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quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

TÊXTOS DE CIRCUNSTÂNCIA - 7


Sumário:

A - Democracia direta - para uma definição operacional
B - Lições a tirar das manobras de Trump no “quintal” latino-americano
C – Na paróquia lusa um prémio Nobel costuma ser seguido com beata veneração
D - Os 44 anos do 25 de Novembro e o cumprimento dos seus objetivos
E - Sobre o patriotismo
F - O magnânimo Costa e o salário mínimo de € 750 em…2023

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A - Democracia direta - para uma definição operacional

O aqui definido deve ser entendido como correspondendo a uma total recusa do actual regime que se tem revelado reacionário, oligárquico, corrupto e empobrecedor. E, nesse contexto, entende-se como única postura digna, coerente e libertadora, a vigência de uma verdadeira democracia - a democracia direta; e, por coerência e imperativo prático, compreende a recusa de demandas junto das instituições do regime, como cartas abertas, petições e afins.
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O evidente descrédito dos partidos políticos tem como principais causas o empobrecimento coletivo, a baixíssima natalidade, a precariedade laboral e na vida, com os governos a serem muito criativos em reduzir (em termos reais) rendimentos e em aumentarem a carga fiscal, mostrando-se ainda incapazes de organizar adequadamente todos os sectores com maior relevância na vivência coletiva – saúde, educação, segurança social, transportes, habitação. 

Por outro lado, os governos e a classe política são arrogantes, colocam-se acima da população, com direitos únicos de decisão; e mantêm uma relação promíscua com o espetro mediático ao seu dispor mas, vedado às opiniões do povo; e, nem sequer se mostram capazes de organizar tecnicamente, um recenseamento eleitoral, passadas dezenas de anos. 

Veja-se, por exemplo, como o regime se autoelege como dono da democracia assumindo, arrogante e totalitariamente, que “Os partidos políticos concorrem para a organização e para a expressão da vontade popular” (artº 10º, nº2 da CRP), com a implícita remessa da massa popular para a categoria de eunucos políticos, prostrados, atentos e agradecidos pelas benesses da atenta e sábia classe política.

As esperanças, que depois de 1974 cresceram em flecha, têm evoluído num sentido decrescente, o que é espelhado em todos os tipos de eleição, nas enormes desigualdades e na emigração, numa deterioração gradual nos contextos ibérico e europeu. 

A Constituição, laboriosamente elaborada para colocar a população à margem da decisão sobre as suas vidas, mostra-se ultrapassada, no capítulo do modelo de representação, em todas as vertentes – nacional, regional, autárquica, e europeia; para além da figura presidencial, uma reminiscência monárquica, sem utilidade que não a de entretenimento para as camadas mais ignaras da população, devidamente municiadas de vacuidades emitidas pela real reminiscência de turno, por uma atenta e oca comunicação social.

Os actos eleitorais tornaram-se rotinas, que pouco ou nada têm remediado as condições de vida, mormente depois da intervenção da troika.

Uma vez que o regime político se mostra esgotado e desacreditado, entendemos tipificar elementos para a sua substituição, mormente através de uma democracia direta, apontando como bases para o seu funcionamento, os seguintes pontos; 

1.   Aplicação do princípio da subsidiariedade, segundo o qual, as decisões sobre a vida coletiva são somente tomadas pelos seus beneficiários diretos. Por exemplo, um infantário é decidido pela população de uma freguesia que irá servir mas, uma escola secundária, será decidida pela população das várias freguesias beneficiadas com a sua existência;

2.   Todo e qualquer residente há mais de um ano numa circunscrição eleitoral tem o direito de se candidatar à representação em qualquer nível onde essa circunscrição esteja contida;

3.   Qualquer eleição não poderá recair num mesmo elemento mais de duas vezes;

4.   Não há lugar a candidaturas coletivas;

5.   Qualquer eleito como representante tem os deveres de se informar e manter informados os seus eleitores, de recolher entre estes uma súmula do pensamento coletivo, por referendo, se necessário;

6.   Qualquer eleito, em qualquer instância e a qualquer momento, pode ter o seu mandato retirado, por referendo organizado para o efeito, na circunscrição eleitoral que o elegeu;

7.   Existe uma total ausência de imunidades específicas para os eleitos;

8.   Todos os encargos relacionados com o desempenho de uma representação, são cobertos pelo erário público afeto à circunscrição em que o representante foi eleito;

9.   Qualquer elemento, em funções de representação, sobre o qual se demonstre ter cometido qualquer crime ou irregularidade lesiva da comunidade, é suspenso/afastado dessas funções; e a sua eventual punição pela justiça, não tem prazo de prescrição;

10  A administração pública, a todos os níveis, tem todos os seus lugares ocupados através de concurso público e não por nomeação;

11  O acesso à informação contida em qualquer nível da administração pública está aberto a todos, salvo informações quanto a concursos, enquanto os mesmos não estiverem concluídos;

12  Questões de caráter constitucional são resolvidas pelo Supremo Tribunal de Justiça e, se necessário, submetidas a referendo para validação (o actual Tribunal Constitucional é uma emanação da oligarquia partidária, a extinguir);

13  A representação externa da República caberá ao presidente da AR em funções. O atual cargo de PR, engloba essencialmente actos formais, de escassa relevância ou criados para aparentar relevância, como se uma soma de espaços vazios possa encher um dedal. É, pois, uma figura inútil e cara; uma vazia reminiscência monárquica;

14  O território será dividido em circunscrições eleitorais na ordem dos 20/25000 eleitores e a cada uma caberá eleger, entre os seus residentes, um representante na AR;

15   O governo – ministros (10/15) e secretários (até 2 por cada ministro) - é escolhido na AR e os seus membros terão de se manter, paralelamente, em funções como representantes das circunscrições por onde foram eleitos, com os inerentes direitos e deveres;

16   A AR terá um staff técnico de apoio aos representantes e ao governo, em ligação à administração pública e independente do governo;

17   O princípio do funcionamento assembleário atrás descrito é válido também ao nível das freguesias, dos concelhos e das regiões, passando estas últimas a ter uma definição clara, estável, com prerrogativas próprias; e não como têm sido, meras extensões do governo, de configuração variável, alfobre de membros da classe política e de agilização de negócios.

