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quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Machete e a suspensão de direitos fundamentais

Durante muitos anos mal ouvíamos falar do Chancerelle de Machete, confortavelmente acampado na FLAD – Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento. Elevaram-no a ministro e o homem aproveita-se do poleiro para dizer “coisas” para uma imprensa servil que lhe coloca o microfone à frente. O já pouco brilhante Machete, próximo dos Mobutus angolanos deu ontem um contributo sinistro à sua imagem. Desenvolveu esta ideia, claramente fascizante:

"Os direitos fundamentais sociais têm de assentar num desenvolvimento económico compatível com o nível de satisfação desses direitos e isso é uma tarefa prioritária que pode justificar aquilo que os juristas classificam como certas restrições aos direitos fundamentais, prontas a serem levantadas logo que o desenvolvimento o permita".[1]

Baseando-se em colegas dele, juristas, certamente imaculados defensores da democracia, subordina esta última aos indicadores económicos; aliás, outra grada figura do seu partido, Ferreira Leite, anos atrás já havia referido que se deveria suspender a democracia. Por seu turno, também Passos já havia lançado o mote quando aconselhou a emigração a centenas de milhares de pessoas, retirando-lhes o direito de viverem na sua terra, junto de familiares e amigos. Nesse campo, Passos teve a frontalidade que Salazar não apresentou ao obrigar a atravessamentos da fronteira a salto mas, sorrindo com a entrada de remessas em divisas. A ideia da suspensão dos direitos deverá, pois, ser transversal dentro do gang PSD.

O arguto Chancerelle entende que há um limite mínimo para a vigência dos direitos fundamentais – expressão, associação, greve, manifestação – abaixo do qual aqueles direitos deverão ser suspensos, por decisão da AR. Na realidade, o atual regime já vem limitando o exercício dos direitos sociais - saúde, educação, habitação, circulação, de aposentação e de pensão. Certamente, continuarão a manter as romarias eleitorais porque a colocação de votos em urnas dá à plebe a ideia de que tem o direito de escolher alguma coisa na área da governação.

A Constituição admite a suspensão do exercício de direitos (artº 19º) “nos casos de agressão efectiva ou iminente por forças estrangeiras, de grave ameaça ou perturbação da ordem constitucional democrática ou de calamidade pública”, termos que dão margem a várias interpretações, como é típico em textos constitucionais. Aqui, o regime até pode utilizar facilmente a calamidade pública como argumento e criando uma excepcionalidade avulsa ou sucessiva para que o estado de sítio possa ultrapassar os 15 dias constitucionais (nº 5 daquele artigo). A autorização do estado de sítio ou de emergência cabe à complacente AR (artº 138º) e a sua declaração formal compete ao Presidente da República (artº 134, d)), cujo perfil dá todas as garantias para comportamentos fascizantes.

Diz-se que um Estado tem por missão promover o bem-estar da população. Os constantes cortes em rendimentos e direitos associados aos aumentos da carga fiscal usados para alimentar uma dívida que não é utilizada para o bem-estar da população, nem diminui, coloca em total ilegitimidade a governação PSD/CDS. A suspensão dos direitos fundamentais proposta pelo Chancerelle constituiria um selo aferidor dessa ilegitimidade e só poderia ser encarado pela população como sinónimo de golpe de estado, de instauração de uma ditadura, a justificar  a revolta e o devido final do atual regime cleptocrático.

Quais os indicadores económicos subjacentes à sugestão do Chancerelle e qual o seu nível? Durante as décadas que durará a suserania da UE enquanto a dívida pública não chegar aos 60% do PIB? A queda do PIB em 10%? O aumento da dívida pública para 150% do PIB? Depois de os níveis de pobreza atingirem metade da população? O período de tempo necessário para o salário médio se tornar equiparado ao de um vietnamita?

O Chancerelle anula de uma penada o caráter absoluto, irrevogável e inalienável dos direitos fundamentais; provavelmente estará a pensar na sua privatização a um consórcio internacional, eventualmente liderado pela sua tutora Isabel dos Santos, com o argumento do pagamento da dívida.

Nas antigas colónias portuguesas, os direitos vigentes na chamada Metrópole (muito limitados) só abrangiam brancos e assimilados; os “indígenas” só tinham o direito de ser chibatados, de pagar o imposto de palhota e cumprir o trabalho forçado. O Chancerelle sabe disso e pensa aplicar o modelo em Portugal, substituindo os brancos e assimilados por empresários e banqueiros de referência, a classe política e seus mainatos, equiparando os portugueses comuns nos autóctones de terra conquistada. Chancerelle é um neocolonialista.

Salazar também dizia que os portugueses não estavam preparados para a democracia alegando o analfabetismo, a ruralidade, a tradição de obediência, no campo, na fábrica, sob o campanário e, sobretudo sob a égide dos predestinados para difícil condução dos destinos pátrios, isto é, do próprio Salazar. Este era um fervoroso adepto da estabilidade política como aliás acontece com todos os governos, sempre apreciadores da ausência de obstáculos à mentira e ao roubo que os caraterizam; e para o evitar, os partidos políticos eram proibidos. Ainda não estava madura a prática da democracia de mercado, com um partido-estado e duas alas que se revezam mutuamente no poder, sem que se altere nada de substantivo.

E por isso a ditadura de Salazar parecia aplicada a contragosto, paternalmente, como um mal necessário para defender os bons e pacíficos portugueses das más influências de gente subversiva, maldosa, a soldo de potências estrangeiras  para destruir a paz nacional, açambarcar as “nossas” colónias e gerar o caos.

A democracia não era para Salazar um direito absoluto de convivência humana; a generalização de direitos individuais de expressão, divulgação, associação e decisão sobre os interesses coletivos eram modernices pouco adequadas à natureza dos portugueses e mais precisamente pouco desejadas por grupos económicos débeis dependentes do apoio do Estado, dos salários baixos e de limitações para as importações. Chancerelle estará, certamente, de acordo.

O que se prefigurará no círculo íntimo do gang governamental?

Não há instabilidade política em Portugal. Tudo é concertado numa monotonia que rivaliza com a rotatividade dos programas televisivos – telenovela, publicidade, futebol…. Na AR cada um cumpre o seu papel de apoio ao governo ou com o chapéu de oposição, sabendo-se que os primeiros ganham sempre os chamados debates parlamentares. A contestação social não existe e a nível sindical tudo é previsível e ordeiro.

Assim sendo, para que pensam, Chancerelle e outros, na suspensão de direitos? As greves não são muitas nem prolongadas pelo que a suspensão do direito de greve pouco acrescenta. A contratação coletiva já pouco se usa, em detrimento de contratos individuais e maioritariamente precários. A contestação popular ou extra-parlamentar é muito escassa, desorganizada e politicamente infantil. Nada neste cenário justifica que o SIS se movimente como uma nova pide.

