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quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

TÊXTOS DE CIRCUNSTÂNCIA - 7


Sumário:

A - Democracia direta - para uma definição operacional
B - Lições a tirar das manobras de Trump no “quintal” latino-americano
C – Na paróquia lusa um prémio Nobel costuma ser seguido com beata veneração
D - Os 44 anos do 25 de Novembro e o cumprimento dos seus objetivos
E - Sobre o patriotismo
F - O magnânimo Costa e o salário mínimo de € 750 em…2023

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A - Democracia direta - para uma definição operacional

O aqui definido deve ser entendido como correspondendo a uma total recusa do actual regime que se tem revelado reacionário, oligárquico, corrupto e empobrecedor. E, nesse contexto, entende-se como única postura digna, coerente e libertadora, a vigência de uma verdadeira democracia - a democracia direta; e, por coerência e imperativo prático, compreende a recusa de demandas junto das instituições do regime, como cartas abertas, petições e afins.
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O evidente descrédito dos partidos políticos tem como principais causas o empobrecimento coletivo, a baixíssima natalidade, a precariedade laboral e na vida, com os governos a serem muito criativos em reduzir (em termos reais) rendimentos e em aumentarem a carga fiscal, mostrando-se ainda incapazes de organizar adequadamente todos os sectores com maior relevância na vivência coletiva – saúde, educação, segurança social, transportes, habitação. 

Por outro lado, os governos e a classe política são arrogantes, colocam-se acima da população, com direitos únicos de decisão; e mantêm uma relação promíscua com o espetro mediático ao seu dispor mas, vedado às opiniões do povo; e, nem sequer se mostram capazes de organizar tecnicamente, um recenseamento eleitoral, passadas dezenas de anos. 

Veja-se, por exemplo, como o regime se autoelege como dono da democracia assumindo, arrogante e totalitariamente, que “Os partidos políticos concorrem para a organização e para a expressão da vontade popular” (artº 10º, nº2 da CRP), com a implícita remessa da massa popular para a categoria de eunucos políticos, prostrados, atentos e agradecidos pelas benesses da atenta e sábia classe política.

As esperanças, que depois de 1974 cresceram em flecha, têm evoluído num sentido decrescente, o que é espelhado em todos os tipos de eleição, nas enormes desigualdades e na emigração, numa deterioração gradual nos contextos ibérico e europeu. 

A Constituição, laboriosamente elaborada para colocar a população à margem da decisão sobre as suas vidas, mostra-se ultrapassada, no capítulo do modelo de representação, em todas as vertentes – nacional, regional, autárquica, e europeia; para além da figura presidencial, uma reminiscência monárquica, sem utilidade que não a de entretenimento para as camadas mais ignaras da população, devidamente municiadas de vacuidades emitidas pela real reminiscência de turno, por uma atenta e oca comunicação social.

Os actos eleitorais tornaram-se rotinas, que pouco ou nada têm remediado as condições de vida, mormente depois da intervenção da troika.

Uma vez que o regime político se mostra esgotado e desacreditado, entendemos tipificar elementos para a sua substituição, mormente através de uma democracia direta, apontando como bases para o seu funcionamento, os seguintes pontos; 

1.   Aplicação do princípio da subsidiariedade, segundo o qual, as decisões sobre a vida coletiva são somente tomadas pelos seus beneficiários diretos. Por exemplo, um infantário é decidido pela população de uma freguesia que irá servir mas, uma escola secundária, será decidida pela população das várias freguesias beneficiadas com a sua existência;

2.   Todo e qualquer residente há mais de um ano numa circunscrição eleitoral tem o direito de se candidatar à representação em qualquer nível onde essa circunscrição esteja contida;

3.   Qualquer eleição não poderá recair num mesmo elemento mais de duas vezes;

4.   Não há lugar a candidaturas coletivas;

5.   Qualquer eleito como representante tem os deveres de se informar e manter informados os seus eleitores, de recolher entre estes uma súmula do pensamento coletivo, por referendo, se necessário;

6.   Qualquer eleito, em qualquer instância e a qualquer momento, pode ter o seu mandato retirado, por referendo organizado para o efeito, na circunscrição eleitoral que o elegeu;

7.   Existe uma total ausência de imunidades específicas para os eleitos;

8.   Todos os encargos relacionados com o desempenho de uma representação, são cobertos pelo erário público afeto à circunscrição em que o representante foi eleito;

9.   Qualquer elemento, em funções de representação, sobre o qual se demonstre ter cometido qualquer crime ou irregularidade lesiva da comunidade, é suspenso/afastado dessas funções; e a sua eventual punição pela justiça, não tem prazo de prescrição;

10  A administração pública, a todos os níveis, tem todos os seus lugares ocupados através de concurso público e não por nomeação;

11  O acesso à informação contida em qualquer nível da administração pública está aberto a todos, salvo informações quanto a concursos, enquanto os mesmos não estiverem concluídos;

12  Questões de caráter constitucional são resolvidas pelo Supremo Tribunal de Justiça e, se necessário, submetidas a referendo para validação (o actual Tribunal Constitucional é uma emanação da oligarquia partidária, a extinguir);

13  A representação externa da República caberá ao presidente da AR em funções. O atual cargo de PR, engloba essencialmente actos formais, de escassa relevância ou criados para aparentar relevância, como se uma soma de espaços vazios possa encher um dedal. É, pois, uma figura inútil e cara; uma vazia reminiscência monárquica;

14  O território será dividido em circunscrições eleitorais na ordem dos 20/25000 eleitores e a cada uma caberá eleger, entre os seus residentes, um representante na AR;

15   O governo – ministros (10/15) e secretários (até 2 por cada ministro) - é escolhido na AR e os seus membros terão de se manter, paralelamente, em funções como representantes das circunscrições por onde foram eleitos, com os inerentes direitos e deveres;

16   A AR terá um staff técnico de apoio aos representantes e ao governo, em ligação à administração pública e independente do governo;

17   O princípio do funcionamento assembleário atrás descrito é válido também ao nível das freguesias, dos concelhos e das regiões, passando estas últimas a ter uma definição clara, estável, com prerrogativas próprias; e não como têm sido, meras extensões do governo, de configuração variável, alfobre de membros da classe política e de agilização de negócios.