B - Lições a tirar das manobras de Trump no “quintal” latino-americano

A História dos golpes militares na América Latina tem longas barbas. Acredita-se no poder de Estado como redentor das mágoas populares, acredita-se num salvador que, por acaso (?) entende poder contar com a lealdade da tropa, da polícia e entes militarizados; e policiais que, não por acaso, aceitam a hierarquia e o verbo do mandante como a coisa mais natural ao cimo da terra. Foi sempre assim, sempre assim será, diria a minha avó.

A História já deu inúmeros exemplos de maus desfechos dessas experiências, em regra com um chefe carismático, que é aceite como um redentor, pelas oligarquias e por ele próprio, tomado como vocacionado para resolver os problemas do povo. O messianismo é isso mesmo; e o messianismo não é, nem nunca foi algo mais do que uma ilusão, uma miragem.

O destino de um redentor com bota militar ou com elegante sapatinho italiano é ser substituído por um avatar semelhante, depois da constituição de um gordo pecúlio num qualquer offshore. Outros casos, protagonizam frouxos democratas que mais não farão do que melhorar alguma coisa a vida do povo, tomado como massa informe e ignara; e sempre caindo na estúpida crença de que dessa vez, a bota militar, democratizada – certamente por intervenção divina - não coloca os tanques na rua como momento de reinício da regeneração pátria.

Os condutores do povo caem sempre na mesma atitude, achando que as ditas massas populares precisam de condutores, de chefes iluminados para resolver os problemas em nome e benefício das tais massas, tomadas como tão estúpidas e ignorantes como as massas alimentícias. Desconhece-se um caso que seja, em que os conducatores[1] fazem um trabalho decente durante um tempo razoável; por exemplo, Lenin e Trotsky decidiram acabar com os sovietes e os comités de fábrica e constituir o partido como deus ex machina.

Não há sucesso com oligarquias nem com Estado; e isso, porque não há Estado sem oligarcas, nem oligarquias sem um Estado para parasitar. Do ponto de vista da eficácia, a ligação entre Estado e oligarquias é um casamento perfeito.

O poder do povo deverá ser disseminado em muitas instituições democráticas, que envolvam todo um povo nas decisões respeitantes à vida coletiva; a manterem-se, como na situação de hoje, instituições fechadas, hierárquicas, autoritárias e atravessadas por compadrios corruptos, não se sai para lado algum. Confiar na figura totalitária do Estado, nos governos que o parasitam, em castas militares, policiais como na justiça estatal, é aceitar a submissão ao poder das oligarquias, o poder de castas de iluminados, um género de buracos negros que guardam a luz só para si; é aceitar como inscrita nas estrelas a perenidade da atuação de corruptos, de prostitutos, dispostos à inserção em qualquer outra hierarquia que lhes mantenha uma vida boa; é aceitar o cadafalso em montagem permanente pelas derivas financeiras, repressivas, empobrecedoras e destruidoras do meio social, como do meio ambiente.

C – Na paróquia lusa um prémio Nobel costuma ser seguido com beata veneração[2]

De facto o “neoliberalismo prejudicou a democracia” – diz Stiglitz. Mas, antes do seu advento, a democracia foi prejudicada pelo liberalismo antes e depois da I Guerra; e o keynesianismo tão amado entre o que resta de social-democracia e pela chamada “esquerda” foi aplicado com enlevo pioneiro pelos nazis, insuspeitos de qualquer amor à democracia. Mais explicitamente, em qualquer formulação do capitalismo, por natureza, é preciso acumular capital; e para que tal seja conseguido é preciso manter a plebe mansa, com um grau adequado de contenção da democracia. 

Numa linguagem economicista, a democracia poderá ser uma variável dependente, numa relação direta, com o grau de acumulação de capital. Se os tempos estão difíceis o capitalismo aperta os orçamentos familiares e os direitos do povo, encolhendo a democracia; se há alguma euforia económica, o desemprego cai e os salários aumentam e o capital torna-se mais benevolente politicamente.

O neoliberalismo é o modelo inerente ao domínio das multinacionais que, em procura da maior rendabilidade do investimento, passaram a segmentar o processo de produção em várias fases técnicas e por várias geografias, em procura, naturalmente, da maior acumulação possível de capital; e, em prejuízo dos capitalistas de inserção meramente nacional.

Por outro lado, a financiarização da “produção” de valor, beneficiando da desmaterialização possibilitada pelas novas tecnologias, tornou mais prático colocar as pirâmides de Ponzi a carburar do que voltar às fábricas do tipo Ford, com mais de uma centena de milhares de trabalhadores; e gerar assim, aumentos do incontornável PIB, por essa via. 

No território designado por Portugal, campeia a deriva imobiliária, o turismo e o salário (cada vez mais baixo no contexto europeu[3] como instrumento para o enriquecimento de… alguns; que se ficarão a rir sentados sobre os seus depósitos em offshores deixando ao governo de turno, fatalmente ancorado no PS/PSD a gestão da plebe, através de uma renovada austeridade. 

Como diz Stiglitz, Wall Street é que conduz a política americana – que muito influencia a política global, onde se inscrevem as sanções decretadas pelo Trump, distribuídas como quem dá milho aos pombos; sem que com essa magnânima distribuição seja descurada a imposição de vendas de armas aos países vassalos.

Perante esta centralização do capital e sem prejuízo das suas rivalidades internas, a esmagadora maioria dos estados-nação perderam qualquer autonomia e possibilidades de uma harmonia produtiva interna com a qual ainda sonhava Marcelo Caetano, nos anos do seu consulado; um sonho comum que ocorre ainda toca os derradeiros nacionalistas.

O capitalismo, no século XVII inventou o estado-nação onde, no âmbito de cada qual, se entrincheiravam os magnatas locais ligados ao comércio longínquo; nele se gerou o patriotismo para que cada pobre de um estado-nação pudesse matar os pobres de outro estado-nação para agradar aos “seus” ricos; e criou um aparelho de Estado, cada vez mais gordo, ineficiente, repressivo e asfixiante.

Stiglitz fala do fim do neoliberalismo; depois do enterro do keynesianismo e do modelo de capitalismo de estado. É muito curto.

O problema é o capitalismo mesmo que atravessando várias fases históricas. O capitalismo na sua diversidade tem-se mostrado um dedicado destruidor de vidas, um constante gerador de desigualdades, racismos, discriminações, crimes de toda a ordem. O seu enterro é uma necessidade e não partirá, certamente das classes políticas, “desse absurdo mercado dos homens sem qualidades”[4]

Utilizando as ferramentas do capital – estado-nação, Estado, nacionalismo – não se sai para lado algum.

