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domingo, 9 de dezembro de 2018

SEGURANÇA SOCIAL quer encafuar 1500 trabalhadores num edifício repleto de AMIANTO


Há cerca de um ano e meio o Fundo de Estabilização da Segurança Social (uma reserva para o pagamento da pensões) gerido pelo Instituto de Gestão de Fundos de Capitalização da Segurança Social (IGFCSS), comprou ao Fundo de Pensões da CGD, por € 50 milhões, um volumoso edifício, em grande parte devoluto, na esquina da Avenida de Berna com a Avenida 5 de Outubro, em Lisboa.


Foi declarada pelo governo a concentração ali dos serviços de atendimento da Segurança Social e outros que vêm ocupando 13 edifícios espalhados pela capital. Tudo parece um arejado acto de gestão mas… algo de criminoso e que vem sendo ocultado, retira-lhe todo o brilho.

Sabe-se que não se pode tocar nas paredes do edifício, com um parafuso que seja, porque foi ali utilizado, na construção, amianto; que, é conhecido, tem propriedades cancerígenas, sobretudo para quem esteja por perto em parte substancial da sua vida. E, claro, ninguém nas lideranças da Segurança Social, mormente do Instituto de Segurança Social (ISS) alguma vez falou no assunto… com desprezo total pela saúde dos trabalhadores que já deveriam ter sido para lá deslocados em junho último; uma data que foi adiada para fevereiro próximo.

Curiosamente, entre as deslocações para o edifício contaminado, consta que o Conselho Diretivo… vá mesmo para lá morar. Num antigo país de marinheiros, os comandantes do navio em perigo, não se separam da tripulação; ou, são demasiado ignorantes para saber o que é o amianto e os danos para a saúde pública que lhe estão subjacentes.
Em outubro de 2010 a CGD vendeu ao Fundo de Pensões da CGD o referido edifício – já esvaziado - por € 251.8 milhões, revelando uma mais-valia de € 103.7 milhões, um valor próximo dos lucros do banco público no primeiro semestre daquele ano. Depois, até recentemente, o edifício continuou desocupado, excepto na parte onde esteve instalada a Caixa Geral de Aposentações, que gere as pensões dos funcionários públicos e, que sempre funcionou na órbita da CGD; para além do próprio Fundo de Pensões da CGD que passou a viver em casa própria.

Em 2017, o mesmo Fundo vende por € 50 milhões um edifício pelo qual pagara € 251.8 M, sete anos antes. Estranho, não?

Numa conjuntura de crescimento dos preços do imobiliário em que qualquer pardieiro passa a habitação para turistas; quando se evidencia a falta de espaços para escritórios na parte central da cidade de Lisboa (veja-se a apetência pelos terrenos da antiga Feira Popular), um edifício projetado por Tomás Taveira e com uma menção honrosa pela sua qualidade arquitetónica deveria, hoje, valer algo mais do que os € 251.8 milhões da transação de 2010, quando se anunciava o fracasso dos planos de austeridade – os célebres PEC que vieram a atapetar a chegada da troika. Porque será, então, que em 2017 o prédio foi vendido pela quinta parte do seu custo em 2010?

Há várias pistas a explorar em tanta estranheza:

·        Será que em 2010, a CGD enganou a sua “sucursal” – o Fundo de Pensões dos trabalhadores do banco público, gerido então por João Eduardo Gamito Faria - com um valor exagerado do imóvel para lhe permitir encontrar uma origem para metade dos lucros semestrais do banco?

·     Nesse caso, os responsáveis de Fundo de Pensões, em 2010, foram verdadeiros imbecis ou foram “comprados” pela administração da CGD, com óbvio prejuízo para os aposentados atuais e futuros do grupo CGD.

·        Se o valor da transação efetuada em 2010 foi o correto, o que aconteceu no edifício para que em sete anos o seu valor corresponda apenas a 1/5 do que foi considerado em 2010? O que aconteceu para tão enorme desvalorização? Como diria Fausto “E assim vai Portugal, uns vão bem e muitos mal”.

Tudo indica que na CGD sempre se soube que o edifício estava contaminado pelo amianto e que não poderia ser vendido no “mercado” pois qualquer avaliador observaria as caraterísticas do edifício e, na sequência, desistiria da compra; ou comprá-lo-ia por um valor desinteressante para a CGD, que obrigaria o banco a registar um vultuoso prejuízo.

Por isso, a CGD procedeu a uma venda contida na sua órbita de gestão – o Fundo de Pensões – transitando o imóvel empestado por um valor muito acima do seu valor comercial, com os futuros prejuízos a cavar fundo nas poupanças dos reformados atuais e futuros da CGD. Um brilhante acto de gestão…da administração de um Faria de Oliveira, afeto ao PSD.

