mercados, nas chamadas telefónicas da Merkel para o mainato Barroso, nos almoços entre Draghi e Weidmann, presidente do Bundesbank, nas cimeiras do G8, (reduzido para sete depois da zanga com Putin), por debaixo da alva cabeleira da Lagarde ou nas manobras dos altos funcionários da Goldman Sachs. Não custa imaginar uma intervenção militar da tropa lusa na defesa da pátria com ameaças advinda daqueles lugares mais ou menos etéreos; mas não podemos levar a sério uma entrada dos comandos na bolsa ou a detenção dos técnicos da troika à chegada ao aeroporto para ditar ao Passos as próximas decisões do conselho de ministros.

Mais concretamente, podemos apontar que a integridade pátria está em risco, sobretudo com as privatizações dos portos, das vias de comunicação, da ocupação da orla costeira por empreendimentos turísticos invasivos, da previsível privatização dos aquíferos. O próprio aparelho de estado não passa de um departamento do sistema financeiro que lhe enforma a atividade e as decisões relevantes; muito mais do que a defesa de qualquer harmonia social ou do tecido económico. E não consta que as forças ditas armadas se mostrem ativas intervenientes para obviar essas situações na defesa da grei, como genericamente lhes está cometido no texto constitucional; a não ser em avisos patéticos das suas estruturas associativas ou sindicais a que já ninguém liga por reiterada demonstração de que não passam de azedumes corporativos de quem sempre se considerou num patamar acima dos reles paisanos.

Essa inoperância na defesa da grei evidencia que as forças armadas estão bem sintonizadas com a governação, obedientes e bem inseridas no tal departamento do sistema financeiro, designado como Estado. Como tal, se não reagem, antes se acomodam à situação, torna-se um espetáculo circense o voo dos F-16[5] ou a parada militar de 10 de junho. E torna-se evidente que as forças armadas para nada mais servem do que constituir pelotões de retaguarda onde a suserania estratégica do Pentágono, via NATO, ordenar, em locais como o Líbano, o Afeganistão ou o Uganda que justificam visitas do aguiar-branco de serviço, pelo natal.


5 – A marcha celebrante do dia da ‘raça’

Voltando ao festival patrioteiro do 10 de junho, observámos, na bancada dos vips, uma hierarquia de protagonistas tendo, qual cereja pútrida no cimo, o Aníbal que desmaiou, tendo a seu lado direito como digna segunda figura do tal Estado dito soberano (?) a inconseguida, publicamente conhecida por ter alguns fusíveis fundidos; e à esquerda um género de drone telecomandado de Berlim que não brilha pelas capacidades intelectuais.

Este exemplar reles e santificado de trindade, constitui o vértice de uma hierarquia estatal marcada pelo roubo e pela corrupção. Em torno da trindade largas dezenas de gravatas ocupavam os gargalos dos mais altos dignitários da pátria, sendo mais conspícua a presença de alguns bonés de vários modelos, em regra reluzentes de incrustrações em pechisbeque de talha dourada. Notámos a presença, lado a lado, de Passos e do presidente do Tribunal Constitucional, apontado fulcro de todas as culpas de algumas dificuldades na estratégia governamental de empobrecimento coletivo para cumprimento da sua mais nobre missão de encarrilar uns € 7000 M por ano de juros, para saciar a gula do capital financeiro.

Do outro lado de uma sebe de polícias, algumas centenas de populares mostravam a sua pequenez, agradecidos perante tão elevada concentração de gradas figuras do regime cleptocrático, ganhando naquele dia direito a dormir sem a toma de soníferos, descansados com o estado de prontidão das tropas para a defesa face aos inimigos da lusa pátria. Mas faltaram os turistas e a CNN para espalhar o evento pelo mundo.

É espantoso como uma das mais inúteis instituições do Estado português é alvo de toda aquela coreografia oferecida à multidão como mistela para os males provocados pelo próprio Estado. Num momento em que a esmagadora maioria das pessoas é tratada como esbanjadores inveterados, obrigados a suportar as carências inerentes ao desemprego, à redução de rendimentos, às dificuldades na manutenção da saúde, às jornadas de trabalho acrescidas e outras, no dia 10 o tenente-coronel que relatava os festejos circenses da Guarda dizia que ‘apesar dos cortes, nenhuma missão dos militares tinha deixado de ser cumprida’. Ou os cortes foram superficiais, menores, permitindo a continuidade das tais missões ou foram de facto significativas, evidenciando com a sua continuidade, que terão vivido com dotações acima das suas necessidades.

Apreciámos particularmente o desfile militar, pelo colorido, pelo apuro musical da banda, pela diversidade colorida dos marchantes, como se fora tudo aquilo um ensaio geral para as marchas populares de Lisboa, representando cada farda a coreografia escolhida por cada bairro popular da capital.

Vimos grupos vestidos de branco que mais pareciam vendedores da praia, de gelados ou bolas de Berlim, em dias de gala. Ficámos sem saber perante a exibição de sabres desembainhados se ainda hoje se praticam abordagens como em séculos passados, com valentes marinheiros agarrados a cordas com sabres nos dentes a cair no convés do navio inimigo. Ao que apurámos, na recente intercepção de barcos de borracha com “piratas” somalis não foram utilizadas técnicas de abordagem. O relator do evento também não esclareceu se, perante a elevada altitude da cidade da Guarda, os marinheiros, em regra atuando ao nível das águas do mar, tiveram treino de habituação à altitude, como acontece com as equipas de futebol.

Não conseguimos apurar a razão dos marinheiros usarem um babete assente nas costas; nem a razão de lenços coloridos no pescoço dos operacionais peritos da camuflagem. Chamamos a atenção dos estados-maiores para este último caso pois pode mesmo ter o efeito contrário desejado por uma boa camuflagem; um lenço azul celeste no pescoço de um rambo pode denunciá-lo no meio da vegetação, tornando inúteis as pinturas de guerra na cara.