D - Os 44 anos do 25 de Novembro[5] e o cumprimento dos seus objetivos

Cunhal sabia que após a independência de Angola, colocada na órbita soviética, o seu papel seria reconverter o PCP à imagem do PCF, por exemplo; um eleitorado numeroso, controlo das organizações sindicais e dezenas de autarquias do Ribatejo para sul. 

Perante a operação militar de 25 de Novembro, o PCP esperou que Eanes e o fascizante operacional Jaime Neves pusessem ordem nas casernas. E beneficiou da inteligência política de Melo Antunes que se opôs à ilegalização do PCP e das organizações mais à esquerda; ele sabia que um quadro de restrições na expressão política não cairia bem na CEE onde Portugal iria procurar incorporar-se, terminado o ciclo colonial de 500 anos.

O PCP esperou que a tropa em 25 de Novembro limpasse o terreno dos “incomodativos” esquerdistas para balizar o terreno político com uma esquerda cordata, “civilizada”, própria para um diálogo institucional de longo prazo, baseado numa paz de cemitério; que, nos anos seguintes, porém, viria a ser perturbado nas crises empobrecedoras de 1977 e 1981/83 com a intervenção do FMI, enquanto o ingresso na CEE era preparado[6].

O 25 de Novembro do ponto de vista militar foi um passeio, com fraca e desconexa resistência. Melo Antunes, Vasco Lourenço e Eanes criavam assim as condições políticas para a adesão à CEE, depois do acordo comercial de 1972, ainda assinado por Caetano. Depois, a tropa normalizou-se, a hierarquia foi reposta e, mesmo assim manteve-se de plantão até 1983 com um Conselho da Revolução que, na realidade, era um supervisor da ação governativa e que de revolucionário nada tinha.

Estabelecida a lei e a ordem, o I governo PS cumpriu o previsto. Reestruturou e capitalizou as empresas nacionalizadas[7] (muitas em estado de pré-falência), limpando-as financeiramente para a futura a privatização, que só começou em 1985, com Cavaco ao leme e o beneplácito do insonso Constâncio; uma vez mais, a harmonia no partido-estado (PSD/PS, nesta conjuntura).

Depois disso, montou-se o modelo de subalternidade política, de desestruturação económica, venda de ativos sem qualquer estratégia para além da cobertura do deficit público, a continuidade da vigência dos mais baixos salários da Europa Ocidental e o desarmamento de todas as proteções estatais aos vendedores de força de trabalho; neste último ponto, a medalha tem de ser dada ao Vieira da Silva… um revolucionário ex-MES.

Pela sua pobreza relativa, pela desestruturação do tecido económico, pela dependência do binómio turismo-imobiliário, sem uma verdadeira classe capitalista, Portugal pouco passa de um corredor atravessado pelas redes logísticas das multinacionais ou, visto de fora, como um género de 19ª autonomia do reino de Espanha.

E - Sobre o patriotismo

Há vários anos que vamos referindo a “estupidez patriótica”[8]. Ter nascido em Portugal ou na Cochinchina são dados de facto, nada há a comentar. A dotação de uma nacionalidade a uma pessoa é um carimbo, uma segmentação política, que visa estabelecer uma distinção artificial, sabendo-se, no entanto, que os seres humanos são todos, antropologicamente, homo sapiens, com as mesmas necessidades e os mesmos direitos. 

A distinção nacional é atribuída à nascença, por um aparelho de Estado, gestor de um estado-nação que, dessa forma entende estabelecer direitos sobre as pessoas que nasceram no seu território; e, se necessário, incutir-lhes-á a obrigação de matar, numa guerra[9], gente catalogada como nacionais de um outro estado-nação, contra os quais não tem quaisquer queixas ou conflitos a dirimir. Por outro lado, não é fácil, apagar esse carimbo, colocado à nascença; há alguma semelhança face a um bezerro que, tendo nascido na herdade de um Zé, se tornou propriedade do mesmo.

O capitalismo quando entrou em velocidade de cruzeiro, no século XVII, precisava de “privatizar” recursos, rotas, colónias, com a exclusão da concorrência; naturalmente, no âmbito de uma concorrência feroz. E, como se tornava caro o recurso a soldados contratados - mercenários – como até então acontecia, numa antiga tradição já praticada por romanos, gregos e macedónios – foi praticada a entrada nas aldeias de um militar de carreira, encarregado de indicar os jovens que entendia levar consigo para combater algures, em nome de el-rei[10]. Mais tarde, foi inventado o serviço militar obrigatório (SMO) quando a máquina administrativa dos estados-nação atingiu maior apuro e, uma vez que a maior escolaridade permitia o fomento massificado do patriotismo, com a elevação exagerada ou mitificada dos heróis do passado. Esse patriotismo visava que a plebe do país A preferisse defender os “seus” capitalistas contra a plebe do país B, igualmente colocada na defesa dos “seus” capitalistas. 

O experiente Napoleão dizia que podia fazer homens sacrificarem as suas vidas para obterem uma fita colorida no chapéu (uma distinção de valentia que significava ter abatido muitos inimigos). Dito de outro modo, qualquer hilota quando se assume como patriota, não percebe que faz figura de idiota.

F - O  magnânimo Costa e o salário mínimo de € 750 em…2023

Depois da romaria eleitoral, as cartas saem da manga…

1 - Se houver regularidade, haverá enoooormes aumentos, numa média mensal de € 37.5 para cada um dos quatro anos; dito de outro modo, pouco mais de um euro por dia. Para 2020, o governo já emitiu, como prenda de natal, um aumento de 35 euros mensais.

2 – Isso significa, para se manterem, entre salários, as posições relativas de hoje que TODA a gente terá de ter, no mínimo, um aumento percentual equivalente ao do salário mínimo; e, não é fácil perceber que, com a previsível anemia do crescimento económico, isso seja concebível ou aceitável para o indigente empresariato luso liderado por um tal Saraiva;

3 – Outra hipótese, muito praticada, há anos, é o aumento do salário mínimo com aproximação contínua face ao salário médio; isto é, a continuidade do nível de vida mais baixo da Europa, exceptuando, alguns países balcânicos, como se pode ver na ligação abaixo;

4 – Recorde-se que em Espanha o salário mínimo é de € 900 e, certamente irá ser aumentado nos próximos quatro anos; pelo que o desnível entre Espanha e a periferia ocidental da Península irá, muito provavelmente, aumentar; porreiro, pá! Ganharemos competitividade!