Em 2017 surgiu a solução salvadora, na procura do prejuízo mínimo por parte do Fundo. Uma vez que no mercado imobiliário nunca surgiria um saloio endinheirado que pagasse o valor que o Fundo de Pensões teria no balanço (mais ou menos os tais € 251.8 milhões), haveria de encarar uma venda com prejuízo, como veio a acontecer. Os trabalhadores da CGD, no ativo ou na reforma, viriam a ver desaparecer (€ 251.8-50= € 201.8 milhões) do seu pecúlio contabilizado (mas não real) com a venda do imóvel ao Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social (FEFSS), gerido pelo Instituto de Gestão de Fundos de Capitalização da Segurança Social, (IGFCSS) cujo presidente é Manuel Baganha.

Afinal, sempre havia o tal saloio endinheirado – o FEFSS – para adquirir o prédio. E, naturalmente, que a decisão não foi somente do Baganha. Envolveu um Rui Fiolhais, presidente do ISS que logo iniciou os preparativos para se enfiar, ele e mais 1500 trabalhadores, no edifício contaminado e vender ou evacuar os já referidos 13 locais ainda afetos os trabalhadores do ISS. A Secretária de Estado Cláudia Joaquim, que logo exultou com as “reduções em comunicações, serviços de limpeza, segurança, condomínios e manutenção”, ter-se-á esquecido de referir os negócios que, na boa tradição corrupta portuguesa, se irão desenvolver com as vendas dos imóveis devolutos. E claro, nunca referiu o amianto que adorna o requintado edifício e, menos ainda os enormes riscos para a saúde de todos os irão para lá ser encafuados[1]. Como é evidente nada disto é estranho ao ministro Vieira da Silva que assim coloca mais uma nódoa no currículo; propicia uma panóplia de negócios imobiliários em torno dos prédios devolutos, a juntar ao seu envolvimento na Raríssimas; o que foi um fait divers perante a invenção do factor de sustentabilidade, ainda no tempo de Sócrates, que retirou aos trabalhadores portugueses muitos milhares de anos de direitos na reforma.

A gestão pública, na paróquia lusa, em todo o seu esplendor…

Este e outros textos em:



[1]  Dizemos encafuar porque se pensa reproduzir em grandes espaços abertos a lógica das tradicionais salas de aula, com os trabalhadores e suas secretárias dispostos em linhas e colunas com o chefe de frente para controlar a malandragem. Só faltará um retrato, não diremos de Salazar mas do incontinente ex-leitor de contracapas e uma cruz na parede.

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

O desprezo pela via ferroviária



A preferência da governação, pela estrada, pelas parcerias, visa selar a sua relação mafiosa com os interesses da obra pública e da finança; mesmo que essa opção sele a continuidade da situação periférica portuguesa face à Europa e a Espanha em particular. Quanto ao ambiente…

1 – Num país atrasado, a ferrovia também se atrasa
2 – Uma gestão pública que favorece o setor privado
3 – A mediocridade como nota de desempenho
4 - A alta velocidade
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1 – Num país atrasado, a ferrovia também se atrasa
 
A vida dos caminhos-de-ferro em Portugal começou mal. 

Em primeiro lugar, porque o receio de novas invasões francesas da Península Ibérica, como as havidas no início do século XIX, conduziu à utilização de uma bitola diferente da que ligava e liga todos os países da Europa transpirenaica. Do ponto de vista ferroviário, a Península tornou-se uma jangada de pedra, como caraterizada por Saramago.

Depois, porque na inauguração no troço Lisboa-Carregado houve problemas técnicos que obrigaram as finas damas da corte, convidadas a participar na viagem inaugural, a fazer parte do percurso a pé, junto à linha, de saias levantadas.

Em terceiro lugar, porque tratando-se então de um país rural, sem grandes centros industriais ou urbanos, as estações foram colocadas em locais plantados algures, com designações que em nada correspondem à sua localização, como as de Mafra ou Dagorda-

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Decrescimento, capitalismo e democracia de mercado


O capitalismo é um sistema global e invasivo. E nenhuma contestação assente numa temática sectorial, localizada ou num grupo de ungidos, é suficiente para o extirpar

1 - O capitalismo é um sistema global e invasivo

2 – Como combater os grandes auxiliares da gestão capitalista 

a)     – Áreas para articulação na luta anticapitalista
b)      - Elementos para enformar uma rede anticapitalista

Desde há alguns anos atrás o tema do decrescimento tem surgido com maior frequência como tema determinante nos meios de militância ambiental. Sem contestar a sua relevância entendemos que existe um pendor para considerar o decrescimento como a chave para obviar à deriva neoliberal e autoritária, no âmbito da qual o capitalismo coloca em causa não só a Humanidade como a própria sustentabilidade do planeta, como suporte de vida.