No entanto…

A dívida pública cresce apesar das reduções do nível do deficit; as exportações não arrancam e as importações não caem a contento e há indicações de que poderá ocorrer um segundo resgate. Esse resgate, a acontecer, não será acompanhado por mais nenhum dos velhos PIIGS cuja situação não está tão degradada como a portuguesa; nem sequer pela Grécia que tem melhorado os seus indicadores económicos. Ou poderá ser substituído por uma saída do euro e da UE se isso puder funcionar como alívio e alento a uma recuperação da credibilidade da moeda; o que tornaria Portugal num pequeno pedaço abandonado da Jangada de Pedra de Saramago.

É evidente que essas hipóteses configuram um desastre maior que o actual – empobrecimento acelerado, redução do aparelho de estado às funções de “soberania” - tropa, polícia tribunais e punção fiscal - com a maioria da população lançada à sua sorte, minimizada pela caridade em vez de uma ação social respeitadora da dignidade de cada um.

No caso de saída do Euro e da UE o cenário é dantesco: dificuldades de exportação, importações muito caras porque obtidas tendo de permeio uma moeda nacional em constante desvalorização. aumento astronómico da dívida externa pública e privada medida em moeda nacional, inflação, perdas enormes de poder de compra para aguentar um capitalismo atrasado e subalterno, com a brutal repressão ajustada à desastrosa situação.
Estes cenários justificariam, para o gang governamental actual, uma suspensão ad eternum dos direitos fundamentais. A hipótese colocada pelo Chancerelle anda nos corredores do poder e o homem descaiu ou é ele que mandou os bitaites à toa, levianamente?

Este e outros textos em:

http://grazia-tanta.blogspot.com/                               

http://pt.scribd.com/profiles/documents/index/2821310

http://www.slideshare.net/durgarrai/documents

domingo, 26 de outubro de 2014

O que é uma esquerda. Pilares para a sua construção


Resumo

A lastimável ineficácia da contestação ao capitalismo em geral e aos efeitos das suas disfunções em particular resulta, em grande parte, do contágio dissolvente da focagem pela esquerda institucional em parcas ou más respostas à crise e se esquecer, em absoluto do sistema, como matriz de compreensão da realidade.

Procuraremos tipificar as caraterísticas essenciais do capitalismo de hoje e a natureza e o papel do Estado, para além das disputas entre a abordagem neoliberal dominante e a crítica keynesiana, sabendo-se que nenhuma dispensa a autoridade do Estado ou da classe política, como vanguarda condutora das pessoas, tomadas como inimputáveis peões dos jogos políticos.

Os Estados tendem a voltar a ter o seu conteúdo histórico de monopólio da coerção e da punção fiscal, depois de cerca de um século durante o qual exerceram funções sociais no seu âmbito de capitalista coletivo.

Sumário

1 – Introdução
2 – O capitalismo é um vírus
3 – O Estado
3.1 – No princípio estavam os deuses
3.2 – O neoliberalismo e o regresso dos deuses
3.3 – A ilegitimidade ontológica do Estado
a)      O aparelho coercivo
b)      A punção fiscal e o destino do saque


quarta-feira, 12 de março de 2014

A Ucrânia e a “comunidade internacional”

Sumário:

1 – A disputa da Ucrânia
2 – No quadro da Jugoslávia
3 – O cenário palestiniano
4 – A partição do Sudão
5 – Aventuras e desventuras do amigo Saddam
6 - O porta-aviões do Barhein


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A “comunidade internacional” faz-nos lembrar a bela ária de Verdi “la donna è mobile qual piuma al vento, muta d’accento e di pensiero”; só que esta “donna” não é uma mulher mas, a expressão dos volúveis interesses que espalham sofrimentos pelo planeta. E, por isso mesmo, se mantém com um contorno variável e impreciso.

A pluma agora está centrada nas planícies da Ucrânia e convém recordar a propósito, algumas das suas recentes mudanças ou duradouras atitudes.


1 – A disputa da Ucrânia

Parece claro que a Ucrânia vai mudar de configuração geográfica, pelo menos no que se refere à Crimeia, cuja secessão se concretizará muito em breve, mesmo que a “comunidade internacional” grite a várias e desafinadas vozes – Kerry, Ashton, Hollande e outras de menor audiência como o nosso Chancerelle. Algumas dessas vozes fazem-se ouvir só para cumprir calendário, pois a Crimeia não vale os negócios das cerca de 6000 grandes empresas com investimentos e bons negócios na Rússia. Certamente no jogo atual que se desenrola no cenário ucraniano vale muito mais o papel de Gerhard Schroeder, antigo chanceler alemão e atual executivo da Gazprom, do que todos os papagaios acima referidos.

Mais complicada será a situação no atual Leste ucraniano, em perfeita contiguidade geográfica com o Oeste, com populações de falas, crenças e estruturas distintas. Recordemos a propósito que a Ucrânia é uma construção estatal com apenas 23 anos e que a sua consolidação nunca passou da primeira infância. A Escócia tem previsto para setembro deste ano um referendo sobre a independência face ao reino dos Windsor e a bela “comunidade internacional” ainda não se indispôs com os escoceses.

Para além do foguetório diplomático e do alarmismo dos media que vêm a guerra como inevitável, resta o congelamento dos teres e haveres de 18 corruptos ucranianos próximos do Yanukovitch (incluindo o próprio) e o azedume revelado pela “comunidade internacional” quando enviou para o Mar Negro uma poderosa armada constituída por um destroyer para se juntar às temíveis (?) marinhas romena e búlgara, para além de dez aviões que remeteu para a Lituânia. Por comparação, recorde-se que, seis anos atrás os russos subtrairam a Abcásia e a Ossétia do Sul à Geórgia de Saakashvili que queria o seu país na NATO; e o célebre e ardente George W. Bush reconheceu que estava na área de influência da Rússia e meteu a viola no saco.

Em Kiev um governo recheado de fascistas, dirigido pelo banqueiro Yatseniuk, procurará garantir a integração na UE e na NATO, tentando convencer os ucranianos que os fundos comunitários não trazem, no final do processo a garantida inclusão numa já existente periferia leste, certamente pobre, desestruturada, não “competitiva” apesar dos baixos salários. Presume-se que o investimento estrangeiro terá alguma concentração nas boas terras negras onde a Monsanto e quejandas planeiam plantar os seus transgénicos, desalojando camponeses pobres. Esse processo está em curso na Roménia e a patente será também válida para a Ucrânia.

Aguardemos. Para quem não tem intervenção no terreno mais não é possível que analisar esses projetos de domínio e as suas consequências já observáveis noutras latitudes e tempos históricos, tendo em conta a hierarquia capitalista existente, as suas mutações e que os EUA são a única potência com capacidade e veleidades de intervenção a nível planetário. A Rússia é uma potência que também se procura impor nas suas imediações mas, que tem um caráter regional, distante do papel de superpotência que a antiga URSS detinha. Por outro lado, para os EUA, o principal adversário é a China que, convém seja dito, constitui com a Rússia a coluna vertebral da OCX – Organização de Cooperação de Xangai.