5 – Outra habilidade na manga é o aumento da receita fiscal em termos de IRS para alimentar a punção fiscal que enche o pote, que alegra a classe política e o mandarinato em geral. Nos últimos anos, a média anual do ganho salarial foi de 1.6% e a da receita de IRS, 3.9%

A comparação (1999/2018) entre os salários mínimos nos países mais pobres da UE (incluindo ainda a Turquia) face a Portugal (nível 100) é eloquente. 



Este e outros textos em:

http://grazia-tanta.blogspot.com/                              

http://www.slideshare.net/durgarrai/documents


[1] Conducatore, nome dado na Roménia a ditadores como Antonescu ou Ceausescu
[2] Comentário a “O fim do neoliberalismo e o renascimento da História” de Joseph Stiglitz (Expresso, 16/11/2019)
[4]  Título de um livro com textos de Anselm Jappe, Robert Kurz e Claus P. Ortlieb (edição espanhola)
[9] Nos países europeus, com o abandono do serviço militar obrigatório, nomeadamente por razões técnicas, gerou o recurso a contratados como profissionais, o que os aproxima da qualificação de mercenários
[10]  Durante a guerra de 1914/18, entre os jovens portugueses chamados para as fileiras a parcela de refratários ou desertores era bastante grande

quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Salário mínimo, instrumento de controlo social


As dinâmicas do capitalismo reproduzem desigualdades a todo o momento e exigem uma constante redistribuição espacial da produção; o salário mínimo é um instrumento dessa redistribuição e para uma conveniente paz social

Sumário

1 – Salário mínimo, um jogo de conveniências
2 – Salário mínimo – estreitamento do leque entre pobres e menos pobres
3 – Comparação do salário mínimo em Portugal com os dos países mais ricos
4 – Comparação do salário mínimo em Portugal com os dos países mais pobres
5 – Comparações através do salário médio horário divulgado pela OCDE
6 – Encolhimento dos rendimentos do trabalho em Portugal

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1 – Salário mínimo, um jogo de conveniências

A existência de um salário mínimo pode ser uma via de estabelecer alguma dignidade ao trabalho, embora da sua inexistência não decorra necessariamente que não há limites à exploração dos trabalhadores; os países escandinavos e outros, na Europa, estão aí para o demonstrar. O salário mínimo visa estabelecer um parâmetro que, com a chancela estatal, garanta a existência das mais baixas estirpes do empresariato; um género de seguro para os “investidores”.

Mesmo com esse caráter oficial, não é aplicável para muito do trabalho precário ou, não qualificado, que alimenta a enorme massa de atividades tomadas como contidas na economia dita informal ou paralela. Por outro lado, o uso e abuso dos chamados recibos verdes, da figura do trabalho como independente (?) corresponde à ausência de abrangência da figura do salário; e visa assegurar a precariedade, permitir um despedimento, sem prazos ou indemnizações, uma vez que o trabalhador exerce atividade como “prestador de serviços”. Como o “prestador de serviços” acarreta com a maior fatia de descontos para a Segurança Social, essa figura, para o empresário é mais favorável do que um contrato de trabalho, no âmbito do qual, o chamado “empregador” acarreta com essa maior fatia.

Essa realidade, esses truques legislativos e regulamentares exercem uma pressão sobre todos os níveis salariais, mormente baixos ou intermédios, na proximidade do salário mínimo, pagos por empresas de menor rendabilidade e que encontram naquele referente, um elemento quantitativo útil para a prevalência, em geral de níveis salariais tão baixos quanto possível; e, para mais, sendo objeto de uma bênção governamental. Serve ainda para disciplinar as reivindicações sindicais, que tomarão como referente geral o tal salário mínimo, como elemento de ajustamento dos rendimentos do trabalho às necessidades das empresas, com todos os convivas – governo, sindicatos e patrões - muito cientes e irmanados pelo respeito para com os interesses nacionais…  A fixação do salário mínimo inspirou a criação de um outro parâmetro de referência – o IAS-Indexante dos Apoios  Sociais – aplicável a todas as prestações solidárias que amenizam a pobreza.

Recordemos que na lógica do capitalismo, mormente neoliberal, são as empresas que criam o emprego, competindo aos trabalhadores aceitar o sacrifício de um baixo salário que evite falências e desemprego. Numa revisão empresarial do Genesis, Deus criou primeiro o empresário e depois o trabalhador para o servir.

Nessa lógica circular, para as empresas, os salários são essencialmente um custo de produção ainda que diferente dos restantes custos, pois é o trabalho que cria valor; e a parcela desse valor criado e que é distribuído aos trabalhadores sob a forma de salário é um elemento essencial para garantir um elevado nível global de consumo que, por sua vez, vai garantir a existência dos capitalistas. 

É difícil a vida dos capitalistas... Sobretudo, no contexto de um determinado estado-nação, numa época em que não existindo, para a circulação das mercadorias, os pesados crivos fronteiriços e alfandegários de outrora, a concorrência é sempre algo presente e, para mais, com dimensão e conteúdo pouco previsíveis.

A perpetuação do capitalismo exige a existência de normas salariais e laborais consensuais, pacificadas, mesmo com sacrifício, pelos trabalhadores; importante mesmo é que os capitalistas acumulem capital ininterruptamente e em montantes crescentes, para acompanharem o progresso tecnológico e investirem, garantindo uma boa vida aos ditos empreendedores e uma paga condigna aos seus servidores, mormente às castas militares, policiais e às classes políticas; e que se mantenha um alto nível de consumo, que absorva o rendimento de quantos trabalham, para que o ciclo do capital se feche e renove.