B - Lições a tirar das manobras de Trump no “quintal” latino-americano

A História dos golpes militares na América Latina tem longas barbas. Acredita-se no poder de Estado como redentor das mágoas populares, acredita-se num salvador que, por acaso (?) entende poder contar com a lealdade da tropa, da polícia e entes militarizados; e policiais que, não por acaso, aceitam a hierarquia e o verbo do mandante como a coisa mais natural ao cimo da terra. Foi sempre assim, sempre assim será, diria a minha avó.

A História já deu inúmeros exemplos de maus desfechos dessas experiências, em regra com um chefe carismático, que é aceite como um redentor, pelas oligarquias e por ele próprio, tomado como vocacionado para resolver os problemas do povo. O messianismo é isso mesmo; e o messianismo não é, nem nunca foi algo mais do que uma ilusão, uma miragem.

O destino de um redentor com bota militar ou com elegante sapatinho italiano é ser substituído por um avatar semelhante, depois da constituição de um gordo pecúlio num qualquer offshore. Outros casos, protagonizam frouxos democratas que mais não farão do que melhorar alguma coisa a vida do povo, tomado como massa informe e ignara; e sempre caindo na estúpida crença de que dessa vez, a bota militar, democratizada – certamente por intervenção divina - não coloca os tanques na rua como momento de reinício da regeneração pátria.

Os condutores do povo caem sempre na mesma atitude, achando que as ditas massas populares precisam de condutores, de chefes iluminados para resolver os problemas em nome e benefício das tais massas, tomadas como tão estúpidas e ignorantes como as massas alimentícias. Desconhece-se um caso que seja, em que os conducatores[1] fazem um trabalho decente durante um tempo razoável; por exemplo, Lenin e Trotsky decidiram acabar com os sovietes e os comités de fábrica e constituir o partido como deus ex machina.

Não há sucesso com oligarquias nem com Estado; e isso, porque não há Estado sem oligarcas, nem oligarquias sem um Estado para parasitar. Do ponto de vista da eficácia, a ligação entre Estado e oligarquias é um casamento perfeito.

O poder do povo deverá ser disseminado em muitas instituições democráticas, que envolvam todo um povo nas decisões respeitantes à vida coletiva; a manterem-se, como na situação de hoje, instituições fechadas, hierárquicas, autoritárias e atravessadas por compadrios corruptos, não se sai para lado algum. Confiar na figura totalitária do Estado, nos governos que o parasitam, em castas militares, policiais como na justiça estatal, é aceitar a submissão ao poder das oligarquias, o poder de castas de iluminados, um género de buracos negros que guardam a luz só para si; é aceitar como inscrita nas estrelas a perenidade da atuação de corruptos, de prostitutos, dispostos à inserção em qualquer outra hierarquia que lhes mantenha uma vida boa; é aceitar o cadafalso em montagem permanente pelas derivas financeiras, repressivas, empobrecedoras e destruidoras do meio social, como do meio ambiente.

C – Na paróquia lusa um prémio Nobel costuma ser seguido com beata veneração[2]

De facto o “neoliberalismo prejudicou a democracia” – diz Stiglitz. Mas, antes do seu advento, a democracia foi prejudicada pelo liberalismo antes e depois da I Guerra; e o keynesianismo tão amado entre o que resta de social-democracia e pela chamada “esquerda” foi aplicado com enlevo pioneiro pelos nazis, insuspeitos de qualquer amor à democracia. Mais explicitamente, em qualquer formulação do capitalismo, por natureza, é preciso acumular capital; e para que tal seja conseguido é preciso manter a plebe mansa, com um grau adequado de contenção da democracia. 

Numa linguagem economicista, a democracia poderá ser uma variável dependente, numa relação direta, com o grau de acumulação de capital. Se os tempos estão difíceis o capitalismo aperta os orçamentos familiares e os direitos do povo, encolhendo a democracia; se há alguma euforia económica, o desemprego cai e os salários aumentam e o capital torna-se mais benevolente politicamente.

O neoliberalismo é o modelo inerente ao domínio das multinacionais que, em procura da maior rendabilidade do investimento, passaram a segmentar o processo de produção em várias fases técnicas e por várias geografias, em procura, naturalmente, da maior acumulação possível de capital; e, em prejuízo dos capitalistas de inserção meramente nacional.

Por outro lado, a financiarização da “produção” de valor, beneficiando da desmaterialização possibilitada pelas novas tecnologias, tornou mais prático colocar as pirâmides de Ponzi a carburar do que voltar às fábricas do tipo Ford, com mais de uma centena de milhares de trabalhadores; e gerar assim, aumentos do incontornável PIB, por essa via. 

No território designado por Portugal, campeia a deriva imobiliária, o turismo e o salário (cada vez mais baixo no contexto europeu[3] como instrumento para o enriquecimento de… alguns; que se ficarão a rir sentados sobre os seus depósitos em offshores deixando ao governo de turno, fatalmente ancorado no PS/PSD a gestão da plebe, através de uma renovada austeridade. 

Como diz Stiglitz, Wall Street é que conduz a política americana – que muito influencia a política global, onde se inscrevem as sanções decretadas pelo Trump, distribuídas como quem dá milho aos pombos; sem que com essa magnânima distribuição seja descurada a imposição de vendas de armas aos países vassalos.

Perante esta centralização do capital e sem prejuízo das suas rivalidades internas, a esmagadora maioria dos estados-nação perderam qualquer autonomia e possibilidades de uma harmonia produtiva interna com a qual ainda sonhava Marcelo Caetano, nos anos do seu consulado; um sonho comum que ocorre ainda toca os derradeiros nacionalistas.