Resta saber se os 46 milhões de ucranianos de oeste e de leste, da Galícia, da Crimeia, ou do Donbass conseguem impor os seus interesses aos da hierarquia capitalista e dos estados que lhe dão forma; ou, se se deixam envolver em narrativas identitárias, de exclusão do “outro” perante o sorriso deliciado dos capitalistas e da CDU alemã cuja Fundação Konrad Adenauer financia o ex-boxer Klitschko. Essas narrativas já têm no terreno os seus cães de fila do Svoboda e do Sector Privado, abertamente nazis.


2 – No quadro da Jugoslávia

A Jugoslávia foi uma construção estatal que durou mais de 80 anos e nela se juntaram várias línguas, grafias, religiões, o que não impediu que se misturassem no território e na cama uns com os outros. Desavindos por causa de um ditadorzeco de meia tijela – Milosevic – a intervenção da “comunidade internacional” foi, de facto, decisiva. Não para aplacar os ânimos mas, para regar o terreno com ódios, separatismos, êxodos, limpezas étnicas, sangue e bombas de urânio empobrecido, que lá continuarão enterradas durante uns 10000 anos para recordar esses tempos às próximas 400 gerações.

Das seis repúblicas então federadas saíram sete mais as duas sub-repúblicas bósnias, todas pobres, endividadas, dependentes, ainda que duas delas tenham vindo matar saudades da sua velha inclusão no espaço do defunto império dos Habsburgos (Eslovénia a Croácia), sob o alto patrocínio da Alemanha e do Wojtyla. Não se sabe se o papa Francisco alguma vez virá a pedir desculpas formais aos jugoslavos que foram vítimas do bispo Ante Pavelic e dos seus ustachas cujas sevícias aos prisioneiros arrepiavam os SS nazis, que não eram exatamente meninos de coro.

A Sérvia caminha atrás da UE e dos seus fundos, qual burro atrás da cenoura, enquanto não reconhecer a existência do Kosovo, filho legítimo da “comunidade internacional”. Para ajudar esse benevolente dador de euros chamado UE, o Kosovo trabalha arduamente no tráfego de droga e de órgãos humanos; com um filho de saúde tão problemática, sua mãe, zela pela arrumação da casa com as tropas da KFOR e a base americana de Bondsteel, conhecida por pequena Guantanamo, o guardião da lei e da ordem de que a “comunidade internacional” tanto aprecia, em todo o cenário balcânico.

A Bósnia com uma burocracia estatal diversificada, por “etnia”[1], corrupta até ao tutano como é apanágio das burocracias, apresenta uma repartição territorial entre as duas repúblicas absolutamente disparatada. As dificuldades económicas mostram como é possível mandar às urtigas as taras nacionalistas, étnicas e religiosas e combater lado a lado, como se tem visto ultimamente.

Também a “comunidade internacional” acolheu com carinho a independência do Montenegro que tem apenas 620000 pessoas apenas porque a separação da Sérvia cortava a esta uma ligação direta ao Adriático.

Finalmente, surgiu uma Macedónia que só pode ser reconhecida como FYROM – Former Yugoslavian Republic of Macedonia, porque a Grécia considera ter direitos históricos sobre o nome de Macedónia, embora tenha sido esta a conquistar a terra grega e não o contrário.

Em suma, no espaço da ex-Jugoslávia sobra desintegração espacial, nacionalismos exacerbados, pobreza, desemprego, privatizações, emigração, tudo no quadro do modelo neoliberal com instituições “democráticas” que integram gangs mafiosos intitulados partidos políticos.


3 – O cenário palestiniano

Mesmo para quem defenda a existência da entidade israelita (não é o nosso caso) os atropelos das decisões da ONU ou dos acordos bilaterais e os crimes contra a Humanidade são tantos que nada justifica a infinita tolerância da “comunidade internacional” perante as punições militares sobre a população palestiniana e que nunca conduziu políticos e generais israelitas ao banco dos réus no Tribunal de Haia. A justiça da “comunidade internacional” observou-se com o já referido Milosevic e outros patifes jugoslavos, tal com o liberiano Taylor mas, já não com israelitas porque estes têm um seguro junto dos Rotschild e afins.

A construção do muro de separação entre o território palestiniano ocupado e o que vai sobrando como integrando a Autoridade Palestiniana é condenado em todas as instâncias sem que a “comunidade internacional” se digne ao mais ligeiro boicote, à mais leve das sanções sobre os genocidas israelitas. Prosseguem actos de desestruturação do território palestiniano, de apropriação da água, de policiamento sistemático e armado daquele território teoricamente sob os auspícios da tal Autoridade, que torna esta um simples ornamento político. A recusa dos direitos de pesca nas águas de Gaza, o controlo das fronteiras palestinianas, são outras tantas atitudes que mereceriam atitudes firmes da “comunidade internacional”.

A autoridade israelita detém – sem subscrever os termos do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares – umas 150 bombas atómicas, num cenário regional onde nenhum estado as têm. E nem se compreendem os receios da entidade israelita, quando se sabe os seus mísseis Jericó terem um alcance de 15000 km… o que permitirá aos sionistas atingir, por exemplo, o Rio de Janeiro. Este arsenal atómico inicialmente construído com apoio francês não é objeto de contestação nem sanções por parte da “comunidade internacional”; porém, o Irão não se demonstrando que possua armas atómicas, tem sido vítima de pesadas sanções decretadas pela “comunidade internacional” à qual convém manter a ilusão da sua existência, para criar dificuldades ao país tendencialmente pivot na área do Golfo Pérsico.

A “comunidade internacional” revela-se na sua forma mais esquelética e ridícula quando, nas votações condenatórias da entidade israelita na ONU, os sionistas só têm o apoio dos EUA e das Ilhas Marshall.

A UE, tropa indisciplinada que incorpora a “comunidade internacional” sem determinar as suas decisões, assume também a sua benevolência para com a entidade israelita quando limpa a sua consciência entregando uns milhões de euros à Autoridade Palestiniana para a recuperação dos estragos provocados pelos bombardeamentos sionistas, sem os incriminar e mantendo as relações diplomáticas, económicas e desportivas com aquele quisto genocida.


4 – A partição do Sudão

Há muitos anos que o tutor da “comunidade internacional”, os EUA, não gostam do regime sudanês, embora este em nada se distinga de outros no cenário africano ou asiático, no capítulo da democracia e dos direitos. Nos anos  noventa, Clinton ordenou a heróica acção de bombardear uma fábrica de medicamentos no Sudão.

Com a descoberta de petróleo – explorado por várias companhias, mormente asiáticas – avivou-se no sul uma pulsão separatista e a “comunidade internacional” logo se apressou a criar um novo estado em 2011 – o Sudão do Sul - com uma população muito pobre e sem estruturas políticas ou sociais. A “comunidade internacional” ajudou a separação entre os sudaneses do sul (pretos bons) e os do norte (árabes maus). Entretanto, a guerra civil diversificou-se; no Sudão, há dois movimentos de guerrilha contra o governo de Cartum, perto da fronteira sul, nas regiões de Kordofan e Nilo Azul enquanto no Sudão do Sul se digladiam duas facções, em luta pelo poder.