Parece-nos que essa leitura é muito parcial, quiçá ingénua e carecida de uma abordagem integradora dos problemas que o capitalismo vem colocando, dia a dia com mais perigosidade. E, sendo parcial, poderá vir a ser integrada na estratégia do capital, como aconteceu com a abordagem ecológica em geral ou a do “crescimento sustentável”.

A defesa do decrescimento deve juntar-se a outras vertentes centrais do capitalismo e do seu modelo político, a democracia de mercado ou, isoladamente, não produzirá os devidos frutos; isto é, à libertação da Humanidade face à tirania do capital. Colocar a questão do decrescimento é necessário mas não é suficiente; e, como abordagem parcelar arrisca a sua integração na lógica do capital, sempre disposto a ceder em alguma coisa para que tudo se mantenha na mesma, para prosseguir na busca da sua perpetuidade.

1 - O capitalismo é um sistema global e invasivo

No seio dos meios capitalistas de topo, dos que contam em termos globais – as transnacionais e o sistema financeiro - a grande questão é a maximização da taxa de lucro, a qual garantirá uma acrescida acumulação de capital. E aqueles utilizam como seus principais elementos

terça-feira, 14 de novembro de 2017

É o clima, estúpido!




                                                                             Por     António Dores     17/10/2017

Bill Clinton, na sua campanha presidencial, tornou famoso o slogan “É a economia, estupido!”. O seu vice-presidente, Al Gore, poderia ter preferido “É o clima, estupido!”.

No caso dos fogos assassinos, em Portugal, que o governo reconhece que se irão repetir, há duas opções: manter o regime centrado em fazer crescer a economia – e como se sabe, mesmo no deserto, é possível encontrar como fazer dinheiro extraindo do solo (ou da zona marítima exclusiva) aquilo que lá possa haver – ou fazer um regime novo capaz de proteger as pessoas.

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

O PIB, o IMI e outros modos de mercantilização da vida





1 - O mercado, o PIB e a punção fiscal
2 - O banco de ideias de extorsão fiscal
3 - A habitação própria e o ilegítimo IMI
4 - Energias renováveis. Como os Estados se apropriam do sol e do vento
5 - Os latrineiros

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1 - O mercado, o PIB e a punção fiscal

A inclusão no mercado e a contabilização no PIB andam de mão dada com a punção fiscal.
Entre as atividades não incluídas no PIB contam-se os rendimentos encaminhados para offshores e que vão permitindo o bom alojamento do Ricardo Salgado, por exemplo; os rendimentos do crime, dos tráficos vários, de droga, imigrantes, órgãos e mulheres; os rendimentos de trabalhadores pobres, de biscatos, naturalmente não revelados à máquina fiscal; e, finalmente, as economias domésticas, os arranjos, o produto de hortas e galinheiros familiares, totalmente fora da economia de mercado. Tudo isto, em Portugal corresponderá a cerca de 25% do PIB contabilizado.


domingo, 1 de janeiro de 2012


Com  a Geração à Rasca!  Estamos todos à rasca!


400.000 pessoas, com lucros/rendas/juros, ficam com 50% do rendimento nacional. Nada tem sentido sem redistribuição!


·   Encerramento das empresas de trabalho temporário, verdadeiros negreiros do século XXI.      Cabe ao IEFP ajudar os desempregados
·   Fim do aumento generalizado do horário de trabalho, com a penalização do trabalho extraordinário, para além de limites muito especificos
·   Indexação dos níveis salariais aos ganhos da produtividade e ao aumento geral dos preços, com a introdução de factores de redução dos leques salariais;
·   Dedução em sede de IRS dos passes sociais dos trabalhadores por conta de outrem, incluindo os que trabalham a recibo verde e ainda dos respectivos descendentes a frequentar um grau de ensino;
·   Cumprimento escrupuloso de despedimentos apenas admitido para um leque reduzido de causas;
·   Empresas com trabalhadores com vínculos precários para funções com carácter permanente não podem concorrer a concursos públicos, nem estabelecer qualquer contrato com entidades públicas, ou recorrer ao QREN;

·   Enquanto houver PEC, todas as distribuições de lucros por accionistas e outros detentores de capital serão taxadas a 100%;
·   Cessação de prémios de gestão, em todas as empresas ou, em alternativa com 100%  de IRS;
·   Proibição de cartões de crédito para gestores e outros mandarins, na administração pública ou empresas públicas e  estabelecimento de pensões de reforma e seguros em idênticas condições às dos restantes trabalhadores;
·   Como medida transitória anti-crise, as reformas que superem os 5000 euros mensais deverão ser pagas em títulos de dívida pública, na parte que exceda aquele valor;