Não notámos na plateia dos vips o incansável o ministro das cervejas, promotor da exportação. A profusão de condecorações no peito de generais era imensa; uma massa enorme de pendões e bandeiras dava colorido à paisagem; tudo isso, juntamente com galões e os botões amarelos tão do agrado dos militares, certamente justificam indústrias várias, a criação de postos de trabalho e uma exportação interessante para os generalatos pagos em dólares pelo Africom.

Registámos também o contraste entre o fino corte das fatiotas dos convivas que rodeavam o ilustre desmaiado e as mangas arregaçadas de muitos dos marchantes, como se fossem trabalhadores de mudanças preparados para carregar colchões ou frigoríficos.

Era grande a variedade de fardas entre os marchantes, identificadoras dos vários regimentos, “armas”, pelotões, companhias, batalhões e é certamente a organização e a operacionalidade de toda essa gente que justifica grande parte da alta hierarquia das forças armadas. Não é fácil manter distinguíveis as tropas terrestres, face a marujos e araújos; seria inadmissível que um tenor de 'mama sutra' por engano entrasse num dos submarinos do Portas, onde o espaço tão ergonomicamente planeado não teria capacidade para encaixar um berro daquele ente, sem a abertura de fissuras no casco.

Entre as fardetas, havia de todos os feitios, calças e saias, chapéus, bonés, barretes, bivaques e boinas e até caras pintadas às cores[6] para se confundirem com a vegetação próxima em caso de ataque de algum inimigo que quisesse aproveitar tão elevada concentração de tropa e de mandarins para atacar e decapitar a nação. Alguns ostentavam mesmo uns engraçados pompons ou penachos, excelente camuflagem pensada para a atuação em jardins com plumas ou recintos de avestruzes. Uns poucos ostentavam passa-montanhas, certamente mal informados sobre o clima agreste da Guarda que não se compara com um inverno no Afeganistão.

Deixámos para o fim desta descrição do desfile das marchas patrióticas de uma Guarda-2014 o que considerámos mais original; as simbioses entre o passo militar e a dança.

Delicioso foi ver um pelotão de camuflados arremessar a perna esquerda para o lado e graciosamente a colocarem de imediato à frente, todos muito certinhos após muitas horas de treino na parada; outro pelotão surgiu em corrida moderada dobrando regularmente a perna para trás, num género de coicezinho (sem ofensa). Não conseguimos descortinar se se tratam de novas formas de confundir o inimigo, de o convencer que vem ao seu encontro um grupo de bailado e não soldados em missão de extermínio ou, se se trata de uma nova tática guerreira já testada em West Point e distribuída entre todos os membros da NATO.

Se ainda existir este regime, em 2015 há mais. Mas talvez sob a forma de parceria público-privada com uma empresa privada de eventos.
  

Este e outros documentos em:    








[5]  Foi com muita pena que a assistência popular se terá referido à ausência de um número de lançamento de um drone para o rio pelo Aguiar-Branco; provavelmente porque não havia rio junto da parada
[6]  Consta que os pintados de verde seriam patrocinados pelo Bruno de Carvalho, que forneceu a tinta

sábado, 18 de agosto de 2012

O militarismo, instrumento político e ideológico do conservadorismo



Sumário

1 -  O capitalismo global e o novo âmbito do militarismo
2 -  O militarismo no contexto da UE
3 – O papel das Forças Armadas (FA) portuguesas
4 -  A lusa esquerda e o seu militarismo
5 -  Os valores no militarismo
·         O quartel como local de elevação da condição feminina?
·         As FA como escola de obediência
·         O militarismo na cultura comum


Aspetos salientes

  • Existe um elemento agregador, um dispositivo militar estratégico ocidental
  • Há uma articulação profunda entre forças armadas, polícias e serviços secretos
  • A UE transformou-se numa aliança militar, para além de uma unidade política
  • As FA portuguesas estão bem longe de poder ter um papel relevante em qualquer guerra
  • O peso das FA no PIB luso é, desde 1988, substancialmente superior ao observado em Espanha
  • Falta em Portugal, mais do que em outros países da Europa, uma perspetiva popular anti-militarista
  • O SMO, conceito associado à formação dos estados-nação e de difusão do patriotismo, ficou obsoleto
  • Na esquerda institucional predomina uma visão conservadora sobre a questão do militarismo
  • O quartel não é local de elevação da condição feminina
  • As FA continuam a ser um indutor social de obediência




O militarismo, instrumento político e ideológico do conservadorismo

1 -  O capitalismo global e o novo âmbito do militarismo

O sistema capitalista é constituído por um conjunto articulado de aparelhos que promovem a sua perpetuidade; e esta fica assegurada enquanto o valor criado pelos trabalhadores tem uma aplicação  determinada por um minoria que não contribui para a referida criação de valor mas, que se assenhoreia de parte substancial do mesmo.

Para que essa ordem iníqua se mantenha, o sistema cria diversos aparelhos repressivos em torno do Estado – a legislação, os tribunais, as forças armadas, as polícias, as prisões e até a escola – encarregados de submeter, pela dissuasão ou pela punição, os comportamentos desviantes da ordem capitalista.

A pulsão repressiva, interpretada na sua acepção mais lata, não nasce com as crises económicas e financeiras mas, sem dúvida que é mais atuante e penetrante, mais brutal e presente, consoante a profundidade e a duração das crises e a capacidade de resistência ou a credibilidade de alternativas sistémicas por parte da multidão. Antes da atual crise, essa pulsão já se manifestava contra o “outro”, seja este constituído por outros povos submetidos aos rigores da guerra, pelos “fundamentalistas islâmicos”, pelo terrorismo (onde antes se colocava o comunismo), pelos imigrantes, pelos trabalhadores e grupos contestatários dentro das fronteiras dos estados-nação.