Na separação ficou por definir a jurisdição da zona de Abyei, rica em petróleo e as refinarias ficam no Sudão (norte) tal como o terminal de Port Sudan, no mar Vermelho, pelo qual se escoam forçosamente as exportações do Sudão do Sul.


5 – Aventuras e desventuras do amigo Saddam

A tutoria da “comunidade internacional” forneceu armamento ao Iraque de Saddam para que este favorecesse a derrota da nova governação iraniana, condenada por ter eliminado a monarquia que funcionava como o gendarme dos EUA na área do Golfo Pérsico.

Após oito anos de sangrenta guerra e de massiva e comprovada utilização de armas químicas por Saddam, este não conseguiu derrotar o Irão, ficou endividado e, claro, a “comunidade internacional”, não se preocupou com os crimes de guerra do ditador.

Num tremendo erro estratégico, Saddam invadiu em 1991 o Kuwait, antiga parcela de território iraquiana, desanexada pelos ingleses por razões estratégicas no século XIX, precisamente para equilibrar as suas depauperadas finanças após tantos anos de guerra. Numa breve guerra levada a cabo pela “comunidade internacional”, esta derrotou Saddam, reentregou o Kuwait à família al-Sabah e o Iraque foi submetido a um plano de sanções e controlo financeiro e comercial que provocou centenas de milhar de mortos na população, dada a subnutrição e a falta de medicamentos.

Apesar dessa situação calamitosa, em 2003 o Iraque foi acusado por George W. Bush de conluio com a al-Qaeda - que na realidade se tem demonstrado um auxiliar estratégico dos EUA – e de ter escondidas armas de destruição massiva. As tais armas serviram apenas como argumento de intoxicação mediática.

Na guerra lançada em 2003, todo o território iraquiano foi ocupado pela “comunidade internacional” que, para além de uma redistribuição das fontes petrolíferas – como anos depois aconteceria na Líbia – pensou dividir o país em três, no âmbito de disparatada e criminosa tese do Pentágono, o nation-building. Propunha-se então, uma separação entre o sul iraquiano de maioria xiita, o centro onde predominam sunitas e o norte, maioritariamente ocupado por curdos. Na realidade, só na área curda se gerou alguma autonomia, na sequência do estabelecimento de zonas excluídas da autoridade de Saddam, depois da primeira guerra, em 1991; e o Iraque a despeito das suas muitas dificuldades, continua a ser um só país.

A “comunidade internacional” cria independências e separatismos ou força unidades de acordo com as conveniências do momento ou, melhor, em função dos interesses das multinacionais, do capital financeiro ou das conveniências estratégicas das potências que dirigem e treinam a “comunidade internacional”.


6 - O porta-aviões do Barhein

Em 2011 a população do Bahrein manifestou-se contra o poder absoluto da família reinante dos al-Khalifa. Porém, contra o povo, estava garantida a hostilidade da “comunidade internacional”, neste caso restrita ao CCG – Conselho de Cooperação do Golfo, que une todas as monarquias, sultanatos e emiratos do Golfo Pérsico. E isso, por duas razões. Uma, porque as camadas mais exploradas e reprimidas do povo barheini são xiitas, ao contrário dos al-Khalifa que são sunitas; e o outro motivo é que no Bahrein se situa o quartel-general da Quinta Armada dos EUA, cuja função é o controlo do tráfego no Golfo Pérsico e do estreito de Ormuz. Aos povos nem sempre é atribuído o direito a ter a sua própria posição geográfica, sem interferências alheias.

Como as forças repressivas do monarca local estavam com dificuldade em conter os protestos, a referida sentinela local da “comunidade internacional” avançou com tropas para o Bahrein, não fossem os barheinis imitar os tunisinos ou os egípcios. Importava acima de tudo garantir a tranquilidade da presença norte-americana na região, evitar que a revolta se propagasse e fizesse tremer os sultões e emires das imediações e ainda garantir o devido respeito por parte do inimigo iraniano e xiita, logo ali em frente.

Na mesma época, iniciou-se também a revolta na Síria, exigindo democracia e o fim da dinastia dos al-Assad; o governo reagiu como reagem todos os poderes – com a brutalidade necessária e conveniente. Sabe-se que a “comunidade internacional” logo começou a apoiar com dinheiro e armas os rebeldes, entre eles fanáticos integristas que acabaram por estar ao nível da brutalidade do regime. Sabe-se do envolvimento dos países da região que integram a “comunidade internacional” no combate a al-Assad, incluindo com ameaças de ações de guerra.

No Bahrein o regime é virtuoso e os protestos porque ilegítimos são reprimidos por forças importadas da vizinhança. Na Síria a virtude de Allah está com os rebeldes, a merecer todo o apoio dos estados da vizinhança, da tutela norte-americana e do desdentado Hollande enquanto al-Assad é objeto de toda a oposição e de ameaças.

A “comunidade internacional” relembra-nos que “la donna è mobile qual piuma al vento, muta d’accento e di pensiero”.


Este e outros textos em:




[1] Não sabemos se uma pessoa de origem sérvia e muçulmana é uma ou outra coisa na classificação da “comunidade internacional”, o mesmo sucedendo a um croata igualmente islâmico. E se alguém tem pai sérvio e mãe croata, o que será? Poderá ser muçulmano? Recordamos a tara da importância da raça para a classificação de gente nos EUA, o que permite as mais ridículas opções, como resposta à natural misceginação que as migrações vêm aumentando.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Quem te enfia as luvas? Blockupy 2013 – Apontamentos sobre as jornadas de protesto anticapitalistas

                                                                                                     Autoria do companheiro "Vadio"

O que vem a ser dezenas de pares de luvas no chão, debaixo dos pés de centenas de pessoas que resistem a serem identificadas e expulsas de uma manifestação?

Dezenas de luvas, ali onde os olhos alcançavam, ali onde praticamente já não nos podíamos mexer.

Telemóveis e bolsas, propositadamente abandonados, também se esborrachavam debaixo dos pés dos activistas que resistiam à investida policial. Mas as luvas, de todas as cores e feitios, deitadas por terra... Não importava para onde pendia o bloco dos resistentes, no balanço provocado pelos empurrões, socos e joelhadas da polícia. Bambos pela tensão, em cordão, para cá e para lá, braços cruzados, enganchados uns nos outros, se os olhos alcançavam o asfalto era luvas o que viam, de jardineiro, de biker, de trolha, de motoqueiro, de biscateiro.

Milhares de activistas anticapitalistas de todo o mundo reuniram-se em Frankfurt, nos últimos dias de Maio, para bloquear a sede do Banco Central Europeu, durante o Blockupy 2013 (https://blockupy-frankfurt.org/en/). A polícia não conseguiu impedir dezenas de acções directas e de desobediência civil nos dias que antecederam a manifestação, que encerrou as jornadas contestatárias no dia 1 de Junho. No dia que se antevia com menos surpresas, as forças repressivas bloquearam a manifestação, com o objectivo de “encarcerar” o bloco anticapitalista e de identificar os manifestantes. Face à resistência dos contestatários e à solidariedade dos restantes blocos que compunham a manifestação, a polícia recorreu à violência e usou gás pimenta, deixando dezenas de feridos e fazendo detenções.