·   Separação entre as contas da Segurança Social e as contas do Estado. Os descontos para a reforma são verbas consignadas a fins específicos - doença, desemprego e velhice. Não se podem misturar com as contas do Estado
·   Fim das atitudes persecutórias do ministério do Trabalho contra recibos verdes, desempregados ou trabalhadores com baixa e concentração dos seus esforços nas empresas que não pagam contribuições e ficam com o produto dos descontos aos trabalhadores;
·   A sustentabilidade financeira da Segurança Social, a longo prazo, não pode assentar no aumento obrigatório da vida activa dos trabalhadores ou na redução futura das pensões; o aumento da longevidade humana deve beneficiar exclusivamente as pessoas e não constituir um acréscimo de tempo de vida a premiar os capitalistas com mais tempo de trabalho;

·   Cessação de todas as aquisições e recrutamentos para as forças armadas  e políciais e da presença de militares portugueses em missões no exterior
·   Cessação dos grandes projectos de obras públicas durante a vigência do PEC;
·   Criação de taxa ad valorem por cada transação em bolsa e utilização do cobrado no apoio ao emprego e contra a pobreza
·   Criação de um sistema fiscal progressivo baseado nos rendimentos individuais e das empresas, com redução dos cegos impostos indirectos, o IVA, nomeadamente;


grazia.tanta@gmail.com
·   Fim dos regimes específicos de reforma para os titulares de cargos políticos e sua anulação a quem tiver menos de 65 anos, aplicando-se a todos os restantes as regras de aposentação existentes para a generalidade dos trabalhadores;;
·   Suspensão imediata de funções e impossibilidade de candidaturas a cargos políticos ou nomeação em cargos públicos para os indiciados por crimes de corrupção;
·   Devolução do rendimento correspondente até um ano de salários (medida já avançada por A Merkel), e do valor dos prémios e “para-quedas” dourados arrecadados nos últimos 3 anos, bem como o impedimento do exercício de cargos de gestão durante um período mínimo de 10 anos, a todos os gestores envolvidos em comportamentos levianos e dolosos na gestão das empresas, para além da responsabilidade criminal inerente a falcatruas cometidas;

·   Agilização e incentivo a uma maior utilização do referendo, a nível nacional, regional ou local;
·   Nos órgãos autárquicos, reforço dos poderes das assembleias municipais quanto à fiscalização, veto e autorização de actos dos respectivos órgãos executivos, incluindo o poder de destituir o executivo camarário.
·   Extinção das empresas municipais, com a integração dos seus trabalhadores nos efectivos das câmaras;
·   Divulgação mensal, nos sites das entidades públicas, dos mapas detalhados das despesas realizadas e dos valores orçamentados;
·   Reintegração dos reguladores (Anacom, Autoridade da Concorrência…) nas normas correntes da administração pública;
·   Recusa de qualquer medida de controlo policial indiscriminado da internet. O acesso à rede deve manter-se livre e irrestrito;

·   Inibição do débito de despesas de manutenção pelos bancos nas contas criadas obrigatoriamente para a disponibilidade de salários e pensões
·   Ligação, a longo prazo, dos níveis das taxas de juro aos índices de actualizações salariais, para créditos de carácter social, como a compra de habitação pelos trabalhadores;

·   Universalidade do ensino público gratuito em todos os graus de ensino incluindo as prestações conexas, como livros, visitas de estudo e material escolar ou de investigação;
·   Plano de emergência para a extensão a todas as crianças dos respectivos escalões etários, de creches, jardins de infância e ensino pré-escolar, também com carácter gratuito;
·   Fixação de uma lógica de autogestão e responsabilidade no funcionamento das escolas. Criação de órgãos representantes dos alunos, dos seus encarregados de educação e dos trabalhadores das escolas para a gestão das mesmas;

·   Contratação de médicos, a tempo inteiro ou parcial para o SNS, com redução dos pagamentos por consulta de médicos convencionados
·   Abolição das taxas moderadoras no âmbito do SNS ou, no mínimo, sua abolição nos casos de requisição de receitas por doentes crónicos, em que seja dispensada a consulta médica;