A globalização, o esbatimento das fronteiras ou melhor, a elasticidade da sua utilização como elemento regulador do chamado mercado de trabalho, tende a construir a integração dos aparelhos repressivos nacionais. É o domínio da legislação comunitária, dos solenes tratados e acordos efetuados entre os governos nacionais que, invariavelmente, visam a desregulamentação, a competitividade, a virtude do equilíbrio financeiro que se pretende incutir aos Estados e às pessoas mas, de que são isentos, escandalosamente, os protagonistas do dominante sistema financeiro.

A desestruturação ambiental, económica e social de vastas zonas do planeta, entre as quais se destaca, pela sua contiguidade com a Europa, África e Médio Oriente, foi ampliada pela globalização[1]; e, juntamente com as desigualdades no seio da Europa - mesmo na comunitária que se pretendia ser um espaço de democracia e bem-estar - desenvolveram fluxos de trabalhadores, pobres e fugitivos da guerra e da repressão. O controlo desses movimentos desenvolve o florescimento do número e das prerrogativas de polícias, pesados sistemas de vigilância, patrulhas militares entre as Canárias e o mar de Oman. Pretende-se segmentar os envolvidos nesses fluxos de pessoas, condicionando as entradas no espaço comunitário às necessidades do “mercado” criando trabalho informal, “sem papéis”, trabalho sem direitos.

Por outro lado, a estagnação económica reforça a atração pelas margens de lucro obtidas na economia mafiosa, cada vez mais diversificada, em termos das mercadorias transacionadas (incluindo pessoas, naturalmente) e regiões envolvidas. A interligação com o sistema financeiro, sempre ávido de novos capitais, estabelece uma matriz de conflitos pelo controlo de mercados e capitais que envolve polícias, serviços secretos e forças armadas. Também aqui, na mesma perspetiva da segmentação propiciadora da continuidade do florescimento da economia mafiosa.

Num plano mais claramente geoestratégico, é permanente a preocupação dos capitais dos países ocidentais em manter o domínio do planeta conseguido no século XVI e que vem sendo contestado desde meados do século XX, primeiro com as lutas de libertação e a descolonização, com a valorização da energia fóssil e, mais tarde com a globalização que despoletou o surgimento dos chamados países emergentes, com um relevo particular para a China.

O controlo, por parte do Pentágono, da China e, de modo menos propalado pelos media, dos países ligados pela OCX – Organização de Cooperação de Xangai, cria uma preocupação acrescida pelo controlo das fontes de energia e dos canais do seu transporte. Essa preocupação materializa-se através de guerras (Iraque, Afeganistão, Líbia, Síria), conflitos latentes (Irão) ou ainda operações armadas de policiamento (operações Atalanta ou Active Endeavour, reativação da IV Esquadra dos EUA).

Para as situações de intervenção tradicional das forças armadas, de prevenção ou jugulação de “ameaças” externas, integrada na hierarquia Pentágono/NATO/UE há uma conhecida tipologia que contempla:

  • Proteção preventiva
  • Gestão pró-ativa das crises
  • Intervenção militar
  • Estabilização post-intervenção

Esta tipologia insere-se, naturalmente, no âmbito da luta entre o Bem e o Mal, lógica binária de ver o mundo - que, na realidade, é primária - de luta contra o terrorismo. Esta luta enquadra actos típicos de guerra em montanhas longínquas, a insana filmagem contínua de ruas e supermercados, a pesquisa policial de leitores de livros “perigosos” em bibliotecas ou de utilizadores de “sites” considerados suspeitos ou ainda, a procura nos motores de busca de palavras indiciárias de terrorismo. Perante esta diversidade de frentes de luta, é toda a multidão que está sob escrutínio e ameaçada, pelos Estados, pelos governos e seus aparelhos repressivos, numa verdadeira montagem orwelliana.

Este quadro geral na vasta e difusa área da defesa e segurança, exige a existência de um dispositivo militar estratégico ocidental que assegure a supremacia quanto à capacidade mortífera dos meios de guerra, de vigilância e prevenção, de recolha e processamento de informação, de espionagem e contra-espionagem, de utilização da brutalidade policial nas ruas, incluindo uma interpenetração com empresas privadas de segurança e serviços militares. A diversidade das “ameaças” exige ainda a articulação profunda entre forças armadas, polícias e serviços secretos, num quadro geográfico e multi-nacional alargado, mesmo que imbuída numa lógica competitiva entre essas várias instâncias, resultante de rivalidades regionais, corporativas e pessoais.

Todo este dispositivo comporta gastos imensos, incluindo a garantia do financiamento público da I&D em áreas de alta tecnologia como as comunicações, a segurança eletrónica, a criação de vírus informáticos, a biologia e a genética, o nuclear, os novos materiais, equipamento militar de todos os géneros, etc. Outra parcela desses gastos prende-se com a produção propriamente dita que, para ter custos minimizados, exige uma escala adequada e a necessidade de exportação. Para que esta se efetue, é preciso manter uma cadeia de comando que decide onde são colocados os elementos topo de gama e onde são vendidos os obsoletos, envolvendo, em regra, pressões políticas, contrapartidas e comportamentos mafiosos de mandarins e altas patentes militares (por exemplo, o Angolagate ou os “nossos” submarinos).


2 - O militarismo no contexto da UE

Nunca os países da UE prescindiram das suas forças armadas, mesmo depois de desaparecido o chamado bloco de leste; nem tão pouco os EUA aceitaram o óbvio, isto é, a inutilidade e a inconveniência da sua presença na Europa, com homens, armas e bagagens, contando entre estas, armas nucleares que ninguém ajuizado consegue ver para que servem.