É a Lei 17 da República Federal Alemã sobre objectos ilegais em manifestações ou em reunião pública, promulgada em 1989, que classifica as luvas como uma arma passiva, ilegalizando o seu uso em manifestações. Lei que tem vindo a ser usada na Alemanha, sobretudo na última década, para olear a máquina repressora contra os movimentos sociais e anticapitalistas. (Em 2011, ao abrigo dessa lei, um cidadão foi condenado por usar um protector bucal!).

E o que fazer com um par de armas passivas e ilegais contra dezenas, centenas, milhares de polícias, militarizados, robocopizados, absolutamente legais e activamente armados, que te arrancam à força de uma simples (legal/de direito) manifestação?

Pode fazer-se algo com um par de armas passivas contra uma classe política e uma elite económica, invisível na couraça policial, embonecada pelos media mainstream, protegida pelo poder judicial e feudalizada pelo parlamentarismo?

Como foi possível chegar a este paradoxo histórico? Como pôde o poder político arregimentar-se de forma esmagadora e, ao mesmo tempo, desarmar as populações a este ponto?

Numa sociedade em que a guerra social é imposta às nossas vidas, o que significa alguém poder ser criminalizado por usar um par de luvas numa manifestação?

Neste estado das coisas, qualquer um pode perder-se sem ter a consciência de que se perdeu.
Há um ângulo de análise mais optimista. Quando é o Poder, ele próprio, a conferir perigosidade a um par de luvas, ao mesmo tempo que ele estende a malha do controlo (como é sua intenção), acaba por adoptar uma estratégia tão invasiva e generalizada, que o perigo passa a estar em todo o lado. E se o poder vê o perigo em todo o lado a potência da revolta espalha-se, omnipresente e evasiva, por tudo quanto é sítio.

A cortina de fumo do capitalismo e da democracia representativa

Quem aprontou esta emboscada? Apesar de serem muitas perguntas, por que razão tanta gente não as formula ou foge delas?

Que fé depositaram as pessoas no sistema democrático (representativo), num modelo económico (a economia do bem-estar) e na ordem legal, para esboçarem a sua ideia do progresso humano e social, que ainda possa manter-se de pé, face à destruição acelerada de direitos laborais e civis, à degradação generalizada das condições de vida e ao flagrante uso táctico da lei pelo poder? E se a democracia (o parlamentarismo), a Lei e a economia do bem-estar (o cínico capitalismo de rosto humano) foram, ao invés, um trampolim crucial para o fortalecimento da hegemonia das elites dominantes e a aparente imagem de chegada do imaginário colectivo das esquerdas, temos ou não de olhar para além delas para pensar o progresso e a emancipação humanas?

Nenhuma cortina de fumo pode ocultar que estas instituições foram/são causa fundamental da linha de orientação política das sociedades, que lhe deram a forma actual e, por consequência, são causa do actual estado político, social e económico das sociedades. Causas primeiras e últimas, e que se tornam indiscerníveis, no seio de um sistema em que tanto os aparatos de produção e de dominação quanto as relações económicas e sociais, bem como as ideologias, se entrelaçam de forma inextricável.

Voltemos a Frankfurt e à manifestação convocada pelo Blockupy. Depois de na véspera terem proliferado várias acções directas no centro da cidade, no quarteirão financeiro e comercial de Frankfurt, mas também no aeroporto (ver abaixo apontamentos sobre várias acções), e de a presença policial e a sua actuação ter sido menos visível e menos repressiva em comparação com o ano anterior, ninguém esperava que a manifestação, 400 metros depois do seu início, fosse tomada de assalto pela polícia.

Os ardis a que a polícia recorreu para justificar o bloqueio da manifestação não primaram pela inteligência. Aos altifalantes, anunciaram inicialmente que não permitiam que a manifestação fizesse o percurso pré-definido – trajecto diferido por decisão de tribunal – sob pena de identificarem cada elemento que seguia no bloco anticapitalista (seguramente, mais de mil pessoas). Após consultas entre os vários blocos e grupos de manifestantes, chegou-se a acordo de propor um percurso mais curto, mas rejeitando qualquer identificação dos manifestantes. A polícia começou a mostrar os dentes, mas ninguém se encolheu. Afinal, tanto fazia o percurso, os manifestantes do bloco anticapitalista tinham de ser identificados, propondo a polícia que se fizesse uma “filinha” (estás certinho!), para escoar os perigosos. 

Alardeava que alguns elementos estavam armados (rosto coberto) e que havia um cidadão procurado pela polícia. Já houve um político que concordou com a matança de 700 mil civis para limpar o sebo a um ditador, que já não cooperava com as forças da ordem mundial e por deter a hiper-estação de serviço das jazidas de petróleo. Se é um acidente ou não que esse político seja o rosto actual da UE, o facto é que lhe assenta como uma luva. Entre Durão Barroso e a polícia, a qualidade da mentira é já indiferente. Afinal de contas, a política de controlo e criminalização estava montada e programada (até as casas de banho do TOI acorreram expeditas, para prestar tratamento humano às bexigas dos “perigosos”). E a polícia, não é demais lembrar, responde a um Ministério e a um Governo. Executa os seus planos disciplinários e punitivos, armada, munida de equipamentos sofisticados e amparada por um orçamento de milhões de euros, ao mesmo tempo que o mesmo Governo determina o empobrecimento de milhões de europeus ao impor políticas “austeritárias” e conduz à destruição de direitos conquistados por lutas sociais históricas.


Polizia polizia noi pisciamo nelle vostre camionette”

Sendo fiel aos factos, segundo uma leitura subjectiva dos trâmites legais que regulam a indumentária imprópria para desfiles políticos, havia muita gente armada, com óculos de sol, lenços e capuz. (Mas convém precisar que não havia, de facto, passa-montanhas, nem máscaras, como afirmou o porta-voz das forças de segurança aos media).

O corpo da manifestação, entre 15 a 20 mil pessoas, manifestou a sua irredutibilidade: ninguém deve ser identificado e a manif deve seguir como previsto o seu percurso. A rua inchava de gente, ferviam os cânticos. Começa, então, a longa espera, no cerco policial. Os chefes da polícia no local afirmam que já não depende deles permitir o recomeço normal da marcha, mas que para o efeito têm de consultar superiores, algures fora da cidade.

À cabeça do bloco anticapitalista ouvia-se “Polizia polizia noi pisciamo nelle vostre camionette”, refrão ecoado pelos incansáveis e animados grupos dos centros sociais italianos. Italianos e italianas que vieram preparados, com escudos, faixas, guarda-chuvas (contra o gás pimenta), e não descuraram o facto de os carabinieri tedeschi não entenderem italiano: “Nationalismus, Polizei, scheißer”, embrulhem, que é democrático! E a pronúncia internacionalizava-se, sofrendo mutações ao longo do corpo de manifestantes, entre belgas, polacos, espanhóis, franceses, austríacos, alemães, que várias vezes repetiam as canções trazidas pelos italian@s.