Claro que há uma narrativa piedosa que considera o salário mínimo como um patamar que evita uma degradante miséria que desenvolva roubos, assaltos, mendicidade, prostituição; cabendo pois, ao Estado, como “representante de todos nós”, olhar para que a pobreza se mantenha num nível tolerável; que, não incomode os bem instalados, nem afugente os turistas, cuja passagem pelo torrão pátrio tanto beneficia o imobiliário, a hotelaria, a restauração, a economia paralela e o abastecimento de off-shores. Aliás, a existência de pobreza é mantida pois muitas empresas e grupos religiosos vivem da delegação que o Estado lhes faz dessa pobreza; devidamente abastecidos pelo dinheiro dos impostos, que também pagam a fiscalização desses arcanjos empenhados no combate da pobreza, cujas fraudes são frequentes. Para esses dedicados combatentes da pobreza, quanto mais pobres necessitarem de ajuda… melhor!

Por outro lado, uma pressão exagerada sobre os rendimentos do trabalho pode gerar surtos grevistas, manifestações e convulsões sociais ou políticas, pouco favoráveis para a obtenção de um sorriso da parte das empresas de rating; e, esse rating, fornecido através de ignotas métricas, dá indicações para o mercado, sobretudo para os níveis das taxas de juro que sustentam aparelhos de estado, classes políticas, endividamento empresarial e dos consumidores, cujo bom ritmo de crescimento constitui a alegria do sistema financeiro. A mansidão na área laboral é, na realidade, uma exigência dos mercados.

A vigência de um salário mínimo não é algo de aplicação cabal. Primeiro, porque existem diversificados níveis de economia paralela onde aquele salário não é praticado. Depois, porque o uso e abuso de horas de trabalho extraordinário, não contabilizado nas estatísticas, nem pago, reduz efetivamente a retribuição por hora de trabalho para muitos assalariados. Por outro lado, o trabalho a tempo parcial ou o trabalho precário, constituem técnicas de gestão para a domesticação da força de trabalho e de embaratecimento do seu peso nos custos de produção.

A fixação de um salário mínimo – onde exista[1] – constitui um elemento geral de comparação, para os capitalistas globais, mormente para os investidores que procuram local para uma rentável instalação. Faz parte da esgrima habitual no seio das classes políticas, entre governos e organizações do patronato - que se dizem em grande esforço para aumentar o salário mínimo – e que têm como contraponto as oposições ou as organizações sindicais que, por deveres de ofício, clamam sempre mais. Aliás, o jogo mediático contraria a realidade; os aumentos no SMM correspondem ao preço de um café diário e, não produzem quebras no emprego nem custos adicionais relevantes nas empresas. Não promovem, portanto, qualquer redistribuição do rendimento.

Esta lógica de diálogo, de procura de consenso entre o trabalho e o capital permite a continuidade do capitalismo, nada altera na sua essencialidade. Não evita o desvario ambiental e climático, não estanca as lógicas militaristas, não destrói as taras nacionalistas nem fomenta as solidariedades da multidão; não coarta a pulsão genocida do capital, a sua focagem na redução substancial da Humanidade e mostra-se neutra face a deriva capitalista em rédea solta, entregue às suas próprias dificuldades e contradições, apostando - e decididamente - nas tecnologias que ajudem a perpetuar o sistema. 

Essa lógica de diálogo consiste na permanente procura de redução de um prejuízo, sabendo-se que o mesmo se vai reproduzir muito em breve. Demasiadas vezes, esses acordos saudados como vitórias dos trabalhadores rapidamente são torpedeados pela inflação, pela manipulação das formalmente caóticas legislações laborais e tributária e outros parâmetros que a tentacular máquina estatal tem ao seu dispor. Contrariamente aos humanos, os gatos não perdem tempo a tentar alcançar a ponta da cauda... caçam ratos!

No âmbito das democracias de mercado e no seio da grande convergência estratégica entre os governos e as oposições respetivas, discute-se muito a partilha dos rendimentos da propriedade capitalista mas nunca a fulcral e basilar questão da propriedade capitalista, ela própria, encarada implicitamente, como uma legítima dádiva dos deuses a alguns, com exclusão da grande massa da multidão.
2 – Salário mínimo – estreitamento do leque entre pobres e menos pobres

Como qualquer outra referência económica, os indicadores são aproximações da realidade. Tomamos para aferição da realidade, um indicador; os salários mínimos mensais (SMM) divulgados pelo Eurostat, relativos aos primeiros semestres de cada um dos anos contidos no período 1999/2018 e para os países englobados na UE; e em valores brutos, antes da dedução de impostos ou contribuições para a segurança social. 

Os valores utilizados não são referentes a qualquer unidade monetária existente mas sim em “paridades de poder de compra”, uma moeda artificial para a qual são convertidos os preços - expressos previamente em cada moeda nacional - de um dado cabaz de compras de bens ou serviços. Mede-se pois, o custo desse cabaz numa unidade uniforme que, na realidade, compara os poderes aquisitivos nos diferentes países. 

Não seria fácil e atraente observar um quadro ou um gráfico contendo valores de SMM para todos os países, mesmo que vários não tenham SMM como expressámos em nota, mais atrás; e, para mais, para um lapso de tempo de 20 anos. Ainda assim, excluímos mais nove países[2] da comparação a que procederemos.

Comecemos por observar a grande aproximação no período 1999/2018 entre o SMM mais elevado (sistematicamente aquele que é definido no Luxemburgo) e o mais baixo da UE que se verifica, em vários países da Europa de Leste. Assim, o SMM luxemburguês subiu 42% e os valores mais baixos chegam a crescer cerca de 13 vezes, no caso da Roménia, no referido período. Assim, o valor mais elevado era 18.5 vezes superior ao SMM mais baixo em 1999, seguindo-se no decorrer do tempo uma aproximação que conduz a 2.9 vezes, no primeiro semestre do ano corrente. (ver gráfico 1).

                     Relação SMN mais elevado/mais baixo (1999/2018                     Gráf. 1                                
                                                                     Fonte primária - Eurostat

Há uma tendência de aproximação entre os valores do SMM, sem que se pretenda uma uniformização; o capitalismo exige, só existe através de desigualdades, entre pessoas, regiões, países. Essa aproximação mostra-se até 2007 por um crescimento de 238% do SMN mais baixo na Roménia e na Bulgária a que corresponde no mesmo período um aumento de 31.7% do mais elevado SMN da UE. No período 2007/13 a evolução dos mesmos parâmetros é muito mais branda e corresponde a variações de 47% e 15%, respetivamente, retratando os impactos da crise financeira; e em 2013/18 os cálculos reproduzem aumentos de 95.7% para um SMN balcânico e de 11.8% para o caso do Luxemburgo, com um grande dinamismo nos valores dos países com SMM mais baixo com relativa estagnação nos mais ricos.