Pelo tristemente célebre tratado de Lisboa, com que Sócrates pretendeu imortalizar a capital portuguesa, a UE transformou-se numa aliança militar, para além de uma unidade política - convenhamos  que pouco democrática - e económica, sabendo-se a prioridade que dá à solidariedade com os bancos.

Essa vertente militar passou a estar contida nos artigos 42º a 46º do Tratado da União Europeia e tem merecido um razoável silêncio por parte dos media de referência e da classe política, mormente de uma sonolenta esquerda. Dito de outro modo, os paises europeus passam a pertencer a uma ou duas alianças militares – a NATO e a UE – ambas devidamente dirigidas a partir de Washington, do Pentágono.

Entre o que ficou estabelecido naquele normativo, destaca-se:

  • A UE passa a ter uma entidade e autonomia próprias em termos militares e, já não como soma das capacidades dos seus membros;
  • A UE pode usar os seus meios no exterior, no âmbito da sua política de defesa comum; porém, não consta nos tratados, que pergunte se as potências intervencionados no exterior estarão de acordo ou se, em contrapartida, lhes é concedido o direito de intervir dentro da UE, no contexto dos seus interesses de defesa ou segurança;
  • Neste último sentido, a UE pode intervir, onde achar conveniente, por exemplo, em:
o        missões de aconselhamento e assistência em matéria militar;
o        missões de prevenção de conflitos e de manutenção da paz;
o   missões de forças de combate para a gestão de crises e para ajudar países terceiros na luta contra o terrorismo;
o        missões de restabelecimento da paz;
o        operações de estabilização no termo dos conflitos;

O recente novo conceito estratégico da NATO diz o mesmo, mais ou menos com as mesmas palavras. Em suma, novas guerras estão no horizonte, depois da Líbia; e o leitor que veja no espelho quem as vai pagar. Em matéria de conceitos estratégicos lembramos a recente iniciativa do ministro Aguiar Branco em nomear uma comissão para um conceito aplicado à periferia ibérica, para gáudio de generais sentados e almirantes em terra[2].

  • Os estados-membros da UE comprometem-se a melhorar progressivamente as suas capacidades militares enquanto, por coincidência, se desinteressam claramente com o bem-estar das populações;
  • A Agência Europeia de Defesa identifica as necessidades operacionais dos militares, promove as medidas necessárias para as satisfazer e, se necessário, executa todas as medidas úteis para reforçar a base industrial e tecnológica do sector da defesa; 
  • Este aumento do poder do complexo militar-industrial europeu anuncia que os países membros irão comprar mais submarinos, tanques, aviões para fazer face à ameaça inexistente de um inimigo imaginário. Sublinhe-se que o tão falado terrorismo não passa de uma táctica guerreira; tudo não passaria de conjeturas demenciais se os seus delírios não tivessem impacto na mesa do orçamento. Recorde-se que a Grécia foi submetida a uma austeridade para a qual não contribuíram os seus faraónicos gastos militares e que está na forja a aprovação dos orçamentos dos países periféricos pelas altas instâncias da UE;
  • A tal Agência participa na definição de uma política europeia de armamento e presta assistência ao Conselho Europeu na avaliação do melhoramento das capacidades militares;
  • Os membros da UE que também são da NATO continuarão a ter nesta a instância apropriada para a sua defesa. Isto, dito de outro modo, significa a continuidade do comando dos EUA na defesa e segurança da Europa.
Em resumo, a UE para além de subordinar todos os europeus à ganância dos mercados financeiros, projeta o envolvimento de todos nas aventuras guerreiras típicas da senilidade norte-americana. Para quem sobram os custos e os riscos?

A nível europeu, o caso mais conhecido de integração é o Eurogendfor - European Gendarmerie Force – com sede em Vicenza e que reúne um corpo especializado de intervenção, visando atuar rapidamente na defesa civil ou, em paralelo com forças militares. Participada por seis países – Espanha, França, Holanda, Itália, Portugal e Roménia – pretende ser um corpo de intervenção multinacional que, por enquanto se tem resumido a uma presença marginal na Bósnia e a mostrar a pendões e bandeiras em paradas. É atualmente dirigido pelo coronel Esteves, da GNR lusa.

A criação da UE na sua componente militar fez com que os EUA deixassem de considerar os países europeus num quadro bilateral. Porém, mesmo no atual contexto, somente a França e a Grã-Bretanha têm alguma autonomia de intervenção no exterior; e, mesmo assim, num segundo plano face aos EUA, como se observou na Líbia, apesar da proximidade geográfica. No Afeganistão foi muito mais clara a dificuldade dos países europeus para uma guerra prolongada fora do cenário europeu. E, mais atrás, os bombardeamentos da Sérvia e a criação de uma entidade mafiosa chamado Kosovo, teve uma liderança evidente por parte dos EUA; com uma saborosa contrapartida – a base de Bondsteel, conhecida por “pequena Guantanamo” -  para supervisionar os Balcãs.[3]


3 – O papel das Forças Armadas (FA) portuguesas

É evidente que as FA portuguesas estão plenamente inseridas no dispositivo estratégico-militar ocidental, que tem a cabeça no Pentágono, independentemente da inclusão na UE ou, também como fruto desta última. Pela sua dimensão operacional, pelo equipamento disponível, pelas capacidades financeiras do país, as FA portuguesas estão bem longe de poder ter um papel relevante em qualquer guerra; a sua subalternidade é patente e somente lhes é possível a participação em missões logísticas e de baixo risco, integradas num dispositivo mais vasto da NATO.

Do ponto de vista do poder ocidental, as FA portuguesas nada acrescentam. A prontidão para uma eventual ação guerreira na Guiné-Bissau, recentemente, correu bem porque… não houve intervenção; esta, se tivesse havido, conduzia a desastre ou, teria o apoio francês, por exemplo, para o evitar[4]. Talvez por ter a retaguarda segura, Portas se mostrou tão determinado.