Vindos de centros sociais, de Nápoles a Pádua, de Roma a Bolonha, traziam a marca da mescla entre autonomia e o “populismo”, entenda-se, consciência política mais prática que teórica (a Bonanno nunca o haviam visto mais gordo...). Tanto se abespinhavam entre si, se falavam dos clubes de futebol rivais, como prontamente enxotaram um apoiante de Beppe Grillo, munido de um grande cartaz, que se aproximava do bloco “italiano”, no início da manifestação. O militante grillista recebeu o hino (“Grilo merda lo, merda lo, merda lo...”). Cantavam e sabiam de cor a razão da letra: “Grilo tem discurso, mas por detrás nenhuma ligação com as bases e a nossa realidade. Defende a democracia directa e processa o seu movimento numa ordem piramidal”. E basta!

Já haviam decorrido mais de duas horas de bloqueio, na frente do bloco anticapitalista, quando dois trabalhadores do Teatro municipal abrem as portas de emergência, nas traseiras do edifício, e põem à disposição dos manifestantes duas grades com água mineral. Deu salva de palmas e pica, já que era gaseificada. Minutos depois, de uma das janelas do edifício do Teatro, desce um balde com mais garrafas de água. Rapidamente as garrafas esvaziadas são de novo colocadas no balde, a mulher à janela puxa a corda, as garrafas sobem, para voltarem a ser enchidas. Pouco tempo depois, desciam e subiam baldes com garrafas de três janelas. Isto sucedeu dezenas (centenas?) de vezes ao longo de mais de seis horas, revelando que a solidariedade dos moradores/trabalhadores não era só para fazer o bonito dos repórteres de imagem.

De uma maneira geral, toda a manifestação e os restantes blocos (que não eram visados pela estratégia de controlo da polícia, nem foram cercados) foram solidários com o bloco anticapitalista. Correu o rumor de que apenas a Attac mostrava algum stress com a emboscada das autoridades e com a decisão consensual de recusar as exigências policiais. No ano anterior, a Attac, que partira na manifestação atrás do “black block”, como tinha sido previamente estabelecido, foi passando de fininho para a frente, deixando a cauda da manif. Note-se que em 2012 a estratégia da polícia era a de apenas provocar o “black block” e isolá-lo do bloco anticapitalista, onde ia inserido. Este ano, a posição policial alterou-se, tentando isolar todo o bloco anticapitalista. A perigosidade alastra.

Attac, diga-se, que entre os grupos presentes (entre o partido Die Linke – o Bloco de Esquerda alemão –, os marxistas de várias famílias, as correntes anarquistas, os ecologistas e o Interventionist Left) tem o projecto político mais frágil. Inspirada na taxa Tobin, tem como bandeira taxar a especulação financeira para fazer dos impostos à financeirização um meio de encontrar mais (?) justiça social. Isto é, pôr mais massa monetária em circulação, regulada pelos Estados e à disposição de quem governa. Recorde-se que Sarkozy, o chauvinista musculado, comerciou esta ideia e foi o seu defensor mais conhecido, depois que Ignacio Ramonet lançou a Attac em 1997.

Como visão política de uma sociedade alternativa, o Banco Central Europeu não pode ser sequer ocupado, mas apenas bloqueado (muito menos taxado). A Comuna de Paris não se equivocou quando deixou o Banco de Paris ao abandono. O equívoco poderá ter sido não lhe terem chegado fogo, se o que a Comuna alimentava era uma visão revolucionária e não-capitalista. Não é demais lembrar que a tradicional crítica à Comuna – a análise de que ela falhou devido a não assumir o controlo da banca – veio, nem mais nem menos, de Marx, de Engels e de Lenine, ele próprio. Precisam os movimentos sociais não-capitalistas de alimentar dúvidas quanto ao que há a fazer com a banca, em termos de visão de fundo?

Lobbyism Kills Democracy”

Regresse-se ao terreno. Ainda não foi dito que a polícia interrompeu a manifestação num local estratégico, onde facilmente podia encurralar os manifestantes, sem ruas laterais, como hipótese de fuga (embora quem estivesse a transgredir fossem as forças da ordem...) e antes da confluência com uma avenida larga, onde mantinha os canhões de água e os restantes aparatos repressores. O bloco anticapitalista foi assim forçado a parar bem à frente do Museu Judeu. Acontece que no ano anterior a primeira provocação policial, que conduziu à quebra momentânea da manif em dois blocos (em 2012 esta fragmentação, por via da acção policial, ocorreu sempre no interior do bloco anticapitalista, visando o isolamento do “black block”), deu-se precisamente em frente ao Museu Judeu. Nos últimos dois anos, no 1º de Maio em Berlim, os recontros entre a polícia e manifestantes deram-se também em frente ao Museu Judeu da cidade. Factos que nos advertem a não tirar grandes ilações, sob pena de se entrar nas despolitizadoras teorias conspirativas. O vazio mecânico e a debilidade neurótica de associar as lutas anticapitalistas com o anti-semitismo é um filão que só poderia ser explicado pelo primitivismo do poder governativo. Reincidindo a coincidência na cidade da Escola de Frankfurt, vem à memória as teses desenvolvidas por Horkheimer e Adorno sobre a instrumentalização das massas pelos media.

De passagem, diga-se que os jornalistas presentes foram afastados das linhas policiais, que daí a pouco começariam a usar da violência para retirar à força os manifestantes do bloco anticapitalista, e encurralados a mais de 100 metros de distância, de onde apenas podiam ver cordões policiais em pelotão.

Foi aliás um jornalista o primeiro ferido, vítima de gás pimenta. Nessa altura, a polícia fazia uma espécie de ensaio à determinação dos manifestantes em resistirem à identificação, investindo contra a cabeça do bloco cercado e usando pela primeira vez gás pimenta. Foi quando se ouviu o primeiro petardo e as bombas de fumo se misturaram no ar, lançadas pelos manifestantes. Os cânticos já não ferviam, estavam para lá do ponto de ebulição, ao desafio e boquejando a polícia.

Se na dianteira foi fácil à polícia, na dissimulada, bloquear a manifestação, não foi pêra doce tomar posições que lhe permitiriam quebrar a manifestação, isolando na retaguarda o bloco anticapitalista. Esse processo demorou horas. A água fria descia pelas paredes do Teatro. Bandeiras esvoaçavam atrás dos “anticapitalistas”, desde as dos anarco-sindicalistas às dos partidos comunistas Curdos, Iranianos, Turcos, passando pelas da Attac e as dos anti-fascistas. 