O capitalismo, no século XVII inventou o estado-nação onde, no âmbito de cada qual, se entrincheiravam os magnatas locais ligados ao comércio longínquo; nele se gerou o patriotismo para que cada pobre de um estado-nação pudesse matar os pobres de outro estado-nação para agradar aos “seus” ricos; e criou um aparelho de Estado, cada vez mais gordo, ineficiente, repressivo e asfixiante.

Stiglitz fala do fim do neoliberalismo; depois do enterro do keynesianismo e do modelo de capitalismo de estado. É muito curto.

O problema é o capitalismo mesmo que atravessando várias fases históricas. O capitalismo na sua diversidade tem-se mostrado um dedicado destruidor de vidas, um constante gerador de desigualdades, racismos, discriminações, crimes de toda a ordem. O seu enterro é uma necessidade e não partirá, certamente das classes políticas, “desse absurdo mercado dos homens sem qualidades”[4]

Utilizando as ferramentas do capital – estado-nação, Estado, nacionalismo – não se sai para lado algum.

D - Os 44 anos do 25 de Novembro[5] e o cumprimento dos seus objetivos

Cunhal sabia que após a independência de Angola, colocada na órbita soviética, o seu papel seria reconverter o PCP à imagem do PCF, por exemplo; um eleitorado numeroso, controlo das organizações sindicais e dezenas de autarquias do Ribatejo para sul. 

Perante a operação militar de 25 de Novembro, o PCP esperou que Eanes e o fascizante operacional Jaime Neves pusessem ordem nas casernas. E beneficiou da inteligência política de Melo Antunes que se opôs à ilegalização do PCP e das organizações mais à esquerda; ele sabia que um quadro de restrições na expressão política não cairia bem na CEE onde Portugal iria procurar incorporar-se, terminado o ciclo colonial de 500 anos.

O PCP esperou que a tropa em 25 de Novembro limpasse o terreno dos “incomodativos” esquerdistas para balizar o terreno político com uma esquerda cordata, “civilizada”, própria para um diálogo institucional de longo prazo, baseado numa paz de cemitério; que, nos anos seguintes, porém, viria a ser perturbado nas crises empobrecedoras de 1977 e 1981/83 com a intervenção do FMI, enquanto o ingresso na CEE era preparado[6].

O 25 de Novembro do ponto de vista militar foi um passeio, com fraca e desconexa resistência. Melo Antunes, Vasco Lourenço e Eanes criavam assim as condições políticas para a adesão à CEE, depois do acordo comercial de 1972, ainda assinado por Caetano. Depois, a tropa normalizou-se, a hierarquia foi reposta e, mesmo assim manteve-se de plantão até 1983 com um Conselho da Revolução que, na realidade, era um supervisor da ação governativa e que de revolucionário nada tinha.

Estabelecida a lei e a ordem, o I governo PS cumpriu o previsto. Reestruturou e capitalizou as empresas nacionalizadas[7] (muitas em estado de pré-falência), limpando-as financeiramente para a futura a privatização, que só começou em 1985, com Cavaco ao leme e o beneplácito do insonso Constâncio; uma vez mais, a harmonia no partido-estado (PSD/PS, nesta conjuntura).

Depois disso, montou-se o modelo de subalternidade política, de desestruturação económica, venda de ativos sem qualquer estratégia para além da cobertura do deficit público, a continuidade da vigência dos mais baixos salários da Europa Ocidental e o desarmamento de todas as proteções estatais aos vendedores de força de trabalho; neste último ponto, a medalha tem de ser dada ao Vieira da Silva… um revolucionário ex-MES.

Pela sua pobreza relativa, pela desestruturação do tecido económico, pela dependência do binómio turismo-imobiliário, sem uma verdadeira classe capitalista, Portugal pouco passa de um corredor atravessado pelas redes logísticas das multinacionais ou, visto de fora, como um género de 19ª autonomia do reino de Espanha.

E - Sobre o patriotismo

Há vários anos que vamos referindo a “estupidez patriótica”[8]. Ter nascido em Portugal ou na Cochinchina são dados de facto, nada há a comentar. A dotação de uma nacionalidade a uma pessoa é um carimbo, uma segmentação política, que visa estabelecer uma distinção artificial, sabendo-se, no entanto, que os seres humanos são todos, antropologicamente, homo sapiens, com as mesmas necessidades e os mesmos direitos. 

A distinção nacional é atribuída à nascença, por um aparelho de Estado, gestor de um estado-nação que, dessa forma entende estabelecer direitos sobre as pessoas que nasceram no seu território; e, se necessário, incutir-lhes-á a obrigação de matar, numa guerra[9], gente catalogada como nacionais de um outro estado-nação, contra os quais não tem quaisquer queixas ou conflitos a dirimir. Por outro lado, não é fácil, apagar esse carimbo, colocado à nascença; há alguma semelhança face a um bezerro que, tendo nascido na herdade de um Zé, se tornou propriedade do mesmo.

O capitalismo quando entrou em velocidade de cruzeiro, no século XVII, precisava de “privatizar” recursos, rotas, colónias, com a exclusão da concorrência; naturalmente, no âmbito de uma concorrência feroz. E, como se tornava caro o recurso a soldados contratados - mercenários – como até então acontecia, numa antiga tradição já praticada por romanos, gregos e macedónios – foi praticada a entrada nas aldeias de um militar de carreira, encarregado de indicar os jovens que entendia levar consigo para combater algures, em nome de el-rei[10]. Mais tarde, foi inventado o serviço militar obrigatório (SMO) quando a máquina administrativa dos estados-nação atingiu maior apuro e, uma vez que a maior escolaridade permitia o fomento massificado do patriotismo, com a elevação exagerada ou mitificada dos heróis do passado. Esse patriotismo visava que a plebe do país A preferisse defender os “seus” capitalistas contra a plebe do país B, igualmente colocada na defesa dos “seus” capitalistas. 