Se umas FA não se distinguem pelas suas capacidades de intervenção militar, nem como elemento de viabilização de um setor industrial de material de guerra, a sua existência só pode justificar-se como corpo de apoio à cleptocracia reinante e de sustentação de uma casta, conhecida pela sua coesão corporativa face a governos e à população. Atualmente, até a possibilidade de um golpe de estado lhes está interdita, pelo ordenamento político internacional; até esse papel histórico lhes está vedado, coitados.

Os gráficos que se seguem, demonstram facilmente que as FA portuguesas constituem um adereço caro para a multidão. Constituem como que uma espada enferrujada na casa de um barão arruinado; um elemento a considerar nas análises históricas mas, com total inutilidade aos tempos correntes.

Procedemos adiante a uma análise singela que compara a evolução do gasto militar por habitante e do peso da sua existência como elemento absorvente de rendimento nacional, em Portugal e Espanha; de onde poderá surgir… uma invasão, como deixado subjacente na abordagem do general Loureiro dos Santos, que dissecámos recentemente[5].

                                Fonte primária: SIPRI - Stockholm International Peace Research Institute

No princípio da última década do século passado, o gasto de cada português com as FA ultrapassou o de cada habitante de Espanha e essa diferença mostra uma tendência crescente.

Em Portugal essa capitação tem aumentado desde então, com ligeiras excepções, insensível, em 2008/2010, às dificuldades provocadas pela crise financeira; cada pessoa viu acrescida a sua contribuição média para as FA, não sendo fácil justificar a necessidade desse esforço. Não fora a intervenção da troika em 2011, continuar-se-ia a engrandecer o gasto militar à custa das vítimas do memorandum. Em contrapartida, desde 2008, em Espanha, a capitação do gasto militar tem decrescido, cifrando-se em 2011, cerca de € 80 inferior ao quinhão que cabe a cada português, em média, substancialmente mais pobre.

Essa evolução mostra que as FA ficaram alheias às dificuldades provocadas pelo  anémico crescimento português da última década e fazem parte das práticas de engrandecimento das desigualdades, em prejuízo da multidão, castigada com a perda de poder de compra e massacrada pelo desemprego.

O peso das FA no PIB luso é, desde 1988, substancialmente superior ao observado em Espanha, embora se assista à sua redução nos dois países ibéricos. Note-se que em Portugal as FA, desde 1998 mantêm uma quota de uns 2% do PIB, dando-se ao luxo de acrescer o seu peso em 2008/2010. Note-se que em Espanha a relevância das FA não ultrapassa 1.2% do PIB desde 1999, decrescendo para 1% em 2005 e 2010.

                              Fonte primária: SIPRI - Stockholm International Peace Research Institute

As FA em Portugal ainda beneficiam da continuidade da imagem ganha com o derrube do regime fascista em 1974, sendo esquecido ou ocultado que o seu enquadramento, os seus protagonistas e o regime interno de funcionamento são hoje, muito distintos dos vigentes durante o PREC. Não deixa de ser caricato que numa convenção preparada sobre alternativas (?), para outubro próximo, encimada por Carvalho da Silva e recheada de elementos do PS e do BE, estejam inscritos muitos “militares de Abril”. Muitos destes últimos, participaram ativamente na “normalização” de 25 de novembro de 1975, como braço armado do PS e do mentor Carlucci, enquanto outros, durante décadas foram passando à situação de reserva, mansamente, sem qualquer atitude perante a degradação da democracia em Portugal; ganharam o hábito de passear as barrigas crescentes e os cabelos rareantes nas comemorações do 25 de Abril, ponto final.

Falta em Portugal, mais do que em outros países da Europa, uma perspetiva popular anti-militarista, uma cultura política que acentue todas as guerras serem contra os povos, mesmo quando estes estão longe do campo de batalha. A guerra em território português está longe na memória histórica e a guerra colonial passou-se em terra alheia; daí a indiferença lusitana, um alheamento periférico para com o militarismo.

A integração das FA com polícias e serviços secretos, com a utilização intensiva e extensiva de informação qualificada sobre todos nós, colocou a guerra nas nossas casas, nos locais de trabalho, quando circulamos na rua, enviamos uma mensagem, consultamos um site na internet, quando compramos sapatos ou leite. No âmbito de uma guerra global definida como subversiva o projeto Indect[6] é uma ameaça que deixa o Echelon[7] - que provocou grande escândalo no final do século passado – ao nível de um jogo de playstation.

Como diz Toni Negri, haverá esquerda na Europa?[8] Onde está uma esquerda capaz de assumir um combate civilizacional contra o militarismo, esse auxiliar essencial da exploração capitalista? 


4 - A lusa esquerda e o seu militarismo

Entre a esquerda institucional portuguesa a questão do militarismo apresenta várias nuances. Sobre os seus comportamentos concretos em tempos recentes, já nos debruçámos em detalhe [9]

Por um lado, temos uma esquerda nacionalista que se manifesta por políticas patrióticas de esquerda (PC) e, naturalmente, submissa e fervorosa defensora de FA, como corpo vocacionado para a defesa do pátria. Será interessante aferir-se se o PC é uma esquerda nacionalista, ou um partido nacionalista de esquerda, defensora das PME e para o qual o capitalismo se resume aos bancos, às grandes empresas e às multinacionais, pontos de uma agenda muito coincidente com os nacionalistas de direita. Sobre a questão do nacionalismo e do patriotismo temos uma posição de total repúdio [10]

A simpatia do PC para com os militares prende-se também com os valores que preponderam nas duas estruturas – hierarquia, autoritarismo, ordem, obediência. Essa similitude causa mesmo algum respeito dos militares, mesmo dos mais reacionários, pelo modo de funcionar dos PC’s tradicionais, pela disciplina que deles emana. Salazar, que cultivava os mesmos valores considerava mais Stalin do que Hitler que considerava desequilibrado e imprevisível.