Com essa aproximação pretende-se sejam mantidas as diferenças suficientes para separar as atividades económicas de maior valor acrescentado ou conteúdo tecnológico – e concentrá-las nos países mais ricos - daquelas outras de mão de obra mais intensiva e menos especializada, que se tomam como adequadas para uma especialização dos países de menores SMM, os mais pobres da UE

A segmentação da produção dos bens mais complexos representa a colocação das parcelas menos nobres em países periféricos, de mais baixo custo salarial, com os elementos mais sofisticados e estratégicos mantidos nos países do Centro capitalista que assim dominam toda a cadeia; nesses contexto, as economias dos países periféricos perdem qualquer articulação de caráter nacional - como acontecia no tempo das economias nacionais - e firmam-se, numa situação de dependência e fragilidade, como simples corredores intermédios, de passagem dos fluxos incluídos nas redes das transnacionais. Nesse contexto de aproximação está contida uma pressão para uma relativa estagnação do SMN nos países mais ricos. 

Na UE não há preocupações de criação de um espaço homogéneo. A realidade social é um campo onde se refletem as preocupações das economias mais integradas no comércio global e das suas empresas de topo; a melhoria das condições de vida das pessoas não é um objetivo central mas antes, um instrumento que se ajusta às necessidades dos negócios, na arena da competição global. E daí que os SMN – calculados em termos de paridades de poder de compra, recordemos - tenham sofrido quebras nos anos iniciais da crise financeira.

A entrada da China na OMC, em 2001, criou uma nova pressão sobre a UE - então com 15 membros, sendo os mais pobres Grécia e Portugal - com a subsequente maior facilidade da entrada de bens chineses com preços competitivos. Por outro lado, a Leste encontravam-se os antigos membros do Comecon, com trabalhadores qualificados e baixos salários, separando a rica UE e a Rússia, antiga potência tutelar, a braços com um difícil enquadramento geoestratégico e de reconfiguração do seu modelo económico.

A integração dos países do Leste - entre 2007 e 2013 - fez parte de uma estratégia defensiva dos países mais ricos da UE, contra uma entrada mais massiva de importações da China; foi a criação atrasada de um cantinho de Sudeste Asiático na Europa. A crise financeira iniciada em 2008 promoveu a estagnação económica e dos rendimentos na Europa, enquanto na China o impacto da crise nas exportações foi compensado com um impulso keynesiano interno, com a construção de habitações e aumentos de rendimentos; e, ainda, investimentos na Europa cuja fragilidade estratégica, económica e demográfica terá inspirado o grandioso projeto da Rota da Seda.

A redução das diferenças nos salários fez parte do processo de integração na UE dos países do Leste europeu, com estruturas produtivas mais frágeis, a integrar na órbita das grandes empresas dos países mais ricos da UE, como anteriormente acontecera com Portugal e Grécia. 

As diferenças salariais entre o Leste e o Oeste dos integrantes na UE deveriam tornar-se menos acentuadas para que se pudesse (e possa ainda) conter num plano moderado e calculado, as migrações dos países mais pobres da UE para os mais ricos; essas migrações são destinadas a gente de maiores qualificações, numa movimentação facilitada num contexto de fronteiras abertas ou, a estudantes, como estagiários para uma integração no “eldorado”. Essa criteriosa seleção foi mais recentemente praticada quanto aos refugiados do Médio Oriente, mormente na Alemanha; e recusada, com evidentes tiques racistas, para os africanos que pretendem desembarcar na margem norte do Mediterrâneo, depois de uma perigosa travessia do mar.

Se as diferenças forem muito grandes, a contiguidade territorial facilitará uma debandada de gente qualificada e não qualificada, esta última, disposta mesmo a uma relativa marginalidade social e económica nos ricos locais de destino. Pretende-se estabelecer uma diferenciação salarial que deixe nos seus locais de origem, pessoas e atividades de menor exigência de qualificações, sem os custos humanos da emigração, das separações familiares e, sobretudo, não desejados no triângulo Londres-Berlim-Milão… enquanto Londres for um desses vértices. 

Os sucessivos alargamentos da UE e a agilização da circulação de bens, capital e – com limitações – de pessoas, não visam apenas a segmentação da produção de bens e serviços, em função da criação de diversos níveis salariais. As populações mais pobres ou menos ricas podem também consumir bens ou serviços provenientes dos países ricos, que encontram nos primeiros um escoamento para bens mais baratos ou de menor qualidade, a partir das suas próprias poupanças ou recorrendo ao endividamento junto do sistema financeiro, diretamente nos bancos globais ou nos bancos locais que, muitas vezes se financiam junto dos de maior dimensão, sediados nos países ricos. Em suma, a integração faz-se em vários planos – a nível político, da produção material, no consumo e na área financeira mas, sempre num quadro de desigualdades.  Como dissemos atrás, o capitalismo fomenta e vive de desigualdades, quer nos espaços plurinacionais, como nos espaços integrantes de cada espaço-nação.

3 – Comparação do salário mínimo em Portugal com os dos países mais ricos

De seguida, vamos  considerar um conjunto de 18 países da UE, divididos em dois grupos: o dos mais ricos e outro, englobando os mais pobres, no princípio do século, com os seus respetivos SMM calculados em comparação com o estabelecido para Portugal, através de um período de 20 anos. Assim, a Portugal atribuímos aos SMM anuais um índice de 100, sendo os indicadores dos outros países calculados tendo o valor vigente em Portugal como referência. Concentramos num gráfico a evolução dos SMM dos países mais ricos, face a Portugal e, mais à frente, um outro em que essa comparação é feita com os mais pobres.