O experiente Napoleão dizia que podia fazer homens sacrificarem as suas vidas para obterem uma fita colorida no chapéu (uma distinção de valentia que significava ter abatido muitos inimigos). Dito de outro modo, qualquer hilota quando se assume como patriota, não percebe que faz figura de idiota.

F - O  magnânimo Costa e o salário mínimo de € 750 em…2023

Depois da romaria eleitoral, as cartas saem da manga…

1 - Se houver regularidade, haverá enoooormes aumentos, numa média mensal de € 37.5 para cada um dos quatro anos; dito de outro modo, pouco mais de um euro por dia. Para 2020, o governo já emitiu, como prenda de natal, um aumento de 35 euros mensais.

2 – Isso significa, para se manterem, entre salários, as posições relativas de hoje que TODA a gente terá de ter, no mínimo, um aumento percentual equivalente ao do salário mínimo; e, não é fácil perceber que, com a previsível anemia do crescimento económico, isso seja concebível ou aceitável para o indigente empresariato luso liderado por um tal Saraiva;

3 – Outra hipótese, muito praticada, há anos, é o aumento do salário mínimo com aproximação contínua face ao salário médio; isto é, a continuidade do nível de vida mais baixo da Europa, exceptuando, alguns países balcânicos, como se pode ver na ligação abaixo;

4 – Recorde-se que em Espanha o salário mínimo é de € 900 e, certamente irá ser aumentado nos próximos quatro anos; pelo que o desnível entre Espanha e a periferia ocidental da Península irá, muito provavelmente, aumentar; porreiro, pá! Ganharemos competitividade!

5 – Outra habilidade na manga é o aumento da receita fiscal em termos de IRS para alimentar a punção fiscal que enche o pote, que alegra a classe política e o mandarinato em geral. Nos últimos anos, a média anual do ganho salarial foi de 1.6% e a da receita de IRS, 3.9%

A comparação (1999/2018) entre os salários mínimos nos países mais pobres da UE (incluindo ainda a Turquia) face a Portugal (nível 100) é eloquente. 



Este e outros textos em:

http://grazia-tanta.blogspot.com/                              

http://www.slideshare.net/durgarrai/documents


[1] Conducatore, nome dado na Roménia a ditadores como Antonescu ou Ceausescu
[2] Comentário a “O fim do neoliberalismo e o renascimento da História” de Joseph Stiglitz (Expresso, 16/11/2019)
[4]  Título de um livro com textos de Anselm Jappe, Robert Kurz e Claus P. Ortlieb (edição espanhola)
[9] Nos países europeus, com o abandono do serviço militar obrigatório, nomeadamente por razões técnicas, gerou o recurso a contratados como profissionais, o que os aproxima da qualificação de mercenários
[10]  Durante a guerra de 1914/18, entre os jovens portugueses chamados para as fileiras a parcela de refratários ou desertores era bastante grande

sábado, 29 de junho de 2019

Um perigoso circo ali, ao lado, no Médio Oriente


O perigo maior é que os estados decadentes, tendem a não aceitar essa decadência e provocam desastres, não optando preferencialmente pelo hara-kiri.

Índice

Apresentação dos palhaços
Um debicar errante, caótico
Golfo Pérsico - muitos agressores para um alvo
Onde estão as ameaças?

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Apresentação dos palhaços

Há mais de 2000 anos formou-se o primeiro triunvirato em Roma, com Júlio César, Pompeu (o Grande) e um tal Crasso que tinha como fixação conquistar o império parto acabando por morrer nessa guerra. Roma nunca conseguiu essa conquista, sendo o culto imperador Adriano a estabelecer a paz, muito mais tarde, depois de ter feito uma análise custo-benefício dessa contínua guerra. 

No decadente império americano de hoje também domina um triunvirato[1], de pechisbeque, com um outro Pompeu (grande e gordo), um Bolton que cumpre bem o papel de Crasso, pela insensatez que o fez estar na prateleira muitos anos e, deixando o pior para o fim, Trump está a anos-luz de ser um Júlio César. O perigo é que os estados decadentes, tendem a não aceitar essa decadência e provocam desastres, não optando preferencialmente pelo hara-kiri.


Um debicar errante, caótico

Nos altos e baixos da já crónica crise política no Golfo Pérsico, há vários campos em confronto, com menos ou mais moderação política, com vários níveis de integração e de contributos para essa crise. O Médio Oriente está agora na montra, depois das sanções à China e de uma tentativa de venda em saldo de um tal Guaidó, numa ação em que a uma ameaça qualquer se seguirá uma qualquer ameaça. Um percevejo, saltita sedento de sangue.

Os EUA constituem, apesar da sua distância geográfica e cultural face aos povos do Médio Oriente, a única presença[2] massiva, a peça mais relevante no xadrez político e, sobretudo militar, global, numa atuação frenética iniciada em 1990. 

Isso resulta em termos históricos da tara salvítica dos EUA quando se entenderam livres e acima das barafundas europeias do seculo XVIII que, no entanto, não compreendia qualquer respeito pelos nativos americanos, chacinados ou, pelos negros, escravizados. Daí resulta parcialmente o facto de os EUA de hoje continuarem a assumir um alegado direito de intervir nos problemas que existem ou vão surgindo na região do Golfo, como no Mar da China, preparando-se mesmo para colocar uma base militar num santuário da vida selvagem chamado Ilhas Galápagos, para prevenir que as iguanas possam prejudicar os interesses dos EUA e do “mundo livre”

Na sequência da II Guerra Mundial beneficiaram, numa fase inicial, do fim dos impérios coloniais europeus, do recuo estratégico das principais potências europeias, da implantação do modelo neoliberal, do desmembramento do Bloco de Leste, das tecnologias que desenvolveram a globalização dos mercados, mormente financeiros, bem como da tradicional subalternidade do “quintal” latino-americano, que hoje se vem reconstituindo. Como revezes, refira-se a derrota no Vietnam, como no resto da Indochina, a humilhação iraniana em 1979, o surgimento em força da China, como potência desafiante, a maior autonomia dos países asiáticos, o caos provocado pelas intervenções militares no Médio Oriente ou no Mediterrâneo, para além do retorno da Rússia, como potência também desafiante, para mais numa estreita relação estratégica com a China; e que para azar do messianismo dos EUA, veio coincidir com o descalabro do sistema financeiro, em 2008, baseado em pirâmides de Ponzi. 