Porém, a “bandeira” que melhor se expressava, falava assim: “Lobbyism Kills Democracy”. Balões coloridos atirados de umas das janelas flutuaram enquanto a polícia expulsava à força os manifestantes. Os activistas resistiram em bloco. Circulou a informação através do twitter que se tentavam organizar assembleias, atrás das forças policiais. Entre ceder às exigências das autoridades ou resistir, talvez existissem outros caminhos além da consensual resistência (e muitos manifestantes jamais haviam estado em semelhante situação de repressão). Escapar ao cerco era de grande improbabilidade, já que não havia acesso a ruas laterais. Uma hipótese teria sido a decisão de os diferentes blocos se misturarem entre si, inviabilizando o controlo policial optimizado que visava apenas o bloco anticapitalista. Teria sido praticável, já que a linha policial que quebrou a manifestação em dois, na retaguarda, só ocupou posição horas depois do bloqueio da manif.

A FAU (anarco-sindicalistas de Berlim) ficou atrás da linha de retaguarda policial, que encarcerava o bloco anticapitalista. Talvez seja forçoso estabelecer uma parábola mais do que um paralelismo, já que a estratégia policial só é linear e clara no seu topo (Governo) e, quiçá, a conduta policial no terreno tenha traçado uma linha de separação mais irónica que intencional.

E ali estava a polícia, engrossando-se e separando a cauda do bloco anticapitalista, onde estava o “black block”, do resto dos manifestantes, agora encabeçada pela FAU.

Ocorreu-me se ambos conheciam a recente luta dos mineiros asturianos, se uns e outros reflectem nos pontos políticos e tácticos que parecem desligados, espartilhando um sentido estratégico afim. A FAU indiferente às tácticas de resistência e ataque, o “black block” impermeável ao mundo da luta laboral. A realidade é atroz e violenta que chegue para que as estratégias que visam a autonomia, a autogestão, a assembleia contra o parlamentarismo, não se unam (além de em momentos circunstanciais), por razões dogmáticas e lugares-comuns. 

Mas seria inexacto não afirmar que foi precisamente ali onde a polícia usou mais gás pimenta (pelo menos, por uma vez, três garrafas de spray, do tamanho de um pequeno extintor de incêndio, foram pulverizadas em simultâneo na mesma direcção), precisamente porque os elementos da FAU (e não só) tentarem impedir que um cordão policial entrasse na manifestação, dividindo-a e cercando, na retaguarda, o bloco anticapitalista.

Mais de 200 feridos. O Triunfo dos Porcos. O que distingue Merkel e Erdogan?

Desde o início da “expulsão” individual dos manifestantes do bloco anticapitalista e da subsequente identificação à força, a polícia precisou de 6 horas para esvaziar o bloco anticapitalista. No dia seguinte, os paramédicos falavam em mais de 200 feridos e relataram que foram, várias vezes, pressionados pelos robocops para que interrompessem os cuidados que prestavam. Cuidados também prestados espontaneamente pelos moradores, ao dobrar da esquina com a rua larga onde a polícia montara a emboscada.

Entre muitos, sentia-se que face à radicalização das forças da ordem não nos resta senão pensar mais radicalmente. O Blockupy – como acho em relação a qualquer protesto social – procura responder à questão de como vai terminar o sistema actual (ou de como queremos por-lhe fim). Mas, fora dos vários tipos de acção de protesto, cabe no dia-a-dia construir alternativas que respondam à questão de como vamos começar desde o início (ou quase), a partir da carcaça do que vai finando. Se os movimentos sociais, enfim, as pessoas, não derem respostas colectivas a esta última questão, corre-se o risco de a carcaça ser reanimada em vez de se tornar obsoleta. Aos olhos das populações é crucial que os caminhos alternativos surjam enquanto respostas possíveis de um mundo melhor, afastando do seu imaginário a dependência da narrativa doTriunfo dos Porcos.

Pensar radicalmente o Blockupy é fazer tudo para escapar à escalada de radicalização da repressão governativa de Merkel. Não se pode desperdiçar energias e estender a mão à palmatória. Independentemente de quais sejam os objectivos (presentes ou futuros) do Blockupy, tudo deve ser pensado para atingir os seus fins sem facilitar ou ir de encontro à estratégia policial de controlo e repressão. Que sentido faz, por exemplo, continuar a divulgar a organização de transporte colectivo para Frankfurt, se pelo segundo ano consecutivo os autocarros foram parados, bloqueados durante horas e os activistas identificados – primeiro passo, fotografia do documento de identificação; segundo passo, fotografia da cara; terceiro, fotografia de corpo inteiro ou da cintura para cima, envergando o casaco e a mochila. Além da óbvia perda de energia e de disposição, da perturbação do programa de acções e da capacidade de organizar-se que resulta de ser bloqueado durante horas, é entregar o ouro ao bandido: estamos aqui todos juntinhos, partimos a horas certas, seguimos pela auto-estrada, apanhem-nos e façam o vosso serviço encomendado pelas forças repressivas.

Aliás, se dúvidas houver, o que pode significar que pelo segundo ano consecutivo a polícia tenha desviado e bloqueado os 5 autocarros que procediam de Berlim quando semanas antes um tribunal tomava a primeira decisão de punir a polícia pelo bloqueio realizado um ano antes e que obriga as autoridades a indemnizar (500€) os “passageiros”? Quando a Lei condena uma estratégia policial e a polícia, um ano depois, adopta a mesma postura, com a agravante de cadastrar fotograficamente os activistas, fica claro que não é a polícia que decide transgredir a Lei mas o poder governativo, que a incumbe de implementar a estratégia de controlo ao arrepio da lei.

Outro exemplo, não menos paradigmático, a organização do Blockupy pediu a aferição “preventiva” da legalidade e do percurso da manifestação, diferida pelo tribunal. Mas o que importa às elites governativas, à Troika e à hooliganquia económica que um tribunal, fazendo votos democráticos, dê razão aos movimentos sociais que a entente do Poder precisa de combater e controlar, para aprofundar o seu projecto de dominação política e económica?

Pode a população ainda querer alimentar um combate com a classe hegemónica, através do colete-de-forças da legalidade, quando esta não só controla a Lei como a viola sistematicamente para atingir os seus fins? O que distingue Merkel e Erdogan? Uma criminaliza quem usa luvas em manifestações, e o outro proíbe bâton vermelho a bordo? O que os distingue não é sobretudo o diferente estágio social das sociedades que enfrentam e tentam dominar? Admitindo como factual que a escala e, principalmente, a intensidade da repressão é maior na Turquia, não estão unidos pelo mesmo projecto neo-liberal e secundados ambos por aparelhos de controlo e repressão? Sobretudo, une-os a mentira do tempo e a determinação de a imporem a torto e a direito.

Apesar de uma boa parte dos activistas presentes não porem as mãos no fogo pelo cumprimento da ordem legal (dos direitos e garantias) pelas autoridades, outra parte ainda ficou chocada pela estratégia policial. Nesse sentido, é de suma importância que o abuso e a transgressão da legalidade pelo Governo alemão, numa escala e evidência tão flagrantes, ocorram precisamente na Alemanha, no coração do centro financeiro europeu.