Na esquerda europeísta (BE) existe algum sentimento anti-militarista, não refletido pelas suas cúpulas, tomado como politicamente inconveniente de ser colocado na praça pública, no tempo que corre. O apoio a Alegre enquanto candidato de Sócrates e a eterna procura do Santo Graal – um PS de esquerda ou mesmo aberto à esquerda – obrigam a direção do BE a esquecer o anti-militarismo enquanto combate civilizacional.

É, contudo, de toda a justiça referir Mário Tomé que, sendo coronel na reserva, assume posições claramente anti-militaristas que encontram eco entre muitos jovens do BE[11]. Os candidatos à junção do BE com a ala menos à direita do PS, através do caneiro de Carvalho da Silva, na convenção qualquer coisa das alternativas, a realizar em outubro, certamente não promovem o anti-militarismo.

Mais detalhadamente, é interessante observar as posições da esquerda institucional a propósito do SMO – Serviço Militar Obrigatório, para se aquilatar as distorcidas concepções de democracia que são uma sua imanência.

Para que toda a vasta e complexa arquitetura que liga FA, forças policiais, serviços secretos funcione, sob um comando ocidental integrado, é necessária aos seus agentes, especialização, uma aprendizagem longa, um treino prolongado, atualizações frequentes, a manutenção de um espírito de corporação, pretoriano. As FA, hoje, pelo seu equipamento e integração articulada num enorme complexo evidenciam uma lógica post-fordista e já não podem funcionar como massas de soldados, mormente de infantaria. O militar, hoje, tende a ser um elemento especializado, com formação técnica, ainda que com aplicação nociva para a multidão; pelo menos, no capítulo do encargo financeiro inerente. A noção do oficial bronco, do capitão “lateiro” com mais manha do que conhecimentos, é uma ideia do passado; porém, essa maior escolaridade e capacidade técnica de hoje, não impede a bestialidade, como a conhecemos de Abu Ghraib, de Guantanamo, dos voos da CIA, das agressões e assassinatos de civis no Afeganistão ou, de um Magina da Silva, na escala doméstica.

Por isso, o SMO, conceito associado à formação dos estados-nação e de difusão do patriotismo, ficou obsoleto e, em Portugal, foi extinto pela AR (Lei nº 174/99, de 21 de Setembro de 1999) com o apoio do PS e do CDS, a abstenção do PSD e o voto contrário do PC. Os primeiros estavam cientes da inoperacionalidade de uma tropa baseada no SMO, com penúria de equipamento, pretendendo portanto, a modernização deste, convictos na capacidade portuguesa de financiar umas FA modernas, capazes de participar, por exemplo, numa guerra como a que então se desencadeara contra a Sérvia. Por outro lado, na alta oficialidade, as coisas traduziam-se em prestígio, promoções, dinheiro para gastar. Não é só na integração europeia e na aplicação das medidas da troika que o mandarinato luso gosta de se apresentar como bom aluno…

Na reacionária esquerda portuguesa, há dois entendimentos sobre o SMO.

O PC pretende um SMO como forma de manter a democraticidade das FA, de as tornar emanações do povo desde que os soldados estejam integrados numa hierarquia de oficiais “progressistas”; uma versão post-moderna de conto de fadas. Na realidade, as FA assumem sempre posições reacionárias, a não ser por curtos períodos; e, nesses casos, com um elevado pendor para se converterem em corporações poderosas que canibalizam o seu próprio Estado. A título de exemplo, não foi a existência de SMO que impediu os soldados, mandados pela hierarquia, de massacrarem os “communards” parisienses de 1871; e, não foram os constrangidos a fazer o SMO que constituíram a base do golpe de estado do dia 25 de abril de 1974, embora, obviamente, tenham aderido ao derrube do fascismo. O PC, talvez hipotecado à admiração que Lenin tinha por Ford, mantém a defesa do SMO, associado a um modelo fordista de organização militar e de condução da guerra.

Logo nos primeiros tempos que se seguiram ao 25 de abril a presença do PC nas FA era, essencialmente, no sentido da influência e recrutamento da oficialidade, transmitindo orientações aos seus militantes para obedecerem aos oficiais progressistas, recusando implicitamente, qualquer autonomia aos soldados, aos que cumpriam o SMO, negando, portanto, qualquer contradição entre os soldados e a oficialidade, sob o estafado anátema de os soldados estarem “a fazer o jogo da reação”; o princípio da hierarquia é uma das bases do autoritarismo, nas empresas, na política, nas famílias.  Mais tarde, no verão de 1975, quando surgiram os SUV – Soldados Unidos Vencerão, a posição terá sido diversa mas, num contexto defensivo, quando se adivinhava o golpe normalizador da “lei e da ordem”, que veio a acontecer a 25 de novembro.

Quando o golpe se efetuou, os militares afetos ao PC não mexeram um dedo, observando de longe a repressão sobre o que na altura se designou esquerda militar; é caso paradigmático a quietude dos fuzileiros, comandados então por oficiais próximos do PC. Como é óbvio, no âmbito da restauração do poder da hierarquia conservadora nas FA, os militares próximos do PC não ficaram isentos de passagens à reserva e colocações na prateleira. Entretanto, Luanda tinha sido entregue ao MPLA, então sob a influência soviética… era tempo de aceitar a democracia de mercado em Portugal e acabar com o PREC.