Como símbolos adequados dessa decadência podem considerar-se G W Bush ou Trump - cujas riquezas materiais contrastam com a impreparação intelectual, como se tem visto recentemente, na sucessão de ameaças e sorrisos de Trump, face à Coreia do Norte, à China, à UE, à Venezuela, ao México... às iguanas, como se disse atrás… Essa procura de retoma de hegemonia, é frequentemente desastrada, cada vez mais difícil e, crescentemente contestada, baseando-se em certos vetores:

·        O controlo político da produção e distribuição de hidrocarbonetos no Médio Oriente e na Venezuela, cujas transações, maioritariamente em dólares, constituem uma forma de manutenção de uma elevada dívida externa por parte dos EUA e dar viabilidade à exportação de petróleo de xisto made in USA;

·        O Médio Oriente, mormente as monarquias árabes são, com os países da NATO, os grandes compradores da produção da indústria de armamento dos EUA; uma “boa” guerra ou uma mera ameaça de guerra, incentiva os sultões a encomendar armas[3];

·        A tentativa de afetar ou condicionar o abastecimento de hidrocarbonetos à China, à Índia e todo o Extremo Oriente ou, boicotar a importação de petróleo venezuelano, congelando capitais desse país ou boicotando o seu abastecimento de bens essenciais à sua população;

·        A impotência face à integração energética euroasiática, bem como face ao canal de integração comercial com o mesmo âmbito geográfico (e incluindo a África), conhecido como Rota da Seda. A queda dos regimes latino-americanos de “esquerda” surge como uma forma dos EUA compensarem dificuldades em outras geografias e, restabelecerem a sua ordem no “quintal”.

Golfo Pérsico - muitos agressores para um alvo

Voltando ao Médio Oriente, os EUA ostentam as suas dificuldades de afirmação estratégica, depois dos desaires do Afeganistão, do Iraque, da Síria, do impasse iemenita e de assistirem à Turquia – o segundo mais populoso membro da NATO – comprar armas à rival Rússia. Neste contexto e, açulados pela sua fortaleza sionista, em estado de pânico, os EUA intentam atacar o país mais populoso da região, o Irão – uma das três mais antigas e consolidadas entidades políticas do planeta, em conjunto com o Egipto e a China.

No cenário do Médio Oriente podem considerar-se vários conjuntos… mesmo quando têm um só elemento:

1.     A entidade sionista surge, neste contexto, como a fortaleza norte-americana, com uma iniciativa estratégica mediatizada e inserida na dos EUA, dos quais depende a sua existência política, financeira e militar. Tem, porém, uma influência suficiente (via Jared Kushner[4]) para levar a administração Trump a actos insanos – Jerusalém como capital sionista e anexação do território sírio dos Golan – com a aceitação tácita dos sultões árabes. 

Note-se que na Palestina ocupada pela entidade sionista vigora um regime racista em que os eventuais judeus (?) mantêm a ferro e fogo uma raça “inferior”, os palestinianos, numa prática semelhante ao apartheid sul-africano ou da Alemanha nazi.

Sublinhe-se ainda que a entidade sionista possui umas 200 bombas atómicas - inicialmente construídas com apoio francês - fora do Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares. Este último, foi assinado pelo Irão há uns cinquenta anos, não tendo o país armas nucleares; e, mesmo a sua utilização para produção de energia é submetida ao controlo da Agência Internacional da Energia, após validação de potências nucleares como a Rússia, a Grã-Bretanha, a China, a França ou a Alemanha, após a retirada dos EUA desse acordo, por iniciativa de Trump, para justificar a sua actual deriva guerreira no Golfo.

2 – As monarquias árabes, lideradas pela Arábia Saudita do mediático Mohammed bin Salman (MbS), tendo falhado no uso do ISIS para mudar o regime na Síria e com pouca influência no Iraque, jogam em dois planos. Um, no Yémen para anular o poder das tribos do norte - os huti - zaiditas, próximos do xiismo; e, sobretudo, controlarem a margem oriental do estreito de Bab el-Mandeb[5], estratégica passagem de 20 km de largura que liga o Índico ao Mar Vermelho, ao norte do qual está o canal do Suez… com a Europa “à vista”. O outro objetivo de MbS é procurar abater o Irão, seu grande rival na região, para o qual terá de contar, forçosamente, com os EUA. Finalmente, refira-se que não há total unidade entre o conjunto de reis, emires e sultões, pois o monarca do Qatar é ostracizado pelos colegas, uma vez que tem uma velha ligação ao Irão e, para mais tendo a Turquia como aliado, sente-se ao abrigo de intervenções musculadas do MbS e seus confrades.



                    Salvador Dali – El Jinete de la Muerte

3 – O Irão é um “problema” que os EUA tentam resolver desde a queda do xá, em 1979, quando o país deixou de ser um vassalo americano. O apoio dos EUA ao repressivo regime monárquico conduziu à ocupação da embaixada americana, por estudantes que fizeram reféns os seus funcionários, num processo que só terminou em 1981. A desastrada tentativa militar de resgate (poucos anos após a derrota no Vietnam) acentuou nos EUA um sentimento de humilhação que promoveu a vitória de Reagan nas presidenciais daquele mesmo ano. A chegada de Reagan constituiu um pilar essencial para o reforço do neoliberalismo, já em aplicação na Grã-Bretanha pela baronesa Thatcher; Reagan foi um género de anjo anunciador dos trastes que se lhe seguiram, George W Bush e Trump.