Contestação, desobediência, autonomia, autogestão


Mais ou com maior detalhe em:


grazia.tanta@gmail.com

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011


Frente  ribeirinha da Margem Sul – um  projecto perigoso
Apesar do nome auspicioso, a presença do virus socratóide revela que o projecto está inquinado e que se trata, de facto, de mais um projecto imobiliário, desta vez no Mar da Palha.
A - Definição do projecto
Em plena campanha eleitoral, o ainda governo pretende aliciar os eleitores com um projecto grandioso, tendo como objectivo um território - a Margem Sul do Tejo - abandonado à sua sorte, ou pior, à incúria da amálgama de poderes central e locais, com a especulação imobiliária como pano de fundo.  O porta voz deste outro brilhante projecto socratóide (eles são tantos!) foi, desta vez um daqueles paquidermes gelatinosos da corte de Sócrates, um tal Nunes Correia, gestor dos PIN’s e distribuidor do dinheiro do QREN, que para o efeito se assina como Ministro do Ambiente.
O objectivo do projecto é requalificar toda a frente ribeirinha do Tejo que vai da Trafaria até Alcochete tomando como factores impulsionadores, os terrenos maioritariamente pertencentes ao Estado, na Margueira (Almada), na antiga Siderurgia Nacional (Seixal) e da Quimiparque (Barreiro/Moita), num periodo de 12 a 18 anos, consoante as parcelas. No caso da Margueira, o que lá se encontra é um espaço sem utilização para o qual existem, há dez anos, planos imobiliários de luxo; nos outros dois casos, registam-se ocupações industriais, comerciais e de serviços, de pequena e grande dimensão, de carácter privado em parcelas de propriedade pública, umas e privada, outras, bem como áreas residenciais. Prevêem-se no plano ora apresentado e cujo estudo foi ordenado por decisão do conselho de ministros em 2008, as seguintes áreas de construção (em m2): Margueira – 548435; Quimiparque – 370000; Siderurgia Nacional – 1471000.
E precisamente porque em campanha eleitoral, o marketing impõe o aceno com 55000 novos empregos até 2027 e 17000 residentes em 5000 fogos de grande qualidade. Se somarmos os 10800 novos empregos anunciados para  a logística no Poceirão até 2023 e a cidade aeroportuária que estará a funcionar (dizem) em 2017, talvez o país se desertifique e o deserto de Mário Lino passe a ter a densidade populacional de Macau. Quando os paizinhos dos actuais mandarins inventaram o projecto de Sines, nos anos 60 e 70, também não previram, os elefantes brancos que lá vieram a surgir, os imensos recursos que o Estado lá acabou por enterrar para aliviar a iniciativa privada de custos e, que o maravilhoso plano para construir em Santo André uma cidade modelo, se esvaiu no tempo e na areia.
Quanto ao modelo institucional, defende-se o recurso a sociedades gestoras (60% Estado, 40% Municípios) que, naturalmente, irão proceder à subcontratação junto de empresas de obras públicas e construção para a betonização das áreas e, para que as coisas corram céleres, prevêem-se medidas de agilização de procedimentos (sabem o que isto quer dizer, não?) além de muitos, muitos “jobs for the boys”.
Para tornar o projecto defensável perante a opinião pública e para ocultar que se trata apenas de uma operação em larga escala para favorecer o sectores da construção, do imobiliário e da banca (que está sempre presente nestes mega-projectos), apresentam-se algumas ideias que subjazem no relatório do projecto.
1.      A comparação com a Expo, na Margem Norte é grosseira acção de propaganda. Primeiro, porque se trata, na Margem Sul, de três áreas desligadas umas das outras, sem nenhuma lógica de conjunto prevista, sem que esteja pensada a construção de qualquer empreendimento emblemático para promoção do projecto e que funcione como âncora unificadora do conjunto. Depois, porque não se contempla nenhuma visão de reconversão total dos espaços (excepto para a Margueira que está devoluta) mas, apenas um rearranjo das ocupações, com o afastamento de algumas unidades industriais poluentes para uma adequada junção de habitação e hotelaria de luxo. Naturalmente, só agora o Governo e o seu ministro, dito do ambiente, anunciam esses inconvenientes e perigos para uma futura população de gente elegante e endinheirada; até então, essas unidades industriais têm oferecido perigos vários à população, nomeadamente do Barreiro, Baixa da Banheira e Lavradio mas, como é gente pobre e de trabalho… que se danem.
2.      A criação da “verdadeira cidade portuária” na Margem Sul, enquadra-se ainda na mesma lógica mistificatória que caracteriza o pensamento dos mandarins. O untuoso ministro que enunciou o projecto terá sofrido da mesma doença temporária que acometeu o Lino tempos atrás, depois do almoço ou, alternativamente, deve pensar que somos parvos.
As instalações portuárias na Margem Sul movimentam produtos petrolíferos, cereais e oleaginosas e incluem, na Trafaria, o elefante branco da Silopor para cuja privatização ninguém aparece; não necessitam de vultuosos escritórios em particular, muito menos no Mar da Palha e não irão contribuir para o adorno curricular do sacripanta Nunes Correia.