Defender um SMO é tão desajustado como esperar que as autoestradas sejam construídas para o trânsito de carroças. A passagem para um dispositivo de cariz mercenário, em substituição de um modelo com forte presença de jovens em SMO corresponde a uma mudança técnica necessária para quem defenda a utilidade da existência de FA, embora essa mudança esteja repleta de significado político e não seja uma simples alteração no modelo de espingarda. Para os jovens, sem dúvida que a não obrigação da perda de tempo nas fileiras, a isenção do contato com uma estrutura autoritária castradora, é um avanço civilizacional.

Menos grosseira é a posição do BE, que defende um controlo democrático das FA, sem utilização do SMO, por órgãos do poder através de fórmulas de democracia participativa. O conto é diverso do cantado pelo PC mas, também é de fadas.

Sabe-se que os órgãos do poder significam controlo pelo partido-estado e que democracia participativa é a democracia de mercado com rebuçados e sorrisos para adoçar a multidão e mantê-la afastada da democracia direta e da compreensão dos perigos da sua representação por políticos profissionais. Todos conhecemos os enormes avanços (?) na democracia protagonizados pelos conselhos fiscais dos serviços secretos, pelas dúzias de reguladores e pelas inúmeras comissões parlamentares, invariavelmente dominadas pelo partido-estado.

O BE revela assim a candura com que tradicionalmente tenta fazer acreditar que um Estado moralizado pelo desempenho de gente séria enquadra umas FA democráticas (conceito pouco menos que vazio), patrões democratas preocupados com o desemprego; isto é,  uma via para o socialismo inspirada num Keynes mascarado com as barbas de Marx.

Em suma, quer o PC como o BE defendem umas FA quiméricas, com generais democratas, prescindindo da hierarquia e da autoridade, ambas inerências da vida castrense; o primeiro, pela presença do “povo em armas” através do SMO, o segundo, sem SMO, pela educação democrática dos militares, supervisionada por uma qualquer emanação da classe política. Estamos pois com uma mesma posição, aquela que considera estruturais os valores da hierarquia e da autoridade como legitimadores da obediência e da repressão; os mesmos valores que justificam os partidos como entes acima das massas ignaras, que devem eternamente agradecer as sábias escolhas dos secretários-gerais.


5 - Os valores no militarismo

  • O quartel como local de elevação da condição feminina?
O caso das mulheres nas FA está longe de constituir um avanço democrático, um fator de elevação do papel da mulher na sociedade. A presença de mulheres nas fileiras não altera em nada o espírito elitista dos membros das FA em relação aos paisanos, não aproxima a tropa da população; e, intra-muros, está longe de conduzir a uma igualdade efetiva no desempenho de funções, entre homens e mulheres, como aliás acontece no mundo do trabalho. A ideologia militarista, promovendo a ideia de que a integração nas FA corresponde à pertença a um escol de elementos com a nobre missão de defesa da pátria, tende a integrar as mulheres nessa cultura, fazendo-as ignorar a continuidade do seu lugar subalterno trazido da sociedade chamada civil. Esse elitismo corporativo torna-se menos ridículo se for também protagonizado por mulheres? E a bestialidade reduz-se quando se sabe da prática de sevícias a prisioneiros iraquianos, praticadas por mulheres norte-americanas em armas?

Haverá gente muito tocada pelo feminismo que considera a possibilidade de haver mulheres nos quadros das FA como um avanço civilizacional, um elemento de libertação da mulher face ao predomínio machista; se as vacas fossem lidadas nas touradas, a barbárie seria menos chocante? Pode ser-se seriamente feminista sem repudiar o militarismo? A hierarquia existente na caserna e a obediência cega só são degradantes para a mulher se no âmbito da relação familiar?

  • As FA como escola de obediência
Em tempos, o apuramento para o serviço militar era um atestado de virilidade, um ritual de entrada na vida adulta como macho, um motivo de orgulho no regresso à aldeia depois da inspeção militar; constituía um marco decisivo de iniciação na arte da obediência como condição para a sobrevivência, num mundo dividido em classes e castas.

Durante o serviço militar, o soldado era submetido a violências, tarefas humilhantes, um pré inferior a esmola, berros, marchas ridículas, exercícios ritmados de inclusão em manadas humanas dirigidas por pastores, diferenciados por riscas ou estrelas em cima dos ombros. Nos escalões mais elevados do pastoreio, o cajado foi mesmo substituído pelo pingalim, para que os pobres diabos se sentissem sobas.

O soldado assistia à aplicação casuística de um compêndio, o RDM – Regulamento de Disciplina Militar, manual de não-direito, usado de acordo com os humores e simpatias da oficialidade, que tanto podia redundar em ameaça constante ou concretização de castigos e restrições, como dispensas outorgadas como actos benevolentes de donos e senhores para com os seus servos. Bastas vezes os castigos e as humilhações eram provenientes de superiores psicóticos cuja única realização profissional era o exercício arbitrário da autoridade. Para cúmulo, a comida era uma merda, em relação inversa com o património pessoal dos responsáveis de intendência, como no caso do famoso Valentim Loureiro.

O estágio no quartel constituía uma ação de formação na arte de obedecer, de aceitação da autoridade, para uma adequada integração futura na fábrica, no trabalho em geral, às ordens de patrões ou seus capatazes. O serviço militar constituía a antecâmara de separação entre a escola e a aterragem no trabalho subordinado; um percurso essencial de despersonalização, de coisificação, de mercantilização. Sempre para o bem da pátria, entenda-se.

O ambiente dos quartéis modificou-se após o 25 de Abril, tornou-se menos sórdido e a redução do tempo de serviço militar tornou menos pesada a carga negativa transportada para a vida de cada um. Porém, a ausência de objetivos reais na vida militar, aliada à insuflagem da grandeza da condição militar, comparada à menoridade da vida dos civis, não deixa de evidenciar as perturbações mentais que grassam nas FA, mormente nos corpos de elite, como o caso recente do oficial criminoso que colocou uma faca sob a barriga de um instruendo para o dotar da força suficiente para realizar um exercício; como o incentivo não funcionou, o pobre, ao fraquejar, espetou a faca no fígado[12].