Imagem pintada no muro da antiga embaixada dos EUA em Teerão
      
       Os EUA, encomendaram a Saddam Hussein uma guerra contra o Irão em que aquele se apoderaria do petrolífero Kuzistan como recompensa, caso conseguisse derrubar o regime iraniano. Essa guerra provocou um milhão de mortos, consolidou o regime mas fragilizou o Iraque, levando  Saddam a invadir o rico Kuwait para fazer face às dívidas contraídas com a guerra; e, fez isso, sem curar de obter o aval da suserania americana, sem contar que os EUA são o tutor das monarquias petrolíferas do Golfo, sucessor dos britânicos que as inventaram, depois da descoberta de petróleo sob as areias do deserto. 

       Seguiram-se duas intervenções ocidentais no Iraque, comandadas pelos EUA e de onde resultou a queda e posterior execução de Saddam, novos sofrimentos para o povo iraquiano e a transição de antigos militares para o Daesh/ISIS, cuja missão seria a criação de um califado (!) juntando territórios curdos, sírios e iraquianos. Para os EUA o importante nessa conjuntura era a venda de armas (pagas por qataris e sauditas) para a queda de Assad, o que, a acontecer, fragilizaria, na sequência, o Líbano, dando ao regime sionista uma fronteira tranquila a norte e causando alegria às monarquias sunitas por verem alauitas sírios e xiitas libaneses em desgraça e com o Irão em maior isolamento.

       Como se observa, há hoje um eixo xiita (e afins) que vai do Irão ao Mediterrâneo, onde os EUA e os seus cadetes europeus perderam posições, incluindo nessas perdas, as boas graças da Turquia, parceiro na NATO.

Ainda no que respeita ao Irão, este país tem o estatuto de observador junto da OCX – Organização de Cooperação de Xangai e relações próximas com os seus membros, mormente Rússia e China (nos hotéis de Teerão é visível a forte presença de quadros chineses) mas também com a Índia e o Paquistão. Ao que se sabe, o recuo de Trump (pressionado por Pompeo e Bolton) 15 minutos antes de um ataque ao Irão - na sequência do abate do drone americano (20/6) - não se ficou a dever a um impulso humanitário de Trump, perante a perspetiva do mesmo resultarem 150 mortos; a causa estará numa comunicação russa de que estariam ao lado do Irão face a qualquer agressão.

4 – A Turquia, país da NATO com uma posição estratégica ímpar, com influência na Europa, nos mares Negro, Egeu e Mediterrâneo, no Próximo Oriente e na Ásia Central tem-se distanciado dos EUA e mesmo ameaçado as monarquias árabes em caso de intervenção no Qatar. Por outro lado, a Turquia, a despeito da sua posição de sempre, contra as autonomias curdas, vem atuando no norte da Síria com a mediação da Rússia que tem na Turquia – país da NATO – um comprador de armamento; e tem uma relação amistosa com o Irão, ao contrário dos países árabes que estiveram incluídos no Império Otomano durante quatro séculos.

5 - Os EUA constituem o único caso, entre os presentes na área do Golfo que desempenha um papel global e que, a despeito das suas próprias e crescentes fraquezas, em termos comparativos com outras potências, se arroga ao direito de ameaçar, intervir, emitir recados e opiniões, inclusivamente nas questões internas de outros países, como se viu recentemente na Grã-Bretanha onde Trump anunciou, sem qualquer detalhe, um plano gigantesco de apoio ao país, uma vez concretizado o Brexit… como brinde de desempenho.

Para um retrato simplificado da decadência dos EUA, vejam-se as dinâmicas recentes:


2017
2000
2017
2000

Grandes Exportadores (% do total mundial)
Grandes Importadores (% do total mundial)
Alemanha, Espanha, França, Holanda e Itália
19,0
21.9
24.3
29.6
China
15,0
  5.7
9.5
  3.0
EUA
  7.7
12,0
13.0
19.0
Deficit/Excedente externo
China
EUA
     Milhões $
896500
391400
- 863900
- 434000
                              ver: Comércio internacional – quem ganha e quem perde

A isso soma-se a regular emissão de sanções e ameaças contra o Canadá, o México, a UE, a China, a Venezuela, a Coreia do Norte, o Irão, para além do já crónico caso de Cuba e de outros de que… já ninguém se lembra; para além da procura de semear bases militares um pouco por todo o lado, sendo o último dos casos, o das ilhas Galápagos - um santuário de vida selvagem - e que terá já obtido o acordo do mordomo-mor do quintal equatoriano, um tal Lenin Moreno. 


Salvador Dali – O Grande Masturbador

Onde estão as ameaças?

Vamos proceder à apresentação de alguns indicadores sobre os países que protagonizam a crise do Golfo para que se possa aquilatar a diferença de forças em presença. Uns, serão indicadores económicos e outros de conteúdo eminentemente militar; e inserimos dados sobre Portugal para efeitos de comparação.

Indicadores económicos
Irão

Emiratos
Oman
Kuwait
A. Saudita
Israel
Qatar
Bahrein
EUA

Portugal
População (milhões )
83.0

9.7
3.5
2.9
33.1
8.4
2.4
1.4
329.3

10,4
                                                                     PIB per capita ($ )                                   2017  Banco Mundial
 5470

39441
20224
41423
20747
42056
69554
25309
59172

21087
Dívida externa (% PIB)
1,8

62,1
65,4
39,3
29,9
25,1
100,5
147,2
91,9

204,7
Divida externa per capita ($)
96

24495
13220
16290
6196
10555
69917
37250
54388

43173
Dívida externa/Reservas de ouro e divisas
0,1

2,5
2,9
1,4
0,4
0,8
11,2
22,2
145,3

17,2
Gasto militar per capita ($)
76

1482,0
1918,6
1793,1
2114,8
2333,3
804,2
521,4
2174,3

365,4
                                                         Fonte: https://www.globalfirepower.com/countries-listing.asp

Em termos demográficos, o Irão supera largamente a população dos seus antagonistas da outra margem do Golfo, incluindo a da entidade sionista, onde se incluem vários milhões de “árabes israelitas” ou falachas etíopes, cidadãos de segunda categoria, segregados, porque os sionistas são eminentes racistas e temem os efeitos das ligações daqueles com os seus concidadãos que vivem fora das fronteiras guardadas pelos sionistas. Nas monarquias do Golfo encontram-se milhões de imigrantes, vindos de África ou da Ásia (com relevo para as Filipinas) remetidos aos seus espaços e com a negação de reagrupamento familiar. Nas crispações que se revelam regularmente nesta região, os EUA são o grande desequilibrador, tendo em conta o seu poder militar e económico. Não incluímos no quadro acima dados sobre a Jordânia porque é apenas uma monarquia débil, mais uma criação britânica do final da I Guerra, com forte população palestiniana e dependente do financiamento exterior, vindo das petromonarquias vizinhas.