Na comparação face aos países ricos (… e dois ma non troppo, como Espanha ou Grécia) denota-se que (Gráf. 2):

·        os SMM dos países considerados são, em regra, bastante superiores aos que têm vigorado em Portugal, com maiores proximidades no caso de Espanha e da Grécia;

·        as reduções observadas para o Luxemburgo, a Holanda, a Bélgica e a França correspondem a cerca de 40% do SMN português, centradas nos primeiros anos após a crise financeira e, depois de 2014. A Alemanha mostra também esta última tendência a partir do momento em que criou um SMM. Neste conjunto, o SMM mais baixo, no ano em curso, regista-se em França e corresponde a 1,73 vezes do equivalente lusitano;

·        A Irlanda é um caso atípico, crescendo substancialmente o seu indicador até 2008, decaindo daí em diante até atingir o ponto mais baixo em 2018; e num nível 61% superior ao SMM português. Recorde-se que os trabalhadores irlandeses pagaram a monstruosa burla de um banco que causou um deficit público de 32%;

·        Na Grã-Bretanha, o pendor crescente do SMM observa-se até ao surgimento da crise financeira e mantém-se com valores estáveis desde então, atingindo em 2018, o correspondente a 1,53 vezes do SMN português;

·        Em Espanha, o SMM oscilou em torno dos 120% do valor português até 2009 mas situou-se, desde então, abaixo dessa fasquia. Mais problemático tem sido o caso da Grécia onde em 2008 o SMM correspondia a 1,47 vezes do português, decaindo depois regularmente, sobretudo em 2013, com uma queda brutal de 140 para 111.6% do indicador português; e que continuou a decair até se situar apenas 2% acima do SMN aplicado aos portugueses.

      Relação SMN mais elevados/SMN em Portugal (1999/2018)             Gráf. 2
Fonte primária - Eurostat

Como é evidente, o panorama exposto no gráfico acima não resulta de grandes aumentos do SMM em Portugal, medidos, recordamos, em paridades de poder de compra: 3.2% em 1999/2007, 1.8% em 2007/13 e 3.1% em 2013/18. Essa aproximação resulta, apesar dos aumentos serem pouco significativos, de serem superiores aos dos países ricos.

4 – Comparação do salário mínimo em Portugal com os dos países mais pobres

Iremos proceder, em seguida a uma análise dos países mais pobres que selecionámos, tendo novamente a situação portuguesa como elemento de comparação (Gráf. 3).

·        Para todos os países se mostra uma franca aproximação face ao padrão, o SMM português e, a partir de valores claramente inferiores a Portugal, no princípio do século; com a excepção da Eslovénia que em 1999 apresentava um valor muito próximo do indicador português (103.7 contra 100) e que, depois de atingir um índice de 139.7 em 2014, decai para 124 no presente ano;

·        Os países que em 1999 apresentavam indicadores inferiores mais próximos de Portugal superaram-no recentemente: a Polónia em 2013 e a Turquia em 2016. E a Roménia que em 1999 apresentava um SMM mais de sete vezes inferior ao português, atingiu a paridade no primeiro semestre do ano em curso. Refletindo, portanto, o empenho empobrecedor do governo do miserável passecos como o dos simpáticos geringonços…

·        Mais genericamente, nenhum país regride face a Portugal no período considerado e, não será desajustado que nos próximos anos haja mais ultrapassagens pelos outros países do grupo de Visegrad, para além da Polónia que já procedeu a essa ultrapassagem. Essa compreensão de um permanente empobrecimento relativo pode, por exemplo observar-se no escasso interesse dos refugiados em se estabelecerem em Portugal, para além do tempo necessário para deterem documentação que lhes permita circular na UE;

     Relação SMN mais baixos/SMN em Portugal (1999/2018)                            Gráf. 3
     Fonte primária – Eurostat

4 – Comparações através do salário médio horário divulgado pela OCDE

A utilização de elementos compilados pela OCDE, sobre salários mínimos horários (SMH), medidos em US$ e a preços constantes de 2017, corrobora as conclusões acima expostas a partir dos dados publicados pelo Eurostat. 

Para o período 2000/2017 o SMH para Portugal evolui com uma taxa de crescimento anual de 1.44%; inicia o período com um valor de $ 4.4 e fecha-o com $ 5.5, refletindo um “fabuloso” aumento de $1.1 em 17 anos[3]! Com taxas de crescimento inferiores evidenciam-se a Bélgica, a França, a Irlanda, o Luxemburgo, a Holanda e a Espanha, para além da Grécia, onde se observou uma regressão de 8.1% no SMH, entre 2000 e 2017, pelas razões que são sobejamente conhecidas. Sem referir novamente o caso grego, a evolução do SMH em Portugal somente encontra níveis maiores de estagnação nos citados países ricos, com pagamentos mínimos de hora de trabalho substancialmente superiores, excepto no caso da Espanha.

Há, pois, uma aproximação entre os valores referentes aos paises mais ricos da Europa Ocidental, com baixas progressões no SMH durante o período considerado e os indicadores dos países a Leste - do Báltico ao mar Negro - e do Mediterrâneo, com uma evolução bem mais dinâmica. 

A relativa estagnação do SMH dos países ricos e a dinâmica daqueles países situados a Leste estreita as diferenças entre os indicadores dos dois conjuntos, ainda que as diferenças se mantenham acentuadas. Em 2000, Grécia e Portugal tinham, com valores inferiores aos seus SMH, nove países; um número que passou para seis em 2017 (depois da saída do pelotão da Polónia, da Eslovénia e da Turquia). Portugal e Grécia, sofreram, em doses distintas a austeridade, a apropriação das suas principais empresas e bancos, por capitais externos, o pagamento das respetivas derivas financeiras, dos bancos ou da classe política, através de dívidas públicas colossais; e, colocando-se claramente entre as regiões com mais baixos níveis de SMH, na Europa.

Um elemento novo e interessante que os dados da OCDE introduzem é a consideração de vários países de outras áreas do planeta, como a Austrália e a Nova Zelândia; a Coreia do Sul e o Japão; o Canadá, os EUA e o México; o Brasil, o Chile, a Colômbia e a Costa Rica; a Rússia; e a genocida entidade sionista. Trata-se de um conjunto heterogéneo, geográfica, cultural e economicamente mas, onde preponderam quintais, protegidos e outros países que efetuam órbitas mais distanciadas dos EUA; para além da Rússia que constitui um velho rival estratégico dos governos norte-americanos.

Entre esses países, em 2000, seis tinham um SMH superior ao português, acrescentando-se a Coreia do Sul a partir de 2013. As elevadas taxas de crescimento do SMH registam-se em países onde aquele valor era baixo (Chile, Coreia do Sul, Brasil) ou particularmente baixo (Rússia); note-se que o salário médio na Rússia é da ordem dos € 515.