E depois, se os contentores estão na margem norte entregues aos camaradas da Mota-Engil, embebidos nos “procedimentos ágeis” da contratação directa e perto dos planos tortuosos relativos à frente ribeirinha a cargo do António Costa, do Manuel Salgado e figuras pouco recomendáveis afins, qual a atração movida pela frente ribeirinha Mar da Palha agora proposta? Se os contentores estão a norte, os escritórios de agentes de navegação, transitários e outros instalam-se na margem sul, como sugere o esponjoso ministro?
3.      Disse ainda o pobre diabo do Correia que a Margem Sul “era uma zona residencial e dormitório de Lisboa e que este projecto lhe vai dar nova centralidade”. Asneira e incoerência. As alterações propostas no projecto à situação actual, consistem na redução da ocupação industrial, comercial e de serviços nos terrenos escolhidos e a criação de habitações para 17000 pessoas das classes alta e média alta que, provavelmente se terão de deslocar para Lisboa onde continuarão a estar as multinacionais e o centro financeiro. E, não parece que constituam grande atração para os futuros quadros da cidade aeroportuária de Alcochete ou, para os milhares (?) de trabalhadores do Poceirão, pois decerto todos encontrarão habitações à sua medida bem mais perto do que à beira do Mar da Palha, paredes meias com parques industriais expurgados de algumas unidades mais poluentes.
4.      Os hotéis de luxo serão vocacionados para turistas endinheirados que procurem aquelas zonas ou para gestores em viagem de negócios que se alojarão na Margem Sul quando as suas actividades se desenvolvem na Margem Norte? O aeroporto de Alcochete vai enviar viajantes para alojamentos de luxo na Margueira, no Seixal ou no Barreiro? A ministerial gelatina acreditará mesmo que convence a multidão com estes argumentos?
5.      O projecto apresentado pelo Governo apresenta uma lacuna formal grave que lhe retira credibilidade. Sendo um projecto com impacto óbvio na área metropolitana, não há referência à instituição Área Metropolitana de Lisboa, criada em 2003 ou aos seus órgãos, mormente a Junta Metropolitana de Lisboa, onde têm lugar todos os presidentes de câmara. Da nossa parte, isso não causa qualquer estranheza porquanto a instituição nunca serviu para nada, nunca integrou, compatibilizou, resolveu, propôs ou programou. Com Junta, Assembleia e Conselho, a instituição mais não serve que de coito para um punhado de mandarins emproados e provincianos que publicam uma revista bem apresentada. No entanto, tem previstas atribuições muito vastas, que abrangem saneamento, saúde, ambiente, segurança e protecção civil, acessibilidades e transportes, equipamentos colectivos, turismo, cultura e desporto. Como carece de transferências de poderes, quer do governo central quer das autarquias, acaba por revelar a importância que o mandarinato dá à estruturação e ordenamento de território tão complexo como o de uma AML.
6.      Outro dos embustes é a frase “uma cidade, duas margens” como objectivo para a AML, que os mandarins emanam, com ar solene, fazendo disso quase uma afirmação poética. Na realidade, é uma trivialidade. Um rio não é um factor de divisão de uma cidade, como o demonstram inúmeros casos: Londres, New York, Montreal, Budapeste, S. Francisco-Oakland, etc. O facto de a área administrativa a que se chama Lisboa ter apenas 1/5 da população total da AML só é problema desde que essa divisão constitua factor que dificulte a integração do espaço global e o impeça de potenciar a criação de riqueza e bem-estar; só é problema, desde que haja falta de visão de conjunto e de órgãos democráticos adequados para gerir um espaço onde residem 2.5 M pessoas.
7.      A valorização da Margem Sul e o reequilíbrio das duas margens como aventado no projecto obrigaria à transferência para a margem esquerda da sede de alguns bancos, multinacionais, algumas grandes empresas ou grandes institutos públicos, como âncora onde se acoplariam empresas de menor dimensão. Mas isso não está contemplado no projecto, como sucedeu no Parque das Nações, porque a transferência para este último correspondeu a uma mudança dentro de Lisboa, sem alterações na centralidade da localização.
B - A realidade oferece o critério da verdade
A nova travessia do Tejo e o aeroporto em Alcochete irão, sem dúvida, aumentar a integração territorial entre as duas margens e potenciar a sua utilização como componentes de uma mesma área metropolitana, impondo a esta, uma necessidade mais profunda de ordenamento conjunto. Muito para além das capacidades e das vistas curtas das capelinhas autárquicas, inseridas nos oligopólios partidários, do poder majestático do governo central, dançando todos ao ritmo imposto pelos interesses imobiliários que os municiam com gordos proventos.