O PIB per capita do Irão é sensivelmente mais baixo do que o dos restantes antagonistas que, em regra, têm um indicador superior ao europeu Portugal, como também acontece com os EUA. Os níveis de desigualdades são enormes dentro de cada país. No entanto, quem conhecer o Irão saberá que Teerão tem 12 milhões de pessoas, que recebe diariamente 4 milhões de trabalhadores que vivem fora, tem um trânsito intenso, um elevado grau de autossuficiência e as pessoas apresentam-se com um aspeto digno, não se observando os magotes de pedintes que se conhecem em outras paragens do mundo islâmico. Porém, o regime, decidiu construir um espaço luxuoso, faraónico, para conter o corpo do… fundador Khomeini.

Ao contrário do Irão que é uma das três mais antigas entidades políticas do planeta – a par com a China e o Egipto - entre as monarquias árabes, abundam entidades de criação recente, antigas possessões e protetorados britânicos que a descoberta de petróleo elevou, para muito além de chefes tribais, de comerciantes, de criadores de cavalos e camelos e que os diversos impérios que se sucederam no Médio Oriente nunca cobiçaram. A família Saud por exemplo, teve de esperar até aos anos 30 para, com a ajuda ocidental, constituir um reino, abandonando então a tradicional prática de assalto a caravanas. O Qatar foi um território persa durante séculos, o Bahrein vivia da apanha de ostras e o Oman é o único caso com presença na História porque constituiu uma potência marítima no Índico ocidental, durante alguns séculos, criando, por exemplo, Zanzibar.

Tendo em conta que Portugal está no pódio europeu da dívida, todos os indicadores de capitação de capitação apresentam-se como desprezíveis, excepto no Bahrein que já não tem reservas petrolíferas. É notória a irrelevância da dívida externa iraniana no contexto do PIB, o que tem consequências na capitação, apresentando-se como verdadeiros campeões nesse indicador, o Qatar e os EUA.

A comparação das reservas em ouro e divisas com a dívida externa evidencia grandes desigualdades. A dívida externa dos EUA corresponde a 145.3 vezes o valor das reservas monetárias do país o que, associado ao seu gigantesco deficit comercial, só é admissível por razões de ordem política, ancoradas na sua supremacia militar disseminada pelo planeta evitando, com toda a artificialidade, que se considere o dólar como algo sem qualquer préstimo. Entre os restantes países considerados, todos com indicadores substancialmente mais baixos do que os EUA, sobressaem o Bahrein e Portugal - pelas piores razões em termos de solvabilidade - e o Irão bem como a Arábia Saudita, por razões diametralmente opostas.

Finalmente e antes de se abordarem os indicadores de cariz militar, são visíveis os enormes gastos dos países do Golfo, sendo comparativamente mais modestos nos casos do Bahrein e do Qatar; os quais se mostram claramente superiores aos (já exagerados) gastos militares portugueses. Os gastos militares por habitante são particularmente elevados nos EUA e na Arábia Saudita, superados apenas pela fortaleza sionista; e, em contrapartida, são comparativamente muito mais baixos no Irão. Levanta-se a questão dos gastos militares portugueses que, tendo em conta o enquadramento geográfico, se mostram muito elevados, como aliás referimos, anos atrás e somente justificados pela pertença à NATO, como escoadouro de armamento made in USA, como determinante do envio de tropas para locais onde Portugal não tem qualquer interesse estratégico ou comercial e ainda, porque “é preciso” manter um número demasiado elevado de generais sentados”. Neste contexto leviano de gastos militares, a compreensão da realidade no Golfo será mais nítida se se souber que o orçamento militar da Arábia Saudita é 23 vezes superior ao português.

Indicadores militares
Irão

Emiratos
Oman
Kuwait
A. Saudita
Israel
Qatar
Bahrein
EUA

Portugal
Militares no ativo por 1000 habitantes
6

6,6
12,1
5,3
6,9
20,2
5,0
5,9
3,9

2,9
Força aérea (nº)
509

541
175
85
848
595
100
107
13398

87
Tanques de combate (nº)
1634

510
117
567
1062
2760
95
180
6287

186
Veículos armados (nº)
2345

5936
735
715
11100
6541
465
850
39223

700
Lançadores de rockets (nº)
1900

72
12
27
122
150
17
17
1056

0
Navios de guerra (nº)
398

75
16
38
55
65
80
39
415

41
                                           Fonte:    https://www.globalfirepower.com/countries-listing.asp

Quanto aos efetivos militares por cada mil habitantes, há um destaque evidente para a entidade sionista, cerca de cinco vezes a dos EUA que se pretende com capacidade de intervenção em todo o globo. Nos outros países da região, os indicadores têm valores próximos, excluindo o caso do Oman. 

Quanto a Portugal, o indicador deveria ser mais baixo, ainda que seja compreensivelmente inferior aos registados para a região do Golfo. Em Espanha, há uns anos, havia um oficial general por cada 186 militares; em Portugal o número reduz-se a 131.