Salário mínimo horário ($)

2000
2017
Var. anual média
Austrália
10,1
11,3
0,66%
Canadá
6,7
8,4
1,45%
Chile
1,8
3,0
3,84%
Entidade sionista (Israel)
4,7
6,2
1,76%
Japão
6,3
8,0
1,63%
Coreia do Sul
2,6
6,4
8,70%
México
0,9
1,0
0,64%
Nova Zelândia
6,5
9,5
2,71%
EUA
7,3
7,3
-0,06%
Colômbia
2,0
2,5
1,48%
Costa Rica
2,7
3,3
1,29%
Brasil
1,0
2,2
6,67%
Rússia
0,2
1,7
56,50%
  
Portugal
4,4
5,5
1,52%
                                                                                     Fonte primária - OCDE
Somente na Austrália e na Nova Zelândia os SMH apresentam um nível equiparado ao dos países ricos da Europa, com o Canadá e o Japão a apresentarem valores um pouco inferiores, ao nível do apresentado pela Grã-Bretanha.

Por seu turno, os EUA, com todo o seu poder económico, militar e financeiro procederam a uma quebra do SMH de $ 7.3 para $ 6.5, entre 2000 e 2007, elevando-o depois até aos $ 8.1, no período do embate da crise financeira; e colocando-o de novo em queda regular até aos $ 7.3, em 2017… por coincidência, o montante que vigorava em 2000! Na Europa, os países com indicadores recentes mais próximos dos que vigoram nos EUA, são a Eslovénia e a Espanha.

Ainda tomando os EUA como exemplo paradigmático do conteúdo do modelo neoliberal do capitalismo note-se que em 1948/73 o aumento da produtividade foi de 96.7% e o dos salários reais 91.3%. Com a entrada em cena do neoliberalismo, o aumento de produtividade no período 1973/2015 foi de 73.4% e o dos salários… 11.1%! Grande vitória da Wall Street…

Sublinham-se ainda os baixos indicadores dos países da América Latina, a começar pelo México onde o SMH se manteve uniforme ($ 0.9) entre 2000/2016, subindo para $ 1 em 2017! É evidente que esta situação vem alimentando as maquilladoras na margem sul do Rio Grande e promove a aceitação de todos os perigos de uma travessia clandestina de uma fronteira murada e militarizada; sem garantias de trabalho ou legalização da estadia nas terras do Grande Irmão. A pobreza, por sua vez, entra em comunicação com os tráficos, cujos gangs constituem, no México, uma alternativa de vida para os pobres e uma via de enriquecimento para as corruptas elites políticas; esta pobreza e desestruturação social beneficiam, evidentemente, quem pretende – nos EUA - uma força de trabalho numerosa, mal paga, com parcos direitos e semi-clandestina.

5 – Encolhimento dos rendimentos do trabalho em Portugal

Como dissemos atrás, em relação a Portugal, há dois tipos de aproximação no seio do “mercado global do trabalho”. Primeiro, porque se vem desenhando um pouco significativo crescimento do SMH nos países mais ricos e que, mesmo assim não se tornam atingíveis pelos níveis salariais vigentes em Portugal. E, em segundo lugar, porque o ritmo de crescimento do SMH português – pela sua relativa estagnação - tende a ficar cada vez mais próximo dos alcançados pelos países do Leste europeu; e, talvez num lapso de tempo mais dilatado, se venha a situar ao nível de alguns dos países da América Latina... mostrando-se assim as grandes qualidades de gestão da classe política.

Em Portugal, beneficiando da mansidão e do conformismo da plebe, o regime político pós-fascista, através do aparelho de estado – numa cópia do verificado durante o fascismo - procede a uma enorme transferência de rendimentos em desfavor do trabalho, numa extorsão primária por via fiscal, contributiva e normativa.
Essa grande acumulação de rendimentos no aparelho de estado é redistribuída sob várias formas, pelas mãos do governo de turno, com a conivência da chamada oposição. 

·        As contribuições, acumuladas e não pagas, à Segurança Social, mormente pelas empresas, passou de 6528 M em 2010 para 11567 M em 2016; e na sua grande maioria jamais serão pagas, como é prática antiga;

·        O setor financeiro foi recapitalizado pelo erário público (CGD, fundo de restituição), pela assunção pública de € 12000 M de dívida para esse fim, pela acumulação de malparado na Parvaloren…;

·        Em 2017, 37.2% da cobrança de IVA foi restituída ou objeto de reembolso a empresas ou a instituições tão úteis como as Forças Armadas. Quanto ao IRC, as restituições e reembolsos valiam 22.6% do valor enunciado na Conta Geral do Estado;

·        A classe política decide sobre as suas próprias mordomias – os partidos não pagam impostos – e muitos dos seus membros aproveitam-se das suas posições para “assessorarem” empresas; para além da larvar corrupção que coloca Portugal no pódio da Europa Ocidental;

·        A dívida pública é, em grande parte, ilegítima e constitui uma renda a pagar ao capital financeiro; mas é aceite como empréstimos normais pela classe política que, para o efeito onera a população com um custo em encargos, da ordem dos € 730 por habitante, no ano em curso.

Para quem precisar de um desenho, segue uma aproximação:


2010
2019 (orç)
Var %
IRS
8937
12905
+44%
IRC
4592
6336
+38%
ISP
2406
3643
+51%
IVA
12146
17499
+44%
Selo
1539
1684
+9%
Taxas e multas
590
1136
+92%
Remuner.  dos empregados
84850
*86241
+1.6%
Remuner. média dos trab. (€)
899
**925
+2.9%
Ganho médio dos trabalh. (€)
1075
**1108
+3.1%
                                            *Dados de 2017               ** Dados de 2016                      OGE/CGE

Este e outros textos em:  
  


[1]  Segundo dados do Eurostat, na Europa não existe salário mínimo definido, na Áustria, em Chipre, na Dinamarca, na Finlândia, na Islândia, na Itália, na Noruega, na Suécia e na Suíça. Segundo a Wikipedia, o salário bruto anual na Bielorrúsia será equivalente a $ 1733, na Bósnia-Herzegovina $ 2177, na Moldávia $ 810, na Sérvia $ 4649 e na Ucrânia $ 2573
[2] Albânia, Croácia, Estónia, Lituânia, Malta, Montenegro, Sérvia/Antiga Jugoslávia e EUA
[3] Ver aqui a eloquente comparação com o aumento dos impostos