Bloqueio ao BCE e acções directas

Se em relação ao ano que passou houve menos gente na manifestação, reuniram-se mais activistas nas acções directas e no bloqueio ao BCE, na véspera da manif. Rondariam os 3 mil (mais um milhar do que em 2012). Quem esteve em Frankfurt em 2102 apercebia-se desse facto e com razão, mas poderia ser levado a pensar erroneamente que a presença policial era, por sua vez, menor. Afinal, estavam destacados os mesmos 5 mil polícias. Percebe-se que, o que mudou, foi a táctica da polícia. Este ano, não fez dos quarteirões adjacentes ao BCE um campo de concentração do betão armado, da política predatória, do vazio político, e das milícias armadas que defendem os desígnios do poder financeiro. Deu mais espaço nos dias de acção directa. Parecia menos presente. Teriam dado mais “liberdade” de movimento aos activistas, à espera de uma montra estilhaçada para abrir o telejornal e justificando preventivamente a repressão programada para o dia de sábado?

Na sexta-feira, 31 de Maio, o dia começou com a marcha de cerca de 3000 activistas em direcção ao BCE, envolvido em arame farpado. Diferentes grupos impediram o acesso em seis pontos de acesso ao BCE. Os mais activos, danificaram a linha interna de defesa que a polícia tinha criado num dos acessos. Noutro ponto de bloqueio, membros da Antifa cercaram um batalhão policial. Noutro ainda, bolas e colchões insufláveis eram motivo para animar os activistas e estimular a robotização maquinal dos agentes de choque.

Após o bloqueio ao BCE, estavam previstas acções directas em vários pontos da cidade, organizadas por diferentes grupos activistas: à frente do Deutsche Bank; um mob de grupos feministas sobre o “Care Work” e as consequências da crise económica na esfera da reprodutibilidade; uma acção de denúncia ao processo de gentrificação e especulação imobiliária em Frankfurt; e um protesto (com mais de 700 activistas) no aeroporto de Frankfurt, bloqueando o edifício do terminal principal e um dos pontos centrais de trânsito de passageiros, denunciando a política europeia/alemã de deportação, no aeroporto que mais cidadãos expulsa do espaço europeu.

A grande variedade de alvos e as questões levantadas reflecte uma compreensão mais ampla da regulação capitalista da sociedade e das formas de protesto: lojas de grandes marcas que exploram trabalhadores dentro e fora de portas, centros de emprego e a sua política neo-liberal, bancos envolvidos na especulação alimentar e na “grilagem” de terras em África, centros financeiros e agências imobiliárias, o aeroporto europeu com mais tráfego e ocupando o primeiro lugar na política disciplinar de tráfico humano...

Na grande mole comercial de Frankfurt, o primeiro alvo de ocupação foi a Primark. Os trabalhadores estavam em greve e a escolha revela a consciência de que os movimentos sociais e as lutas laborais têm de confluir e encontrar formas de luta comuns.

Ainda não estava percorrida metade da rua, ao som da Ritmos de Resistência e quando grandes nomes da moda e das marcas de roupa já tinham sido invadidas, quando os activistas se apercebem que muitos estabelecimentos já haviam encerrado portas, preventivamente.

A um dado momento a imprevisibilidade das invasões era já uma espécie de desafio entre os diferentes grupos de activistas, uns e outros, tentando adivinhar qual seria a próxima loja a ser sitiada e ocupada. Rufavam os tambores até que de repente alguém disparava a correr, seguido de imediato por dezenas de activistas, criando uma atmosfera de há festa no palácio. Houve dezenas de invasões e bloqueios, por vezes, quatro ou cinco lojas em simultâneo. Na Zara, a ocupação chegou ao rubro, com as escadas rolantes dos 3 pisos, para cima e para baixo, a regurgitarem de activistas e o slogan «”A”, “A” de Anticapitalista”» a ser mimado pelos funcionári@s que mandavam beijos aos activistas.

Destaque ainda para um duo “incendiário” de zapatistas mexicanos, que deram um suporte inesperado à Ritmos de Resistência. Empoleirados nos bancos, nos postes ou nas árvores, chamaram a atenção dos manifestantes e dos passantes, cantando músicas revolucionárias zapatistas. “El hombre, la tierra, la dignidad, no se vende!”.

Houve também lugar a acções “desmarcadas” e sub-reptícias que não vinham no programa. Uma sessão rápida de tiro ao alvo à Allianz, cujos vidros ganharam viço com balões de tinta multicor, e uma inesperada acção no aeroporto da cidade, antes da manifestação de sábado. 

Depois de na sexta-feira 700 activistas terem bloqueado o principal terminal do aeroporto – e de terem sido alvo de repressão policial num grau que não ocorrera em nenhum outro local da cidade, no dia dedicado às acções descentralizadas –, um grupo de menos de trinta activistas rumou de novo, na manhã seguinte, à “aerogare”. O objectivo era fechar o balcão da AirBerlin, companhia fretada pelo Estado alemão para proceder aos voos de expatriação de imigrantes. Enquanto um banner gigante (No Border, No Nation, Stop Deportation) era colocado ao lado do balcão principal da AirBerlin, o balcão e a frente de acesso era envolvido em fita-adesiva, impedindo simbolicamente a circulação – como o passageiro é uma figura tipicamente em stress e lost in “transaction”, a fita-adesiva foi produzindo um eficaz efeito de tontura e bloqueio dos passageiros. Bilhetes especiais foram oferecidos aos passageiros com destino ao incerto lado B do capitalismo trans-nacional. As saquetas para enjoo, com a mensagem um pouco truncada (“Air Berlin – as nossas deportações são um vómito!!!”), descontraíam, e os passageiros voltavam à realidade e a sorrir! Os quatros polícias, franzinos, um pouco pálidos e ainda humanos, ficaram paralisados. Terminada a acção, ao sair do aeroporto, lá vinha o cortejo de cinco ou seis “vans” da polícia de choque, hasta la vista!

O sucesso desta acção, inesperada e anónima, no aeroporto e o êxito das ocupações temporárias, programadas e anunciadas em call out geral, das lojas na zona comercial de Frankfurt, demonstram como as tácticas de protesto podem partir de visões aparentemente opostas e devem ser pensadas de acordo com os seus objectivos específicos, circunstâncias e o momento em que são levadas a cabo. Onde o efeito surpresa e o secretismo de 25 activistas permitiram fechar o balcão de uma companhia aérea no maior aeroporto europeu, só mesmo centenas de activistas em chamada geral, misturados em pleno dia com consumidores e transeuntes, poderia invadir loja atrás de loja e desbaratinar completamente a polícia, nitidamente desesperada por ser incapaz de controlar as acções dos activistas ao longo de mais de duas horas.

Uma coisa pareceu clara e vir ao de cima nestes dias do Blockupy: de um lado, o poder começa a ver cada vez mais o seu fim; do outro, as pessoas começam a ter mais vontade de agir e percebem que isto é mesmo um início que não volta atrás.

Mural de