No capítulo da força aérea, sem entrarmos em detalhes quanto à sua composição e modernidade e, para além do caso especial dos EUA, sobressai a Arábia Saudita, surgindo num segundo plano a entidade sionista, os Emiratos e o Irão. O Kuwait, a despeito da exiguidade da sua população e do seu território apresenta uma força aérea quantitativamente semelhante à portuguesa.

Como potência global, os EUA apoiam-se sobretudo na força aérea e menos em tanques de combate, necessários em casos de combates convencionais, em terra. Como as guerras tendem, hoje, a ser muito assimétricas, a utilização de tanques contra forças de guerrilheiros ou em cenários urbanos não é a mais adequada. Neste tipo de arma, sobressai o seu número entre os sionistas, temerosos de ataques convencionais ou, para eventuais penetrações profundas em terreno dos países limítrofes. Quer o Irão ou a Arábia Saudita têm territórios vastos para poderem circular com tanques. Mais estranho é o número destas máquinas de guerra em territórios tão exíguos como os do Kuwait (quiçá ainda temeroso de uma nova invasão iraquiana…) do Qatar ou do Bahrein. Este último é um pequeno estado insular (780 km2 repartidos por 35 ilhas) e tem um número de veículos semelhante ao de Portugal, muito maior e com uma longa fronteira terrestre. Os sultões são muito criteriosos; saberão certamente utilizar uma tal frota de tanques num tão pequeno território insular …

Quanto aos veículos armados, mais ligeiros do que os tanques, é também curioso o seu número entre os sauditas (pouco menos que 1/3 dos norte-americanos) mas com uma população quase quarenta vezes inferior; outro indicador espantoso é o da fortaleza sionista, com um veículo armado por cada dois quilómetros quadrados,,, e que não poderão ser todos usados em simultâneo para não gerarem… engarrafamentos. Uma vez mais, observam-se as assimetrias nas dotações destes veículos, com números próximos para territórios tão desiguais, nos casos do Kuwait, ou do insular Bahrein, quando a comparação é feita com Portugal.

Quanto a lançadores de rockets – uma arma com grande mobilidade, usada por exemplo, em Gaza contra alvos sionistas - o Irão está mais bem munido do que os próprios EUA que, naturalmente, não esperam ser atacados numa guerra convencional. E isso justifica que se diga que "o sistema de defesa aéreo iraniano é extremamente poderoso" e que os Estados Unidos iriam enfrentar "um inimigo que, apesar de ser militarmente mais fraco (...), tem uma capacidade de retaliação e de causar dano tremenda" (afirmações de Carlos Branco major-general na reserva). Para além do encerramento do estreito de Ormuz[6], em caso de guerra, com implicações incalculáveis na economia global.

Note-se que os outros países da área do Golfo têm, comparativamente, poucos lançadores de rockets pela simples razão que não esperam ser atacados. Nessa lógica percebe-se a razão para Portugal não ter lançadores de rockets. 


Quanto à dimensão das marinhas de guerra – todos os países considerados são ribeirinhos – a maior é a marinha iraniana ainda que a Arábia Saudita e Oman detenham também litorais extensos. Em termos de unidades a marinha iraniana tem uma dimensão próxima da dos EUA mas os respetivos perfis são muito distintos; num caso trata-se de uma frota de vigilância de costa e no outro uma armada poderosa, presente em todos os oceanos. Assim, por exemplo, os EUA têm 24 porta-aviões e, entre os restantes países do Próximo e Médio Oriente somente o Egipto tem esse tipo de navio e, apenas 2 unidades.

Que solução para o Médio Oriente? Algumas ideias gerais:

  • Todas as mediações em conflitos deverão passar pela ONU
  • Afastamento de bases militares estrangeiras e de qualquer outro tipo de intervenção militar, na região
  • Canalização das reservas monetárias e das riquezas detidas pelas oligarquias para vastos planos geradores de bem-estar das populações
  • Redução substancial dos meios militares existentes, mormente com a renúncia à posse de armas nucleares
  • Efetivação de um estado palestiniano, democrático e multiconfessional, no seguimento da extinção do regime de apartheid montado pelos sionistas
Este e outros textos em:
http://grazia-tanta.blogspot.com/                             

http://www.slideshare.net/durgarrai/documents



[1] Como triúnviro suplente apostamos no secretário interino da Defesa, um tal Mark Esper, um espírito brilhante que anunciou deverem os países preparar-se contra ataques de mísseis russos. Esper espera que todos escavem um abrigo no quintal.
[2]  A Rússia, desde há poucos anos mantém duas bases militares no norte da Síria (Tartus e Latakia), com uma capacidade de intervenção militar muito limitada no âmbito da região conhecida por Próximo e Médio Oriente.
[3]  Muito recentemente os EUA venderam $ 8000 M (mais do dobro do orçamento português de defesa) de armamento aos sultões do Golfo, mesmo sem o aval do Congresso. O businessman Trump não se prende a… burocracias… Por outro lado, a Turquia ao pretender comprar armamento à Rússia incorre em represálias e ameaças por parte dos EUA; e o mesmo Trump vem ameaçando a Índia com sanções, pela sua compra de $ 5000 M em mísseis S-400 à Rússia, revelando assim a sua função de vendedor ao serviço do complexo militar-industrial americano.
[4]  Kushner, com o seu irmão ideológico Netanyahou desenharam um plano de criação de um estado palestiniano que na realidade é uma mudança de nome para o bantustão actual mas onde se prevê a construção de pesadas infraestruturas para alegria de empresas de topo na área do betão. O plano é tão irreal no seu facciosismo que dá vontade de rir…

[5] Do outro lado do Bab el Mandeb, no Djibouti, estão instaladas bases militares dos EUA, da China, do Japão e da França onde se acolhem como hóspedes, militares alemães e espanhóis: num terreno onde se verifica a maior densidade de bases militares do mundo, confraterniza-se.
[6] Pelo estreito de Ormuz, passa 76% do petróleo destinado à China, ao Japão, à Coreia do Sul e à Índia, bem como 25% do comércio global de gás liquefeito