O fim do SMO reduziu o papel das FA na formação de obedientes e acentuou o seu novo desígnio de polícias de segunda linha, em íntima ligação com os de primeira linha e os serviços secretos. Essa função ficou reduzida porquanto o peso da tecnologia na máquina guerreira dispensa os magotes de soldados com escassa formação. Os contratados para funções não especializadas e por poucos anos, são poucos e tendem posteriormente a viver entre a musculação em ginásio e a guarda de discotecas manhosas, com a toma de anabolizantes para mais facilmente ganharem ar de rambos.

Por outro lado, a precariedade de vida, o desemprego, a facilidade do despedimento, a mobilidade da força de trabalho, tornaram mais vulnerável a situação do trabalhador, incutindo-lhe um espírito de submissão e obediência que substitui, com menor custo, a aquisição da obediência no quartel. É a substituição da sociedade disciplinar pela do controlo biopolítico, pela endogeneização da repressão.

A oficialidade, contudo, na senda do teórico Loureiro dos Santos não prescinde de mostrar aos jovens as vantagens das fileiras, queixando-se da estreiteza de umas escassas horas num quartel, durante uma vida, quando do Dia da Defesa Nacional que, na nossa opinião, não faz qualquer sentido, em qualquer formato, para mais com caráter obrigatório, submetido a penalidades em caso de não comparência.

O dia da Defesa Nacional, consta de um programa que dura meses, em vários quartéis espalhados pelo país, destinado a jovens de ambos os sexos, recém-chegados à maioridade forçados a assistir a uma operação de charme sobre o prestígio, o significado e as vantagens do ingresso na vida castrense; para tornar a operação menos enfadonha levam-nos a brincar aos exercícios militares que podem, por vezes ter consequências dramáticas[13] O desinteresse dos jovens é evidente quando lhes é perguntado se gostariam de ingressar na vida militar e isso, apesar do contexto de perspetivas pouco risonhas de futuro.

  • O militarismo na cultura comum
A ligação entre o patriotismo, o nacionalismo e as FA é muito clara, como referimos recentemente[14]. Há dois aspetos interessante que irmanam aqueles conceitos à instituição; os chamados hinos nacionais e as bandeiras.

Deixando agora por desfraldar a bandeira, note-se que quase todos os países apresentam os seus hinos como marchas militares, com cadências musicais que reproduzem o ritmo da marcha de pelotões, esquadrões e batalhões, se não a caminho da carnificina da batalha, mais pacificamente no voltear nas paradas, para demonstração de brio militar e prontidão para defender a pátria; muitas vezes com aqueles passos de perna esticada (de ganso!?) e cara voltada para a autoridade, que de nada servem para desfeitear o inimigo, mas impressionam plateias de basbaques.

O nosso bem conhecido hino dos heróis do mar que marcham felizes contra os canhões coaduna-se muito bem com a imagem de soldados de infantaria a caminho da morte, sob o olhar de um general, que os observa de longe, fora do alcance da metralha, com um binóculo. Para os soldados, a glória da pátria substituirá, no Além, o magote de virgens típico de infiéis dados à concupiscência. O patético não fica por aí; o referido hino não passa de uma cópia da Marselhesa destinado a gerar o sonho de vitórias napoleónicas sob as cores da república declarada por um Relvas latifundiário, talvez antepassado do atual, campeão do cabulário.

A música desterritorializada conhecida por rock, pop ou pop-rock tem como peça chave o ritmo marcado pela bateria, em regra com uma batida binária. Não é difícil entendê-la como baseada na cadência das marchas militares, com o mesmo intuito uniformizador de manadas humanas, quer participem em desfiles nos quartéis ou em concertos das banda da moda, sejam embebidas nos decibéis à solta nos ginásios, ou na dolência estudada para acompanhar a marcha dos carrinhos de supermercado. Os ritmos repetitivos são excelentes para estabelecer rotina e disciplina, inserção em rebanhos, para colocar os cérebros em estado de sonolência ou torpor desatento.

Fala-se muito da (falta de) democracia política mas, pouco se refere a ausência de democracia nas FA, no trabalho, nas prisões. Contudo, as causas dessa ausência nas várias instâncias têm a mesma origem; constituem elos essenciais do domínio capitalista.

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Este e outros textos em:

 

[1]   http://www.slideshare.net/durgarrai/o-neoliberalismo-e-a-geopoltica-no-mediterrneo-1
[2]   http://pt.scribd.com/doc/98904639/Para-que-servem-as-Forcas-Armadas-A-doenca-senil-do-militarismo
[3]  ht174/Nathttp://www.slideshare.net/durgarrai/a-world-problem-named-nato
[4]  http://www.slideshare.net/durgarrai/para-que-servem-as-foras-armadas-a-doena-senil-do-militarismo
[5]  http://www.slideshare.net/durgarrai/para-que-servem-as-foras-armadas-a-doena-senil-do-militarismo
[6]   http://www.stopp-indect.info/?s=&search=Buscar
[7]   http://pt.wikipedia.org/wiki/Echelon
[8]  http://pt.scribd.com/doc/79038991/Toni-Negri-em-Lisboa-Sera-que-na-Europa-existe-esquerda
[9]   http://www.slideshare.net/durgarrai/a-misria-da-esquerda-que-anda-por-a-um-case-study-a-cimeira-da-nato
[12]   http://www.ionline.pt/portugal/exercito-militar-esfaqueado-praxe-esta-nos-cuidados-intesivos
[13]   http://pt.scribd.com/doc/56750812/Jovem-Morre-No-Dia-Da-Defesa-Nacional
[14]   http://www.slideshare.net/durgarrai/para-que-servem-as-foras-armadas-a-doena-senil-do-militarismo