A centralidade da AML só existe no contexto nacional e foi a posição geográfica de Lisboa que, historicamente, a alicerçou. A posição estratégica da cidade, que permitiu o desenvolvimento de uma AML, deriva de vários factores. Um, é a sua quase equidistância entre o norte e o sul de Portugal; outro, é a de ser um bom porto de mar desde tempos ancestrais; depois, porque protegida a sul e leste por um largo rio e a norte por um terreno acidentado, estava criado, naturalmente, algum conforto face a invasões por terra; finalmente, registe-se que a região de Lisboa, sendo a área mais distanciada da fronteira espanhola, fez da cidade a óbvia capital do reino de Portugal e dos Algarves, o seu mais seguro reduto, no contexto de um território, sem profundidade em termos de estratégia militar. Cremos mesmo que foi o peso de Lisboa que permitiu a unidade territorial portuguesa, mediando culturas e economias distintas, a norte e a sul.
Porém, a integração ibérica retirou alguma relevância a essa centralidade nacional e tornou Lisboa periférica, em termos peninsulares, colocada embora, numa das pontas do eixo Barcelona-Madrid-Lisboa, onde se situam as três principais manchas urbanas ibéricas, que estruturam a Península no seu conjunto. Essa periferização acentua-se mais, devido à dimensão económica de Portugal, que retira valia à sua valência portuária, como polo de entrada/saída ibérica para ocidente.
Assim, os tráfegos marítimos de contentores confluem, naturalmente, na vertente ocidental europeia, para os portos do triângulo Havre-Londres-Hamburgo e, no Mediterrâneo ocidental para Barcelona, Valência ou Algeciras, tendo este ainda funções relevantes nos tráfegos norte-sul.  E, como Portugal tem escassa relevância económica no seio da Europa, aquelas ligações marítimas fazem a ligação aos portos portugueses através de navios pequenos, vocacionados para o “retalho”; ou, mais directamente, é uma maciça participação do camião serve Portugal, sobretudo no âmbito das ligações com os principais parceiros comerciais – Espanha, França, Alemanha. O TGV para Madrid é um trunfo desesperado para minorar a periferização de Portugal no contexto europeu, isolamento caro a Salazar e os seus herdeiros actuais.
Madrid é o centro económico da Península Ibérica, muito devido à sua posição geográfica mas, também pela importância económica da sua população – 6,4 M na Comunidade, com metade dos quais na cidade propriamente dita. Por seu turno, a AML tem apenas 2.8 M dos quais 20% na cidade que lhe dá o nome, embora detenha cerca de 27% de quota no IRS declarado.
C - Causas da desestruturação do território
Tendo presente que a AML é uma área ibérica de primeira grandeza, ainda que periférica e, que dificilmente deixará de ser assim, nas próximas décadas, os seus desequilíbrios internos, sendo grandes, têm causas que radicam na desestruturação causada, há décadas, pelo predomínio de interesses imobiliários que emanam de uma burguesia subalterna, servil e defensiva, que se enquista na sua dedicação a tudo o que não é exportável, ao que está fora da competição internacional. Para mais, a especulação imobiliária não exige qualificações profissionais ou académicas especiais, apenas a inserção em redes clientelares, em íntima ligação ao capital financeiro: como é típico de estruturas mafiosas.
O ordenamento do território efectuado pelos mandarins tem-se revelado realmente, um ordenhamento em proveito próprio e dos seus sócios, os promotores imobiliários.
O negócio imobiliário é mais rentável a partir da transformação de terrenos rústicos em urbanos, pelo que as manchas urbanas têm sempre de ir mais longe para enquadrar novos terrenos rústicos. Urbanizados estes pelos executivos camarários, a sua acção continua, nomeadamente no caso dos seus presidentes e vereadores do urbanismo, que aprovam os loteamentos, os projectos concretos de construção, que alteram os PDM, etc. A valorização do capital investido nesta cadeia é, decerto muito maior do que no caso da reabilitação de prédios velhos, para mais se tiverem inquilinos lá dentro; portanto, a cadeia “geradora de valor” constituida por autarcas e promotores imobiliários, pouco se importa com a reabilitação e a manutenção dos imóveis. O papel do Estado nesta questão é o da criação artificial de valor, que não incorpora trabalho ou conhecimento, típica do moribundo neoliberalismo. Evidencia-se uma cadeia de transacções sobre um mesmo bem – terra – que passará de mão em mão, com cada interveniente a acrescentar o seu “valor acrescentado” até ao final da cadeia do comprador do produto final , que poderá apenas ser o primeiro de uma série. E que ficará contente enquanto os preços subirem…
As manchas de terrenos vazios, baldios urbanos e suburbanos que se intercalam com urbanizações ou mesmo prédios isolados, que tornam desconexo o território, inutilizam parte significativa do mesmo, em espera indefinida de uma valorização que depende da rendabilidade especulativa gerada pelos solos rústicos, enquanto existirem. Mesmo dentro das cidades há terrenos abandonados, prédios em ruinas ou emparedados ou ainda, com janelas abertas para acelerar a degradação e que se tornam notícia quando há incêndios ou derrocadas que envolvem pobres, idosos e sem-abrigo.
Desta ocupação desconexa, resultam áreas urbanas isoladas, com maus (ou sem) transportes condignos ou sequer sinalética que as identifique nas proximidades. Este tipo de habitat, tipicamente suburbano, fomenta o transporte privado, maiores distâncias a percorrer, não viabiliza serviços de proximidade ou estes ficam disseminados um pouco por uma vasta área também desprovida de equipamentos sociais. Um exemplo? Toda a região que envolve o Taguspark, em Oeiras, no feudo do Isaltino, aquele autarca que se celebrizou… por ser tio do emigrante modelo que, como taxista na Suiça, acumulou 1.3 M euros de poupanças.
Tudo isto é o funcionamento conveniente do mercado, argumento que os gangs nacionais que detêm o poder utilizam para justificar a sua inação conivente e interessada. O protagonismo cabe todo para essas emanações partidárias locais cuja fama de corruptas só será injusta para poucos. E lá estaremos a encontrar, como sempre, em lugar destacadíssimo, a mafia bicéfala PS/PSD.
Requalificação urbanística, tão na moda nos últimos anos, tem dois significados paralelos para o binómio mandarinato-imobiliário. Por um lado, consiste na adaptação de territórios degradados, em zonas históricas com boa inserção paisagística, para o alojamento de classes média alta e alta, para empresários e profissionais liberais ou campeões da economia mafiosa, cujos rendimentos permitem fazer face a qualquer aumento especulativo de preços. Do outro lado da moeda está o resto da população, gente menos elegante, excluida desses projectos, como está imanente à filosofia das SRU sempre muito ágeis em varrer com os pequenos proprietários descapitalizados, com os inquilinos envelhecidos e pobres e preparar tudo para as ditas classes de endinheirados. Este é o projecto a que chamam, eufemisticamente… atrair população jovem.
Na base dessas operações de requalificação ou reabilitação estão sempre decisões administrativas do Estado ou das autarquias que montam toda a armadura jurídica, que pagam a infraestruturação dos espaços públicos, os realojamentos, a definição dos espaços, etc. Como em muitas outras situações, o Estado aligeira os custos privados e oferece-lhes, claramente, todo o benefício da valorização dos terrenos e da maior apetência das zonas recuperadas. E, já foram anunciadas alterações às normas legais que enquadram as SRU (facilitando as expropriações), bem como à lei das rendas que, juramos não irão propiciar valores mais baixos de aluguer ou maiores direitos aos inquilinos, sobretudo para efeitos da sua remoção.
Para além de se saber se haverá assim tantos endinheirados para tantos projectos que tantos “investidores imobiliários” utilizam para colocar o dinheiro, há a questão social da promoção de habitação de qualidade e conforto para as classes laboriosas e que o chamado mercado está longe de resolver.
Haverá mesmo algum problema de carências habitacionais na Margem Sul que seja resolvido com habitações de luxo, como sugere o projecto apresentado pelo balofo Nunes Correia? Na AML há cerca de 2.2 residentes por habitação enquanto o projecto apresentado pelo ministro oferece uma densidade muito superior – 3,4 residentes por fogo. Daqui se conclui não existirem problemas quantitativos mas, sobretudo qualitativos, pelo que se torna premente a recuperação do edificado existente e menos obra nova; a reabilitação é a prática mais económica, mais ambientalmente sustentável, mais geradora de emprego mas, que não tem tradição num país dominado pelas mafias, como já expusemos.
O desprezo pela reabilitação urbana, é revelado pelos seguintes números extraídos de um trabalho de Rita Calvário: “Portugal é o país da Europa que menos reabilita e onde a nova construção tem mais peso (90,5% numa média europeia de 52,5%). O investimento em reabilitação urbana é de 5,66% do total dos investimentos em construção, enquanto a média europeia é de 33%”.
A frente ribeirinha da Margem Sul precisa de espaços livres qualificados e zonas verdes de grandes dimensões, junto ao rio, para a população usufruir ou, da reabilitação urbana e ambiental de diversas áreas empobrecidas e degradadas após a desindustrialização e, mais recentemente, com a crise do capitalismo que se vem vivendo. Precisa também de atrair algumas grandes unidades de serviços desde que isso não densifique o espaço com imóveis, trânsito e poluição.
Por outro lado e já fora do âmbito da AML entende-se que o ordenamento do território passa pela disseminação da actividade económica, das empresas, dos serviços públicos e da ocupação humana pela generalidade do território, combatendo a acelerada desertificação do interior que se vem desenhando há décadas com a valorização de cidades pequenas e médias, abundantes em Portugal. Para isso, a regionalização é um passo importante, desde que fora do poder distorcedor das mafias.
Agosto 2009